A Moderação E sua influencia na vida dos muçulmanos

الوسطية وأثرها في حياة المسلم

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Conferencia oferecida por sua eminência:

Salih ibn ‘Abd Al ‘Aziz Al-Sheikh

Ministro de Assuntos Islâmicos, Divulgação e Orientação do Reino de Arábia Saudita

Conferencia oferecida na Universidade Islâmica Imam Muhammad ibn Saud, na cidade de Riyadh em 23-3-1423 H.

Tradução e Edição

Luis Eduardo Chaves de Carvalho

Lic. M. Isa García

تأليف: صالح بن عبد العزيز آل الشيخ

الترجمة والمراجعة

محمد عيسى غارسيا

لويس إدواردو شافيس ذي كربالو

 Introdução

Agradeço a Allah por Suas constantes graças e bênçãos, testemunho que não existe deus exceto Allah, único, e que Muhammad é Seu Mensageiro, que Allah lhe envie sua paz e bênçãos a ele, sua família e seguidores.

O tema deste artigo é a moderação e sua influência na vida dos muçulmanos. É uma questão que pertence ao Islam já que Allah, Exaltado seja, descreve ao nosso povo como um povo moderado, dizendo-nos no Alcorão:

 “Fizemos de vocês uma comunidade moderada e justa, de modo que fossem testemunhas perante a humanidade [da chegada dos Profetas anteriores], assim como o Mensageiro será testemunho para vós”. (Alcorão 2: 143).

Alem disso, todos os livros escritos por muçulmanos sunnitas e as coletâneas de Hadith enfatizam o fato de que o povo muçulmano é moderado, e que o caminho correto é a moderação mantendo-se assim longe dos extremismos.

 Características do caminho da moderação

As características da moderação foram estabelecidas pelos textos islâmicos e manifestadas pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seus seguidores e os Salaf Salihin (predecessores piedosos). O Alcorão afirma que a moderação é a característica da lei islâmica (Shari’at), descrita como cheia de tolerância e sem qualquer dificuldade. Allah, Exaltado seja, diz no Alcorão:

“Ele os escolheu [para que sigam Sua religião] e não os prescreveu nada que não podeis cumprir”. (Alcorão 22: 78).

Também disse em outro versículo:

Allah não quer impor-vos nenhuma carga. (Alcorão 5: 6)

 Características da moderação

1. É uma legislação justa, porque afastar-se do caminho moderado, significa adotar uma posição extremista seja ele de fanatismo (ifrat[1]) ou indiferença (tafrit[2]).

2. A moderação coincide com a lei islâmica (Shari’at) e com a mente sã. Os códigos legais islâmicos sempre convidam a ter moderação, seja através de seus preceitos e conceitos básicos, ou através da opinião dos estudiosos. É impossível para a humanidade sobreviver sem a moderação, sendo um fato que os extremos são prejudiciais para os interesses de todos, uma vez que deve haver um meio termo que todas as pessoas aceitem e defendam.

3. A moderação não é baseada em meros desejos ou caprichos, mas em conhecimentos estabelecidos, os quais devem ser um texto do Alcorão ou na Sunnat do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ou na opinião de algum Companheiro do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ou em um sábio reconhecido, sobre questões que não são determinados por um texto legal definitivo. Assim, uma das características da moderação é que deve estar baseada no conhecimento estabelecido.

4. A moderação leva em conta as habilidades e as capacidades humanas. Dessa forma, uma pessoa moderada não sobrecarrega aos demais nem tampouco tem opiniões extremas. Aquelas pessoas que utilizam princípios inviáveis se afastam da realidade, porque a moderação tem uma influência direta na vida das pessoas. Portanto, devem ser consideradas as capacidades individuais, sociais, nacionais e internacionais.

5. Ter em conta o tempo e o espaço, porque os tempos mudam e as pessoas buscam a renovação constante, por isso pregar a moderação exige consideração das diferenças de tempo, lugar e condições das pessoas. É por isso que todos os sábios desde o início dos tempos afirmavam que as fatauas (pareceres jurídicos) podem variar segundo o tempo, o lugar, as realidades e as condições das pessoas.

 Moderação é a característica fundamental da nação islâmica

Por que devemos escolher a moderação? Por que a moderação é um remédio para os problemas atuais? Devemos escolher-la porque Allah, Exaltado seja, ordenou Seu Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que a seguisse e a pregasse, e os muçulmanos devem obedecer o que Allah nos ordena a cumprir e evitar aquilo que nos proíbe em todos os nossos meios e fins. A moderação é o método correto e tudo que nos afasta dela é ruim. A moderação está livre de prazeres, porque os dois extremos, o excesso e o desinteresse, são sempre motivados pelos prazeres e os desejos. Somos ordenados evitar os desejos e as paixões e sua influência sobre nossas idéias e julgamentos, e também no momento de pregar a justiça. Allah, Exaltado seja, diz no Alcorão:

 “Não reparas [Oh Muhammad] naqueles que seguem as suas paixões como se estas fossem uma divindade [um deus]?”. (Alcorão 45: 23).

A moderação ajuda a Shari’at atingir seus objetivos, tanto em assuntos mundanos como religiosos. Para ajudar com que a Shari’at cumpra com os seus objetivos, nós devemos cumprir com o que nos é exigido. Ela não deve ser considerada como uma série de leis teóricas, se não que sua crença, regras e ensinamentos devem ser aplicados realmente. Allah, Exaltado seja, fez de nós um povo moderado, por que a moderação está longe das revoltas manifestas e ocultas. As revoltas apareceram pela primeira vez na história do Islam durante a vida do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Um homem disse ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Seja justo, Mensageiro de Allah! O Profeta respondeu: Desgraçado sejas! Quem seria justo se não fosse eu?”[3]. A moderação que Allah, Exaltado seja, escolheu para nós perdurou, apesar de muitos grupos desviados como os Khauaarijis[4] que apareceram ao longo da história do Islam. No entanto, recentemente, estamos sendo testemunhas dos ataques de grupos extremistas, que tentam corromper com suas idéias fanáticas, nas quais consideram incrédulos aqueles que simplesmente não concordam com eles.

