Manual Para o Novo Muçulmano ()

 

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    Manual Para o Novo Muçulmano

    Jamaal Zarabozo

    Tradução: Letícia Gouvêa

    Revisão: Regina Márcia Oliveira de Faria

    Brasil

    2011

    Não há direitos autorais reservados para publicação e distribuição gratuitas, desde que o conteúdo desta publicação não seja alterado ou reduzido."


    ÍNDICE

    Prefácio

    Felicitações ao Novo Muçulmano

    Introdução

    O objetivo e a motivação para escrever este livro

    O que distingue este livro

    Fontes e enfoque deste livro

    A Religião do Islam

    O significado da palavra Islam

    O Islam: A religião do Profeta Muhammad

    A Mensagem Final

    A universalidade do islam e sua característica atemporal

    As fontes da Lei Islâmica e a orientação

    Objetivos do Islam

    A adoração exclusiva a Allah

    Livrar os seres humanos da adoração de quaisquer outros seres humanos ou objetos

    Fazer com que a vida na terra floresça

    A Justiça e a Proibição de Fazer Mal aos Outros

    A Paz Verdadeira

    Uma Última Consideração

    As Características do Islam

    O monoteísmo puro

    A religião de Allah

    Integralidade

    Ter em conta o bem-estar deste mundo e do

    próximo

    Facilidade e ausência de dificuldade na Lei

    Uma forte relação entre o Criador e o ser criado

    Ordenar o bem e erradicar o mal

    Honrar o ser humano

    Converter-se Muçulmano

    O testemunho de fé: Não existe nada digno de

    louvor exceto Allah

    O Testemunho de Fé: Muhammad é o mensageiro de

    Allah

    Outras ações relacionadas ao ato de adotar o Islam

    As recompensas e circunstâncias especiais para o

    convertido

    A riqueza ganha por um convertido ao Islam

    Matrimônios prévios ao Islam

    Trocar o nome ao se converter muçulmano

    Os Frutos da Conversão ao Islam

    Conhecer a Allah, o Deus, Senhor e Criador

    A verdadeira felicidade

    Ser justo consigo mesmo

    Ser resgatado de o castigo de Allah

    A complacência de Allah e o Paraíso na próxima vida

    Converter-se em um Crente

    Definição de crença

    “Um salto de fé”

    Os artigos da fé

    Crer em Allah

    A crença nos Anjos

    A crença nos livros de Allah

    A crença nos mensageiros

    A crença no Último dia e na Próxima Vida

    A crença no Decreto Divino

    Os Frutos da crença correta no Decreto Divino

    Conclusões

    Os Ritos de Adoração

    O significado do “estabelecimento das orações”

            Alguns pontos importantes sobre as leis relativas à

    Oração

    Uma breve consideração sobre a Oração

    O pagamento do Zakat

    A quantidade de dinheiro que deve ser paga como

    Zakat

    O jejum durante o mês de Ramadan

    A Peregrinação à casa de Allah, em Makkah

    Conclusões

    O Comportamento e a Interação Social do Crente

    A ênfase do Islam em um comportamento apropriado, bons modos e bons costumes

    A relação de um muçulmano consigo mesmo

            A relação dos muçulmanos com seus pais

            Os convertidos e sua relação com os parentes não

    Muçulmanos

    A relação do muçulmano com seu cônjuge

    Com quem se pode contrair matrimônio

    Os direitos dos cônjuges

    A dissolução do matrimônio

    A relação do muçulmano com seus filhos

    A relação do muçulmano com seus vizinhos

    A relação do muçulmano com os outros muçulmanos

    A relação do muçulmano com os não muçulmanos

    A relação de um muçulmano com a sociedade

    A relação do muçulmano com a riqueza e

    propriedade privada

    A ética e a forma de se realizar negócios segundo o Islam

    As características do Gharar

    As características da Riba (juros)

    A fraude

    Outras formas proibidas de obter lucros

    Conclusões

    O fortalecimento e o crescimento da fé

    O conceito da purificação da alma

    O aumento e a diminuição da fé

    O desenvolvimento e crescimento da nossa fé

    O caminho para aumentar a fé e purificar a alma

    A forma correta de crer em Allah

    A atitude correta para com o Mensageiro de Allah

    A realização das boas ações

    Os meios que nos ajudam ao longo do caminho

    Assuntos prejudiciais à alma

    O arrependimento

    Conclusões

    Palavras finais ao Novo Muçulmano

    PREFÁCIO

    Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.

    Todos os louvores são para Allah, a Ele louvamos, a Ele imploramos ajuda, n’Ele buscamos o perdão e a Ele pedimos a guia. Refugiamo-nos em Allah do mal de nossas almas e da maldade de nossas ações. Pois, todo aquele que é guiado por Allah, ninguém poderá desviá-lo. E aquele que Allah permite que se extravie, ninguém poderá guiá-lo. Testemunho que não existe nada digno de ser adorado, exceto Allah, que não tem sócios na divindade. E testemunho que Muhammad é Seu servo e Mensageiro.

                Queria aproveitar esta oportunidade para expressar meus louvores e agradecimentos a Allah por me dar a oportunidade de escrever uma obra tão importante como esta. Que Allah me perdoe por qualquer erro que pudesse ter cometido na apresentação de Sua religião.

                Igualmente, com “Que é o Islam” (um irmão deste livro), devo expressar meus agradecimentos ao Shaikh Muhammad Turki, do Ministério de Assuntos Islâmicos, por seu apoio. Também quero agradecer a Ahmad Ba Rashid por seu contínuo apoio. Ambos têm sido o motor por trás deste projeto.

                Há muitas pessoas a quem queria agradecer pela ajuda com esta obra, em particular.

    Primeiro, quero agradecer à minha amada esposa que é sempre uma fonte de apoio e ajuda. Também um agradecimento especial ao Dr. Abdulkarim al Said, Nahar al rashid, Dr. Muhammad al Omisi, Dr. Ahmad al Teraiqi e ao irmão Jalaal Abdullah. Não posso além de orar para que Allah os recompense e abençoe nesta e na próxima vidas.

                Devo assinalar que já foi tocado, anteriormente, muitos dos temas incluídos neste livro.

    Tomei a liberdade de adaptar ou recorrer a passagens de minhas obras anteriores He came to teach you your religion e Purification of the soul: Concept, Process and Means. Em menor medida, também adaptei o material de What is Islam Commentary on the forth hadith of al Nawawi.

                Rogo a Allah que aceite esta obra escrita somente por Sua causa. Como sempre, a responsabilidade de qualquer erro recairá sobre o autor. Peço a Allah que me perdoe por qualquer falha e me guie à Senda reta.

    Jamaal Zarabozo

    Boulder, Colorado

    17 de janeiro de 2007.


    Felicitações ao Novo Muçulmano

    Especialmente nestes tempos em que se colocam no Islam tantas barreiras e dizem tantas mentiras sobre ele, é uma grande bênção de Allah dar a determinadas pessoas a capacidade de ver a verdade e a luz do Islam. Um novo muçulmano – e de fato, todo muçulmano – deve estar sempre agradecido com Allah por o haver abençoado com este conhecimento tão importante e com a compreensão de Sua religião.

    Ao converter-se ao Islam, um novo muçulmano entra em um novo âmbito, com uma visão, sobre sua vida, muito diferente da que tinha anteriormente. Talvez, ainda mais importante, é que através do Islam a pessoa encontra o meio pelo qual o Senhor ficará satisfeito com ele e, por sua vez, ele também fica agradecido com seu Senhor.

    À medida que a pessoa cresce no Islam e aumenta seu conhecimento e sua fé pode apreciar mais e mais a sua beleza. Por sua vez, o amor da pessoa por Allah, o Islam e o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) seguirá aumentando. O resultado é uma vida espiritual em um plano muito especial que só podem viver e desfrutar aqueles que experimentam esta fé.

    Há muito que anelar. Adotar o Islam é o primeiro passo e o resto, com a graça de Allah, chegará com o conhecimento, à fé e o apego ao Islam.


    Introdução

    O objetivo e a motivação para escrever este livro

    O objetivo deste livro é oferecer ao novo muçulmano um guia básico que o ajudará a entender e implementar o Islam. Como disse anteriormente, o muçulmano recém-convertido empreende um novo caminho que, muito provavelmente, difere bastante do caminho que transitava antes. O convertido entende o suficiente sobre o Islam para reconhecer que é a verdade, mas normalmente não tem informação suficientemente detalhada sobre a religião de Allah que o possa guiar no dia a dia.

    Este é o desejo sincero do autor, ou seja, que a pessoa tenha uma experiência com o Islam, compreendendo corretamente desde o começo e aplicando-o apropriadamente em sua vida. São muitos os convertidos ao Islam que se confundem após a reversão. Lamentavelmente, nem todos os muçulmanos hoje em dia são bons embaixadores do Islam e nem todos compreendem os aspectos básicos da religião.

    Isso pode trazer muita confusão, pois alguns muçulmanos convertidos nem sequer podem reconhecer o Islam que vêem comparado com o Islam que lêem. Este livro é um modesto intento de ajudar o novo muçulmano a marcar o caminho correto segundo o Qur’an e a Sunnah.

    O que distingue este livro

    Há muitos livros disponíveis de introdução ao Islam. Sem dúvidas, é meu desejo que esta obra se distinga das demais por várias razões.

    Em primeiro lugar, é um dos poucos livros, disponíveis atualmente, dirigido aos muçulmanos recém-convertidos. Em outras palavras, está dirigido a quem já se convenceu da verdade do Islam e, portanto, não se apresentam aqui argumentos para tentar convencer o leitor sobre esta verdade. Por outro lado, uma vez que a pessoa adota o Islam, é apresentada uma vasta riqueza de informações que necessitará conhecer. Então, há que se compreender corretamente os fundamentos da sua nova fé.

    Também é necessário que se guie no que diz respeito às práticas mais importantes de sua nova fé, incluindo uma boa consciência das ações que, como muçulmano, deve evitar.

    Em segundo lugar, o autor é um convertido ao Islam. Assim, o autor pode basear-se em sua própria experiência como convertido e, refletindo sobre o que foi vivido em tantos anos, poderá brindar sua visão a respeito do que o convertido necessita saber e quais as armadilhas que deve evitar. Deve-se considerar este livro como o que o autor gostaria de ter recebido quando se converteu ao Islam. Ademais, o autor estabeleceu conversas, ao longo dos anos, ficando a par de muitos temas conceituais e práticos que os outros convertidos têm que enfrentar.

    Em terceiro lugar, o autor deu tudo de si para assegurar de que toda a informação contida aqui fosse autêntica e passasse por uma verificação. Isto foi particularmente para qualquer das palavras atribuídas ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Desafortunadamente, nem todos os que escrevem sobre o Islam prestam a devida atenção a este tema e incluem informação falsa em seus livros introdutórios. Na realidade, uma das principais razoes pelas quais o autor adotou o Islam como modo de vida é porque os ensinamentos originais se mantiveram puros: pode-se dizer, com toda certeza, que o Qur’an é a palavra de Deus e que o hadith é a palavra do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Esta religião chegou até nossa geração conservada em sua forma e é imperativo que não se distorça nenhuma informação de qualquer maneira. Portanto, é responsabilidade de todo aquele que escreva ou fale do Islam continuar assegurando de que o que diz é a verdade de Allah e do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Fontes e enfoque deste livro

    A fonte mais importante para qualquer livro sobre o islam deve ser o Qur’an,

    O Qur’an assenta as bases para a totalidade dos ensinamentos islâmicos e, portanto, dar-se-á a devida ênfase na evidência corânica para as opiniões expressas neste livro.

    Não obstante, o Qur’an não foi revelado simplesmente na subida de uma montanha para que qualquer um que o leia entenda por si mesmo. Allah revelou o Qur’an ao profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e o mesmo Qur’an ordenou aos muçulmanos seguir seu exemplo e obedecer às suas ordens. Sua forma de vida é conhecida como a Sunnah e foi compilada no que hoje se conhece como literatura do Hadith. Portanto, a guia do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), tal como se fala na autêntica literatura do Hadith, também será utilizada em profusão nesta obra.

                O Qur’an e a Sunnah, então, formam as fontes máximas da compreensão do Islam. Toda outra fonte deve ser secundária a elas e estar sujeita a sua aprovação em geral. Em outras palavras, se algo contradiz o Qur’an ou a Sunnah, não pode ser considerado como parte do Islam.

                Ademais, o profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) levou toda uma geração sob sua guia e direcionamento. Obviamente, seus companheiros eram simples seres humanos e, como tais, cometiam erros – seu entendimento geral e aplicação do Islam eram aprovados pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Assim, tratar-se-á neste livro sobre a maneira geral, correta e apropriada de se entender o Islam.

                Por último, o autor aproveitou as obras de muitos outros que escreveram sobre o Islam, entre ele os mais proeminentes estudiosos ao longo da história do Islam, como também outros tantos que fizeram obras de introdução à religião. No decorrer do livro, far-se-á uma referência a estes autores e suas obras.


    A Religião do Islam

    O significado da palavra Islam

    A palavra Islam é a raiz nominal derivada do verbo aslama. Este verbo pode ser definido como “renunciar ou submeter”. Quando se utiliza na relação com Deus, significa submeter-se a Deus. Assim, o Islam trata de uma pessoa que reconhece quem é seu Senhor e reconhece que seu Senhor e Criador merece sua submissão e adoração. Em outras palavras, Islam não se trata simplesmente do reconhecimento de unicidade de Deus ou o fato de que o Criador existe, por exemplo. O Islam trata de algo muito maior que isso. Trata-se da decisão consciente que a pessoa toma para adorar e submeter-se ao Deus único.

    Dessa maneira, escreveu Nomani:

    “literalmente, o Islam denota uma submissão ante alguém e aceitação de seu senhorio, no significado mais amplo da palavra. A religião enviada por Deus e trazida a este mundo pelos Seus Profetas é chamada Islam pela clara razão que o fiador se rende totalmente ao poder e controle do Senhor e faz com que o juramento de obediência a Ele seja o princípio cardinal de sua vida. Esta é a alma da crença islâmica.”

    Talvez, deva-se aclarar que a palavra islam não significa “paz”. É certo que a palavra paz, em árabe salaam, vem do mesmo verbo que a palavra Islam. Ao mesmo tempo, não obstante, deve-se deixar bem claro na mente de todo muçulmano que sua religião, o Islam, representa seu compromisso e devoção à adoração e submissão somente a Allah. Essa deveria ser a essência de tudo o que define cada muçulmano.

    Antes de discutir a relação entre o Islam e outras religiões, é importante reconhecer um uso mais específico da palavra “islam” como religião. O Islam, como já foi dito anteriormente, implica na submissão total ao único Deus. Assim, todo aquele que se submete sinceramente a Deus – segundo a revelação Divina e não simplesmente segundo o que implica os seus caprichos e imaginação – é um muçulmano. Neste sentido, a religião de todos os profetas de Deus era o Islam e todos eles eram muçulmanos.

    Noé, Abraão, Moisés e Jesus, por exemplo, eram muçulmanos e sua religião era o Islam, a verdadeira e sincera submissão a Deus. Dessa forma, Allah disse ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) no Qur’an:

    “Prescreveu-vos a mesma religião que havia instituído para Noé, a qual te revelamos, a qual havíamos recomendado a Abraão, a Moisés e a Jesus, (dizendo-lhes): Observai a religião e não discrepeis acerca disso; em verdade, os idólatras se ressentiram daquilo a que os convocaste, Deus elege quem Lhe apraz e encaminha para Si o contrito” (42:13).

    A seguinte passagem do Qur’an destaca o fato de que Abraão, por exemplo, era um verdadeiro servo fiel de Allah, e somente d’Ele. Seus verdadeiros seguidores eram muçulmanos. Os verdadeiros seguidores de Moisés e Jesus também eram muçulmanos. Disse Allah:

    “E quando Abraão e Ismael levantaram os alicerces da Casa, exclamaram: Ó Senhor nosso, aceita-a de nós, pois Tu és Oniouvinte, Sapientíssimo. Ó Senhor nosso, permite que nos submetamos a Ti e que surja, da nossa descendência, uma nação submissa à Tua vontade. Ensina-nos os nossos ritos e absolve-nos, pois Tu é o Remissório, o Misericordiosíssimo. Ó Senhor nosso, faze surgir, dentre eles, um Mensageiro, que lhes transmita as Tuas leis e lhes ensine o Livro, e a sabedoria, e os purifique, pois Tu és o Poderoso, o Prudentíssimo. E quem rejeitaria o credo de Abraão, a não ser o insensato? Já o escolhemos (Abraão), neste mundo e, no outro, contar-se-á entre os virtuosos. E quando o seu Senhor lhe disse: Submete-te a Mim!, respondeu: Eis que me submeto ao Senhor do Universo! Abraão legou esta crença aos seus filhos, e Jacó aos seus, dizendo-lhes: Ó filhos meus, Deus vos legou esta religião; apegai-nos a ela, e não morrais sem serdes submissos (a Deus). Estáveis, acaso, presentes, quando a morte se apresentou a Jacó, que perguntou aos seus filhos: Que adorareis após a minha morte? Responderam-lhe: Adoraremos a teu Deus e o de teus pais: Abraão, Ismael e Isaac; o Deus Único, a Quem nos submetemos. Aquela é uma nação que já passou; colherá o que mereceu e vós colhereis o que merecerdes, e não sereis responsabilizados pelo que fizeram. Disseram: Sede judeus ou cristãos, que estareis bem iluminados. Responde-lhes: Qual! Seguimos o credo de Abraão, o monoteísta, que jamais se contou entre os idólatras. Dizei: Cremos em Deus, no que nos tem sido revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos; no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi dado aos profetas por seu Senhor; não fazemos distinção alguma entre eles, e nos submetemos a Ele. Se crerem no que vós credes, iluminar-se-ão; se se recusarem, estarão em cisma. Deus ser-vos-á suficiente contra eles, e Ele é o Oniouvinte, o Sapientíssimo. Eis aqui a religião de Deus! Quem melhor que Deus para designar uma religião? Somente a Ele adoramos! Pergunta-lhes: Discutireis conosco sobre Deus. Apesar de ser o nosso e o vosso Senhor? Somos responsáveis por nossas ações assim como vós por vossas, e somos sinceros para com Ele. Podeis acaso, afirmar que Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e as tribos eram judeus ou cristãos? Dize: Acaso, sois mais sábios do que Deus o é? Haverá alguém mais iníquo do que aquele que oculta um testemunho recebido de Deus? Sabei que Deus não está desatento a quanto fazeis. Aquela é uma nação que já passou; colherá o que mereceu vós colhereis o que merecerdes, e não sereis responsabilizados pelo que fizeram.” (2:127-141).

    De fato, como demonstra a passagem, o Islam também era a religião de todos seus seguidores. Em outras palavras, todo verdadeiro crente, desde os tempos de Adão, até o último crente sobre a terra, pratica o Islam e é um muçulmano. Ainda mais, esta é a única religião que Allah ordenou à humanidade que seguisse. Allah disse:

    “E quem quer que almeje (impingir) outra religião, que não seja o Islam, (aquela) jamais será aceita e, no outro mundo, essa pessoa contar-se-á entre os desventurados.” (3:85).

    Assim, a irmandade do Islam é um vínculo da verdadeira fé e abarca a todos desde Adão, até o fim dos tempos, incluindo todos os povos. Os verdadeiros crentes se amam e apóiam-se. Esta é a única e bendita irmandade.

    Em particular, os verdadeiros muçulmanos de todas as épocas crêem em todos os profetas. Apóiam a todos eles e defendem também sua honra. Jamais ouviríamos um crente muçulmano falar mal de Abraão, Isaac, Moisés, Jesus ou qualquer um dos profetas. Pelo contrário, o muçulmano respeita, honra e ama a todos da maneira que merecem.

    O Islam: A religião do Profeta Muhammad

    Logo no início de nossa descrição sobre o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), é necessário fazer outra distinção a respeito da religião do Islam.

    Antes dos tempos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), podia-se dizer que havia muitos “Islam”. Quero dizer, cada povo tinha seus profetas, seguia seus ensinamentos e estava no mesmo caminho do Islam. Ao mesmo tempo, se um novo profeta, da mesma linhagem que o anterior, aproximava-se deles, não restava outra opção senão seguir o novo profeta. Quem se nega a aceitar ao último profeta de Allah não está completamente submetido a Ele. E se não se submete completamente a Ele, então não se é um muçulmano.

    Há dois pontos importantes que demonstram a relação entre o caminho do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e o caminho dos verdadeiros profetas que vieram antes. Em primeiro lugar, o caminho de Muhammad revoga as leis anteriores. Em segundo lugar, pela sabedoria de Allah, não foi permitido que os ensinamentos dos profetas anteriores fossem conservados de forma totalmente inalterada.

    Allah disse:

    “Em verdade, revelamos-te o Livro corroborante e preservador dos anteriores. Julga-os, pois, conforme o que Deus revelou e não sigas os seus caprichos, desviando-te da verdade que te chegou. A cada um de vós temos ditado uma lei e uma norma; e se Deus quisesse, teria feito de vós uma só nação; porém, fez-vos como sois, para testar-vos quanto àquilo que vos concedeu. Emulai-vos, pois, na benevolência, porque todos vós retornareis a Deus, o Qual vos inteirará das vossas divergências.” (5:48).

    Este versículo demonstra que o Qur’an, na realidade, foi revelado e confirma o que havia sido revelado antes dele; confirma que é juiz e testemunha dos livros anteriores. Em outras palavras, conserva, protege e testemunha a verdade contida nas revelações anteriores. Ao mesmo tempo mostra a falsidade das distorções que foram feitas nas revelações anteriores. Tudo que está em conformidade com o Qur’an é verdadeiro e tudo o que o contradiga é falso. Assim, o Qur’an foi revelado para confirmar o que foi conservado nas revelações anteriores uma vez que corrige suas distorções.