 Razão para apegar-se a moderação

Primeiro: Conhecer o caminho correto do Alcorão Sagrado e da Sunnat do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), das explicações dos sábios muçulmanos que contam com um firme conhecimento sobre o assunto. Saber o caminho correto envolve ter o conhecimento das explicações textuais da Shari’at e as explicações dos eruditos muçulmanos que seguem este caminho. Afastar-se do caminho correto e da moderação é a causa da fraqueza, do atraso e da ignorância dos muçulmanos. Ao estarmos conscientes disso, nos tornamos mais aptos para a divulgação de conhecimento útil e correto do Livro de Allah, da Sunnat do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e por meio da compreensão dos nossos predecessores piedosos (Salaf) e dos pareceres textuais da Shari'at e através de seus esforços para deduzir e analisar a legislação, que nem sempre é evidente a partir de suas fontes. A ignorância, a falta de conhecimento e o apego às ideologias que contradizem o verdadeiro conhecimento islâmico nos afastam da moderação.

Segundo: O conhecimento correto é uma das causas do apego a moderação, porque o conhecimento aumenta com a moderação e desaparece com o exagero e a negligência.

Terceiro: Um raciocínio firme, porque Allah, Exaltado seja, sempre se dirige as pessoas com o entendimento do Alcorão Sagrado para que assim se recordem. Isso é um sinal de suma importância da razão no momento de entender as regras textuais e considerar os interesses públicos.

Quarta: Aprender com as experiências passadas e ter uma consideração sensata das catástrofes, calamidades e dos movimentos reformistas que ocorreram ao longo da história. Isto levará a conservação e a preservação já que história está cheia de acontecimentos sangrentos, severas provas e movimentos reformistas. Se uma pessoa refletir sobre esses movimentos, vai se dar conta de que aquele que obtive êxito foi justamente o que adotou a moderação na sua palavra, no seu conhecimento, no seu raciocínio e em sua compreensão.

Quinto: Paciência, pois é uma das virtudes dos Profetas e as características dos sábios: Disse Allah no Alcorão:

 “Seja paciente como foram os Mensageiros mais destacados, e não vos apresseis”. (Alcorão 46: 35).

E disse em outro versículo:

 “Tenha, pois, paciência porque o que Allah promete se cumpre, e não permitas que te façam fraquejar aqueles que não crêem [na Ressurreição]. (Alcorão 30: 60).

A paciência é uma das razões principais para alcançar os objetivos e o sucesso em todos os assuntos.

 Razoes pelas quais as pessoas se afastam da moderação

1.      Falta de conhecimento;

2.      Apego aos prazeres e desejos do ego;

3.      Dar prioridade as emoções sobre a razão;

4.      A impaciência para obter os objetivos de maneira licita e induzir resultados não aceitáveis nem lícitos;

5.      Introduzir inovações condenáveis na religião;

6.      Acusar os sábios de serem hipócritas e estarem longe da verdade.

 A moderação no Islam é parte da crença e da legislação

É essencial aplicar o conceito de moderação na vida dos muçulmanos. Este conceito deve ser claramente definido. Alguns se referem à moderação sem ter em conta critérios como a razão ou a legislação (Shari’at). É bem sabido que a moderação é o caminho do meio termo entre os dois extremos. Quem, então, deve definir os dois extremos e o meio termo entre eles? A resposta é que deve haver regras que determinem estes aspectos para que o método não leve ao abandono dos princípios do Islam ou da correta fé islâmica para ir atrás de uma moderação ilusória. A moderação deve ser coerente com os critérios da Shariat.

O Islam consiste de fé (Aqidah) e de legislação (Shari’at). A fé islâmica é baseada na moderação, como foi afirmado pelos teólogos muçulmanos. A Legislação Islâmica (Shari’at) também é baseada na moderação, tal como disseram os juristas e os doutores em direito islâmico. Allah, Exaltado seja, diz no Alcorão:

 “Fizemos de vocês uma comunidade moderada e justa, de modo que fossem testemunhas perante a humanidade [da chegada dos Profetas anteriores], assim como o Mensageiro será testemunho para vós”. (Alcorão 2: 143).

De acordo com a explicação dos Companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a interpretação da expressão “uma comunidade moderada” significa que Allah criou os muçulmanos como um povo justo e benéfico, já que adotam o caminho do meio termo entre os extremos. A evidência que confirma o princípio da moderação é encontrada no Alcorão, quando Allah, Exaltado seja, disse:

 “Não sejas mesquinho, nem esbanjador, porque serás censurado e empobreceríeis”. (Alcorão 17: 29).

 “Aqueles que quando fazem caridade não dão tudo o que tem nem tampouco mesquinham senão, que dão a medida justa”. (Alcorão 25: 67).

A prova da moderação também é clara na Sunnat. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidado com os excessos. Povos antigos foram destruídos por seus excessos em assuntos da religião”.[5]

'Ali Ibn Abu Talib, o quarto Califa, disse: “As melhores pessoas serão os moderados, e aqueles entre os excessivos e negligentes, serão requeridas a justiça em seus casos”.[6]

Alguns dos Salaf (piedosos antecessores) afirmavam que a religião é o meio termo entre o fanatismo e a negligência. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

“Esta religião (o Islam) é simples e quem impõe uma carga maior do que deveria sobre (questões) a religião, não poderá cumprir-la”.[7]

“Sempre que o profeta teve que escolher entre duas opções, escolhia a mais simples, desde que não envolvesse em pecado”.[8]

“Religião é um assunto sério, por isso tome-a com serenidade, porque o viajante que vai muito rápido, nunca chega a seu destino nem mantêm vivo o seu corcel”.[9]

“A religião mais amada por Allah, é o tolerante monoteísmo (Hanifiyyah).[10]

Disse o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) demonstrando este princípio: “desviar-se-ão e perecerão os fanáticos”.[11]

Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Mu'adh Ibn Jabal e Abu Musa Al Ash'ari para chamar o povo do Iêmen para o Islam, disse: “Facilitem (os assuntos religiosos para as pessoas) e não os torne difíceis. E mais, levem a eles boas novas e não os afastem do Islam, e obedeçam uns aos outros”.[12] Esse é o princípio básico da da’uat (convite ao Islam)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As coisas mais queridas de Allah são aqueles que adotam um caminho do meio termo e moderado”.[13]

Para resumir, a moderação é uma exigência e a Shari’at é abundante em evidências sobre este princípio. A moderação é um presente para que a comunidade islâmica sobreviva. Não terá continuidade aqueles que não sejam moderados, só os sinceros, os sábios, os que transmitem a moderação haverão de permanecer na guia correta.


 A moderação do Islam comparada com outras religiões

A moderação tem muitos aspectos em relação à aplicação prática de sua teoria.

O Islam é o meio termo entre as religiões. Aqueles que contemplam a fé islâmica descobrirão que ela adota um caminho que está situado em um meio termo entre as outras religiões. O Islam é o meio termo entre o judaísmo e o cristianismo, zoroastrismo e budismo, e as leis romanas de regime autocrático.