    Um claro exemplo destas características tem a ver com a suposta crucificação de Jesus Cristo. Este suposto ato foi utilizado para representar a elevação de Jesus (que a paz esteja com ele) ao nível de Deus. A postura do Qur’an sobre este assunto é muito clara:

    “E por dizerem: Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Deus, embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes foi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o fato é que não o mataram.” (4:157).

    A distorção dos livros anteriores foi mencionada em inúmeras partes do Qur’an. Por exemplo, Allah disse em referência ao Povo do livro:

    “Ai daqueles que copiam o Livro, (alterando-o) com as suas mãos, e então dizem: Isto emana de Deus, para negociá-lo a vil preço. Ai deles, pelo que as suas mãos escreveram! E ai deles, pelo que lucraram!” (2:79).

    “E também há aqueles que, com suas línguas, deturpam os versículos do Livro, para que peneis que ao Livro pertencem, quando isso não é verdade. E dizem: Estes (versículos) emanam de Deus, quando não emanam de Deus. Dizem mentiras a respeito de Deus, conscientemente.” (3:78).

    Portanto, o Profeta disse:

    “Não afirmem o que o Povo do livro diz, nem tampouco neguem. Ao invés disso, digam: ‘Cremos no que nos foi revelado e no que foi revelado a ti. Nosso Deus é teu Deus e é um só; e a Ele nos submetemos como muçulmanos.” (Al Bukhari).

    É interessante destacar que a única religião que montem o nome “submissão a Allah”, ou Islam, é a do último Profeta, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). As outras religiões ressaltadas recebem o nome de indivíduos, lugares ou povos. Segundo a enciclopédia Microsoft Encarta, o terno judaísmo nem sequer existia no hebraico pré-moderno. É uma referência a Judá. O cristianismo, então, tem seu nome por Cristo; tal como o budismo o recebe de Buda; o hinduísmo tem a ver com o lugar, Hindustão. Mas, pela sabedoria e misericórdia de Allah – a religião de todos os profetas – tem sido conservada e mantida somente com referência à missão do último profeta que foi enviado a toda a humanidade.

    Como apontamento final, apesar da mensagem do Profeta Muhammad não ser mais que uma continuação da mensagem dos profetas anteriores, os cristãos e judeus não são pressionados, em absoluto, a adotar o Islam nem a seguir seus ensinamentos. Allah disse:

    “Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro. Quem renegar o sedutor e crer em Deus, ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo.” (2:256).

    Não obstante, devem ser chamados à verdade do Islam e convidados a seguir o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    A Mensagem Final

    Allah enviou numerosos profetas ao longo dos séculos. Certamente, Ele enviaria o último com uma mensagem derradeira. Este último seria o mensageiro para toda a humanidade desde seus tempos até o Juízo Final. Não haveria outras revelações e nenhum outro profeta modificaria aquela última revelação. Assim, este profeta deveria ser diferente dos anteriores de alguma forma.

    Em primeiro lugar, posto que ninguém viria posteriormente para corrigir supostos erros ou distorções, a revelação recebida pelo último profeta teria que ser preservada com a máxima pureza.

    Em segundo lugar, a natureza do “sinal” do último profeta também deveria ser diferente. Isso se deve ao fato de que esta mensagem deveria não só afetar aos que viviam à época deste mensageiro, como aos que viriam depois dele.

    Em terceiro lugar, este profeta derradeiro não poderia ser enviado somente para uma comunidade – e que cada uma delas possuía seu próprio profeta, diferente dos demais. Este profeta deveria ser enviado para toda a humanidade, pondo um fim à sucessão de profetas e estando apto a guiar o mundo em sua totalidade.

    Em quarto lugar, as leis e ensinamentos desta mensagem deveriam ser fixas para aqueles assuntos que precisam ser fixos para toda a humanidade até o dia do Juízo. Também deveriam ser uma guia flexível para aqueles assuntos que necessitam de flexibilidade por estarem sujeitos a modificações em decorrência de circunstâncias mutáveis.

    Em todos os aspectos, pode-se observar que a mensagem do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se ajusta a todos esses critérios. O Qur’an e a sunnah foram conservados com riqueza de detalhes. Da mesma forma, a natureza de seu “sinal”, o Qur’an, o milagre final, ainda pode ser vivida.

    E quanto ao terceiro tema, o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi o único profeta que deixou claro que não foi enviado apenas a um povo em particular, senão para todos os povos do mundo.

    Os judeus, por exemplo, consideravam-se uma raça elegida e sustentam que sua mensagem está dirigida exclusivamente a eles. Assim, muitos judeus ortodoxos não crêem na difusão de sua fé.

    O Novo Testamento também deixa claro que a missão de Jesus estava dirigida às tribos de Israel. Mateus, 10: 5-6, disse:

    “Jesus enviou estes doze com as seguintes instruções: ‘não vão aos gentios e nem entrem em nenhum povoado dos samaritanos. Vão às ovelhas desgarradas do povo de Israel.’” Os relatores sustentam que Jesus disse a uma mulher de Canaã, que se aproximou dele para pedir ajuda: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas do povo de Israel.” (Mateus 15:24).

    Esta missão limitada de Jesus também está confirmada no Qur’an (61:6).

    Sem dúvidas, no caso do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Allah disse:

    “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós...” (7: 158).

    “E não te enviamos, senão como universal (Mensageiro), alvissareiro e admoestador para os humanos; porém, a maioria dos humanos o ignora.” (34: 28).

    Há, inclusive, mais versículos que afirmam a mesma coisa. O Profeta Muhammad também disse que se diferenciava dos profetas anteriores em cinco pontos. O último que mencionou foi:

    “os profetas foram enviados somente a seus povos, enquanto eu fui enviado a toda a humanidade.” (Bukhari e Muslim).

    Allah decretou que seu Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) seria Seu mensageiro final. Disse Allah:

    “Em verdade, Muhammad não é o pai de nenhum de vossos homens, mas sim o Mensageiro de Deus e o prostremos dos profetas; sabei que Deus é Onisciente.” (33:40).

    O Profeta Muhammad disse:

    “Fui enviado para toda a criação e os profetas foram coroados por mim” (Muslim).

    Então, disse outra vez:

    “os filhos de Israel foram guiados pelos profetas; cada vez que morria um profeta, outro o sucedia. Não haverá nenhum profeta depois de mim.” (Bukhari e Muslim).

    Assim, ninguém tem direito de aceitar a outros profetas rechaçando, por sua vez, Muhammad. Ninguém tem o direito de dizer que Muhammad era sincero, mas “prefiro continuar seguindo a Jesus ou Moisés.” Falando logicamente, não se deve esperar que isso seja aceitável para Allah. Allah enviou Seu último mensageiro para que cressem nele e o seguissem, retificando ou anulando o que sobrou dos ensinamentos dos profetas anteriores.

    No Qur’an, Allah descreve da seguinte maneira dita atitude:

    “Quando lhes é dito: Crede no que Deus revelou! Dizem: Cremos no que nos foi revelado. E rejeitam o que está além disso (Alcorão), embora seja a verdade corroborante da que já tinham. Dize-lhes: Por que, então, assassinastes os profetas de Deus, se éreis fiéis?” (2:91).

    Allah declarou que as pessoas com estas características são incrédulos. Observe:

    “Aqueles que não crêem em Deus e em Seus mensageiros, pretendendo cortar os vínculos entre Deus e Seus mensageiros, e dizem: Cremos em alguns e negamos outros, intentando com isso achar uma saída, são os verdadeiros incrédulos; porém, preparamos para eles um castigo ignominioso. Quanto àqueles que crêem em Deus e em Seus mensageiros, e não fazem distinção entre nenhum deles, Deus lhes concederás as suas devidas recompensas, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (2:150-152).

    Disse o Profeta:

    “Juro por Allah, Aquele em cujas mãos está minha alma, não haverá ninguém dentre as pessoas às quais me dirijo, seja judeu ou cristão, que ouça falar de mim e morra sem crer naquilo que me foi enviado, a menos que se trate de um dos moradores do Fogo do inferno.” (Muslim).

    O Profeta, inclusive, disse a um de seus companheiros:

    “Se meu irmão Moisés estivesse vivo hoje, não teria outra opção senão seguir-me.” (Ahmad e al-Daarimi. Segundo al-Albaani, trata-se de um hadith sahih. al-Albaani, Irwa, vol. 6, p. 34.).

    A universalidade do islam e sua característica atemporal

    O Profeta Muhammad é o último mensageiro de Allah e é inconcebível pensar que Allah deixaria os seres humanos sem qualquer guia. Em outras palavras, o que Allah o deu é uma mensagem final que é adequada para guiar a humanidade a qualquer tempo e em qualquer lugar. O Profeta deixou clara a essência deste paradigma quando disse:

    “Deixei-vos duas coisas que, caso se apeguem a elas, nunca os fará perder o caminho para me seguir: o Livro de Allah e a Sunnah de Seu Mensageiro.” (Muslim).

    Aparte o fato de que o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é o último dos profetas, Allah também disse:

    “Hoje completei a religião para vós, e completei Minha graça sobre vós e dispus que o Islam é vossa religião...” (5:3).

    Allah também declarou que o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o profeta para toda a humanidade:

    “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós...” (7:158).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse:

    “Foram-me dado cinco aspectos que nenhum dos profetas anteriores teve... (um deles é que) cada profeta foi enviado somente para seu povo, enquanto eu fui enviado para toda a humanidade.” (Bukhari e Muslim).

    Assim, a religião é completa e perfeita e não há necessidade de nenhuma alteração ou mudança. A mensagem chegou e será válida até o dia do Juízo. O Profeta enviado a todos os povos já havia chegado.

    Isto implica que os ensinamentos do Profeta, assim como sua Sunnah, são válidos e obrigatórios para toda a humanidade. Quer dizer, seu exemplo e ensinamentos não foram simplesmente para o povo árabe, mas são válidos e importantes para todos e cada um dos muçulmanos de hoje, que estejam em Nova Iorque ou na Malásia.

    Logicamente, alguém poderá perguntar: Como pode esta Lei satisfazer as necessidades de toda a humanidade até o dia do Juízo? A resposta tem a ver com a beleza da Lei. Quando se estuda a lei promulgada pelo profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), descobre-se que ela engloba elementos de flexibilidade que permitem a prática hoje, assim como foi nos tempos do Profeta. Na realidade, a natureza dos seres humanos não muda ao longo do tempo, em primeiro lugar. A adoração, que é à base do caráter humano, não precisa mudar. Em segundo lugar, existem alguns assuntos prejudiciais aos seres humanos e que estes devem evitar. Estes também são proibidos explícita e permanentemente. Além disso, os seres humanos só necessitam algumas leis detalhadas e muitos princípios gerais que lhes permitam guiar suas vidas, a todo o momento e em qualquer lugar. Isso é exatamente o que a Lei Islâmica lhes dá. Em essência, aqueles que necessitam ser fixos e permanentes, o são graças à Lei Islâmica. Aqueles que precisam ser flexíveis, para que povos distintos, em diferentes momentos possam aplicá-los de maneira diferenciada, gozam de flexibilidade nesta Lei. Portanto, trata-se de uma forma de vida guiada divinamente que é adequada e prática para todos os seres humanos até o Dia do juízo.

    Por exemplo, nas relações comerciais os juros são proibidos terminantemente, para sempre. Ademais, a esta proibição, acrescem-se pautas gerais. Sem dúvidas, a norma se desenvolve de tal maneira que quando se desenvolvem novas formas de relações comerciais, como nos tempos modernos, pode-se determinar quais são aceitas segundo as pautas islâmicas e quais não são. Conseqüentemente, a Lei Islâmica tem demonstrado ser viável há mais de 1400 anos, e segundo as crenças islâmicas, seguirá sendo até o dia do Juízo Final.

    Isso significa que a orientação é completa. É tudo que os muçulmanos necessitam para ter felicidade neste mundo e no próximo. Não pode ser melhorada. Por conseguinte, não necessita acréscimos, alterações ou anulações. Por esta razão óbvia, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) advertiu severamente sobre as inovações e heresias. Estas não são necessárias, em absoluto, e não fazem mais que diminuir a beleza e perfeição do Islam. Por isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “As piores ações são as inventadas. E toda inovação significa perder o caminho.” (Muslim).

    Também disse:

    “E afastar-se do caminho é cair no fogo do inferno.” (Nasai) Disse também: “Todo aquele que introduza algo neste nosso assunto, que não pertença a ele, será rechaçado.” (Bukhari e Muslim).

    As fontes da Lei Islâmica e a orientação

    A meta do Islam é que o ser humano se converta em um verdadeiro servo de Allah. Por isso, sua fonte de orientação e as bases de suas ações devem fundamentar-se na revelação de Deus. A partir deste ponto de vista, os sábios falam das fontes e da lei no Islam. As autoridades máximas na Lei Islâmica são o Qur’an e a Sunnah do Profeta.

    O Qur’an é a palavra de Allah e uma revelação que chegou diretamente ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) vindo de Allah, através do Anjo Gabriel. O Qur’an foi revelado parte a parte ao longo de um período de vinte e três anos. Guiou a primeira comunidade muçulmana em todos os passos que deram. Assim transformou completamente a comunidade em uma geração piedosa. Deu o exemplo para todas as comunidades muçulmanas posteriores que enfrentaram as mesmas circunstâncias que esta primeira geração viveu. Transformou um povo árabe que se encontrava longe de toda ética aceitável em líderes de uma grande civilização, cuja influência ainda continua. Quando se lê, compreende e aplica corretamente o Islam, hoje em dia, também se transforma as pessoas ou a sociedade e as eleva através da piedade, aproximando-as de Deus.

    Ao receber as palavras do Qur’an, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) as passava a seus seguidores. Ademais, encarregava-se de que seus escribas registrassem os versículos recém revelados. O profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse o seguinte sobre o Qur’an:

    “Não houve profeta dentre os profetas que não tenha recebido milagres graças aos quais as pessoas tiveram fé, mas o que me foi dado é a Revelação Divina que Allah me revelou. Portanto, espero que meus seguidores sejam mais numerosos que de qualquer outro profeta no Dia da Ressurreição.” (Bukhari e Muslim).

    Em outras palavras, o grande sinal e o milagre do Profeta Muhammad foi o Qur’an.

    O Qur’an é milagroso de muitas maneiras. Por exemplo, os árabes do tempo do Profeta eram especialistas em lingüística. Sem dúvidas, ainda que se opondo ao Profeta durante muitos anos, estavam conscientes de que jamais poderiam se igualar à eloqüência literária do Qur’an. Entretanto, o Qur’an é muito mais que um simples “milagre literário”. Também é milagroso no que diz respeito ao cumprimento de suas profecias de sucessos futuros, sua consistência interna (ainda que tenha sido revelado ao longo de vinte e três anos), sua exatidão científica, sua precisão histórica, sua conservação intacta, suas leis magnas e sábias, seu efeito – que teve e tem – em relação às mudanças e reformas nos seres humanos e tantos outros aspectos.

    Além do Qur’an estão os ditos e o exemplo do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), conhecidos como a Sunnah. Também é uma forma de inspiração Divina ao Profeta. O Profeta disse:

    “Foi-me dado o Qur’an e algo similar junto com ele.”

    A autoridade da Sunnah do Mensageiro de Allah não significa ou indica que ele foi um semideus. Definitivamente, ele foi um ser humano, tal como os outros profetas.

    A autoridade do profeta está relacionada com a submissão a Allah: é Allah, no Qur’an, quem estabelece a autoridade do Profeta. Assim, seguir o caminho do Profeta não é mais que atuar com obediência e submissão a Allah. Allah praticamente disse isso quando mencionou:

    “Quem obedecer ao Mensageiro obedecerá a Deus; mas quem se rebelar, saiba que não te enviamos para lhes seres guardião.” (2:80).

    No Qur’an, Allah deixa claro que se alguém ama a Allah e deseja que Allah lhe devolva esse amor, a chave está em seguir o caminho do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Disse Allah:

    ”Dize: Se verdadeiramente amais a Deus, segui-me; Deus vos amará e perdoará as vossas faltas, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (3:31).

    O Qur’an diz, sobre o Profeta:

    “Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para aqueles que esperam contemplar Deus, deparar-se com o Dia do Juízo Final, e invocam Deus freqüentemente.” (33:21).

    De certa forma o Profeta foi um “Qur’an vivo”. Quando perguntaram a Aisha, a esposa do Profeta, como era o caráter e comportamento de seu marido, ela respondeu:

    “Seu caráter era o Qur’an.” (Muslim).

    A relação entre o Qur’an e a Sunnah é muito importante. A Sunnah demonstra como se implementar o Qur’an. É uma explicação prática do que o Qur’an ensina. Define a moral, o comportamento e as leis do Qur’an de tal maneira que torna-se claro seu significado. Esta completa representação humana dos ensinamentos do Qur’an é uma grande bênção para todos os muçulmanos. Indica que a orientação de Deus é completa e acessível a todos.

    Assim, o Qur’an e a Sunnah formam uma unidade que oferece todos os princípios retos que a humanidade necessitará até o Dia do juízo Final.

    Desde então, o Qur’an é um livro que pode ser compilado em umas duzentas páginas. A Sunnah, ao contrário, é bastante diferente, já que cobre todas as ações e ditos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). A Sunnah está compilada no que conhecemos como literatura do Hadith. Um hadith é um relato sobre o que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) fez ou disse.

    Os sábios muçulmanos reconheceram que a religião de Allah deve ser conservada adequadamente. Também reconheceram que nem tudo que é atribuído ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) está correto, já que até as pessoas honestas podem cometer erros. Dessa maneira, estudaram meticulosamente e metodicamente os diversos ahaadith e ditos atribuídos ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), separando os que poderiam ser autenticados dos que não poderiam.

    Na Lei Islâmica nem toda hadith é considerado palavra autorizada. Só se consideram como autoridade aqueles que cumprem com os requisitos estritos da autenticidade. Os estudiosos chamam a estes ahaadith, hadith sahih (autêntico) ou hasan (bom). Os ahaadith inaceitáveis são classificados como daif (fraco), ou muito fraco ou falso.

    Apesar de estarem disponíveis os textos em árabe originais do Qur’an e os ditos do profeta, devemos recorrer a modestas traduções para levar, aos que não falam árabe, o seu significado. Com respeito ao Qur’an, pode-se recomendar dua traduções, em particular, no idioma espanhol. Elas são El Sagrado Qur’an: Traducción de su contenido al idioma español e El Corán, traduzido pelo Shaikh Isa García. Recomenda-se esses dois títulos já que suas traduções se baseiam na compreensão do Qur’an que remonta à época do Profeta e seus companheiros mais próximos.

    Para apreciar a profundidade do Qur’an, há que se ler também um comentário do Livro. Lamentavelmente, não são muitos os bons comentários disponíveis espanhol – entretanto há um gama deles em muitos outros idiomas.

    Uma obra muito importante disponível em espanhol são os dez volumes do Tafsir Ibn Kathir (resumido). Trata-se da tradução de um compêndio de uma obra clássica de comentários corânicos escrita por Ibn Kathir (1301-1372 AD). Em seu estudo de comentários corânicos, Muhammad Hussein al Dhahabi afirma que este comentário é um dos melhores em sua categoria. Nesta obra, Ibn Kathir segue os princípios do comentário corânico tal como foi estabelecido por seu mestre, o reconhecido Ibn Taymiya. Talvez o único contra desta obra é que se trata de uma tradução de um livro clássico e portanto não foi escrito em um estilo cômodo de ler para muitas pessoas da atualidade.

    Quanto às coleções de hadith, ditos e ações do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), existem duas importantes em espanhol. São conhecidas como sahih al Bukhari e sahih Muslim.

    Como disse anteriormente, a Lei Islâmica deve ser suficientemente flexível para satisfazer as necessidades de todos os povos até o dia do Juízo Final. Assim, nem todos os detalhes da lei foram escritos no Qur’an e na Sunnah. Allah deixou alguns temas para que os muçulmanos descubram por si mesmos, obrigando-os, assim, a aprender e estudar o Qur’an e a Sunnah detalhadamente. As conclusões derivadas do Qur’an e da Sunnah, e que não estejam explicitamente escritas nestes livros, são conhecidas como “analogia, racionalização pessoal”, ou ijtihad (o que implica um esforço extremo para chegar a uma conclusão). Obviamente, esta fonte de jurisprudência não é infalível. De fato, é possível que os sábios cheguem a diferentes conclusões – ainda que a verdade ante Allah seja única. O trabalho de cada sábio, caso seja sincero, será admirado por Allah, como diz no hadith:

    “Se um juiz se esforça e chega a uma conclusão correta, receberá duas recompensas. Se se esforça e chega a uma conclusão equivocada, receberá somente uma recompensa.” (Bukhari e Muslim).

    Sem dúvidas, isso não significa que suas conclusões são a autoridade máxima.

    Os juízos pessoais devem ser avaliados à luz do Qur’an e da Sunnah e deve-se apegar a tudo o que pareça ser mais correto segundo o Qur’an e a Sunnah.

    É importante para o muçulmano recordar sempre que seu principal objetivo é chegar à verdade, o que equivale àquele que é consistente com o Qur’an e a Sunnah.

    Ocorreu um desenvolvimento histórico em que alguns estudiosos específicos trabalharam arduamente para codificar as leis do Qur’an e da Sunnah, estendendo aquelas leis através do razoamento pessoal, pois algumas situações não estavam explicitamente acobertadas nos ditos textos. O trabalho desses estudiosos continuou até que se desenvolveram as escolas de legislação baseadas em seus ensinamentos.

    Entretanto essas diferentes escolas de legislação não são fontes da lei islâmica, nem devemos considerá-las infalíveis, absolutamente. É importante que cada novo muçulmano esteja familiarizado com elas, pois é provável que aqui façamos referência a elas, com certa freqüência. São quatro as mais dominantes dessas escolas de jurisprudência, batizadas em honra aos seus fundadores da seguinte maneira:

    . Abu Hanifah (80-150 H) e a escola Hanafi: Abu Hanifah foi um dos primeiros estudiosos e vivia no Iraque. Hoje em dia, sua escola é a mais predominante na Turquia, Paquistão, Índia, Afeganistão, nos ex estados soviéticos muçulmanos e partes do Oriente Médio.

    . Maalik Ibn Anas (95-179 H) e a escola Maliki: Maalis Ibn Anas viveu em Medina, a cidade do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), toda sua vida.

    Na atualidade, sua escola é a mais popular no norte da África e África subsaariana. Durante séculos foi a escola predominante de Andaluz, ou a Espanha muçulmana.

    . Muhammad Ibn Idris ash Shafi’i (150-204 H) e a escola Shafi’i: Ash Shafi’i veio da tribo.

    . Quraish, a mesma tribo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Estudou e viveu em diversos lugares, até instalar-se, definitivamente, no Egito. Hoje, sua escola é a maior influência na Malásia, Indonésia e algumas partes do Oriente Médio.

    . Ahmad Ibn Hanbal (164-241 H) e a escola Hanbali: Ahmad Ibn Hanbal viveu em Bagdá e era conhecido por ser um grande estudioso do hadith. Atualmente, sua escola é predominante na Arábia Saudita e outras partes da Península Arábica.

    Estes grandes sábios, igualmente aos outros, em algumas ocasiões chegaram a diferentes conclusões.

    É importante entender que existem muitas causas para as diferenças de opinião entre os juristas. Também há alguns pontos importantes a se levar em conta no que diz respeito a tais diferenças de opinião entre os sábios.

    É provável que nos deparemos com tais situações dentro do Islam. Em primeiro lugar, como foi dito anteriormente, o principal objetivo dos muçulmanos é “a verdade”.

    Portanto, o muçulmano deve se esforçar para descobrir a verdade e segui-la, em quaisquer circunstâncias.

    A maneira que chegou a revelação proporciona à pessoa a capacidade de adorar a Allah buscando a verdade, através de uma análise da revelação, tal como está no Qur’an e nos ahaadith. Também põe o homem à prova, verificando se segue a verdade e fazendo-o analisar seu comportamento.

    Em segundo lugar, essas diferenças de interpretação estão destinadas a continuar. Uma pessoa pode buscar com sinceridade agradar a Allah, mas chega a uma conclusão que a outro parece falha ou inaceitável. Contanto que a opinião de uma pessoa não contradiga claramente o Qur’an e a Sunnah e tenha certa base através de uma prova aceitável, a pessoa deve ser respeitada.

    De fato, a pessoa que se equivoca será recompensada por Allah por seu esforço, caso tenha sido feito com sinceridade, como é dito no hadith citado acima. Dessa maneira, alguém pode não estar de acordo com sua opinião e até sentir necessidade de refutá-la, ditas diferenças de opinião não devem jamais prejudicar as raízes da irmandade do Islam e entrar nos corações dos muçulmanos, destruindo-os dessa forma.

    Por último, é importante destacar que o Qur’an, a Sunnah e o razoamento pessoal não são simplesmente as fontes do que normalmente se considera como “lei” na atualidade. Há também muitos outros aspectos, como a moral, ética e comportamento que devem estar sujeitos a essas mesmas fontes.

    Em outras palavras, estas fontes são, na realidade, as fontes da lei, mas também são a orientação das ações que um muçulmano realiza em cada aspecto de sua vida.

    Por exemplo, como se comportar com os pais, vizinhos e outras pessoas está descrito no Qur’an e na Sunnah, como abordaremos mais adiante, ainda que a lei tradicional de hoje não se preocupe com tais temas.

    Portanto, quando os sábios muçulmanos falam das fontes da “lei” no Islam, na realidade, referem-se às fontes da orientação completa para o comportamento humano em todos os aspectos da vida.

    Objetivos do Islam

    Os ensinamentos do Islam não são meros rituais ou mistérios sem nenhum tipo de razão. Pelo contrário, a revelação assinala metas bem claras e almejadas. Entre elas estão as seguintes:

    - A adoração exclusiva a Allah

    Sem dúvida, a maior meta do Islam, como também sua maior contribuição ao bem estar da humanidade, é a verdadeira e pura adoração a Allah, sem que se associe a Ele nenhum companheiro. Esse é, na realidade, o principal objetivo e propósito de um ser humano. Allah disse:

    “Não criei os gênios e os humanos, senão para Me adorarem.” (51:56).

    Não há meta mais honrosa ou nobre para um ser humano.

    O monoteísmo puro é o único sistema de crença que traz as verdadeiras respostas às perguntas que desconcertam praticamente todos os seres humanos: “de onde venho? Para onde vou? Qual a finalidade da minha existência?”

    Quanto à pergunta “de onde venho?”, o Islam explica que os seres humanos são criaturas honradas e criadas por Allah de uma maneira muito especial e têm a liberdade de escolher ser a mais nobre das criaturas ou estar no plano mais baixo da criação. Assim, disse Allah:

    “Que criamos o homem na mais perfeita proporção. Então, o reduzimos a mais baixa das escalas, salvo os fiéis, que praticam o bem; estes terão uma recompensa infalível.” (95:4-6).

    A resposta à pergunta “para onde vou?” é que o ser humano volta a se reunir com seu Senhor e Criador. Isso ocorrerá depois de sua morte. Não haverá escapatória para este encontro. Neste momento, a pessoa será julgada com justiça e equidade.

    Todas as ações que foram praticadas na sua vida serão analisadas.

    “Nesse dia, os homens comparecerão, em massa, para verem as suas obras.

    Quem tiver feito o bem, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á. Quem tiver feito o mal, quer seja do peso de um átomo, vê-lo-á.” (99:6-8).

    Este juízo começará com sua ação mais importante: sua atitude frente ao Criador Misericordioso e Cheio de Graça, Aquele que o criou, proveu, enviou a orientação, advertiu do castigo para os que se afastassem da verdade e prometeu uma grande recompensa aos que aceitassem a verdade, fossem agradecidos e submissos a Ele.

    No que concerne à pergunta “qual a finalidade da minha existência?”, o ser humano foi criado com o mais nobre dos fins: adorar a Allah somente ou, em outras palavras, ser um verdadeiro e sincero servo de Allah.

    Pode-se imaginar todo tipo de objetivos que as pessoas têm nesse mundo; pode-se ter como objetivo acabar com as doenças ou atingir a paz mundial. Em geral, essas admiráveis metas estão, de certa forma, corrompidas.

    Pode-se persegui-las por motivos egocêntricos, como ser recordado ou louvado como aquele que fez tal coisa.

    Pode-se conquistá-las dando as costas ao Criador, demonstrando arrogância e ingratidão, como também ignorância de como se atingem as verdadeiras metas mais nobres. Sem dúvidas, todas estas metas, que podem ser consideradas submetas, não estão à altura da que lidera a excelência da alma e das ações de uma pessoa, além da felicidade eterna na próxima vida.

    Em verdade, toda meta realmente boa desta vida deve ser uma parte verdadeira da adoração a Allah.

    Cumprir com o verdadeiro fim do ser humano e ter êxito no encontro com o Senhor depende totalmente da prática de um monoteísmo verdadeiro e intacto. Esse é o monoteísmo do qual se fala no Islam. Muitas pessoas dizem crer no “monoteísmo” e no fato de que só existe um Deus.

    Porém, em muitas ocasiões, este “monoteísmo” está manchado de várias maneiras.

    Em algumas das primeiras civilizações pré-modernas, começaram a atribuir filhos e filhas a Deus.

    Lamentavelmente, esta clara contradição ao monoteísmo puro foi mantida até a era moderna por uma religião tão popular que é o Cristianismo. É habitual ouvir os cristãos falarem de Jesus, agradecer a ele e inclusive rezar para ele, em muitos casos esquecendo-se do “Pai”.

    Os cristãos podem recorrer a diversos jogos lógicos para afirmar que adoram a um só Deus, mas, na realidade, não se pode considerá-los verdadeiros monoteístas.

    De fato a maioria – se não todos – dos que seguem a trindade sustentam que Jesus está no mesmo nível do Pai. Em outras palavras, perderam o monoteísmo.

    O novo muçulmano pode levar certo tempo para se dar conta das maneiras que as pessoas associam companheiros a Allah, sem praticar o verdadeiro monoteísmo.

    O cristão convertido ao Islam pode reconhecer rapidamente que o que lhe foi dito sobre a trindade não pode ser considerado monoteísmo.

    Ao mesmo tempo, sem dúvidas, pode ser que não se dê conta de que os sacerdotes, por exemplo, como portadores da palavra final, no que diz respeito à lei, é outra forma de associar parceiros a Allah.

    Nenhum sacerdote – nem nenhum ser humano – tem o direito de anular ou suplantar nenhuma lei de Allah. Isto também contradiz o monoteísmo puro.

    Por isso, Allah disse:

    “Tomaram por senhores seus rabinos e seus monges em vez de Deus, assim como fizeram com o Messias, filho de Maria, quando não lhes foi ordenado adorar senão a um só Deus. Não há mais divindade além d’Ele! Glorificado seja pelos parceiros que Lhe atribuem!” (9:31).

    O Islam é uma religião que estabelece o monoteísmo puro e erradica todas as formas de associação de parceiros a Allah, desde a mais óbvia até a menos clara. Sem dúvida alguma, o Islam é a única religião que pode afirmar tal coisa. À medida que o convertido aprende mais sobre sua fé, a luz do monoteísmo puro, Allah estando no topo do processo, brilhará cada vez mais forte em seu coração.

    - Livrar os seres humanos da adoração de quaisquer outros seres humanos ou objetos

    Obviamente esta é uma conseqüência direta do primeiro princípio de se adorar somente a Allah. Sem dúvidas, merece uma menção especial já que a dominação e subjugo dos seres humanos, por parte de seus iguais, é uma das tragédias mais graves da história da humanidade; talvez superada somente pela tragédia dos seres humanos que aceitam tal situação e se submetem voluntariamente a outros seres humanos.

    Há poucas coisas piores que um ser humano que se submete e adora a outros seres humanos. É algo totalmente degradante porque, na essência, todos os seres humanos compartilham da mesma natureza e debilidades humanas.

    Ninguém tem o direito de se colocar no lugar de Allah – o que inclui o tirano, o ditador ou o clero – perante os demais, subjugando-os com suas ordens sem se importar se estas são compatíveis ou não com o que Allah revelou.

    Esta meta do Islam foi expressa eloqüentemente por dois dos primeiros muçulmanos. Quando foram perguntados pelo imperador da Pérsia o que trazia os muçulmanos às suas terras, dois diferentes companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) responderam de forma similar:

    “Allah nos enviou para levar quem deseje da servidão à humanidade à servidão a Allah e da estreiteza deste mundo à grandeza e da injustiça na forma de vida (deste mundo) à justiça do Islam.”

    É interessante destacar que os seres humanos reconhecem facilmente os males de um governo tirano, ou seja, um ser humano dominando os demais.

    Entretanto não se dão conta desses males quando um grupo de elite os domina e, então, submetem-se voluntariamente à manipulação e opressão desta elite, muitas vezes disfarçada de democracia.

    Na realidade, ambos são maus e só podem ser remediados através da aceitação de Allah como Legislador e Autoridade máxima. Como discutiremos adiante, somente Allah pode estabelecer leis e ordens justas, pois só Ele está livre de paixões e preconceitos.

    Há muitas coisas que os seres humanos tendem a “adorar” ou das quais se tornam “escravos”, como as próprias paixões, o Estado ou nação e os desejos materiais. Allah descreve aos que tomam como deus seus próprios desejos:

    “Não tens reparado naquele que idolatrou a sua concupiscência! Deus extraviou-o com conhecimento, ensurdecendo os seus ouvidos e o seu coração, e cobriu a sua visão. Quem o iluminará, depois de Deus (tê-lo desencaminhado)? Não meditais, pois?” (45:23).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Que o escravo das moedas de ouro e prata e das finas vestimentas pereça, pois se compraz se lhe dão essas coisas e não está satisfeito se não as dão.” (Bukhari).

    Na realidade, esta é uma forma de escravidão ou servidão – uma escravidão a algo que não é Allah. Ibn Taimiyah escreveu o seguinte:

    “Se ele for bem-sucedido, sente prazer; mas se falhar torna-se infeliz. Tal pessoa é abd (escravo) de seus desejos, pois a escravidão e a servidão são, na realidade, a escravidão e a servidão do coração. Portanto, o coração se torna escravo de tudo que o ponha nessa posição. Por esta razão se diz que: ‘O escravo é livre em tudo quanto está conforme o que Allah lhe proporcionou e o livre é escravo enquanto é presa de seus desejos.”

    O Islam liberta as pessoas dessas falsas formas de adoração. Isso é alcançado através da libertação do coração dos caprichos e desejos. Liberta o coração desta forma de adoração fazendo com que este se apegue somente a Allah e construindo uma relação forte entre a pessoa e Allah (como será tratado mais à frente). A pessoa simplesmente deseja contentar Allah. Será feliz com tudo o que implique agradar a Allah e ficará insatisfeito com tudo o que não for do agrado de Allah.

    Este aspecto do Islam deve estar bem claro para um novo muçulmano. Deve reconhecer com facilidade em si mesmo todos esses falsos deuses que costumava seguir e adorar em sua vida pregressa.

    Toda sua vida pode haver girado em torno desses objetos de adoração. Pode ser que houvesse praticado qualquer coisa para alcançar suas metas, não se importando se os meios utilizados eram éticos. Essas metas o transformaram num tipo específico de pessoa. Avaliava sua vida inteira segundo essas metas. Se as alcançava, então, esta seria sua felicidade. Era um verdadeiro escravo desses objetivos.

    Agora pode compreender que a forma com que atingia suas metas, na realidade, estava afastando-o da adoração a Allah.

    - Fazer com que a vida na terra floresça

    O Islam é uma religião bela que satisfaz as necessidades do corpo e também da alma. O ser humano é composto de um lado espiritual e um material. Ambos os lados de uma pessoa devem ser reconhecidos como “verdadeiros”, sem negar nem ignorar nenhum deles. Além disso, o indivíduo precisa ser guiado em ambos os aspectos de sua personalidade. Do contrário, um aspecto dominará ou estará em conflito com o outro e a pessoa nunca alcançará a verdadeira felicidade. Por exemplo, há aqueles que destacam as necessidades espirituais, mas ignoram os aspectos materiais do mundo.

    Ao mesmo tempo, sem dúvidas, vêem-se obrigados a participar dos aspectos materiais deste mundo que são parte da natureza humana. Tais pessoas se encontram num conflito quando percebem que não podem se libertar totalmente das necessidades materiais que tanto desprezam.

    Por outro lado, existem os sistemas econômicos, como o capitalismo e o socialismo, que buscam satisfazer as necessidades materiais – de fato, os capitalistas afirmam trazer “o melhor de todos os mundos possíveis.” Mas, na realidade, pode-se provocar um grande buraco na psique da pessoa, pois a satisfação das necessidades materiais não preenche o vazio interno.

    Allah fez dos seres humanos os sucessores desta terra:

    (Recorda-te ó Profeta) de quando teu Senhor disse aos anjos: Vou instituir um legatário na terra...”(2:30).

    Assim, a postura do islam é que os seres humanos foram postos sobre a terra intencionalmente por Allah e utilizam os meios materiais para construir uma vida positiva neste mundo passageiro, o qual, eventualmente, os levará a uma próxima vida eterna e satisfatória. Nesse sentido, Allah disse:

    “Mas procura, com aquilo com que Deus te tem agraciado, a morada do outro mundo; não te esqueças da tua porção neste mundo, e sê amável, como Deus tem sido para contigo, e não semeies a corrupção na terra, porque Deus não aprecia os corruptores.” (28:77).

    De fato, inclusive depois de finalizada a oração de sexta-feira, um dos atos de adoração mais significativos do Islam, Allah nos ordena sair e buscar o sustento deste mundo:

    “Porém, uma vez observada a oração, dispersai-vos pela terra e procurai as graças de Deus, e mencionai muito Deus, para que prospereis.” (62:10).

    Na realidade, os seres humanos são os guardiões desta grande criação e supõe-se que devem se comportar de maneira apropriada. Não são donos e nem têm a liberdade para usar da criação da forma que desejam. Não podem explorá-la visando benefícios pessoais ou por vingança. Tampouco, devem desperdiçar os recursos desta terra por extravagância ou com fins prejudiciais. Pelo contrário, devem se comportar como Allah estabeleceu:

    “São aqueles que, quando os estabelecemos na terra, observam a oração, pagam o zakat, recomendam o bem e proíbem o ilícito. E em Deus repousa o destino de todos os assuntos.” (22:41).

    Este ensinamento do Islam também é mencionado em diversos versículos onde Allah proíbe a corrupção (fasaad) na terra – como consta no 28:77, mencionado anteriormente. Allah também disse:

    “E não causeis corrupção na terra, depois de haver sido pacificada. Igualmente, invocai-O com temor e esperança, porque Sua misericórdia está próxima dos benfeitores.” (7:56).

    “...Recordai-vos das mercês de Deus para convosco e não causeis flagelo, nem corrupção na terra.” (7:74).

    Por outro lado, Allah promete uma grande recompensa àqueles que vivem suas vidas mediante o princípio de não promover ou buscar o mal ou a corrupção. Disse Allah:

    “Destinamos a morada, no outro mundo, àqueles que não se envaidecem nem fazem corrupção na terra; e a recompensa será dos tementes.” (28:83).

    Allah deixou claro que quando as pessoas estiverem em frente a Ele, no Dia da Ressurreição, os que causaram mal na terra não serão tratados de igual maneira que os que praticaram o bem. Disse Allah:

    “Porventura, trataremos os fiéis, que praticam o bem, como os corruptores na terra? Ou então trataremos os tementes como os ignóbeis?” (38:28).

    Lamentavelmente, o que muitas pessoas advertem é que a melhor forma de se espalhar a corrupção e o mal sobre a terra é dando as costas ao que Allah nos ordenou, seguindo assim seus próprios desejos. Afastar-se de Deus e de Sua orientação corrompe a alma da pessoa, assim como a estrutura familiar, sociedade e a criação, como um todo. É necessário dar um basta e não mais eliminar a fé em Deus de nossos corações, porque isso é um pequeno passo ao comportamento imoral e a prática da injustiça. Na realidade, faz parte da legislação Divina que caso se permita a proliferação da corrupção, então, haverá males em toda a terra como advertência aos seres humanos para que modifiquem sua conduta. Por isso Allah disse:

    “A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram. E (Deus) os fará provar algo de que cometeram. Quiçá assim se abstenham disso.” (30:41).

    Infelizmente, são poucos os que se dão conta disso, pois a maioria culpa todos os males a qualquer coisa, exceto o fato de eles terem se afastado de Allah.

    Definitivamente, são os corruptos e malfeitores que sofrerão:

    “Quanto aos incrédulos, que desencaminham os demais da senda de Deus, aumentar-lhe-emos o castigo, por sua corrupção.”(16:88).

    “Que violam o pacto com Deus, depois de o terem concluído; separam o que Deus tem ordenado manter unido e fazem corrupção na terra. Estes serão desventurados.” (2:27).

    - A Justiça e a Proibição de Fazer Mal aos Outros

    A vida sobre a terra não pode florescer se não houver justiça. Por isso o chamado e a implementação da justiça são uma das características mais destacadas no Islam. Em diversas passagens do Qur’an, Allah ordena aos muçulmanos que cumpram as exigências da justiça, ainda quando estas estejam contra seus próprios interesses ou desejos. Por exemplo, Allah disse:

    “Deus manda restituir a seu dono o que vos está confiado; quando julgardes vossos semelhantes, fazei-o com eqüidade. Quão excelente é isso a que Deus vos exorta! Ele é Oniouvinte, Onividente.” (4:58).

    “Ó fiéis, sede firmes em observardes a justiça, atuando de testemunhas, por amor a Deus, ainda que o testemunho seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja o acusado rico ou pobre, porque a Deus incumbe protegê-los. Portanto, não sigais os vossos caprichos, para não serdes injustos; e se falseardes o vosso testemunho ou vos recusardes a prestá-lo, sabei que Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (4:135).

    ” Ó fiéis, sede perseverantes na causa de Deus e prestai testemunho, a bem da justiça; que o ódio aos demais não vos impulsione a serdes injustos para com eles. Sede justos, porque isso está mais próximo da piedade, e temei a Deus, porque Ele está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (5:8) .

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) demonstrou que ninguém está acima da lei e da justiça no Islam. Uma vez Usamah, que era muito próximo e querido pelo Profeta, foi convencido a tentar interceder, junto ao Profeta, sobre um castigo prescrito, e o Profeta lhe disse:

    “Acaso, Usamah, intervéns para impedir um dos castigos prescritos por Allah? Por Allah, se Fátima, a filha do Profeta, roubasse, eu mesmo cortaria sua mão.” (Bukhari).

    Portanto, a justiça deve ser paliçada a todos: ricos, pobres, jovens, velhos, amigos, inimigos, muçulmanos, não muçulmanos, e assim sucessivamente.

    Na verdade, se não fosse assim e fosse utilizado algum tipo de intermédio, não seria uma justiça verdadeira.