O Islam recomenda a moderação em todos os costumes e negócios, e prega uma boa moral. Allah, Exaltado seja, descreveu Seu Profeta dizendo:

 “Porque és de nobilíssimo caráter”. (Alcorão 68: 4).

O Islam não prega que ignorar a dignidade e os direitos próprios seja uma boa conduta moral. Pelo contrário, prega a moderação entre a tolerância e a retidão. Quando for necessário, é preferível ser rigoroso, mas também é necessária a tolerância para ambos, tanto para os muçulmanos quanto aos não muçulmanos. A posição correta é aquela que está entre ambas. Comparado com as outras religiões, o Islam prega a moderação nos negócios, diferente daquelas religiões que consideram licitas todos os tipos de usura, mesmo aquelas que envolvem uma injustiça, e aquelas que proíbem tudo, mesmo nos casos em que a pessoa ganha dinheiro através do trabalho. O Islam encoraja o comércio, o trabalho e o investimento de dinheiro, desde que não envolvam qualquer tipo de injustiça.

No que diz respeito à fé e os mandamentos de Allah, Exaltado seja, e Seu Mensageiro, o Islam apóia a moderação. No que diz respeito ao monoteísmo, apóia a moderação entre aquelas pessoas que atribuem parceiros a Allah e aqueles que se afastam disso, acreditando que todos são monoteístas, independentemente das suas ações. O Islam chama para o monoteísmo e a crer somente em Allah. O Alcorão diz:

 “Certamente temos revelado o Livro com a Verdade; adora a Allah com sincera devoção”. (Alcorão 39: 2).

Ele também diz:

 “Seu Senhor decretou que não adoreis a ninguém exceto Ele, e que você sejais benevolentes com vossos pais”. (Alcorão 17: 23).

Portanto, adorar a Deus e ser sincero é o maior princípio do Islam e sua legislação (Shari’at).

 A moderação dos muçulmanos Sunnis em comparação com as seitas e facções

A crença dos muçulmanos sunitas sobre os atributos de Allah estão num ponto intermediário entre os antropomorfas[14] e aqueles que negam todos os atributos de Allah[15].

No que diz respeito à fé, os muçulmanos sunitas, seguem os princípios originais do Islam, adotam uma posição intermédia entre os extremistas, onde acusam de incrédulos aqueles que cometem pecados (Takfiriin), e os que afirmam que para ser um crente muçulmano completo é suficiente acreditar com seu coração (Murji’ah). Os muçulmanos Sunitas acreditam que a fé é uma combinação da crença, das palavras e das ações.

A visão Islâmica correta sobre os Companheiros do Profeta é a moderação: Não devemos ser extravagantes e divinizados, porem tampouco sermos injustos e desprezíveis. Os muçulmanos Sunitas honram a todos os Companheiros do Profeta e os considerarem tal como descrever Allah, Exaltado seja, no Alcorão:

 “Em verdade, Allah está comprazido com os crentes quando juraram fidelidade sob a árvore, e sabendo que havia fé em seus corações enviou-lhes tranqüilidade sobre eles e os recompensou com uma vitória imediata”. (Alcorão 48: 18).

No que diz respeito ao governo, os muçulmanos Sunitas têm uma posição moderada entre as Kharijitas, onde acreditam que devem se rebelar em armas ante quem os governa, argumentando que suas ações não estão corretas, ou meramente os acusando, e também existem aqueles que consideram o governante como um representante de Allah na terra e tudo o falam é verdade absoluta.

 Obedecer ao governante é próprio da moderação

Os muçulmanos Sunitas crêem que o governante deve ser obedecido, como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Eles deveriam ouvir e obedecer às autoridades, tanto em tempos bons como os de dificuldade, gostem de as suas decisões ou não, e não dêem preferência a vocês mesmo”.[16]

‘Ubadah ibn As Samit disse: “Eu prometi lealdade ao Mensageiro de Allah para ouvir e obedecer, em tempos bons e difíceis, estamos de acordo com suas opiniões ou não, sem dar preferência a nossas próprias opiniões. Também juramos lealdade ao governante e dizer a verdade em todos os lugares, sem medo de censuras, em nome de Allah”.[17]

Embora o tema dos governos seja uma questão muito séria, entra em cena a moderação na hora de aconselhar os líderes e cooperar com eles, sendo motivado exclusivamente pela busca do bem e da misericórdia.

A moderação na legislação islâmica e seus ditames

Isto pode ser obtido através da seguinte forma:

Primeiro: Cumprir com o ijtihad[18], já que a porta ao ijtihad está sempre aberta[19].

Existem aqueles que deixam a porta aberta do ijtihad completamente aberta, fazendo que reivindiquem direito a exercer ijtihad pessoas sem qualificação suficiente, que desconhecem os textos, regras e os princípios do Islam.

Hoje em dia podemos encontrar algumas pessoas que exercem ijtihad com toda a simplicidade em questões graves e problemas espinhosos da Shari'ah, sobre o qual 'Umar ibn Al-Khattab teria consultado os Companheiros do Profeta que participaram na batalha de Badr, antes de dar o seu parecer final[20]. Hoje, qualquer pessoa em busca de conhecimento e que não possui o preparo suficiente, se arrisca a dar sua fatua sobre um assunto controverso. Muitos eruditos da religião fogem desta abordagem, especialmente se o problema requer a reunião dos sábios juristas para que se discuta o tema juntos. Alguns pensam que a porta deve estar fechada, bastando às opiniões dos Salaf (piedosos predecessores) sobre o assunto, enquanto outros opinam que a porta deve estar aberta para todos, ainda aqueles que não estão qualificados.

Segundo: A moderação na jurisprudência e os pareceres devem ser moderados e obtidos entre os dois extremos: Tornar-se Fanático as escolas de pensamento jurídico (Madhhabs) ou eliminar-las totalmente. Em um extremo, alguns exigem que as opiniões de todos os estudiosos de questões jurídicas devem ser eliminadas porque são irrelevantes e pertencem há outro tempo. Acrescentam, ainda, que o Alcorão e a Sunnat deve ser a única referência. Por outro lado, estão aqueles que acreditam que deve ser seguida as opiniões desses estudiosos, pois eles são adequados para todas as épocas e lugares. A posição correta é aquela localizada em um meio termo entre ambas as posturas. As opiniões jurídicas destes estudiosos devem ser tomadas em conta porque eles foram os primeiros a compreender e explicar a Shari’at. No entanto, cada época tem diferentes condições e a Shari’at trata principalmente das intenções por trás das ações, os interesses públicos e individuais, e evitar qualquer tipo de prejuízo. Portanto, devemos depender destas opiniões, dadas as nossas circunstâncias e intenções, e também nossos interesses. A moderação a este respeito tem sido a de tomar as opiniões dos sábios após compreender o contexto da época, e considerar suas opiniões sabendo as falhas que possam ter. Seus escritos devem ser examinados já que suas interpretações podem variar segundo as diferentes épocas. Para entender seus escritos, devemos nos voltar para as explicações dos eruditos sobre o determinado assunto. O Islam prega a moderação entre aqueles que abandonam as escolas de pensamento jurídico e aqueles que se fanatizam por elas.