    O muçulmano deve ser justo com todos, amigos ou inimigos, incluindo com sua própria alma. Não é permitido que sua alma lhe cause dano, pois isso não é “liberdade”, senão uma das piores formas de injustiça. Um verdadeiro muçulmano é ordenado a ser mais que justo, deve, também, ser benevolente e tolerante. Por isso, Allah disse:

    “Deus ordena a justiça, a caridade, o auxílio aos parentes, e veda a obscenidade, o ilícito e a iniqüidade. Ele vos exorta a que mediteis.” (16:90).

    A aplicação da justiça e trabalho em prol dela são algumas das grandes responsabilidades da comunidade islâmica, coletivamente. De certa maneira os muçulmanos são testemunhas, ante o resto da humanidade, do que se trata a verdadeira religião de Allah. A este respeito, Allah disse:

    “E, deste modo, (ó muçulmanos), contribuímo-vos em uma nação de centro, para que sejais, testemunhas da humanidade, assim como o Mensageiro será para vós...” (2:143).

    Um dos significados da palavra wasat (no versículo acima traduzido como “de centro”) é justo e equilibrado, que evita os extremos que acompanham sempre a exploração e a injustiça.

    Por último, existe uma relação muito importante entre a justiça e a obediência à revelação de Allah.

    Allah é o único com imparcialidade e justiça para determinar leis que não favorecem a uma classe em detrimento de outra (em particular, a dos poderosos sobre os fracos).

    É também o único com conhecimento total que Lhe permite estabelecer leis verdadeiramente justas.

    Pode-se ter intenções sinceras, entretanto, devido à necessidade do conhecimento racional perfeito e das interações sociais humanas, corre-se o risco de invocar leis que na realidade são injustas e parciais.

    Mais um vez, se uma pessoa uma pessoa deseja uma justiça pura e intacta, não tem outra opção senão recorrer à revelação de Allah e Suas Leis. Ibn al Qaiim escreveu:

    “Allah enviou Seus mensageiros e revelou Seus Livros para que a gente pudesse viver com justiça. É a mesma justiça e o mesmo equilíbrio em que se baseiam os céus e a terra. Em todo lugar onde estejam visíveis e claros os sinais da verdadeira justiça, ali estará a Lei de Allah e Sua religião.”

    Afortunadamente, para toda a humanidade, o funcionamento do cosmos se dá segundo a justiça e a verdade de Allah e não se baseia em paixões dos seres humanos. Dessa forma Allah disse:

    “E se a verdade tivesse satisfeito os seus interesses, os céus e a terra, com tudo quanto encerram, transformar-se-iam num caos. Qual! Enviamos-lhes a Mensagem e assim mesmo a desdenharam.” (23:71).

    A justiça, que é tão essencial ao Islam, estende-se além desta vida. Em outras palavras, Allah julgará todas as pessoas da maneira mais justa e não prejudicará a ninguém, nem mesmo no mínimo que seja. Parte desta justiça inclui o fato de que nenhuma pessoa carregará o pecado de outra e ninguém será responsável pelo que esteja além de seu alcance. Sobre isso Allah disse:

    “Dize ainda: Como poderia eu adorar outro senhor que não fosse Deus, uma vez que Ele é o Senhor de todas as coisas? Nenhuma alma receberá outra recompensa que não for a merecida, e nenhum pecador arcará com culpas alheias, então, retornareis ao vosso Senhor, o Qual vos inteirará de vossas divergências.” (6:164).

    “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia. Jamais castigamos (um povo), sem antes termos enviado um mensageiro.” (17:15).

    “Deus não impõe a nenhuma alma uma carga superior às suas forças. Beneficiar-se-á com o bem quem o tiver feito e sofrerá mal quem o tiver cometido...” (2:286).

    “Que o abastado retribua isso, segundo as suas posses; quanto àquele, cujos recursos forem parcos, que retribua com aquilo com que Deus lhe agraciou. Deus não impõe a ninguém obrigação superior ao que lhe concedeu; Deus trocará a dificuldade pela facilidade.” (65:7).

    A justiça não só tem um aspecto positivo (o cumprimento e a restituição dos direitos que haviam sido violados), mas também deve ter um componente “negativo”: a proibição de prejudicar o próximo. No Islam é muito evidente o impedimento de se prejudicar o próximo. O Profeta afirmou que Allah lhe disse:

    “Ó servos Meus, é proibida para Mim a injustiça e também proibida para vós. Portanto, não vos prejudiquem uns aos outros.” (Muslim).

    Ibn Taimiyah sustenta que essa afirmação cobre toda a religião. Tudo o que Allah proibiu, de uma ou outra maneira, é um tipo de injustiça (dhulm), enquanto tudo o que foi ordenado é uma forma de justiça (adl). De fato, Allah disse:

    “Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências: e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça; e criamos o ferro, que encerra grande poder (para a guerra), além de outros benefícios para os humanos, para que Deus Se certifique de quem O secunda intimamente, a Ele e aos Seus mensageiros; Sabei que Deus é Poderoso, Fortíssimo.” (57:25).

    Portanto, foram enviados mensageiros, livros foram revelados e alcançou-se um equilíbrio para que a humanidade pudesse se estabelecer e viver com justiça. Além disso, o ferro foi criado para que pudesse ser usado em nome da verdade e justiça. O Livro guia à justiça e a espada e o ferro o apóiam.

    Existe outra relação muito importante entre justiça e Islam. Para que os seres humanos possam ser realmente justos, necessitam de algum tipo de mecanismo interno que os impulsione a fazer algo correto. É muito fácil ser parcial quando está em jogo a riqueza, a família, a comunidade e a honra. Muitos sabem reconhecer a injustiça dos demais, mas não conseguem, ou mesmo se negam, a reconhecer a própria injustiça. Nesses casos as paixões não nos permitem reconhecer a verdade. Sem dúvidas, uma vez que a verdadeira fé entra no coração da pessoa, a situação muda por completo.

    A pessoa entende que Allah quer que ela atue com justiça. Ela também sabe que Allah está inteirado de todas as suas ações e intenções, até as mais pequenas. Allah exige justiça e proibiu todas as formas de injustiça. Então, o verdadeiro crente não dará preferência a seus desejos, sua riqueza, sua nação ou o que for, sobre o que Allah exige dele em forma de justiça. Sabe que se encontrará com Allah e que quererá fazê-lo com a consciência limpa. Assim, esforçar-se-á para alcançar a justiça e aceitar somente o que esta determine.

    Muitos convertidos, hoje em dia, vêm de sociedades individualistas, onde, em muitas ocasiões, a justiça é passada para trás para servir aos interesses próprios. Isto não tem cabimento dentro do Islam. Novamente, ainda que vá contra nossos próprios interesses, um muçulmano deve sempre firmar-se e encorajar-se na verdade e justiça.

    - A Paz Verdadeira

    A luz e a orientação de Allah é o caminho para a paz verdadeira. Allah disse:

    “Ó adeptos do Livro, foi-vos apresentado o Nosso Mensageiro para mostrar-vos muito do que ocultáveis do Livro e perdoar-vos em muito. Já vos chegou de Deus uma Luz e um Livro lúcido, pelo qual Deus conduzirá aos caminhos da salvação aqueles que procurarem a Sua complacência e, por Sua vontade, tirá-los-á das trevas e os levará para a luz, encaminhando-os para a senda reta.” (5:15-16).

    De fato Allah chama os seres humanos à morada da paz eterna:

    “Onde sua prece será: Glorificado sejas, ó Deus! Aí sua mútua saudação será: Paz! E o fim de sua prece será: Louvado seja Deus, Senhor do Universo!” (10:25).

    A paz total e verdadeira só se pode ser alcançada quando as pessoas obtêm a paz interior. É a única forma de vida compatível com a natureza dos seres humanos. De fato, é o que podemos chamar “verdadeira vida”. Assim, disse Allah:

    “Ó fiéis, atendei a Deus e ao Mensageiro, quando ele vos convocar à salvação. E sabei que Deus intercede entre o homem e o seu coração, e que sereis congregados ante Ele.” (8:24).

    Conhecer a Allah é o que pode trazer a verdadeira felicidade da alma. Se a pessoa não conhece seu Criador, sua alma sempre estará sempre buscando algo que falta em sua vida. A menos que a alma e o coração estejam contentes, a pessoa nunca poderá alcançar a felicidade.

    O Profeta disse:

    “A verdadeira riqueza está na felicidade interna.” (Bukhari e Muslim).

    Também disse:

    “A verdadeira riqueza é a riqueza do coração. A verdadeira pobreza é a pobreza do coração.”

    Uma vez que o indivíduo está em paz consigo mesmo e livre de toda agitação interna, pode estabelecer relações verdadeiramente pacíficas com os demais. Isso começa com os mais próximos de sua família e se estende aos vizinhos e outras pessoas da comunidade, para eventualmente alcançar a humanidade em sua totalidade.

    Assim o Islam estabelece uma estrutura social baseada na interatividade entre as pessoas, de forma que geram uma coexistência pacífica. Os filhos reconhecem os direitos de seus pais sobre eles mesmos, por sua vez, os pais reconhecem as suas responsabilidades para com seus filhos. Os cônjuges se unem não como competidores, mas como companheiros que cooperam para criar um lugar cheio de paz e amor. De fato, Allah ressalta que esta relação - que Ele criou - como um grande sinal:

    “Entre os Seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para que com elas convivais; e colocou amor e piedade entre vós. Por certo que nisto há sinais para os sensatos.”(30:21).

    Allah estabelece leis estritas que protegem a santidade do lar, como as leis que dizem respeito ao adultério, fornicação e injúria. A razão para isso é que o lar é a verdadeira base de toda a sociedade. Dificilmente as pessoas que provêm de um lar conflitado e sem paz poderão se tornar membros positivos e pacíficos da sociedade.

    Posto que a orientação do Islam não só cobre o que se conhece tradicionalmente como “lei”, senão também o comportamento e a conduta ética; o Islam oferece uma orientação detalhada da maneira em que os membros da sociedade devem interagir entre si. Há uma grande ênfase no respeito mútuo, no que cada membro da sociedade é consciente de que é parte de uma unidade maior e que isso implica direitos e deveres. Este sentimento mútuo produz uma sociedade cheia de paz, na qual cada indivíduo cuida do bem-estar e das necessidades dos outros membros da sociedade.

    Portanto, quando se põe em prática o Islam, a pessoa encontra paz ao seu redor, tanto em si mesma, quanto na sociedade. Até mesmo a paz mundial só pode ser real através da justiça. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas se dão conta disso e declaram que “não há paz sem justiça”. (A justiça geralmente é um lema utilizado em tempos de guerra, mas normalmente não é mais que isso, um lema.)

    Entretanto, não pode haver paz verdadeira ou justiça até que as pessoas consigam superar os interesses nacionalistas, étnicos, econômicos ou políticos.

    A verdadeira justiça só pode acontecer quando as pessoas se dedicam inteiramente a Allah, aplicando Sua orientação e eliminando seus egos e paixões em suas decisões.

    Na próxima vida, desde já afirmo, a paz eterna só poderá ser alcançada crendo em Allah e seguindo Sua orientação. Novamente, Allah deixa bem claro que esse é o destino o qual os seres humanos são convidados:

    “Deus convoca à morada da paz e encaminha à senda reta quem Lhe apraz.” (10:25).

    - Uma Última Consideração

    Não é exagero advertir que todos os objetivos do Islam estão fortemente interligados e isso é algo bastante lógico. Na verdade, todos surgem da base do monoteísmo verdadeiro. Quando uma pessoa se cerca pelos ensinamentos islâmicos, liberta-se da adoração a qualquer coisa ou objeto.

    Além disso, leva uma vida, neste mundo, de uma maneira que beneficia a sociedade e a civilização. Trabalha pela justiça e se assegura que nem ele, nem os outros provoquem algum tipo de dano. No fim encontra a verdadeira paz e pode transmiti-la aos demais. Entretanto, tudo isso deve começar com a verdadeira interiorização do monoteísmo puro, naquilo que a pessoa adora e se submete – Allah e a prática, com devoção, da religião de Allah em sua vida.

    Claramente, uma vez que a pessoa entende, aceita e aplica o verdadeiro conceito do monoteísmo islâmico em sua vida, alcança-se os outros aspectos como conseqüência desta meta principal. Por outro lado, sem um monoteísmo puro, não se pode alcançar os objetivos, inclusive a níveis superficiais. Por isso, é compreensível que, na essência, todo o Qur’an trate do tauhid, ou o monoteísmo puro. O comentarista de uma das exposições mais famosas sobre teologia islâmica, al Aquidah al tahaawiyah, destacou que o Qur’an, em sua totalidade, é, na verdade, uma discussão sobre o monoteísmo puro (tauhid):

    “A maior parte dos capítulos do Qur’an trata de dois tipos de tauhid; de fato, cada capítulo do Qur’an [trata sobre tauhid]. O Qur’an cita os nomes e atributos de Allah. Esse é o tauhid que se refere ao que deve ser conhecido e é reportado. O Qur’an convida a adorá-lo, sem associá-lo companheiros [nessa adoração] e abandonando todo ídolo que não seja Ele. Esse é o tauhid da intenção ou vontade. O Qur’an ordena, proíbe ou decreta a obediência para com Ele. São aspectos essenciais do tauhid e parte de sua totalidade. O Qur’an reporta como [Allah] honra àqueles que aderem ao tauhid, o que Ele faz por estes neste mundo e o que lhes é reservado na próxima vida. Essa é a recompensa por aderir ao tauhid. O Qur’an também reporta sobre os politeístas e de como são tratados neste mundo e que tipo de castigo receberão quando chegar o fim, esse é o castigo para aqueles que abandonam os aspectos do tauhid.”


    As Características do Islam

    O monoteísmo puro

    Como já foi mencionado anteriormente, este é o principal objetivo do Islam, além de uma de suas características particulares. O Islam liberta o homem da servidão a todo e qualquer elemento da criação. Sua vida se torna clara e fácil de ser seguida. Há apenas um Senhor e um caminho a ser seguido. Nada é associado a Deus.

    Em diversas passagens do Qur’an, Allah expõe as ramificações e os efeitos da fé correta n’Ele com os efeitos das diferentes crenças incorretas. Na seguinte passagem, Allah descreve os frutos da fé correta como também os resultados de todas as falsas crenças. Disse Allah:

    “Não reparas em como Deus exemplifica? Uma boa palavra é como uma árvore nobre, cuja raiz está profundamente firme, e cujos ramos se elevam até ao céu. Frutifica em todas as estações com o beneplácito do seu Senhor. Deus fala por parábolas aos humanos para que se recordem. Por outra, há a parábola de uma palavra vil, comparada a uma árvore vil, que foi desarraigada da terra e carece de estabilidade. Deus firmará os fiéis com a palavra firme da vida terrena, tão bem como na outra vida; e deixará que os iníquos se desviem, porque procede como Lhe apraz.” (14:24-27).

    Foi narrado que Ibn Abbas disse: “a boa palavra é o testemunho que não existe nada digno de louvor, exceto Allah.”

    Este versículo demonstra que o monoteísmo puro ou a fé correta é o cimento sobre o qual se constrói todo o bem. É uma base que continua dando suporte e seus resultados são elevados.

    Esse é o caminho da fé verdadeira: beneficiar a pessoa, contínua e eternamente, nesta e na próxima vida. Além disso, quanto mais fortes e melhor apoiadas sejam as bases ou raízes, maiores serão os frutos.

    Por outro lado, as falsas crenças, como associar companheiros a Deus, não têm nenhum fundamento sólido.

    De fato, não são mais que uma ilusão no sentido de que nunca produzirão o que seus seguidores crêem ou sustentam.

    Portanto, não é um segredo, muito menos uma surpresa, que a primeira parte da missão do Profeta, segundo é provado pelas revelações que recebeu em Makkah, foi concentrada na purificação da fé. Foi dedicada a eliminar todas as formas de ignorância, superstição e falsas crenças, pois a alma humana não pode descansar se está dispersa em várias direções, perseguindo objetivos distintos. Allah descreveu, de uma bela maneira, a semelhança entre quem não enxerga que sua alma só reconhece um objeto de adoração e quem tem esta consciência:

    “Deus expõe, como exemplo, dois homens: um está a serviço de sócios antagônicos e o outro a serviço de uma só pessoa. Poderão ser equiparados? Louvado seja Deus! Porém, a maioria dos homens ignora.” (39:29).

    De uma perspectiva islâmica, não existe forma de que uma pessoa compraza a mais de um deus, pois, segundo a definição islâmica da palavra “Deus”, Deus deve ser o primeiro e principal no coração do indivíduo.

    Na realidade, quando a pessoa se dá conta de que tem apenas uma meta clara, o efeito sobre sua alma é muito profundo. Já não precisa perseguir uma grande quantidade de objetivos, sem nunca conseguir satisfazê-los ou alcançá-los completamente.

    De fato, muitas vezes as metas das pessoas são contraditórias e nunca todas podem ser alcançadas. Pode-se ter certeza que suas metas e caminhos estarão desperdiçados. Suas energias não devem ser esgotadas buscando alcançar um sem fim de metas. Quando se tem apenas uma meta, pode-se determinar com facilidade se avança até esta meta ou não. Pode-se empregar toda a sua energia e sua mente em trabalhar por alcançar esta única meta. Pode-se ter a certeza de que sua meta e seu caminho estarão definidos.

    Assim, não há razão para que se tenha dúvidas ou confusões. Logo, à medida que se aproxima mais e mais à meta, pode-se experimentar a verdadeira felicidade e gozo.

    Tudo isso é parte da beleza e o legado quando os seres humanos reconhecem, recebem e aceitam o verdadeiro monoteísmo, o único sistema de fé compatível com sua própria criação e natureza.

    A religião de Allah

    O Islam não é uma filosofia ou uma religião criada pelo homem. Seus ensinamentos vêm diretamente do Criador. É a orientação que o Criador, por Sua misericórdia, outorgou à humanidade.

    Na verdade, Deus é o único que sabe como quer ser adorado. Ele é o único que sabe que forma de viver o agrada. Os filósofos e pensadores se perguntam que tipo de vida agrada a Deus, mas na realidade os detalhes dessa vida estão além do alcance da racionalidade e da experiência humana. O que os humanos declaram, independentemente da revelação de Deus, como o melhor modo de adorar a Deus, não necessariamente é o que mais agrada a Deus senão o que mais agrada à pessoa que estabeleceu as regras. Assim, só Deus conhece, por exemplo, a maneira a qual devemos rezar para Ele.

    Por haver apenas uma forma de vida que Deus aprova, esta também será a única aceita por Ele no final. Dois versículos do Qur’an foram escolhidos para assinalar esta conclusão:

    “Para Deus a religião é o Islam. E os adeptos do Livro só discordaram por inveja, depois que a verdade lhes foi revelada. Porém, quem nega os versículos de Deus, saiba que Deus é Destro em ajustar contas.” (3:19).

    “E quem quer que almeje (impingir) outra religião, que não seja o Islam, (aquela) jamais será aceita e, no outro mundo, essa pessoa contar-se-á entre os desventurados.” (3:85).

    Deve-se insistir neste ponto constantemente.

    A pergunta principal deve ser: O que é aceitável e compraz a Allah? Ninguém pode afirmar seriamente com uma prova real que algum caminho divergente ao que Allah estabeleceu com Sua orientação seja de Seu agrado. Tal afirmação seria absurda e infundada.

    Integralidade

    O Islam é integral de muitas maneiras. É completo no sentido de que se aplica a todos os seres humanos e é aplicável por todos, sendo o local e época irrelevantes. O Islam ou submissão a Deus é a verdadeira forma de vida desde os primeiros seres humanos até o último que pise nesta terra. Além disso, o Islam é para todas as classes de pessoas. O Islam é tão relevante para o cientista de renome quanto para o beduíno mais analfabeto. Allah falou sobre o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós” (7:158).

    “E não te enviamos, senão como universal (Mensageiro), alvissareiro e admoestador para os humanos; porém, a maioria dos humanos o ignora.” (34:28).

    Entre os seguidores do Profeta havia ricos e pobres, nobres e humildes, letrados e analfabetos. Todos eles podiam aplicar o Islam e assim, pela vontade de Allah, ganhar a complacência d’Ele.

    O Islam também engloba esta vida e a próxima, não é uma religião que só se ocupa da outra vida. O Islam também oferece uma orientação prática e completa para os assuntos deste mundo. Como foi dito, uma das metas do Islam é estabelecer uma sociedade sólida e correta nesta vida. E quanto à próxima vida, o benefício da mesma depende completamente do Islam e de como foi trabalhado para chegar lá da maneira correta.

    Allah pode dar a qualquer um alguns dos bens deste mundo, mas reserva o bem da próxima vida apenas para aqueles que são crentes devotos. Allah disse:

    “Quanto àqueles que preferem a vida terrena e seus encantos, far-lhes-emos desfrutar de suas obras, durante ela, e sem diminuição. Serão aqueles que não obterão na vida futura senão o fogo infernal; e tudo quanto tiverem feito aqui tornar-se-á sem efeito e será vão tudo quanto fizerem.” (11:15-16).

    “A quem quiser as coisas transitórias (deste mundo), atendê-lo-emos ao inferno, em que entrará vituperado, rejeitado. Aqueles que anelarem a outra vida e se esforçarem para obtê-la, e forem fiéis, terão os seus esforços retribuídos. Tanto a estes como àqueles agraciamos com as dádivas do teu Senhor; porque as dádivas do teu Senhor jamais foram negadas a alguém.” (17:18-20).

    O Islam também se encarrega de todos os pormenores do ser humano. Ocupa-se do espírito, intelecto, corpo, fé, ações e moral. Protege o ser humano das enfermidades do coração como também das enfermidades do corpo e da sociedade em sua totalidade.

    Assim, pode-se encontrar ajuda sobre a enfermidade da arrogância, que aparece no coração; sobre como fazer com que os seres humanos comam e bebam sem extravagâncias e como afastá-los da corrupção e enfermidades sociais como adultério e outras.

    Na essência, o Islam orienta os seres humanos a uma vida equilibrada, onde não se ignora nenhuma particularidade. Pelo contrário, cada detalhe recebe toda a atenção que merece.

    O Islam também é integral no sentido que envolve todos os aspectos da vida de uma pessoa, desde os rituais de adoração ao comportamento moral, passando pelas relações comerciais e governamentais.

    Nada, pela graça e misericórdia de Allah, tem sido deixado de lado.

    Não há razão para que alguém se sinta perdido, em qualquer área de sua vida. Não importa qual seja o assunto, encontrará algo que o guie.

    O novo muçulmano deve aceitar o Islam em sua integralidade. Não está livre para escolher qual aspecto do Islam o favorece ou não. Com respeito a este comportamento, Allah disse:

    “Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra?” (2:85).

    Por exemplo, não se pode restringir seu Islam simplesmente a crer e realizar atos de adoração, rechaçando o que o Islam diz sobre o matrimonio, comércio, bebidas alcoólicas e drogas.

    Sim, é certo que não se pode esperar que uma pessoa se converta em um muçulmano perfeito da noite para o dia. Sem dúvidas, o assunto principal é a meta, a compreensão e a aceitação no coração da totalidade do Islam.

    A beleza e consistência da integralidade do Islam é outro sinal de que esta religião foi revelada por Allah. É impossível que os seres humanos, inclusive organizados em grupos, abranjam todos os detalhes desta criação de tal maneira que possam dar uma orientação integral para cada aspecto da vida. A esse respeito, Sayid Qutb escreveu:

    “Quando um ser humano tenta construir um conceito metafísico ou um sistema de vida através de seus próprios meios, este conceito ou sistema não pode ser integral. Só será válido parcialmente, para um momento e lugar, mas não para os outros momentos e lugares e será apropriado para certas circunstâncias, porém não para outras. Além disso, incluindo ao enfrentar um simples problema, é incapaz de abordá-lo de todos os pontos de vista possíveis e de considerar todas as conseqüências da solução proposta, pois, todo problema se estende no espaço e tempo e está conectado com precedentes e antecedentes que vão além do âmbito de observação e compreensão dos seres humanos.

    Portanto, concluímos que nenhuma filosofia ou sistema de vida produzido pelo pensamento humano pode ter as características da “integralidade”. Em suma, poderá cobrir um segmento da vida humana e ser válido por certo período de tempo. Devido a seu alcance limitado, sempre será deficiente em muitos aspectos e devido a seu caráter temporal, está destinado a causar problemas que requerem modificações e mudanças na filosofia ou sistema de vida original. Os povos e nações que baseiam seus sistemas econômicos, políticos e sociais em filosofias humanas se enfrentam constantemente em contradições e dialéticas.”

    Ter em conta o bem-estar deste mundo e do próximo

    Como disse antes, o Islam não é uma religião que se ocupa somente da próxima vida ou do que habitualmente se conhece com o “lado espiritual” da vida.

    A mudança promove o bem-estar dos seres humanos tanto neste mundo como no próximo. Por isso, disse Allah:

    “A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for fiel, concederemos uma vida agradável e premiaremos com uma recompensa, de acordo com a melhor das ações.” (16:97).

    Muitos sábios analisam a Lei Islâmica em sua totalidade e afirmam que a Lei está desenhada para alcançar metas específicas neste mundo (além dos objetivos óbvios da próxima vida). Pode-se dividir os “desejos” e “necessidades” deste mundo em três categorias: necessidades básicas, necessidades secundárias e comodidades. As necessidades básicas são aqueles elementos da vida que são requeridos para que se leve uma vida digna.

    Em outras palavras, sem elas nos sentiríamos miseráveis. Depois das necessidades básicas vêm as necessidades secundárias que tornam a vida mais suportável, ainda que seja possível viver sem elas. E então, vêm as comodidades que fazem a vida mais cômoda e desfrutável.

    A Lei Islâmica, vinda do Criador, identifica e enfatiza quais são as verdadeiras necessidades básicas da vida. Quando se estudam as leis do Islam e a sabedoria por trás das mesmas, descobre-se que foram criadas para estabelecer, proteger, reforçar e perpetuar estas necessidades básicas. Logo que isso tudo esteja realmente garantido e estabelecido, a lei busca satisfazer as necessidades secundárias da vida. E, depois de considerar as necessidades básicas e secundárias devidamente, então a lei procura brindar comodidades para fazer a vida mais fácil para a humanidade.

    Por razão de espaço, não se discutirão detalhadamente estas três categorias. Portanto, só daremos uma vista geral às cinco necessidades básicas da vida identificadas através da Lei Islâmica.

    As necessidades básicas, segundo é estabelecido na Lei Islâmica, são:

    (1) a religião,

    (2) a vida,

    (3) os laços e relações familiares,

    (4) a saúde mental e (%) a riqueza e as posses.

    Em uma eloquente passagem, o que é representativo do estilo do Qur’an, Allah cita todas as metas da Lei Islâmica:

    “Dize (ainda mais): Vinde, para que eu vos prescreva o que vosso Senhor vos vedou: Não Lhe atribuais parceiros; tratai com benevolência vossos pais; não sejais filicidas[1], por temor á miséria - Nós vos sustentaremos, tão bem quanto aos vossos filhos; não vos aproximeis das obscenidades, tanto pública, como privadamente, e não mateis, senão legitimamente, o que Deus proibiu matar. Eis o que Ele vos prescreve, para que raciocineis. Não disponhais do patrimônio do órfão senão da melhor forma possível, até que chegue á puberdade; sede leais na medida e no peso - jamais destinamos a ninguém carga maior á que pode suportar. Quando sentenciardes, sede justos, ainda que se trate de um parente carnal, e cumpri os vossos compromissos para com Deus. Eis aqui o que Ele vos prescreve, para que mediteis. E (o Senhor ordenou-vos, ao dizer): Esta é a Minha senda reta. Segui-a e não sigais as demais, para que estas não vos desviem da Sua. Eis o que Ele vos prescreve, para que O temais.” (6:151-153).

    A mais importante destas metas é a religião. De um ponto de vista islâmico, se as pessoas não têm religião e uma relação sólida com seu Senhor, não chegarão a ter uma vida sã.

    Portanto, espera-se que as pessoas se esforcem para levar uma vida sã, tanto individual quanto coletivamente, pondo Allah acima de seus próprios interesses e inclusive de seu próprio ser. De fato, disse Allah:

    “Pode, acaso, equiparar-se aquele que estava morto e o reanimamos á vida, guiando-o para a luz, para conduzir-se entre as pessoas, àquele que vagueia nas trevas, das quais não poderá sair? Assim foram abrilhantadas as ações aos incrédulos.” (6:122).

    Muitas das leis do Islam estão desenhadas, obviamente, para a conservação desta meta máxima. Por exemplo, o estabelecimento da oração em congregação e, após, a continuidade da vida normal. Assim, a lei de retribuição (lei de Talião) e a pena de morte são parte da legislação islâmica. Estas leis não estão ali simplesmente para castigar. Ditas leis, na realidade, têm como objetivo proteger a vida, como disse Allah:

    “Tendes, no talião, a segurança da vida, ó sensatos, para que vos refreeis.” (2:179).

    Com respeito aos laços familiares, foram mencionadas as leis sobre adultério, fornicação e calúnia. Quanto à proteção à riqueza, vemos que sob condições específicas, a mão do ladrão deve ser amputada.

    A proibição dos “resíduos” da riqueza, a extravagância e os juros, tem como finalidade conservá-la de maneira adequada. Sobre a proteção da capacidade mental, proibi-se toda substância embriagante e foram estabelecidos severos castigos por se violar esta lei.

    - Facilidade e ausência de dificuldade na Lei

    Um dos aspectos mais claros da Lei Islâmica é o objetivo de trazer facilidades aos seres humanos e evitar a dificuldade, uma vez que os resultados são positivos para todos.

    Portanto, não é um objetivo independente das outras metas, como a piedade, a justiça, a equidade, o equilíbrio e outras.

    Dentro do contexto de satisfação destas metas, Allah, em Sua Misericórdia e Sabedoria, estabeleceu uma lei para os seres humanos, o que lhes brinda facilidade e livra de dificuldades sem justificativas.

    São muitos os versículos do Qur’an que assinalam esta importante característica do Islam. Por exemplo, disse Allah:

    “Deus não impõe a nenhuma alma uma carga superior às suas forças...” (2:286).

    Isso é parte da grande misericórdia de Allah, pois ninguém pode dizer que Allah impõe aos seres humanos ações que estão além de suas capacidades. Allah também disse:

    “... Deus vos deseja a comodidade e não a dificuldade... e glorificai a Deus por ter-vos orientado, a fim de que (Lhe) agradeçais” (2:185).

    “Deus não deseja impor-vos carga alguma; porém, se quer purificar-vos e agraciar-vos, é para que Lhe agradeçais.” (5:6).

    “E combatei com denodo pela causa de Deus; Ele vos elegeu. E não vos impôs dificuldade alguma na religião, porque é o credo de vosso pai, Abraão...” (22:78).

    Allah enviou o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) como um sinal de misericórdia para toda a humanidade, como já foi dito aqui. Parte de sua função é relaxar algumas das leis dos povos anteriores devido a sua severidade ou porque haviam sido estabelecidas por seus próprios governantes e líderes religiosos.

    Assim, Allah descreve o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) da seguinte maneira:

    “São aqueles que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, o qual encontram mencionado em sua Tora e no Evangelho, o qual lhes recomenda o bem e que proíbe o ilícito, prescreve-lhes todo o bem e veda-lhes o imundo, alivia-os dos seus fardos e livra-os dos grilhões que o deprimem. Aqueles que nele creram, honraram-no, defenderam-no e seguiram a Luz que com ele foi enviada, são os bem-aventurados.” (7:157).

    Portanto, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “Não fui enviado com o judaísmo ou o cristianismo, senão com o verdadeiro monoteísmo e a religião fácil.” (Ahmad).

    Este princípio de facilidade e eliminação da dificuldade é evidente ao longo de muitas ramificações da Lei Islâmica. Inclusive, a conversão ao Islam não exige nenhum tipo de doutrinamento ou cerimônia. De fato, nem  requer a aprovação nem supervisão de ninguém.

    Com relação aos atos de adoração, existem diversas regras que demonstram este princípio. Por exemplo, não é obrigatório que uma pessoa realize a peregrinação à Makkah se não tem os meios para fazê-la, quer dizer, caso cause alguma dificuldade financeira muito grande.

    O viajante pode reduzir e combinar suas orações para aliviar a carga – mas deve rezar de qualquer forma, pois é algo benéfico para ele. Com respeito ao jejum do Ramadan, os que viajam ou estão doentes podem adiar seu jejum e recuperar os dias depois de terminado o mês. Os que correm risco de vida ou inanição podem comer alimentos que normalmente estão proibidos, como o porco. O arrependimento também é de grande importância.

    No Islam, o arrependimento nunca implica ir a um sacerdote e pedir perdão pelos pecados. É meramente voltar-se com fé a Allah e tentar reparar qualquer dano que tenha sido causado.

    Para o novo muçulmano, é importante estar atento ao fato de que a permissividade em certas leis, sob certas circunstâncias, não abre a porta para que o mesmo relaxe com o cumprimento de qualquer outra lei, apenas porque a religião proporciona esta facilidade.

    Ditas leis devem estar baseadas no Qur’an e na Sunnah e serão conhecidas pelos que tenham conhecimento. Além disso, como foi mencionado em uma nota, essas brechas na legislação se referem às dificuldades ou esforços sem justificativa.

    O esforço ou “dificuldade” requerido para realizar cinco orações diárias, jejuar um mês inteiro e outras, está, em geral, dentro das possibilidades da maioria das pessoas e os grandes benefícios que produzem valem qualquer esforço.

    - Uma forte relação entre o Criador e o ser criado

    As metas e ensinamentos do Islam vão além de qualquer assunto legal deste mundo. O Islam busca criar certo tipo de indivíduo, um indivíduo que tenha uma forte e adequada relação com Allah. Há vários pontos importantes relacionados com esta característica.

    Primeiro, no islam, o muçulmano tem uma relação direta com Allah. Allah disse:

    “Quando Meus servos te perguntarem de Mim, dize-lhes que estou próximo e ouvirei o rogo do suplicante quando a Mim se dirigir. Que atendam o Meu apelo e que creiam em Mim, a fim de que se encaminhem.” (2:186).

    “E o vosso Senhor disse: Invocai-Me, que vos atenderei! Em verdade, aqueles que se ensoberbecerem, ao Me invocarem, entrarão, humilhados, no inferno.” (40:60).

    Portanto, não existe nenhuma classe sacerdotal no Islam. A pessoa ora diretamente a Deus, sem nenhum intermediário.

    Quando um muçulmano busca o perdão, busca diretamente de Deus, sem que nenhum ser humano lhe diga se seu arrependimento é suficiente ou se será aceito por Deus.

    Quando um muçulmano necessita algo, recorre diretamente a Deus, sem que tenha que depositar sua confiança em outro que não seja Ele. Quando um muçulmano quer ler a revelação e orientação de Deus, lê o Qur’an e a Sunnah, podendo lê-los ele próprio.

    Não é necessário recorrer a semideuses ou clero. Tudo ocorre entre a pessoa e seu Senhor. Esta relação direta com Allah dá muita segurança e confiança.

    Não existe ninguém, afora Allah, a quem a pessoa adore e ninguém que possa interferir nesta adoração a Allah.

    De qualquer forma, Allah está disponível e o indivíduo pode recorrer a Ele em qualquer momento para pedir-lhe ajuda, orientação ou perdão.

    Esta relação direta com Allah se estende a todos os atos praticados pela pessoa.

    O muçulmano sabe que Allah não somente vê suas ações exteriores, como também está totalmente inteirado de todas as intenções e sentimentos que há em seu coração.

    Por isso, devido a esta relação direta com Allah, o muçulmano tenta realizar todos os atos com o intuito de agradar a Allah.

    Desta maneira, a atividade mais mundana pode se converter em um ato que agrade a Deus, caso seja feito com as condições corretas do coração.

    O muçulmano começa seu dia através de sua relação próxima com seu Senhor, assegurando-se de que realiza atos que são permissíveis ante o Senhor.

    Esse é o objetivo e a intenção do muçulmano, pois este é consciente disto e sabe que compraz a Allah mesmo com a mais simples das ações. Assim, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Tudo o que for gasto em nome de Allah será recompensado, ainda que seja um bocado que ponhas na boca de sua esposa.” (Bukhari).

    Quando a pessoa entende este conceito da sua proximidade com Deus e a capacidade de transformar as atividades mundanas em atos que agradem a Deus, mudam por completo seu ponto de vista e comportamento.

    Começa-se a realizar cada ato de forma diferente, consciente de que o faz em nome de Deus. Lamentavelmente, muitas pessoas neste mundo se esquecem, por completo, deste ponto.

    Em seu livro Madaariy as Saalikin, Ibn Qaiim disse:

    “O grupo mais seleto de pessoas que se aproximam de Allah são aquelas que mudam a natureza de seus atos permitidos, convertendo-os em atos de obediência a Allah... As ações cotidianas daquelas pessoas que verdadeiramente conhecem a Allah são (para elas) atos de adoração, enquanto que os atos de adoração são ações cotidianas para as massas.”

    O que é dito é muito certo. Desafortunadamente, muitas pessoas encaram as orações, o jejum e outros atos de adoração como simples ações cotidianas que devem ser feitas apenas por serem parte da cultura ou da forma de vida. Não têm uma intenção forte em seu coração ou um sentimento que estão a fazê-lo por Allah. Se a qualidade do ato é pobre, não lhes interessa muito porque o fazem apenas para se livrarem dele.

    Assim, esses importantes rituais de adoração se transformam em costumes sem nenhum significado ou efeito para estas pessoas. Aquele que verdadeiramente conhece a Allah está no extremo oposto. Incluindo a mais “mundana” das ações que realiza está cheia de intenção e vontade. Dessa maneira, converte-se em ato de adoração que agrada a Allah. Por exemplo, quando uma pessoa vai dormir e o faz com a intenção de recuperar as energias para continuar trabalhando por Allah. Assim, seu sono se converte em um ato de adoração a Allah.

    Na realidade, pode-se levar este assunto a um passo além. Disse Allah, no Qur’an:

    “Ele está sempre atendendo aos assuntos de Sua criação.” (55:29).

    Em outras palavras, a todo o momento Allah está criando, distribuindo, provendo, dando vida e morte, etc. sem dúvida, em geral, o indivíduo não vê a Allah por trás dessas ações que o rodeiam.

    A pessoa, hoje em dia, perdeu a sensibilidade e crê que todas essas coisas acontecem por sua causa ou por alguma lei independente da natureza. Isso, na realidade, não está certo. Essas “leis da natureza” não são mais que a atividade de Allah em todo lugar ou tempo.

    Em muitas passagens do Qur’an, Allah pede aos seres humanos que observem o cosmos que os rodeia.

    Por exemplo, Allah menciona a pequena abelha ou o movimento das sombras.

    Muhammad Qutb sustenta que o objetivo de Allah não é dar uma lição sobre estes pontos. Estão ali apenas para despertar o ser humano e fazê-lo entender sobre o que realmente acontece e unir seu coração e suas atividades cotidianas ao seu Senhor e Criador. Qutb disse:

    “a concentração da humanidade na causa aparente distrai as pessoas de ver a realidade maior por trás: a vontade de Allah que, se diz a algo “Sê”, assim é. Ignoram esta vontade maior e denominam “leis da natureza” às leis [de Allah] e dizem que são fixas e inevitáveis. Ficam estupefatos com essas experiências limitadas e, portanto, Allah se afasta de seus corações. E, então, é quando trazemos a expressão qu'rânica “trazendo-os novamente a Allah”... a ciência nos diz, baseada nas causas externas que observamos, que a existência do sol e a rotação da terra ao seu redor são a causa do “movimento” das sombras. Mas a expressão qu'rânica nos diz que é a vontade de Allah que move as sombras, em primeiro lugar e logo o sol é localizado como uma orientação para a sombra. Assim, a causa aparente não é a fonte original, senão que vem depois... De fato, vem depois, através da palavra “então”, depois que Allah já havia decidido sobre aquele assunto, mediante Sua vontade, ordenando a algo que fosse.”

    De fato, afirma Qutb, o resultado deste enfoque qu'rânico é muito claro. Na realidade, o conhecimento que se tem, por exemplo da abelha ou da sombra, não muda ao se ler os versículos do Qur’an, naqueles trechos que Allah os menciona. O conhecimento próprio não muda, mas sim, muda a pessoa, afirma Qutb. Assim ele escreveu:

    “Acaso a informação que vocês têm sobre as sombras ou as abelhas muda quando lêem estes versículos? A informação em si não é nova. Já era conhecida de antemão. Sem dúvidas, era um conhecimento morto, frio, inerte, uma informação que não comovia. Mas, o Qur’an traz esta informação e apresenta-a em um entorno emotivo, de forma milagrosa e de tal maneira que muda a perspectiva da pessoa como se não fosse o que já conhecíamos anteriormente. A informação não mudou, senão nós fomos os que mudamos...”

    Para o novo muçulmano, esta pode ser uma maneira totalmente nova de ver o mundo e fazer alguns ajustes. Muitos não muçulmanos não vêem a participação de Deus neste mundo e, portanto, não sentem uma relação direta com Deus.

    À medida que o novo muçulmano analisa mais profundamente o Qur’an esse sentimento se desenvolve mais. Verá a obra de Allah em tudo que o rodeia. Isto o fará recordar de Allah, então ele não mais ignorará a obrigação que tem para com Ele. Com a graça de Deus, levará sua vida de forma muito diferente à que levava antes de sua conversão ao Islam.

    - Ordenar o bem e erradicar o mal

    O Islam não é uma religião onde se purifica a alma ao mesmo tempo em que se ignora ou deixa de ajudar aos que também possam estar no caminho da purificação.

    Como se tratará adiante, o Islam destaca a relação adequada entre os diferentes agentes da sociedade. Uma das interações mais importantes entre os indivíduos é a de ordenar ou fomentar o bem e proibir ou evitar o mal.

    É parte da verdadeira irmandade, querer ajudar os outros a fazer o correto. Também é definitivamente parte da irmandade, corrigir ou aconselhar aqueles que fazem algo que não agrade a Allah.

    Assim, no Qur’an, Allah relaciona o conceito de irmandade verdadeira, amizade e ajuda mútua diretamente ao princípio de se ordenar o bem e proibir o mal. Allah disse:

    “Os fiéis e as fiéis são protetores uns dos outros; recomendam o bem, proíbem o ilícito, praticam a oração, pagam o zakat, e obedecem a Deus e ao Seu Mensageiro. Deus Se compadecerá deles porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.” (9:71).

    “... auxiliai-vos na virtude e na piedade. Não vos auxilieis mutuamente no pecado e na hostilidade, mas temei a Deus, porque Deus é severíssimo no castigo.” (5:2).

    De fato, Allah deixa claro que fomentar o bem e evitar o mal deve ser uma das características sobressalentes de toda a comunidade islâmica no mundo:

    “Sois a melhor nação que surgiu na humanidade, porque recomendais o bem, proibis o ilícito e credes em Deus...” (3:110).

    Não se trata de uma “forma opcional” de comportamento. É parte necessária da fé e da atitude da pessoa. É parte fundamental do que implica pertencer a uma comunidade. Um indivíduo tem direitos sobre os outros como também obrigações para com eles.