Terceiro: A moderação é uma característica do Islam e dos muçulmanos Sunnis, que se encontram entre a exigência excessiva e a indiferença indisciplinada.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou e pediu que fosse facilitado tudo o que tem a ver com religião. Cada vez que devia escolher entre dois casos, optava pelo mais simples e viável, desde que não envolvesse em cometer um pecado.

Isso elimina o aspecto fanático, que por sua vez, traz dificuldade. Aquelas pessoas fanáticas que sustentam que o caminho certo é combinado com a retidão e as dificuldades estão erradas. Seu excessivo caráter rigoroso não é nada mais que apenas um tipo de exagero que deve ser deixado de lado. A posição correta é a de ser rigorosos quando os ditames textuais assim o exigem. Somos ordenados a escolher a mais simples e possível de duas alternativas, desde que não envolva cometer algum pecado, e que não exista algum texto que a contradiga. É muito importante esclarecer este conceito quando se trata de realizar pesquisas, escrever ensaios, dar palestras e instruir aos jovens. Devemos fazer grandes esforços para pregar a necessidade de evitar ser excessivamente rígido e severo, o qual pode acabar fazendo mais dano do que beneficio, e fará que a convivência com as demais pessoas seja impossível.

Devemos adotar uma atitude moderada em todas estas áreas, pois a Shari’at assim a estabeleceu. É dito em um hadith: “O viajante que se desloca muito rapidamente nunca chega ao destino nem mantêm com vida a sua montaria”.

Outros são muito excessivos, argumentando que não se deve olhar todos os interesses comuns em absoluto e que as leis textuais devem ser seguidas ao pé da letra, pois eles representam os verdadeiros interesses, de acordo com suas interpretações. Porem são os mesmos que logo seguem essas regras de maneira superficial, sem um pingo de espiritualidade.

Nossa Shari’at é lógica, pois aponta assegurar os interesses e evitar prejuízos. Assim, uma pessoa que despreza o conhecimento dos princípios e os objetivos básicos da Shari'at carece da aplicação correta da mesma. A Shari’at Islâmica é baseada em metas, regras lógicas e conformidade com os interesses comuns. A jurisprudência é baseada no conhecimento de diferentes escolas de pensamento jurídico e faz com que os ditames textuais, ou as opiniões dos estudiosos correspondam entre si.

Quem não possua o conhecimento destas questões básicas nunca devem praticar ijtihad. Portanto, devemos adotar uma atitude moderada, uma abordagem que não negue a consideração dos interesses comuns a todos, porem tampouco, não exagerar na hora de tomar-los em consideração.

Portanto, acreditamos que os grandes eruditos como Imam Abu Hanifah, Imam Malik, Imam Ash Shaf’ii, Imam Ahmad, o xeique Ibn Taymiyat e seu aluno Imam Ibn Al Qayyim em muitos casos, afirmam que deve ser considerado aqueles interesses que correspondem com os ditames textuais. No entanto, os estudiosos atuais podem diferir com os grandes sábios em alguns casos, considerando que os interesses comuns são diferentes na atualidade.

O cumprimento adequado destes objetivos e interesses é um pré-requisito básico para o estabelecimento da moderação em todos os assuntos.

A moderação ao fazer julgamentos

As coisas mudam, os temas variam, e o presente é testemunha de coisas novas. Sem dúvida alguma, o tempo passa e a civilização muda e é fértil, portanto muitas vezes a opinião de um jurista não é suficiente para todos os casos.

Portanto, deve haver uma abordagem moderada e claramente definida no momento de julgar os assuntos, condições, pessoas, idéias, intenções, metas, sociedades, estados, sábios e divulgadores. Esta abordagem moderada deve ser transmitida através de acordos para familiarizar assim, aqueles que buscam estabelecer uma reforma e encontrar o caminho através dele. Os sábios muçulmanos estabeleceram o seguinte princípio: “A capacidade de julgar uma determinada questão depende do saber de todos os seus detalhes”. Allah, Exaltado seja, diz no Alcorão:

 “Não sigas e falais nada (oh humanos) que não tenhais conhecimento, porque sereis interrogados no que haveis utilizado o teu ouvido, a tua vista e o teu coração” (Alcorão 17:36).

Quem pretenda julgar assuntos, intenções, pessoas, ideologias ou crenças sem ter conhecimento jurídico suficiente estará agindo de modo ignorante e irresponsável.

É necessário refletir sobre este versículo e nos apegar aos mandamentos de Allah, Exaltado seja. Ele proibiu as pessoas julgarem as questões sem ter um pleno conhecimento jurídico, considerando o fato de fazer-lo aproxima a pessoa da idolatria. É dito no Alcorão:

 “Dize: Meu Senhor vedou as obscenidades, tanto pública como privada, os pecados, a opressão, a idolatria, e dizer sobre Ele o que ignorais”. (Alcorão 7: 33).

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também proibiu emitir julgamentos sem conhecimento de causa, dizendo: “Apressar-se em emitir fatuas [sem ter o conhecimento jurídico] é como correr para entrar no inferno[21]”.

Muitas vezes as pessoas são rápidas ao julgar. No entanto, os estudiosos e os intelectuais que seguem o método tradicional correto de avaliar as questões, sendo que eles não devem ser apressados na hora de emitir tais fatuas.

Os intelectuais, sejam graduados ou não, devem se abster de métodos não tradicionais para julgar as questões. Em quanto às pessoas comuns, obviamente, não devem julgar além do método científico islâmico, porque caso contrário, encontraremos resultados aterradores. Podem ser emitidas opiniões erradas sobre as questões, ideologias, pessoas, sociedades e países, inclusive as intenções e os sábios muçulmanos, com as conseqüências que já vimos e outras piores que nem sequer imaginamos.

Devemos nos esforçar para estabelecer um método intelectual que nos ajude a tomar decisões. Existiriam conclusões firmes se não houvesse um método intelectual firme? É muito importante estabelecer ideologias e meios corretos para julgar as coisas.