    Cuidar do próximo e ajudar uns aos outros é essencial, especialmente para aqueles que estão em posição de autoridade ou cujas vozes são ouvidas. Por isso o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) informou aos muçulmanos:

    “Por Aquele em cujas mãos está minha alma, devem ordenar o bem e proibir o mal ou Allah vos enviará um castigo imediato, então, supliquem-No e Ele responderá.”

    Em uma bela parábola registrada por al Bukhari, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mostrou a importância desta prática para a sociedade como um todo:

    “A semelhança daquele que cumpre o mandamento de Allah [erradicando mal] e daquele que cai no que Allah proibiu é como pessoas em um barco. Alguns tomaram os assentos do nível superior e outros permaneceram na parte inferior. Cada vez que os que estavam embaixo queriam água tinham que recorrer aos que estavam em cima para buscá-la. Então, disseram: ‘se fizéssemos um furo no fundo do barco não teríamos que perturbar os que estão em cima’. Entretanto se os de cima deixassem que fosse feito o que queriam, todos estariam perdidos. De outra forma, se os impedissem com suas mãos [de fazer o que planejavam], salvariam a todos e assim se salvaram.”

    Muitas vezes as pessoas querem se afastar do mal, mas precisam de ajuda para fazê-lo. Necessitam verdadeiros amigos que cumpram a função de grupo de apoio.

    Algumas pessoas não têm força suficiente para se afastar das atividades as quais sabem que são más, especialmente se há pressão de seus parceiros para praticá-las.

    Com a ajuda de outros que entendam esse tipo de situação e que realmente queiram fazer o correto, então, é mais fácil reunir a coragem para apontar as más atividades. Da mesma forma, há quem seja preguiçoso e, por isso, falte-lhe motivação para fazer o que deve ser feito.

    Novamente, com a ajuda sincera ou o alento dos que a rodeiam, a pessoa encontra força para tal.

    Se as pessoas fossem individualistas e só se preocupassem consigo mesmas, sem ajudar os demais, seria um verdadeiro desastre social. Os que fazem mal dominariam e acossariam os outros. De fato, muitos bairros norte-americanos, por exemplo, conscientizaram-se que teriam que se unir para proporcionar coisas boas e eliminar as ruins, do contrário, suas regiões acabariam sendo destruídas por vândalos.

    Obviamente, ninguém está livre de pecado e, portanto, este princípio de fomentar o bem e evitar o mal não significa que a pessoa tenha que ser perfeita antes de falar aos demais sobre o comportamento deles. com certeza, fomentar o bem e proibir o mal, logicamente, deveria começar consigo próprio.

    A pessoa deve praticar o bem e evitar o mal. Dessa maneira, damos um exemplo aos demais e aumentamos as possibilidades de que nossos conselhos sejam levados em conta. Não obstante, mesmo que uma pessoa tenha defeitos, deve incentivar que o outros pratiquem o bem e desestimular que pratiquem o mal.

    Cabe destacar que existem várias condições para colocar em prática o ato de fomentar o bem e proibir o mal. Por exemplo, uma condição é que se deva conhecer o que é bom e o que é mal, segundo o Qur’an e a Sunnah. É possível que alguém, por ignorância, incentive o outro a fazer algo que na realidade não é parte da Sunnah.

    Para o novo muçulmano em particular, é possível que em repetidas ocasiões digam-lhe o que fazer ou não fazer.

    Muitas vezes estes conselhos vêm de outros muçulmanos que podem exagerar ou que não têm tato para se dirigir ao recém convertido. Muitas vezes as dificuldades linguísticas atrapalham a compreensão de um novo muçulmano.

    É importante que um recém convertido esteja atento ao fato de que, em geral, seu irmão muçulmano não tem más intenções, nem quer humilhá-lo ou causar qualquer dano.

    Pelo contrário, simplesmente pode estar tentando ensiná-lo o Islam e alertá-lo a fazer o que é bom. Se um novo muçulmano se sente frustrado com esses episódios, deve recordar-se que os demais atuam por amor e que apenas desejam o bem para seu novo irmão no Islam.

    - Honrar o ser humano

    Não há dúvidas que, no esquema que Allah traçou para esta criação, os seres humanos recebem muitos dons e aptidões especiais que os distingue de outras criaturas. Assim, Allah disse no Qur’an:

    “Enobrecemos os filhos de Adão e os conduzimos pela terra e pelo mar; agraciamo-los com todo o bem, e preferimos enormemente sobre a maior parte de tudo quanto criamos.” (17:70).

    Esta preferência não é resultado de uma forma aleatória de “evolução”, senão a determinação intencional do Criador.

    Através da orientação divina, pode-se compreender plenamente as diferentes formas nas quais os seres humanos têm sido honrados pelo Senhor.

    Através da revelação de Allah, descobre-se que os seres humanos não estão em guerra contra a “natureza” que necessita ser conquistada. Também, aprende-se que os seres humanos não são meramente “primos dos símios”, sem ter nenhum propósito ou mérito nesta vida.

    Aprende-se também que esta criação não é “inteiramente maligna”, nem que se nasce com o “pecado original” que não pode ser eliminado a não ser pelo sacrifício de outro ser. Inicia-se com pontos como estes e não há que se surpreender ao perceber que o valor dos seres humanos se reduz a praticamente nada.

    Também não é surpresa que os seres humanos são utilizados como simples ferramentas para o benefício econômico. De fato, nem sequer há de se surpreender ao constatar que milhares de seres humanos são mortos para a obtenção de benefícios econômicos e recursos naturais.

    Depois disso tudo, vendo por esta perspectiva, por que os seres humanos deveriam ser tratados de uma maneira diferentes dos animais que são explorados, assassinados e destruídos? Na verdade, é através da revelação de Allah que se atinge a plenitude do valor humano.

    Na realidade, Allah dotou os seres humanos de grande responsabilidade, através da qual podem alcançar a maior de todas as recompensas.

    Allah honrou os seres humanos revelando livros específicos com o intuito de guiá-los.

    Allah escolheu mensageiros e profetas entre os seres humanos, conferindo-lhes a nobre tarefa de transmitir a orientação de Allah a toda a humanidade. Allah também há submetido tudo o que existe nos céus e na terra às necessidades dos seres humanos:

    “E vos submeteu tudo quanto existe nos céus e na terra, pois tudo d’Ele emana. Em verdade, nisto há sinais para os que meditam.” (45:13).

    Alem disso, também proporcionou os seres humanos a oportunidade de se converterem em Seus servos devotos, mártires de Sua causa e estudiosos de Sua religião, dando-lhes uma nobreza e honra especiais.

    Estas grandes conquistas estão disponíveis a homens e mulheres, por igual. Assim, Allah diz no Qur’an, como exemplo:

    “Seu Senhor nos atendeu, dizendo: Jamais desmerecerei a obra de qualquer um de vós, seja homem ou mulher, porque procedeis uns dos outros. Quanto àqueles que foram expulsos dos seus lares e migraram, e sofreram pela Minha causa, combateram e foram mortos, absolvê-los-ei dos seus pecados e os introduzirei em jardins, abaixo dos quais correm os rios, como recompensa de Deus. Sabei que Deus possui a melhor das recompensas.” (3:195).

    “A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for fiel, concederemos uma vida agradável e premiaremos com uma recompensa, de acordo com a melhor das ações.” (16:97).

    De fato, a única diferença real entre as pessoas não tem relação com o sexo, etnia, raça, riqueza, beleza ou classe social.

    Todos esses elementos são falsas maneiras de se avaliar os seres humanos. Ditos paradigmas, com certeza, não fazem mais que denegrir a essência do ser humano. O único estandarte real que mensura o valor do ser humano é a sua relação com seu Senhor. Assim, Allah disse:

    “Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado.” (49:13).

    Hoje em dia, ouve-se falar muito sobre os direitos humanos. Parece ser uma tentativa de tratar os seres humanos de uma maneira mais digna e respeitável. Sem dúvidas, o maior problema dos direitos humanos é que não se dá a Allah o papel apropriado na relação humana.

    Pelo contrário, os seres humanos se convertem praticamente no objeto máximo de adoração – e os “direitos” destes adquirem preponderância sobre todo o resto, inclusive os direitos de Allah. De fato, muito do que se diz sobre os direitos humanos não é mais que isentá-los da adoração a Allah.

    Essa não é a forma mais adequada de honrar os seres humanos. Obviamente, é um tipo de extremismo. Toda vez que algo se torna magnífico e aumenta de proporção e são dados responsabilidades ou direitos que estão acima do que se pode tolerar, então, o resultado é prejudicial e doloroso.

    Os seres humanos não podem atuar num papel em que se lhes dá opção de escolher por si mesmos, incluindo os direitos que devem ter uns sobre os outros. Esse tipo de assunto só pode ser decidido pelo Criador, que conhece todos os detalhes mais profundos de Sua criação e das interações com o resto desta.

    Na Lei de Allah, pela Sua misericórdia, Ele deu aos seres humanos todos os direitos que necessitam e merecem, que apenas Ele poderia determinar, baseado em Seu conhecimento e justiça.

    Os seres humanos recebem de Allah os direitos que necessitam para viver uma vida próspera e feliz. Sem dúvidas, ao mesmo tempo, também recebem responsabilidades.

    Direitos e responsabilidades são combinados para que os seres humanos interajam entre si de maneira adequada nesta criação.

    Não obstante, o maior inconveniente dos defensores dos direitos humanos é que só podem tratar dos direitos relativos a este mundo. Desta forma, esquecem do direito mais importante porque está além do âmbito da experiência humana. É o direito que o Islam ensina, seu direito especial sobre Allah. Este direito é mencionado no seguinte hadith:

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Ó Muaadh!” Muaadh respondeu: “Às tuas ordens, Ó Mensageiro de Allah.” O Profeta perguntou: “Sabes qual o direito que Allah tem sobre Seus servos?” Muaadh respondeu: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta disse: “O direito de Allah sobre seus servos é que devem adorá-Lo [somente a Ele] e não associá-Lo a nenhum companheiro.” Depois de um tempo, o Profeta disse: “Ó Muaadh Ibn Jabal!” Ele respondeu: “Às tuas ordens, Ó Mensageiro de Allah!” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) perguntou: “Sabes qual é o direito que os servos têm sobre Allah, se assim o cumprem [cumprem com o mandamento de Allah]?” Ele respondeu: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta disse: “O direito dos servos sobre Allah é que Ele não os castigará.” (Bukhari e Muslim).

    Converter-se Muçulmano

    Pela graça de Allah, Ele abriu Sua religião a todos os que queiram entrar nela.

    Praticamente não existem obstáculos para se converter muçulmano.

    Para adotar o Islam, não há necessidade de clero, batismos nem cerimônias especiais. De fato, o ato de se converter ao Islam é uma simples declaração de fé.

    Assim, basta que se diga:

    “Atesto que não existe nada digno de louvor exceto Allah e atesto que Muhammad é mensageiro de Allah.”

    Ao pronunciar essas palavras, a pessoa entra na bela irmandade islâmica, uma irmandade que inclui todos os tempos, desde Adão até os últimos dias deste mundo.

    Neste capítulo, haverá uma discussão sobre alguns dos detalhes do testemunho da fé. Ademais, analisarei também outros atos que são mencionados em relação à conversão do muçulmano. Logo, seguirão algumas leis relacionadas com o estado da pessoa antes de se converter muçulmano.

    O testemunho de fé: Não existe nada digno de louvor exceto Allah

    Um indivíduo se converte muçulmano testemunhando sobre a verdade de duas afirmações: Não existe nada digno de louvor afora Allah e Muhammad é o mensageiro de Allah. Dado que é um testemunho sobre a verdade de algo, deve ser uma “proclamação pública” (em outras palavras, não algo oculto dentro de si que não se anuncie aos demais). O sábio Ibn Abu al Izz escreveu o seguinte:

    [O Profeta] Deixou totalmente claro que uma pessoa não é um crente se diz crer no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), mas não expressa com suas palavras, quando o possa...”

    Esta expressão verbal tem uma tripla função. Primeiro, é uma afirmação enfática.

    Testemunha-se a veracidade dessa afirmação da fé. Isto seria comparável à pessoa que presta testemunho ante uma corte.

    Aqueles que o afirmam são os que crêem que aquilo é o certo.

    Em segundo lugar, trata-se de uma expressão de compromisso a este fato. É um reconhecimento por parte da pessoa de que pretende apegar-se aos requisitos e orientação daquele pelo qual testemunhou.

    Em terceiro lugar, é uma proclamação pública de que o indivíduo já se somou às fileiras do Islam, aceitando todos os direitos e responsabilidades que isso implica.

    Os muçulmanos sabem que a chave para entrar no Paraíso é a frase “Não há nada digno de adoração afora Allah”. Mas, muitos muçulmanos crêem, erroneamente, que uma vez que afirmado, nada os poderá prejudicar. Crêem que por haverem realizado este testemunho verbal de fé, o Paraíso lhes será concedido. Sem dúvidas, a expressão verbal deste testemunho, por si só, não é suficiente para obter a salvação.

    De fato, os hipócritas diziam: “Testemunho que nada é digno de adoração exceto Allah...”, e, ainda assim, Allah os descreve como mentirosos e afirma que viverão no nível mais baixo do Fogo do Inferno. Obviamente, existem algumas condições para qualquer testemunho, mas em particular para que este testemunho seja aceito por Allah há duas condições especiais - e todos deveriam se preocupar se seu testemunho de fé é ou não aceitável para Allah.

    O famoso sábio Wahb Ibn Munabbih foi consultado uma vez: “Acaso a frase ‘não existe nada digno de ser adorado afora Allah’ não é a chave para o Paraíso? Ele respondeu: “Sim, mas todas as chaves têm formatos diferentes. Se tu não vens com uma chave que tenha o formato certo, a porta não se abrirá.” O formato da chave equivale às condições que diferencia os muçulmanos que se beneficiarão desse testemunho daqueles que não se beneficiarão, não importando quantas vezes eles o pronunciaram.

    Um estudo dos versículos do Qur’an e dos ahaadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mostrará que existem várias condições para que o testemunho de fé seja válido.

    Novamente, é importante que todo muçulmano se certifique que cumpre com todas estas condições em sua própria vida, no que diz respeito ao testemunho de fé.

    O novo convertido deve considerar estas condições que dizem respeito ao testemunho de fé. É preferível (não obrigatório)  que se saiba dessas condições antes que se realize a declaração de fé.

    A primeira condição é o conhecimento. Há que se ter a compreensão básica do que significa a declaração de fé. Deve-se compreender o que está sendo afirmado e o que está sendo negado nesta declaração. Isso é assim para qualquer tipo de testemunho. Obviamente, um testemunho de algo que se desconhece não é aceito. Allah disse no Qur’an:

    “Quanto àqueles que invocam, em vez d’Ele, não possuem o poder da intercessão; só o possuem aqueles que testemunham a verdade e a reconhecem.” (43:86).

    Portanto, a pessoa que testemunha deve compreender os pontos básicos de seu testemunho. Se não compreende, por exemplo, que Allah é o único digno de adoração e que todos os outros deuses são falsos deuses, então, não terá nem sequer a compreensão mais elementar do que está testemunhando. Dito testemunho não pode ser considerado aceitável diante Allah.

    A segunda condição é a certeza. É o oposto da dúvida e da incerteza. De fato, no Islam qualquer tipo de dúvida com respeito a algo no Qur’an ou Sunnah equivale à incredulidade. Deve-se ter a certeza absoluta no coração sobre a veracidade do testemunho de fé. O coração não deve vacilar de nenhuma maneira quando se testemunha a verdade que “não existe nada digno de adoração exceto Allah”.

    Allah descreve os verdadeiros crentes como aqueles que têm fé em Allah e cujos corações não vacilam. Disse Allah:

    “Somente são fiéis aqueles que crêem em Deus e em Seu Mensageiro e não duvidam, mas sacrificam os seus bens e as suas pessoas pela causa de Deus. Estes são os verazes!” (49:15).

    Da mesma forma, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Quem se encontre com Allah havendo pronunciado o testemunho de que não existe nada digno de adoração afora Allah e que eu sou o Mensageiro de Allah, com plena certeza, entrará no Paraíso.” (Muslim).

    Por outro lado, Allah descreve os hipócritas como aqueles cujos corações titubeiam. Por exemplo, Allah disse:

    “Pedir-te-ão isenção só aqueles que não crêem em Deus, nem no Dia do Juízo Final, cujos corações estão em dúvida e, em sua dúvida, vacilam.” (9:45).

    A terceira condição do testemunho de fé é a aceitação. Se uma pessoa satisfaz as condições de conhecimento e certeza, deve seguir adiante à aceitação, com a palavra e o coração, em tudo o que implique esse testemunho. Quem se nega a aceitar o testemunho de fé com todas as suas implicações, sabendo que é verdadeiro e tendo a certeza de sua veracidade, torna-se incrédulo. Esta negativa a aceitar deve-se ao orgulho, inveja ou outras razões. Em todo caso, o testemunho não é aceito sem sua aceitação incondicional.

    Esta condição também implica que o muçulmano crê em tudo o que está escrito no Qur’an ou que foi dito pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), sem direito a escolher o que quer crer e o que quer repelir. Allah disse no Qur’an:

    “...Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra? Aqueles que, dentre vós, tal cometem, não receberão, em troca, senão aviltamento, na vida terrena e, no Dia da Ressurreição, serão submetidos ao mais severo dos castigo...” (2:85).

    “Não é dado ao fiel, nem à fiel, agir conforme seu arbítrio, quando Deus e Seu Mensageiro é que decidem o assunto. Sabei que quem desobedecer a Deus e ao Seu Mensageiro desviar-se á evidentemente.” (33:36).

    A quarta condição é a submissão e a concordância. Isso implica a realização física por meio de ações. Trata-se de um dos significados principais da palavra “Islam”, a submissão à vontade e mandamentos de Allah. Allah assim ordena no Qur’an:

    “Arrependei ante vosso Senhor e submeteis a Ele.” (39:54).

    “Qual! Por teu Senhor, não crerão até que te tomem por juiz de suas dissensões e não objetem ao que tu tenhas sentenciado. Então, submeter-se-ão a ti espontaneamente” (4:65).

    Isto não significa que o verdadeiro crente nunca cai em pecado. De fato, os verdadeiros crentes cometem, sim, pecados. Mas, tanto quanto reconheçam que o que fizeram não é correto e não é coerente com sua obrigação de submeter-se a Allah, não haverão violado a solidez de seu testemunho.

    A quinta condição é a veracidade, a divergência da hipocrisia e desonestidade.

                Isso significa que quando a pessoa diz o testemunho de fé, diz com honestidade, sentindo realmente. Não mente quando se trata de seu testemunho, nem tampouco tentar enganar a ninguém. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Quem testemunha que não existe nada digno de adoração a não ser Allah, com sinceridade no coração, Allah proibirá que o Fogo do Inferno o toque.” (Bukhari).

    A sexta condição é a sinceridade, ou seja, pronunciar o testemunho de fé apenas pela causa de Allah. Não se deve fazer por nenhum outro motivo ou pelo nome de ninguém mais. Desta maneira, o significado da sinceridade se opõe à associação de parceiros a Allah. Deve-se converter e seguir sendo muçulmano somente para servir a Allah, evitar Sua ira e castigo, e obter Sua recompensa e misericórdia. Allah disse no Qur’an:

    “Em verdade, temos te revelado do Livro. Adora, pois, a Deus, com sincera devoção.” (39:2).

    O Profeta (que a paz esteja com ele) também disse:

    “Allah proibiu o Fogo do Inferno para todo aquele que diga sinceramente, buscando o rosto de Allah, ‘Não existe nada digno de ser adorado senão Allah’.” (Muslim).

    A sétima condição é o amor. Quer dizer, o crente ama o testemunho de fé, ama segundo o testemunho, ama suas implicações e requisitos e ama aqueles que atuam e se esforçam nesta causa.

    O amor é uma condição necessária do testemunho de fé. Se uma pessoa realiza o testemunho, mas não o ama, tampouco ama o que ele representa, então, sua fé não é completa. Não é a fé de um verdadeiro crente.

    Se não sente amor por este testemunho ou se, na realidade, sente ódio por ele, está negando-o.

    O verdadeiro crente não coloca nada no mesmo nível de amor que sente por Allah. Disse Allah, no Qur’an:

    “Entre os humanos há aqueles que adotam, em vez de Deus, rivais (a Ele) aos quais professam igual amor que a Ele; mas os fiéis só amam fervorosamente a Deus...” (2:165).

    “Dize-lhes: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa tribo, os bens que tenhais adquirido, o comércio, cuja estagnação temeis, e as casas nas quais residis, são-vos mais queridos do que Deus e Seu Mensageiro, bem como a luta por Sua causa, aguardai, até que Deus venha cumprir os Seus desígnios. Sabei que Ele não ilumina os depravados.” (9:24).

    A oitava condição é que a pessoa que pronuncia o testemunho deve negar todo e qualquer objeto de adoração. Apesar de ficar claro nas palavras do próprio testemunho de fé, não parece claro para todos os que o pronunciam. Portanto, há de ser mencionado explicitamente.

    Na surah al Baqara, Allah recorda os muçulmanos este aspecto importante do testemunho. O testemunho de fé não é simplesmente uma afirmação, senão uma afirmação e uma negação. Allah disse:

    “...Quem renegar o sedutor e crer em Deus, Ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo” (2:256).

    A nona condição é que o muçulmano se atenha ao testemunho de fé até sua morte. Isso é obrigatório se o testemunho significa algo além, ou seja, para a próxima vida. Não se deve pautar apenas pelo que foi feito no passado. De fato, a declaração de fé deve ser sua bandeira até o dia de sua morte. Allah disse no Qur’an:

    “Ó fiéis, temei a Deus, tal como deve ser temido, e não morrais, senão como muçulmanos.” (3:102).

    Por último, não é necessário que o testemunho se realize em idioma árabe ou com palavras específicas, mas deve ser muito claro quanto ao significado exato e a intenção do que é dito.

    O Testemunho de Fé: Muhammad é o mensageiro de Allah

    É importante compreender também o significado e as implicações da segunda parte do testemunho de fé. De fato, às vezes, afasta-se do Caminho Correto e do Islam por não se implementar adequadamente a segunda parte da declaração de fé.

    Quando se testemunha que Muhammad é o Mensageiro de Allah, está sendo afirmado que se crê que o Profeta (que a paz esteja com ele) foi eleito por Allah para ser Seu Mensageiro e transmitir Sua Mensagem. Allah escolheu especificamente ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) para que fosse Seu Mensageiro. Allah disse:

    “...Deus sabe melhor do que ninguém a quem deve encomendar a Sua missão...” (6:124).

    Isso indica algumas características do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), pois obviamente Allah, devido à Sua justiça, sabedoria e misericórdia, não elegeria como Seu Mensageiro um mentiroso ou traidor. Allah não elegeria para uma missão tão importante alguém que Ele soubesse que não levaria a mensagem ou que a utilizaria como vantagem pessoal. Se alguém sustenta que o Profeta (que a paz esteja com ele), na realidade, não transmitiu a mensagem completa ou a distorceu de alguma maneira, está dizendo que Allah não soube eleger a pessoa correta para que trouxesse Sua Mensagem. Isso implica em incredulidade.

    Em segundo lugar, quando se realiza o testemunho de fé, também está sendo testemunhado que o Profeta (que a paz esteja com ele) havia sido enviado para toda a humanidade até o Dia do Juízo Final. Allah disse no Qur’an:

    “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Deus, para todos vós...” (7:158).

    É obrigatório que todas as pessoas desde os tempos do Profeta (que a paz esteja com ele) até o Dia do juízo creiam e sigam ao Profeta. Isso também alude que os ensinamentos do Profeta e sua Sunnah são válidas e obrigatórias para toda a humanidade até o Dia do juízo.

    Algumas pessoas parecem querer resistir à idéia de que devem seguir o Profeta (que a paz esteja com ele). Quando resistem, devem se dar conta que vão contra tudo o que têm testemunhado. Testemunham que a mensagem do Profeta, que inclui Qur’an e Sunnah, é para toda a humanidade – incluindo todas as pessoas que vivem hoje em dia.

    Em terceiro lugar, quando se pronuncia a declaração de fé é testemunhada a crença verdadeira que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) transmitiu a Mensagem, que a transmitiu de forma correta, completa e clara. Allah disse no Qur’an:

    “...porque não incumbe ao Mensageiro mais do que a proclamação da lúcida Mensagem.” (24:54).

    O Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

    “Deixei-os em um caminho iluminado, cuja noite ou dia são iguais. Ninguém se afasta dele depois de mim sem ser destruído.”

    O Profeta (que a paz esteja com ele) transmitiu toda a orientação e revelação que recebeu de Allah. Transmitiu-a e explicou de forma clara. Portanto, também é testemunhado que o Profeta transmitiu todos os aspectos da religião – seus aspectos fundamentais e também os secundários. Não existe assunto na religião que seja necessário e que não tenha sido transmitido à humanidade ou que Allah e o Profeta tenham esquecido.

    Portanto, quando esta completa e clara orientação do Profeta (que a paz esteja com ele) está presente, não há necessidade de que nenhum muçulmano recorra a outras fontes buscando algum rumo. Não há necessidade de consultar os livros dos judeus ou cristãos. De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a Umar, quando o viu lendo uma folha da Torá, que se o Profeta Moisés (que a paz esteja com ele) estivesse vivo naquele momento, ele também não teria outro caminho senão seguir ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Não há necessidade que nenhum muçulmano recorra aos filósofos gregos, por exemplo, para aprender teologia. Também não é necessário que nenhum muçulmano recorra aos ensinamentos religiosos ou espirituais de nenhuma outra religião senão o Islam. Tudo que é necessário está mencionado no Qur’an e na Sunnah. Isso é parte do que o muçulmano atesta. O muçulmano testemunha que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) transmitiu a mensagem completa.

    Quando se declara “Muhammad é o Mensageiro de Allah”, também está sendo declarado que é o último profeta enviado por Allah. Allah diz no Qur’an:

    “Em verdade, Muhammad não é o pai de nenhum de vossos homens, mas sim o Mensageiro de Deus e o prostremos dos profetas; sabei que Deus é Onisciente.” (33:40).

    Não haverá outro profeta depois de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Nenhum profeta novo nem nenhuma escritura virão substituir o que Muhammad (que a paz esteja com ele) trouxe. Além disso, se alguém depois do profeta Muhammad disser ser um profeta, automaticamente se saberá que é um mentiroso. Há que se opor a tal pessoa e declarar que tudo o que diz é falso. Aceitar a qualquer outro como profeta, depois do profeta Muhammad, é falsificar o próprio testemunho de fé.

    Também, deve-se ter em mente que quando se realiza o testemunho de fé, não apenas implica a crença em certas coisas, mas a aceitação de certas responsabilidades. Por exemplo, quando se diz que não existe nada digno de adoração exceto Allah, para que este testemunho seja certo, significa que a partir dali adquiri-se a responsabilidade de adorar apenas Allah.

    Da mesma forma, quando se diz:

    “Atesto que Muhammad é o Mensageiro de Allah”, estão aceitas certas responsabilidades em relação ao profeta Muhammad (que a paz esteja com ele). Quando não se cumpre algumas dessas responsabilidades, não se cumpre completamente com seu testemunho de fé. Inclusive, pode-se chegar ao ponto de anular o testemunho por completo em caso de negação ao cumprimento das responsabilidades para com o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele).

    Uma dessas obrigações para com o Profeta é amá-lo. Isso não significa uma forma de amor qualquer, senão que a fé total requer que se ame ao Profeta mais que a qualquer pessoa ou coisa deste mundo. Allah disse no Qur’an:

    “Dize-lhes: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa tribo, os bens que tenhais adquirido, o comércio, cuja estagnação temeis, e as casas nas quais residis, são-vos mais queridos do que Deus e Seu Mensageiro, bem como a luta por Sua causa, aguardai, até que Deus venha cumprir os Seus desígnios. Sabei que Ele não ilumina os depravados.” 9:24).

    Em segundo lugar, quando se realiza um testemunho de fé significa que o Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) é aceito como exemplo de vida e comportamento corretos que agradam a Allah. Allah disse no Qur’an:

    “Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para aqueles que esperam contemplar Deus, deparar-se com o Dia do Juízo Final, e invocam Deus freqüentemente” (33:21).

    “Dize: Se verdadeiramente amais a Deus, segui-me...” (3:31).

                É muito estranho que algumas pessoas realizem o testemunho de fé e declarem que Muhammad é o Mensageiro e Profeta de Allah, mas, ao mesmo tempo, não o considerem um exemplo de vida, como deveriam fazer todos os crentes. Em muitos casos não apenas não o consideram como exemplo, senão que se opõem aos que o tomam como exemplo.  Isso não é mais que um claro sinal de que dita pessoa não entende com clareza o significado e as conseqüências do testemunho de fé realizado.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Juro por Allah que sou quem mais teme a Allah e quem está mais consciente d’Ele. Mas, também, [como parte de minha sunnah] jejuo e quebro meu jejum, realizo minhas orações e durmo [na noite] e me caso com mulheres. Aquele que se distancia de minha Sunnah não é dos meus verdadeiros seguidores.” (Bukhari).

    Neste hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou que ele é quem mais teme a Allah e o mais consciente dentre os humanos. Portanto, ninguém pode inventar desculpa alguma para não seguir o seu exemplo e sua orientação.

    Também afirmou que aquele que se afasta de seu exemplo e sua prática não faz parte dos seus seguidores. Não se pode declarar a crença em Muhammad (que a paz esteja com ele) e sua aceitação e, ao mesmo tempo, se negar a aceitar sua vida como o exemplo no qual todos devemos nos mirar.

    Outras ações relacionadas ao ato de adotar o Islam

    Existem outras ações que se associam com o ato da declaração de fé. Estas são:

    (1) um banho completo,

    (2) a eliminação de todo o pelo dos dias anteriores ao Islam,

    (3) a circuncisão.

    Cada uma delas será tratada em detalhes mais adiante.

    Antes de continuar, cabe destacar que nenhuma dessas ações deveria atrasar a conversão ao Islam por parte de uma pessoa. De fato, uma vez que a pessoa decide adotar o Islam, não se deve adiar a concretização, por exemplo, para um momento mais adequado ou quando haja mais testemunhas, etc. na realidade, ninguém sabe quando a morte poderá surpreendê-lo, por isso, quando uma pessoa toma a decisão definitiva de abraçar o Islam, deve fazê-lo neste momento, pronunciando a declaração de fé.

    O banho completo: existem quatro opiniões entre os sábios a respeito do banho completo quando da conversão ao Islam. Sem entrar em maiores detalhes, as opiniões podem ser resumidas da seguinte maneira:

    Uma delas é que o banho é obrigatório para toda pessoa que adote o Islam.

    Essa é a opinião da escola Malik e a opinião reconhecida da escola Hanbali.

    Outra opinião é que este banho não é obrigatório sob nenhuma circunstância.

    E esta opinião é apoiada por alguns membros da escola Hanbali.

    Uma terceira opinião diz que o banho é recomendado para qualquer pessoa que abrace o Islam. Assim opinam as escolas Hanafi, Malik e Hanbali.

    Por último, há uma opinião que diz que o banho é recomendado, a menos que a pessoa se encontre em estado de impureza sexual ou se a mulher estiver no período menstrual ou pós-parto, em cujos casos é obrigatório. Em ditos casos, o banho é exigido para poder alcançar o estado de pureza ritualístico necessário para realizar as orações.

    Parte da razão destas diferenças de opinião sobre o tema é a existência de alguns ahaadith em que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a algumas pessoas que haviam abraçado o Islam que tomassem o banho completo. Sem dúvidas, como foi mencionado antes, para que ditos relatos (ahaadith) sejam considerados como provas para a Lei Islâmica, devem satisfazer estritas condições.

    Os relatos em questão têm alguns defeitos menores e são considerados fracos por muitos estudiosos de hadith.

    Além disso, alguns estudiosos advertem que muitas pessoas entraram no Islam, nos tempos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e não existem registros de que havia uma ordem ou noção geral de que ditas pessoas se banhavam como parte do processo de conversão. Inclusive, dado este argumento, os relatos que dizem que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) dizia a algumas pessoas que se banhassem, pode ser um sinal de que esse banho é recomendado, mas não obrigatório.

    Certamente, o novo muçulmano deve também realizar as orações.

    O requisito para realização da oração é que a pessoa esteja em um estado de pureza física e que o banho seja realizado com o intuito de entrar neste estado de pureza, não simplesmente com finalidade higiênica. Alguns sábios sustentam que o estado anterior da pessoa é ignorado pelo Islam, mas esse não parece ser um argumento de peso neste ponto. Se a pessoa está impura por haver mantido relações sexuais ou se uma mulher esta com hemorragias menstruais pós-parto, então deverá realizar o banho completo antes de realizar suas orações.

    Em resumo, e segundo evidência geral, pode-se dizer que o banho depois de realizar a declaração de fé é, em suma, um ato recomendado, mas não obrigatório. Não deve ser visto como um mero ritual sem significado algum.

    A pessoa que adota o Islam de maneira definitiva passa por um renascimento espiritual e empreende uma transformação de sua vida.

    De fato, para a maioria dos convertidos, o Islam é uma transformação que faz com que sua vida seja muito diferente à que tinha até então. Portanto, deve se preparar mental, emocional e fisicamente. Este banho elimina, metaforicamente, todos os tipos de impurezas que possam permanecer na pessoa.

    Assim, ele se torna pronto para empreender novos caminhos.

    Em todo caso, e ao menos para segurança, antes de se rezar, deve-se estar em um estado de pureza física, o qual requer um banho completo daqueles que se encontravam sexualmente impuros, mulheres em fim de período menstrual ou após hemorragia pós-parto.

    Eliminar todo o pelo dos dias anteriores ao Islam: Esta ação também se baseia em um hadith que a grande maioria dos estudiosos refuta e denomina como fraco. É um hadith em que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) haveria dito a um homem que acabava de informar que tinha se convertido ao Islam:

    “Elimina de teu corpo o pelo [dos tempos] da incredulidade.”

    Novamente, ainda se o hadith fosse aceito como autêntico, não se trata de uma prática muito comum nos tempos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), nem posteriormente. Por isso, alguns sábios entendem que este hadith se aplica somente àqueles que deixam crescem o pelo com fins religiosos. Nesse caso, devem tirá-lo ao se converterem muçulmanos.

    Por exemplo, nos tempos de hoje, é de conhecimento geral que os Shaikhs não tiram nenhum pelo de sua cabeça ou corpo como ato religioso. Sem dúvidas, não há nada explícito no texto que apóie esta interpretação.

    Mais uma vez, o hadith é fraco e, se aceito, pode-se entender como um ato recomendável, mas não obrigatório. Igual ao caso do banho, é um ato por meio do qual a pessoa elimina os restos de sua vida pré-islâmica para assim poder empreender sua nova vida como muçulmano e servo de Allah.

    Circuncisão: Em alguns do relatos que mencionam que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) dizia aos novos muçulmanos que se livra-se dos pelos dos dias anteriores ao Islam, também dizia que deveriam circuncidar-se.

    Também há outro relato que diz:

    “Todo aquele que adote o Islam deve estar circuncidado, ainda que seja um homem adulto.”

    Mas este relato nem pode ser confirmado como uma afirmação do Profeta.

    Não há dúvidas que a circuncisão é uma prática estabelecida no Islam. Pode ser obrigatória ou fortemente recomendada.

    Com certeza, não há evidências que demonstrem que se deva cumprir estes requisitos imediatamente à conversão. Existem algumas exceções que podem ser aplicadas à algumas pessoas. No passado, os sábios mencionaram, por exemplo, um adulto que abraça o Islam e teme consequências negativas devido ao processo de circuncisão.

    Desde então, nos tempos modernos, esta possibilidade foi reduzida, pois a circuncisão é, hoje em dia, um procedimento cirúrgico preciso e seguro. Ao mesmo tempo, em algumas partes do mundo é um pouco caro, especialmente se é considerada uma prática opcional. Esta carga financeira pode ser muito pesada para alguns convertidos, neste caso, poderiam adiar a realização até que possam custeá-la. E Allah sabe mais!

    As recompensas e circunstâncias especiais para o convertido

    Existem alguns ditos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que demonstram que há algumas recompensas e circunstâncias específicas para a pessoa que abraça o Islam.

    Em geral, a pessoa entra no islam e deixa atrás um passado cheio de boas e más ações. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou o que acontecerá à pessoa em relação às suas ações anteriores.

    Al Bukhari registrou em sua coleção de ahaadith autênticos: Hakim Ibn Hicham disse:

    “Ó Mensageiro de Allah, que pensas sobre os atos de adoração que costumava realizar nos meus dias anteriores ao Islam, como libertar escravos, manter os laços de parentesco e dar em caridade? Receberei recompensa por eles?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Já tens adotado o Islam sobre as coisas boas que tinhas em seu passado.”

    Uma possível interpretação deste hadith é que a pessoa será recompensada pelo bem que fez no passado e esta recompensa se deve à sua conversão ao Islam.

    De qualquer forma, há que se clarificar que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não disse explicitamente que a pessoa seria recompensada por aquelas ações que tenha praticado antes de abraçar o Islam.

    Para que uma ação seja aceita por Allah, deve ser realizada com a intenção de agradar a Allah e com a certeza de que está dentro do limite das leis de Allah.

    Obviamente, essas duas condições não se cumprem quando se fala das ações dos incrédulos. Também há quem interprete este hadith de outras maneiras.

    Uma explicação é que essas boas ações desenvolvem um bom caráter na pessoa e esta, por sua vez, demonstra uma tendência a fazer o bem, o qual o beneficiará enormemente na hora que se converter muçulmano. Esta tendência a fazer o bem pode ser a razão que a leva a somar-se ao islam. De fato, pode ser que as ações, através das quais Allah abençoou a pessoa, guiaram-na ao Islam.

    O hadith também pode significar que a pessoa será recompensada também por estas ações, mas neste mundo. Essa é a grande misericórdia e justiça do Islam, ou seja, Allah não permite que nenhuma boa ação fique sem recompensa.

    Da mesma forma, pode acontecer das boas ações praticadas por não muçulmanos não serem recompensadas por Allah na próxima vida por não reunirem condições para tal, neste caso elas são recompensadas nesta vida, entretanto Allah não as ignora.

    Sobre isso o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

     “O incrédulo é recompensado nesta vida com provisões pelas boas ações que pratica.” (Muslim).

    Há outra narração do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que diz claramente que se uma pessoa se converte ao Islam e se empenha para aperfeiçoar e completar sua fé, certamente será recompensada pelas ações realizadas antes de sua conversão. Este parece ser um presente especial que Allah concedeu a estas pessoas e Allah dá Seus agrados a quem deseja.

    O texto deste hadith diz:

    “Se um servo aceita e completa seu Islam, Allah registrará para ele todas as boas ações realizadas antes [de sua conversão] e Allah apagará todas as más ações realizadas antes [de sua conversão]. Logo, tudo que venha depois será segundo a retribuição. Por cada boa ação, receberá uma recompensa entre dez e setecentas vezes maior. E por cada má ação, registrar-se-á uma similar, a menos que Allah deixe passar.”

    Este hadith mostra que uma pessoa será recompensada pelas boas ações realizadas antes de se converter muçulmano. Suas más ações também serão apagadas ao se converter à religião. Sem dúvidas, é algo condicional. Depende da pessoa, se ela busca a perfeição e completude em sua opção de fé. Quer dizer, é condição que se mantenha afastada das más ações depois de se converter ao Islam.

    Dita postura é apoiada por um hadith do Sahih al Bukhari e Sahih Muslim em que Ibn Mass’ud perguntou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se prestariam contas pelas ações realizadas antes da conversão ao Islam.

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Aquele que seja excelente no Islam não deverá prestar contas por isso. Ao passo que aquele que faz o mal [no que concerne ao Islam] deverá prestar contas pelo que fez antes de se converter ao Islam e depois também.”

    Também há um hadith no Musnad Ahmad que diz: Enquanto o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) falava com Amr Ibn al As disse:

    “Ó Amr, acaso não sabias que o islam apaga todos os pecados cometidos anteriormente?”

    Este hadith deve ser analisado sob a luz do hadith anterior: Se uma pessoa completa seu Islam com excelência, então, todos os seus pecados anteriores serão apagados e relevados. Do contrário, se a pessoa continua realizando más ações no Islam, não serão relevados os pecados anteriores. Sem dúvidas, isto só se aplica aos pecados e às más ações com respeito a Allah. Não inclui as obrigações de um modo geral, como as dívidas ou os delitos que são punidos neste mundo.

    Além disso, há uma passagem no Qur’an muito contundente em que Allah diz:

    “São aqueles que, quando gastam, não se excedem nem são mesquinhos, colocando-se no meio-termo. (Igualmente o são) aqueles que não invocam, com Deus, outra divindade, nem matam nenhum ser que Deus proibiu matar, senão legitimamente, nem fornicam; (pois sabem que) quem assim proceder, receberão a sua punição: No Dia da Ressurreição ser-lhes-á duplicado o castigo; então, aviltados, se eternizarão (nesse estado). Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes, Deus computará as más ações como boas, porque Deus é Indulgente, Misericordioso.” (25:67-70).

    Alguns sábios opinam que este versículo indica que as más ações prévias se transformarão em boas ações. Certamente, para outros, significa que a pessoa praticará boas ações que vão substituir as outras. E há outros que interpretam que na próxima vida as más ações se transformarão e a pessoa será recompensada por elas devido à preocupação e o remorso sofrido por causa delas depois de sua conversão ao Islam.

    Definitivamente, o novo muçulmano convertido está frente a uma oportunidade muito grande. É-lhe dada a oportunidade de que todos os seus erros e pecados anteriores sejam cancelados imediatamente e, ao mesmo tempo, continuar sendo recompensado pelo bem praticado antes de adotar o Islam. Isso é a graça e misericórdia de Allah. Mas, é condicional. O convertido deve tomar seu Islam com seriedade, praticá-lo corretamente e ser um verdadeiro muçulmano, abstendo-se de praticar os maus atos que praticava antes de sua conversão. Se, de alguma forma, volta a cair em tentação e praticar as más ações habituais do passado, perderá uma grande oportunidade que Allah o ofereceu.

    Por último, existe um versículo do Qur’an e outro hadith que tratam especificamente dos membros do Povo do Livro que se converteram ao Islam. Essas pessoas acreditavam nos livros e profetas anteriores e logo deram o passo necessário para crer também no último Profeta e no último Livro – que seus próprios profetas e livros mencionavam. Allah disse sobre eles:

    “Eis que lhes fizemos chegar, sucessivamente, a Palavra, para que refletissem. (São) aqueles a quem concedemos o Livro, antes, e nele crêem. E quando lhes é recitado (o Alcorão), dizem: Cremos nele, porque é a verdade, emanada do nosso Senhor. Em verdade, já éramos muçulmanos, antes disso. A estes lhes será duplicada a recompensa por sua perseverança, porque retribuem o mal com o bem e praticam a caridade daquilo com que os agraciamos.” (28:51-54).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “São três os que receberam recompensas duas vezes. [um deles] Um crente do Povo do Livro que creu em seu profeta e também creu em Muhammad. Ele receberá duas recompensas...” (Bukhari e Muslim).