As pessoas não deveriam se apresar em emitir um julgamento, porque não conhecem os detalhes do tema em questão; os temas mais sérios devem ser deixados nas mãos dos sábios competentes que analisarão coletivamente e minuciosamente. Como pode então, que os alunos do conhecimento, os intelectuais, os instruídos ou as pessoas comuns possam assumir a responsabilidade de julgar situações, países ou ideologias, sem ter a correspondente consideração, sagacidade e aplicação da Shari’at?

Algumas pessoas acostumaram julgar questões sobre princípios específicos, acreditando que com uma só regra textual serve para dar conclusões gerais. Se tivesse sido assim tão fácil, os juristas não haveriam sido poucos tanto no passado como no presente.

 Como julgam os juristas muçulmanos

Os juristas muçulmanos têm a responsabilidade de verificar a autenticidade e o alcance dos textos e considerar os aspectos racionais e os objetivos minuciosamente. Ao fazer isso, examinam as intenções e consideraram o bem-estar público. A conclusão das decisões judiciais legais não deve estar baseada em um único texto (deve ser consultado todos os textos relevantes sobre o assunto), nem tampouco pode ser atribuída essa responsabilidade para aqueles que exageram e emitem sentenças finais baseando-se em meras idéias, conjecturas, nem naqueles que possuem desinteresse nos assuntos como se nada lhes atingisse.

Precisamos urgentemente o método moderado, e não o método extravagante daqueles que emitem os piores juízos sobre diversos assuntos e pessoas. Esses indivíduos baseiam suas decisões em suposições, e seguramente verão como desviadas as atitudes dessas autoridades. Como resultado, quem emitir qualquer julgamento sem ser moderado, estará se desviando da moderação que estabelece a Shari’at e do caminho correto e equilibrado entre os extremos.

O muçulmano deve considerar o seu próximo como uma pessoa correta e boas intenções; e se observa qualquer ação ou palavra imprópria, não deve se apressar em julgar-lo ou criticá-lo. Qualquer declaração que um muçulmano faça ao público em geral deve incentivar o bem e proibir o mal, não deve espalhar discórdia, conflitos e corrupção moral. Assim, tais palavras devem ser consideradas boas sempre e quando não for comprovado o contrário. Não devemos julgar as intenções ou os objetivos das pessoas considerando apenas as palavras e o comportamento que são visíveis a olho nu. Allah, Exaltado seja, é o único que sabe as intenções e os objetivos das pessoas, por isso devemos ter muito cuidado ao desconfiar das pessoas sem ter provas. Allah, Exaltado, disse:

 “Oh vós que credes! Evite [suspeitar a atitude dos outros], em verdade, algumas suspeitas são um pecado”. (Alcorão 49: 12).

É registrado que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a uma pessoa que estava prestes a dar o testemunho: “Acaso vês o sol? Sim, respondeu a pessoa. “Quando fores testemunha de algo tão claro como o sol, dê o seu testemunho, caso contrário não”[22].

Hoje, a necessidade de um pensamento moderado está se tornando mais evidente. Os jovens, as pessoas comuns e ainda os dignitários que vivem num estado de confusão e se encontram dispersos entre um modo de pensar excessivamente rigoroso ou uma concepção puramente emocional. A percepção e o equilíbrio na maneira de pensar são elementos indispensáveis; as emoções e o zelo religioso não devem ser privados de um raciocínio equilibrado. Quem deixar suas emoções ser a força motivadora sem buscar o conselho dos sábios, e ignore as instruções daqueles que possuem autoridade sem fundamentar a sua atitude em princípios jurídicos firmes, estará seguindo o método dos Khauaajiris ou dos Mutazilas e daqueles que seguem cegamente seus desejos.

Aqueles que se deixam levar por suas paixões estão mergulhados nela simplesmente porque segue meramente as suas emoções, não as tendo controle por critério algum nem pelos textos revelados. Os Khauaarijis disputaram com os Companheiros do Profeta, a ponto de assassinar o Califa ‘Ali ibn Abu Talib. Mas quem matou 'Ali Ibn Abu Talib? Foi um dos inimigos do Islam? Não! Foi um muçulmano que cumpria com as suas orações voluntarias e jejuava durante o dia; seu nome era 'Abdur Rahman Ibn Malyan, o Kharajita. Ele havia sido enviado anteriormente por 'Umar Ibn Al Khattab ao Egito para cumprir o desejo de ‘Amr Ibn Al ’As, que pediu ‘Umar lhe enviasse alguém para ensinar as pessoas recitarem o Alcorão. ‘Umar enviou uma mensagem para Ibn Al ’As, dizendo: “Vos envio a ‘Abdur Rahman Ibn Malyan, um homem correto. É meu desejo que o recebas na sua chegada e conceda-lhe um lugar em que possa ensinar as pessoas a recitar o Alcorão.”

‘Abdur Rahman Ibn Malyan vivia no Egito até a ascensão do Khauajiris, que apareceram pela primeira vez no Iêmen, e logo se mudaram para o Egito, onde começaram aumentar em número. Foi influenciado por eles, porque era um homem correto, sensível e introvertido com pouco conhecimento religioso fora a memorização do Alcorão. Quando ele recebeu a ordem para matar ao exemplar Califa ‘Ali ibn Abu Talib, não hesitou em fazê-lo. Quando foi capturado por isso, não estava arrependido da sua ação, e até chegou a dizer: “Não me mate de uma só vez, cortem-me as extremidades diante dos meus olhos para ver como as cortam na causa de Allah”.

A paixão exagerada em temas religiosos faz com que as pessoas acreditem que certos atos são certos, quando na verdade eles são hediondos e condenados pela própria religião. Todas as formas de emoções intensas, fanatismo religioso, suposta jihad e o extremismo são rejeitados pela moderação. Embora seja praticado em nome da religião, em muitos casos simplesmente fazem com que as pessoas se afastem da religião. Tais pessoas foram combatidas por 'Ali Ibn Abu Talib, Ibn Abbas, Mu’auiyah e também pelos Califados Omíadas e Abássidas. Em todos os séculos, as pessoas que se apegam a moderação lutam contra os extremistas, já que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos advertiu contra eles.

 A moderação no pensamento

A moderação é necessária para julgar situações e também no método de pensamento e consideração das causas e conseqüências. Muitas pessoas lidam com questões baseadas em fatos, considerando apenas aquilo que vêem sem meditar nas conseqüências. No entanto, os sábios seguem os princípios da Shari’at, entendem os objetivos dos seus textos e, portanto, consideram tanto as causas como os possíveis resultados. Aqueles que refletem adequadamente as causas pensando nas razões e nos motivos estarão mais aptos para julgar de maneira correta os fins. Por outro lado, aqueles que ignoram as causas não observando as razões e as motivações concentram-se somente nos objetivos. Claro que isso é uma maneira errada de pensar, porque um pensamento firme requer a análise tanto no inicio como no fim. Aqueles que não consideram as conseqüências estão em risco de sair da senda reta. As pessoas que priorizam suas emoções e aqueles que têm uma mente muito limitada são atraídas pelas aparências sem considerar as conseqüências.

A moderação também é necessária para distinguir a realidade da especulação. Muitas pessoas se preocupam com as teorias e ações que pode ser corretas, porém elas não são viáveis. Então..., é lógico que os estudiosos da Shari’at e aqueles que buscam o bem comum para as pessoas caiam presas em meras especulações impossíveis de serem colocadas em prática?

Aqueles que buscam uma verdadeira reforma devem basear seu trabalho no que é praticável e não construí-lo sobre teorias que possam tornar a realidade odiosa. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a espalhar sua mensagem em um povo pagão. Por acaso conseguiu eliminar imediatamente todos os procedimentos e métodos do paganismo? A resposta é não.

Senão que utilizou a base dos costumes pagãos para espalhar a mensagem do Islam. Se este é o grau de interação com um sistema pagão, como deve ser então, se estamos em um país islâmico, ou entre muçulmanos, ou entre diferentes sábios e estudiosos em assuntos nos quais existem em si mesmos diferentes interpretações?

Aqueles que se apegam à Shari’at, aqueles quem convidam as pessoas para o Islam, os oradores, os imames nas mesquitas, e os estudiosos muçulmanos, devem se limitar à realidade ao apresentarem temas e palestras. Não é aceitável apresentar questões de uma maneira imaginária que seja impossível de praticar. As pessoas simplesmente não aceitarão colocar em pratica aquilo que desaprovam. As condições e diferenças sociais das pessoas que estamos nos dirigimos também devem ser levadas em conta, pois elas não aceitam a especulação ou teorias impraticáveis.

O mesmo se aplica para aqueles que trabalham no campo da divulgação do Islam (D’awah[23]). Eles devem colocar em pratica o que divulgado. Não devem desviar-se da realidade como aqueles que clamam a guerra (jihad) embora não haja razão alguma para isso. Outro exemplo é o daqueles que convocam os muçulmanos a luta armada por exemplo, embora isso seja algo que compete apenas às autoridades. Estes chamados apenas provocam fanatismos nas pessoas que tentam canalizar seu extremismo através de meios ilegais, como os recentes ataques terroristas na cidade de Riyad.

Portanto, é preciso ser responsável com aquilo que diz e ser realista, ou seja, uma pessoa não deve falar sobre as coisas uma forma tal que esteja distanciada das pessoas em uma interpretação completamente diferente daquela desejada. Ao contrário, deve-se ter em mente que o quadro geral não é o mesmo do que de seus ouvintes. Alguns professores universitários ou imames de mesquitas fazem afirmações que são verdadeiras em si mesmas, mas têm uma estrutura de aplicação restrita na qual eles conhecem perfeitamente, mas é muito provável que seus ouvintes a ignorem, em relação a essa possibilidade de interpretação é que Allah diz no Alcorão:

 “Oh vós que credes! Não diga: Râ’ina [árabe: cuida-nos, e em hebraico era um insulto que os judeus que a usavam para fazer piada do Profeta], mas: Observa-nos e obedecei”. (Alcorão 2: 104).

Isto significa que Allah, Exaltado seja, proibiu aos crentes o uso de um termo que poderia levar a interpretações equivocadas e de duplo sentido.

 A conexão entre o mal-entendido e a violência

Aqueles que fazem discursos nas mesquitas, escolas ou universidades podem chegar a pronunciar frases incorretas, ambíguas ou possíveis a erros de interpretação, e ao não fazer os esclarecimentos necessários tornam-se os responsáveis do abandono da moderação de seus ouvintes.

Devemos considerar o hadith do Mensageiro de Allah que diz: “Allah é bondoso e ama a bondade em todos os assuntos; e recompensa as pessoas pela sua bondade, sendo que despreza a violência”[24]. Isto se refere ao fato de que os muçulmanos devem ser tolerantes quando se trata de conversações, pensamentos, orientações e aconselhamentos. Allah, Exaltado seja, é bondoso e ama a bondade em todos os assuntos. Devemos, então, dizer algo que não se ajusta com aquilo que agrada a Allah, Exaltado seja? A pessoa intolerante em seu comportamento, pensamento, busca de objetivos, percepção das coisas, forma de atuar e julgar as coisas e as pessoas, perde a recompensa e o amor de Allah, Exaltado seja.

A Moderação é também necessária para divulgação do Islam. A divulgação do Islam requer ordem e coordenação na justiça e na devoção. Deve ser implementada através da cooperação das pessoas corretamente guiadas. Devemos ser tolerantes evitando a formação de organizações desviadas ou secretas, ou apoiando objetivos contraditórios e irreais.

O convite ao Islam (D’auah) deve ser baseado na justiça e na piedade segundo o método dos muçulmanos Sunnis. Nos países muçulmanos, as autoridades devem ser seguidas e obedecidas. A obediência a certos grupos ou ideologias não é licito se contradiz a obediência às autoridades.

Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Mu’adh e Abu Musa ao Iêmen, um deles foi nomeado líder (Emir). O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou-lhes: “Facilitem (os assuntos religiosos para as pessoas) e não os torne difíceis. E mais, levem a eles boas novas e não os afastem do Islam, e obedeçam uns aos outros”[25]. Não há lugar para a obediência cega e obrigatória em uma aliança ou organização. A obediência é devida somente a Allah, Exaltado seja, Seu Mensageiro e a pessoa com autoridade sempre e quando não ordene algo que vá contra os princípios estabelecido pela Shari’at.

Devemos cooperar com justiça e a piedade e cumprir as políticas da autoridade, e também cumprir com tudo aquilo que não cause corrupção.

Sem duvida, existem outros limites que ocupam a mente das pessoas como existem em alguns países - também existentes aqui - que nos são transmitidos pelas organizações secretas ou partidos desviados, e que não são consistentes com a forma moderada e a metodologia Sunni. Apesar dos distúrbios que predominavam em seus tempos, nenhum dos imames muçulmanos formou um partido que contradizia a autoridade responsável, nem tampouco formaram alguma outra organização. Pelo contrário, aceitavam o caminho moderado que considera possíveis os objetivos e ao chamado islâmico à cooperação na justiça e na devoção.

Necessitamos moderação para encontrar as soluções para os problemas do povo muçulmano, pois alguns porta-vozes religiosos, sábios islâmicos e muçulmanos entusiastas podem acreditar que os problemas do nosso povo serão resolvidos mediante o zelo religioso. Se esta tivesse sido a solução, teria ajudado o Profeta Noé, foi um exemplo de homem com entusiasmo em relação ao monoteísmo. No entanto, o entusiasmo religioso do Profeta Noé não foi suficiente para derrotar o politeísmo e destruir a idolatria que prevaleciam em seu tempo.

De acordo com o Alcorão, o Profeta Noé continuou seu chamado para o monoteísmo durante 950 anos. Allah, Exaltado seja, disse:

 “Em verdade, enviamos a Noé a seu povo e permaneceu entre eles 950 anos. E no meio da iniqüidade lhes surpreendeu o dilúvio”. (Alcorão 29: 14).

Este exemplo de paciência e persistência que se prolongou por 950 anos sendo incentivado pelo entusiasmo religioso é sim um digno caminho de percorrer. Os problemas que nosso povo enfrenta hoje, como a ignorância religiosa que vemos na maioria dos países muçulmanos, a falta de uma fé pura, e a busca de interesses mundanos à custa dos religiosos não podem ser resolvidos através do falso zelo religioso. Podem ser resolvidos todos estes problemas através de uma mudança forçada, sendo que essa mudança esteja contra os princípios estabelecidos na Shari’at para mudar o incorreto?

Quando convidamos outras pessoas para o Islam, devemos adotar um caminho moderado entre os dois extremos: aqueles que são indiferentes e nunca se preocupam em encontrar as soluções para os problemas, e aqueles que estão no caminho do fanatismo e do extremismo e possuem atitudes desviadas.

Devemos trabalhar em uma estreita cooperação baseada em um método legal autorizado e definir os problemas de nosso povo, na tentativa de encontrar soluções. Não devemos poupar esforços na hora de buscar a bondade, a reorganização e dar conselhos tendo em conta a situação atual, orientados pelo método legal e cumprindo o que é válido em cada situação particular. Aqueles que tendem a buscar soluções para os problemas do nosso povo através de ilusões ou pseudo-teorias, continuarão se enganando em tais fantasias e os problemas continuarão sem uma solução real.

Além disso, devemos ser moderados no que diz respeito à forma de como lidamos com as tribulações que nos acontece como povo, adotando um caminho moderado entre o exagero dos problemas e o desinteresse dos mesmos. Os países muçulmanos em geral estão sujeitos a abusos e nosso país também está em perigo. Como devemos responder a isso?

Principalmente, em relação ao nosso abençoado país, uma fortaleza do Islam, a fonte de eterna Mensagem, a fonte de apego e reforma, vertente de bondade, todos nós devemos trabalhar de mãos dadas. Nosso governo trabalha em cooperação com os ministérios, associações, universidades, instituições de caridade, estudiosos e propagadores, para combater a crise e encontrar soluções para os problemas.

Muitas crises aconteceram e muitas pessoas enfrentaram as chamas devido suas ações irresponsáveis ou seus excessivos entusiasmos e até mesmo por serem indiferentes.

 Devemos cumprir o seguinte

Por isso, temos de ser eficazes através da abordagem moderada, procurando exercer influência dentro das circunstâncias específicas de cada situação ou pergunta. Sob nenhum ponto de vista devemos confundir entusiasmo ou exagero na manipulação dos nossos assuntos.

Por tanto, é necessário projetamos o seguinte:

Primeiro: O apego ao monoteísmo.

Segundo: A obediência à Sunnat do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Terceiro: A importância da unificação dos muçulmanos.

 Pontos em que o Profeta refutava método pagão

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) refutou o povo pré-islâmico pagão de muitas maneiras. Sobre esses temas o Imam Muhammad ibn ‘Abdul Wahab, escreveu em seu livro “Os conceitos pagãos pré-islâmicos”. Em seu livro mencionou três pontos considerados mais importantes do período pré-islâmico onde o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) os contradiz abertamente:

Primeiro: O monoteísmo (Tauhiid). O povo na época era politeísta, enquanto que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pregava o monoteísmo puro.

Segundo: A obediência ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), já que as pessoas naquele tempo não obedeciam a seus líderes, mas Allah, Exaltado seja, ordenou aos crentes que obedecessem ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Terceiro: A obediência às autoridades, os habitantes de Makka não tinham um líder antes do Islam, porem o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou para que obedecessem a um líder.

O Imam Muhammad ibn ‘Abdul Wahab disse que essas três questões em detalhes mostravam que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pregou e convocou as pessoas para a luz destes três conceitos.

Na verdade, isso é o que nós devemos predicar; pois aqueles que exageram os já tensos problemas colocando dúvidas, ilusões e males, causarão dessa forma um dano aos interesses públicos e espalharão o fanatismo. Em tempos de crises, não devemos exagerar, pelo contrário, devemos encontrar soluções que atendam os ensinamentos da Shari’at e os requisitos de um raciocínio firme, sábio, paciente e moderado.

 A moderação na política

Esses pontos que mencionarei brevemente exigem uma investigação mais profunda pois são cruciais para orientar as pessoas, especialmente os jovens: Devemos ser moderados em relação à política tomando uma posição equilibrada entre o cumprimento total e a ignorância desinteressada. Muitas pessoas que vêem os canais via satélite ou lêem algum relato político, podem pensar que estão qualificados para julgar questões políticas. Na verdade, a política é uma ciência muito complexa, mesmo para aqueles que recebem informações de instituições e centros de pesquisa especializados. As pessoas comuns podem ter uma idéia e comentar sobre esta ou aquela situação e quais os procedimentos devem ser seguidos. Sem dúvida alguma, é necessário compreender as questões políticas, porém devemos ter em mente que as autoridades estão mais aptas para lidar com essas questões, porque possuem a sua disposição conhecimentos que não estão disponíveis para as pessoas comuns.

Carecem da moderação necessária àqueles que possam ter certo ponto de vista com respeito a alguma informação da imprensa ou que, habitualmente tenha assistido em canais por satélite e acreditando que são analistas políticos como se fossem os únicos com entusiasmo sobre o tema. É possível que não consigamos compreender todos os temas políticos de forma apropriada, sem duvida, devemos fazer o possível para entender mais além do que estamos ou não de todo convencidos com relação aos mesmos.

Devemos buscar a moderação em questões políticas para assim não serem feitas falsas alegações nem procurar justificações superficiais. Em um extremo estão aqueles que exageram acusando aos demais à primeira vista, embora também existam aqueles que tendem a justificar todas as posições e decisões políticas. Porém a pessoa sábia, o que busca o conhecimento, ou que reivindica um direito justo, deve ser equilibrado neste aspecto, entendendo a situação e lidando com ela de maneira correta.

 Moderação no sentido referente a dois conceitos: A nação islâmica e da pátria

A moderação na hora de manter o que é importante e o que é mais importante ainda:

Neste aspecto, devemos identificar a nossa responsabilidade no lugar aonde nascemos e na nação muçulmana. É um erro ignorar a responsabilidade para com sua pátria, onde estão as autoridades que as governam, pois a mesma cumpre a função de proteção mantendo seus interesses e os interesses de outros membros da sociedade que o rodeiam. A pessoa deve cumprir com a sua responsabilidade perante a nação muçulmana, porém não à custa de ignorar sua responsabilidade para com sua terra natal. Porque cumprir com a responsabilidade para com sua pátria tem prioridade, uma vez que um hadith diz: “Comece com você mesmo e depois com aqueles que estão à sua responsabilidade, e então...[26]”. Isso significa que você deve começar cuidando e protegendo a si próprio, em seguida, aos seus familiares mais próximos. Portanto, quem cuida da nação muçulmana, à custa de ignorar a sua terra natal, não estará cumprindo com ambas. Devemos agir segundo as prioridades, ou seja, deve ser dada prioridade a terra natal, pois é mais importante e estamos todos de acordo com ela. Além disso, devemos nos constituir em elementos positivos da nossa nação muçulmana e cumprir também com os seus interesses.

Existem pessoas desleixadas em relação a este princípio e acreditam que tudo é importante e pretendem começar tudo ao mesmo tempo. Claro que isso é uma posição errada, pois os intelectuais da ciência e da propagação do Islam (D’auat) consideram que é necessário começar com o que é mais importante, mesmo que isso signifique colocar de lado temporariamente o menos importante. Devemos agir de acordo com as prioridades, já que devemos começar com o mais importante e adiar o menos importânte.


 Conclusão

Peço a Allah, Exaltado seja, que nos guie para tudo aquilo que Lhe agrada e que nos coloque entre aqueles que foram descritos pelo Califa ‘Ali ibn Abu Talib, um dos comunicados com o Paraíso, com as palavras: “As melhores pessoas serão os moderados, e aqueles entre os excessivos e negligentes, serão requeridas a justiça em seus casos”. Ser um deles é uma responsabilidade pela qual devemos nos esforçar.

Peço a Allah que nos conceda o êxito e que faça dos muçulmanos um povo unido na verdade e no caminho correto.

Oh Allah, guie a nossos lideres para o que é correto, e faça que nós e eles cooperemos em conjunto no que é correto e na devoção, recompensa-os por tudo que fazem em nome de Allah e aos muçulmanos.

Oh Allah, concede-nos o sucesso em todos nossos assuntos e faz que cooperemos no que é correto e na devoção. Peço-Te nosso Senhor, Exaltado seja, que nos conceda a razão, a verdade, a palavra e nos proteja dos desvios do caminho correto. Certamente és o Mais Generoso.

A ultima suplica que desejamos dizer é: Todos os louvores sejam para Allah, Senhor do Universo e que a Paz e as Bênçãos de Allah desçam sobre nosso Profeta, sua família e companheiros.



[1] Ifrat ou fanatismo: denominação usada para descrever uma pessoa que deixa a moderação, acrescentando inovações na religião que defende com zelo e paixão excessiva.

[2] Tafrit ou indiferença: denominação utilizada para descrever uma pessoa que abandona a moderação, não cumprindo com as obrigações estipuladas no Islam.

[3] Hadith relatado por Al Bukhari 3610 e Muslim 1064.

[4] Um dos primeiros grupos heréticos da historia do Islam. Conhecidos por suas posturas extremamente radicais, chegando ao ponto de declarar que os califas ‘Uthman e ‘Ali eram infiéis. Eles acreditavam que, aquele que comete um pecado maior se afasta das fileiras do Islam.

[5] Relatado por: Musnad Ahmad 3/1851, An Nassai 3059, Ibn Mayah 3029.

[6] Relatado por: Al-Musanaf por Ibn Abi Shaibah 34498.

[7] Relatado por: Al Bukhari 39.

[8] Relatado por: Al Bukhari 3560.

[9] Relatado por: Sunan Al Baihaqi 3/18, Al Haizami 1/62.

[10] Relatado por: Al Bukhari, Livro da Fé, capítulo 29, Ahmad 4/210.

[11] Relatado por: Ahmad 6/3655, Muslim 2670, Abu Dauud 4608.

[12] Relatado por: Al Bukhari 4341).

[13] Relatado no Al ‘Ajluni, em seu livro Kashf Al Khafa 1/391.

[14] Palavra derivada do radical “antropomorfismo”. São aqueles que colocam atributos humanos em Allah.

[15] Aqueles que negam que Allah tenha atributos, ou negam a existência de atributos divinos.

[16] Relatado por: Muslim 1836.

[17] Relatado por: Muslim 1709.

[18] Esforço do jurista para deduzir a lei que no é evidente em si mesma a partir de suas fontes.

[19] Ash Shatibi em seu livro Al Muafaqaat disse: O ijtihad tem duas realidades: A primeira é impossível que deixe de existir enquanto existam as obrigações, e a segunda, é possível que desapareça antes do final deste mundo…

[20] Disse o Imam Al Bukhari em seu livro Sahih, no Livro sobre a obrigatoriedade de apegar-se a Sunnat, capítulo 27: “Os governantes e os sábios logo depois da morte do Profeta consultavam somente as pessoas de conhecimento para tomar a resolução mais simples e pratica. Se encontravam no Alcorão ou na Sunnat se detinham a ele, se não, consultava a opinião dos sábios. O conselho consultivo de ‘Umar ibn Al Khattab eram composto de memorizadores do Alcorão sendo tanto jovens como adultos.

[21] Relatado por: Ad Darami em seu livro de compilação da Sunnat, capítulo sobre "Emitir Fatuas e sua complexidade" 1/57.

[22] Ad Darimi em seu livro Kashf Al Khafa 1781. Ver Nasb Ar Raia 4/82

[23] A palavra D’aua também escrito como D’awah ou D’awat (دعوة) no significado tanto religioso ou lingüístico do árabe, não significa simplesmente divulgar, mas sim, “convidar” ou “chamar”; no sentido da pessoa ser convidada ou chamada para o Islam, conseqüentemente ela obtem a salvação nessa vida e na outra.

[24] Relatado por: Muslim 2593.

[25] Relatado por: Al Bukhari 4341.

[26] Relatado por Muslim 1034.