    A riqueza ganha por um convertido ao Islam

    Quando alguém adota o Islam, é muito provável que parte de sua riqueza provenha de fontes que o Islam considera ilegítimas. Por exemplo, o convertido pode possuir dinheiro proveniente de operações que implicaram cobrança de juros, venda de álcool e outras. O que o novo muçulmano deve fazer com tal riqueza que já está em suas posses?

    A regra geral é que toda a riqueza que já esteja em posse da pessoa, no momento da conversão ao Islam, é propriedade dela, não importando como foi adquirida – desde que tenha sido obtida de maneira legal segundo as leis sob as quais vivia a pessoa. Não se aplicam, então, os princípios islâmicos naquela riqueza obtida antes da conversão ao Islam. Assim, por exemplo, disse Allah:

    “Os que praticam a usura só serão ressuscitados como aquele que foi perturbado por Satanás; isso, porque disseram que a usura é o mesmo que o comércio; no entanto, Deus consente o comércio e veda a usura.  Mas, quem tiver recebido uma exortação do seu Senhor e se abstiver, será absolvido pelo passado, e seu julgamento só caberá a Deus. Por outro lado, aqueles que reincidirem, serão condenados ao inferno, onde permanecerão eternamente.” (2:275).

    Este versículo demonstra que Allah releva as ações realizadas antes que as normas alcancem a pessoa que as pratica, ou seja, antes que ela seja obrigada a seguir tais regras. Muitas pessoas adotaram o Islam durante a vida do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), mas não existem registros de que suas riquezas tivessem sido apreendidas, ou, sequer, que aquelas pessoas tenham sido questionadas a respeito da origem de suas riquezas. Inclusive os matrimônios celebrados antes da conversão não eram questionados, nem examinados para ver se cumpriam com os requisitos islâmicos.

    Com efeito, existem vários relatos que demonstram que o Profeta, explicitamente, estava de acordo com que os novos convertidos mantivessem sua riqueza. Na realidade, a pessoa obteve tais riquezas crendo que não havia nada de mal no que fazia.

    Portanto, é-lhes permitido manter tais riquezas.

    Esse caso é diferente de um muçulmano que vende álcool, por exemplo. Este muçulmano, mesmo depois de se arrepender desse mau ato, não deve manter esta riqueza obtida de forma ilícita.

    Sem dúvidas, a situação é diferente se um convertido, no momento da conversão, não recebeu ainda o dinheiro proveniente de uma fonte que o Islam considera ilícita. Por exemplo, a pessoa pode ter vendido e distribuído álcool no dia primeiro de Julho, mas cobrará este dinheiro apenas em primeiro de Dezembro.

    Digamos que em Setembro a pessoa que vendeu estas bebidas se converte ao Islam. É possível analisar esta situação e dizer que, como o contrato havia se encerrado antes da conversão, continua tendo validade e há o direito de se receber este dinheiro, trata-se de uma riqueza obtida antes da pessoa se converter muçulmana. Não há dúvidas que a maioria dos sábios opina que esta pessoa não tem o direito de receber o dinheiro. Citam o seguinte versículo:

    “...Mas, quem tiver recebido uma exortação do seu Senhor e se abstiver, será absolvido pelo passado, e seu julgamento só caberá a Deus...” (2:275).

    A advertência já foi dada e só se pode conservar o dinheiro recebido antes, desfazendo-se dos juros. Allah também disse:

    “... porém, se vos arrependerdes, reavereis apenas o vosso capital...” (2:279)     .

    Assim, por exemplo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) aboliu todos os contratos em que se cobravam juros, em um discurso em Makkah, onde havia um grande número de recém-convertidos.

    Portanto, se tais contratos foram fechados antes de se adotar o Islam, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) deixou  claro o aspecto proibido do contrato. Definitivamente, uma vez que a pessoa adota o Islam, a partir deste momento, não deve aceitar nenhuma riqueza que seja obtida através de meios proibidos, não se importando se o contrato tiver sido firmado antes ou depois de sua conversão.

    A pessoa deve crer que este dinheiro é proibido e, portanto, não deve desejar recebê-lo, nem se beneficiar dele. Dada a natureza atual dos contratos, pode ser que não seja possível anulá-lo. Caso a pessoa se veja obrigada a receber o dinheiro, deve se desfazer dele.

    (Muitas mesquitas têm contas bancárias para receber o dinheiro obtido por meios ilícitos, mas que a pessoa se viu obrigada a receber. Como, por exemplo, juros sobre depósitos. Então, esse dinheiro pode ser utilizado de formas específicas tal como recomendação dos sábios.)

    Matrimônios prévios ao Islam

    Não há dúvidas de que o Islam confirma os casamentos realizados fora do Islam ou antes da pessoa abraçar a religião. Há diversas evidências desse fato. Por exemplo, na Surah al Masad, Allah se refere à esposa de Abu Lahab, o tio do Profeta que se opôs a ele com veemência, igual à esposa do Faraó. Vários companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nasceram antes da chegada do Islam e eram considerados filhos legítimos de seus pais.

    Certamente, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nunca ordenou aos companheiros casados que voltassem a casar sob as condições que o Islam impõe. De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nem sequer perguntava quais eram os detalhes de seus contratos matrimoniais, como por exemplo, se houve ou não testemunhas.

    Obviamente, as relações consideradas ilegítimas para as religiões anteriores ou a lei sob a qual vivia o convertido, também são consideradas ilegítimas no Islam. Por exemplo, o filho ilegítimo antes de se adotar o Islam continua a sê-lo após a conversão. Por outro lado, todos os filhos nascidos através de um matrimônio legítimo, prévio ao Islam, serão considerados legítimos e os filhos continuarão sendo filhos legítimos do convertido.

    Uma exceção a este princípio geral de afirmação dos matrimônios prévios ao Islam é quando os esposos estão dentro dos graus proibidos de parentesco. Por exemplo, na antiga Pérsia, os irmãos podiam se casar. Esse matrimônio seria considerado nulo se qualquer um dos cônjuges se convertesse ao Islam. Afora isso, em uma situação em poligamia, se um homem tem mais de quatro esposas, ao abraçar o Islam, deve separar-se de algumas delas para não extrapolar ao limite máximo permitido.

    Também cabe mencionar outros temas importantes relacionados com a conversão ao Islam. Se um homem e sua esposa adotam o Islam aproximadamente na mesma época, então, seu matrimônio permanece intacto e não haverá necessidade de fazer mais nada. Se um homem casado com uma mulher judia ou cristã adota o Islam, o matrimônio também permanece intacto e não é necessário nada além. Esses casos são claros e não envolvem maiores problemas. Os casos problemáticos são os seguintes:

    (1) Um homem convertido casado com uma mulher que não é cristã ou judia e não aceita o Islam;

    (2) uma mulher convertida casada com um homem não muçulmano.

    Os versículos do Qur’an relativos a estes temas são os seguintes:

    “Ó fiéis, quando se vos apresentarem as fugitivas fiéis, examinai-as, muito embora Deus conheça a sua fé melhor do que ninguém; porém, se as julgardes fiéis, não as restituais aos incrédulos, porquanto elas não lhes cabem por direito, nem eles a elas; porém, restituí o que eles gastaram (com os seus dotes). Não sereis recriminados se as desposardes, contanto que as doteis; porém, não vos apegueis à tutela das incrédulas, mas exigi a restituição do que gastastes no seu dote; e que (os incrédulos), por sua vez, exijam o que gastaram. Tal é o Juízo de Deus, com que vos julga, porque Deus é Sapiente, Prudentíssimo.” (60:10).

    “Não desposareis as idólatras até que elas se convertam, porque uma escrava fiel é preferível a uma idólatra, ainda que esta vos apraza. Tampouco consintais no matrimônio das vossas filhas com os idólatras, até que estes se tenham convertido, porque um escravo fiel é preferível a um livre idólatra, ainda que este vos apraza. Eles arrastam-vos para o fogo infernal; em troca, Deus, com Sua benevolência, convoca-vos ao Paraíso e ao perdão e elucida os Seus versículos aos humanos, para que Dele recordem.” (2:221).

    Trocar o nome ao se converter muçulmano

    É uma prática bastante comum que os convertidos mudem seus nomes ao abraçarem o Islam. Às vezes isso é feito para que o convertido se sinta mais próximo e apegado à comunidade islâmica. A pergunta lógica que surge é: Essa mudança de nome é um requisito, é algo recomendado ou é simplesmente permitido? Sobre este ponto, Abdul Aziz Ibn Baaz respondeu o seguinte:

    “Informo-lhes que não existe evidência na Lei Islâmica que exija àquele que se converte ao Islam mude seu nome para um nome islâmico. [A exceção é quando] Existe uma razão islâmica que assim requeira a mudança. Por exemplo, se uma pessoa tem um nome que indica adoração a outra coisa que não Allah, como “servo de Jesus”; ou se a pessoa tem um nome que não é bom e existam outros nomes melhores, como o nome “Áspero”, que poderia ser modificado para “Amável”. O caso é similar com qualquer outro nome que não seja considerado apropriado. Sem dúvidas, é obrigatório mudar o nome se este indica adoração a qualquer coisa que não Allah. Em respeito a outros nomes [desagradáveis], é preferível e recomendado mudá-los. Na segunda categoria, encontram-se aqueles nomes reconhecidos como cristãos e que ao serem mencionados dão a impressão que a pessoa é cristã. Nesses casos, a mudança do nome é boa.”

    Bilal Philips acrescenta um pouco mais sobre este mesmo tema:

    “Os novos convertidos, que não conhecem o sistema islâmico de nomes, algumas vezes adotam nomes árabes com o caótico estilo europeu... De fato, os de ascendência africana, às vezes, apagam o sobrenome, pois afirmam que estes nomes são remanescentes da escravidão. Quer dizer, seus ancestrais que foram escravos normalmente adotavam o sobrenome de seus senhores e assim, transmitia-se de geração para geração. Portanto, uma pessoa chamada, por exemplo, Clive Baron Williams e que o nome de seu pai era George Herbert Williams, ao converter-se ao Islam, muda seu nome para, por exemplo, Faisal Umar Nkruma Mahdi. Sem dúvidas, seu nome, segundo o sistema islâmico de nomes, deveria ser Faisal George Williams. Se “Williams” era ou não o sobrenome do antigo dono da plantação onde seus antepassados trabalhavam, não tem importância alguma. Como o nome de seu pai era George Williams, segundo o sistema islâmico de nomes, ele é filho de George Williams... esta prática de novos muçulmanos: apagar o sobrenome, cria muitos ressentimentos entre seus familiares não muçulmanos, o que poderia ser evitado muito facilmente se o sistema islâmico de nomes tivesse sido adotado. Na verdade, o novo muçulmano não tem obrigação de mudar seu “nome cristão” a menos que contenha algum significado não islâmico. Assim, o nome Clive, que em inglês significa “habitante da montanha”, não precisa ser mudado. Ao contrário, o nome Dennis, variante de “Dionísio” (deus grego do vinho e da fertilidade, lembrado e cultuado em orgias ritualísticas), deveria ser mudado por outro... Sem dúvidas, é totalmente aceitável que um muçulmano, recém-convertido ou não, mude seu primeiro nome. Era habitual que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mudasse os nomes das pessoas se estes eram negativos ou não islâmicos. Uma das esposas do profeta se chamava, originalmente, Barrah (piedosa) e ele mudou para Zainab, pois Allah revelou no Qur’an: “Não vos ensoberbeceis, pois Allah conhece bem os piedosos” (53:32). Certamente, o Mensageiro de Allah nunca mudaria o nome de família, por menos islâmicos que fossem... Portanto, pode-se concluir que mudar o sobrenome é contra a lei e o espírito da Lei Islâmica. Devem manter o nome e o sobrenome do pai e, se o pai é desconhecido, o nome e sobrenome da mãe devem seguir o primeiro nome do muçulmano convertido.”

    Os Frutos da Conversão ao Islam

    Já foram mencionadas muitas das características mais importantes do Islam.

    Antes de finalizar este capítulo, quero ressaltar alguns dos frutos importantes que a pessoa recebe ao se converter ao Islam.

    É importante afirmar que todos os benefícios do Islam correspondem ao ser humano. Allah enviou Sua orientação apenas para o benefício das pessoas.

    Allah, por Si mesmo, não necessita da adoração dos seres humanos. Ele está isento de qualquer necessidade, mas em Sua Misericórdia, mostrou à humanidade o modo correto de se comportar para assim ter Sua aprovação. Por isso, Allah diz:

    “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia...” (17:15).

    Além disso: os que resistem ao Islam não fazem mais que prejudicar a si mesmos. Allah disse:

    “Deus em nada defrauda os homens; porém, os homens se condenam a si mesmos.” (10:44).

    Conhecer a Allah, o Deus, Senhor e Criador

    O maior benefício de se converter muçulmano e crescer no Islam é que a pessoa pode conhecer verdadeiramente a Allah. O crente conhece a Allah, não em um sentido impreciso, vazio e filosófico, senão que O conhece em detalhes através de Seus Nomes e Atributos, cujo conhecimento Allah, com Sua graça, explicou no Qur’an e na Sunnah. Cada um dos Seus nomes deveria aumentar o amor do crente por Allah, assim como o temor, acompanhando de uma maior proximidade a Ele através desses sublimes atributos, mediante a realização dos atos de retidão.

    Ibn Taimiyah disse:

    “todo aquele que conheça os nomes de Allah e seus significados e creia neles, terá uma fé mais completa que aquele que não os conhece e simplesmente crê neles de uma forma geral.”

    Ibn Saadi disse também:

    “Cada vez que aumenta o conhecimento que uma pessoa tem dos belos nomes e atributos de Allah, também aumenta sua fé e a sua certeza se fortalece.”

    Se a pessoa tem um bom conhecimento dos nomes e atributos de Allah, abre-se para ela a porta da compreensão do que sucede na criação. Isto foi expresso maravilhosamente por Ibn Qaiim quando disse:

    “Todo aquele que conheça a Allah, conhece todo o resto. Todo aquele que é ignorante de seu Senhor é ainda mais ignorante de tudo que não é Ele.”

    O efeito deste conhecimento deveria ser tão grande que uma verdadeira compreensão desses nomes e uma vida de acordo com suas implicações deveriam guiar diretamente à complacência de Allah e Seu Paraíso. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse claramente ao povo muçulmano:

    “Allah tem noventa e nove nomes, cem menos um, aquele que os aprenda e memorize entrará no Paraíso.” (Bukhari e Muslim).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu o tipo de transformação que acontece quando a pessoa realmente conhece a Allah e, portanto, prova do doce sabor da fé. O Profeta disse:

    [Existem] Três características que se uma pessoa possui terá provado o doce sabor da fé: quando Allah e Seu Mensageiro são mais amados para ele que qualquer outra coisa; quando ama a alguém e só o ama por Allah; e quando detesta retornar à incredulidade da mesma maneira que odiaria ser lançado no Fogo.” (Bukhari e Muslim).

    Há, além disso, outro aspecto muito importante e fascinante. Trata-se de um aspecto ignorado por alguns ainda que Allah o tenha mencionado em diversos pontos do Qur’an.

    O Islam gera no ser humano um tipo de relação especial com seu Deus e Criador. É uma relação que, tal como é descrita por Allah, leva a pessoa a estar satisfeita com seu Senhor.

    Em outras palavras, a pessoa desenvolve um apreço por Allah. Allah se aproxima dela. Ela fica satisfeita com Allah porque começa a entender a beleza, excelência e perfeição do Criador e tudo o que Ele quer. Deixa de ser meramente submissão. Àquele que merece tal submissão e obediência e se transforma em apreciação a quem é Allah, o que Ele tem decretado e ordenado e o que Ele fará com os seres humanos.

    A pessoa se conscientiza que somente com Allah alcançará a complacência absoluta.

    Assim, o Islam permite à pessoa entender e apreciar seu Senhor e Criador, de tal maneira que se torna muito feliz com seu Senhor, o que, por sua vez, o leva a querer agradar a Ele. Allah disse:

    “Quanto aos primeiros (muçulmanos), dentre os migrantes e os socorredores (Ansar) do Mensageiro, que imitaram o glorioso exemplo daqueles, Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele; e lhes destinou jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Tal é o magnífico benefício.” (9:100).

    “Deus dirá: Este é o dia em que a lealdade dos verazes ser-lhes-á profícua. Terão jardins, abaixo dos quais correm rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Tal será o magnífico benefício!” (5:119). Ver também 58:22 e 98:8.

    A verdadeira felicidade

    “...Quando vos chegar de Mim a orientação, aqueles que seguirem a Minha orientação não serão presas do temor, nem se atribularão.” (2:38).

    “Disse: Descei ambos do Paraíso! Sereis inimigos uns dos outros. Porém, logo vos chegará a Minha orientação e quem seguir a Minha orientação, jamais se desviará, nem será desventurado. Em troca, quem desdenhar a Minha Mensagem, levará uma mísera vida, e, cego, congregá-lo-emos no Dia da Ressurreição. Dirá: Ó Senhor meu, por que me congregastes cego, quando eu tinha antes uma boa visão? E (Deus lhe) dirá: Isto é porque te chegaram os Nossos versículos e tu os esqueceste; a mesma maneira, serás hoje esquecido!” (20:123-126).

    Deus é o criador do ser humano. Afora isso, o que a alma busca é conhecê-Lo e ter uma relação com Ele. Assim, sem esta relação, sua vida estará cheia de penas e pesares.

    Por outro lado, conhecer Allah e estabelecer com Ele uma relação apropriada lhe proporcionará a verdadeira felicidade.

    Ao longo da história, os sábios e homens piedosos tentam expressar a alegria e felicidade que entram no coração ao conhecer a seu Senhor. Um famoso sábio do Islam, Ibn Taimiyah, tentou expressar o contentamento que sentiu a partir de sua fé em Allah e boas obras. Disse uma vez:

    “Neste mundo existe um Paraíso e os que entram nele não poderão entrar no Paraíso da próxima vida.”

    Também disse:

    “Que podem me causar meus inimigos? Certamente, meu paraíso e meu jardim estão aqui em meu peito.”

    Ibn Qaiim, o aluno mais próximo de Ibn Taimiyah e que o visitava freqüentemente na prisão, disse:

    “Allah sabe que nunca conheci alguém que tivesse uma vida melhor que a dele. [Era assim] Apesar de que se encontrava em circunstâncias sufocantes e não tinha luxos nem comodidades. Ao contrário, ele se encontrava no extremo oposto. Ainda encarcerado, torturado e ameaçado tinha uma vida das mais prazerosas dentre todos os demais; possuía sentimentos leves, força em seu coração e era o mais feliz de todos. Podia-se notar em seu rosto a felicidade na qual vivia. Cada vez que tínhamos medo, más expectativas ou sentíamos que o mundo nos pressionava, recorríamos a ele e bastava vê-lo e ouvir suas palavras para que todos esses maus sentimentos se afastassem. Saíamos cheios de tranqüilidade, força, certeza e paz. Louvado seja Aquele que permite a Seu servo ser testemunha de Seu Paraíso antes de se encontrar com Ele.”

    Então, este sentimento tão belo, que parte da fé, não era exclusividade de Ibn Taimiyah. Ibn al Qaiim cita outro devoto muçulmano dizendo o seguinte:

    “Se os reis e os filhos dos reis soubessem a felicidade que vivemos, lutariam por ela com suas espadas... Os devotos deste mundo são desdenhados. Ser vão deste mundo sem haver provado o aspecto maravilhoso que há nele.” Quando lhe perguntaram qual era, respondeu: “O amor por Allah, conhecê-Lo e recordá-Lo... Há ocasiões em que digo: ‘se a gente do Paraíso vive desta maneira, então têm uma boa vida’.”

    Outro autor afirmou:

     [Os frutos da purificação da alma] São os frutos perpétuos para todo o momento. O servo encontra seu sabor, vive sua doçura e se move entre seus prazeres. Cada vez que a pessoa sobe na escala da purificação, esses frutos aumentam de igual maneira.”

    Ibn Qaiim acrescentou:

    “Não pensem que as palavras de Allah: ‘Sabei que os piedosos estarão em deleite; Por outra, os ignóbeis, irão para a fogueira’ (82:13-14), limitam-se somente aos prazeres e os inferno da próxima vida. Na realidade, aplicam-se às três etapas [dos seres humanos], quer dizer, a vida neste mundo, a vida no al barzaq [depois da morte e antes da ressurreição, ou seja, no túmulo] e a vida na morada eterna.

    As almas purificadas vivem com prazer, enquanto as outras estão num inferno. Acaso o prazer não é o prazer do coração e o castigo, o castigo do coração? Que castigo pode ser mais duro que o medo, a preocupação, a ansiedade e a intranqüilidade que sofrem aqueles cujas almas não estão purificadas? [Que pode ser mais duro] Que afastar-se de Allah e da morada da próxima vida, aferrar-se a algo que não é Allah e estar desconectado d’Ele?”

    Ser justo consigo mesmo

    Associar companheiros a Allah é uma forma grave de pecado.

    Em particular, danifica a alma e a dignidade ao se submeter e adorar seres que não merecem, em absoluto, ser adorados. Allah disse no Qur, an, citando Luqman:

    “Recorda-te de quando Luqman disse ao seu filho, exortando-o : Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniqüidade.” (31:13).

    Também disse:

    “Ó fiéis, em verdade os idólatras são impuros...” (9:28).

    Trata-se de uma impureza espiritual que ilustra que a pessoa está denegrindo sua alma. Uma vez que se entende o conceito de monoteísmo puro e o mesmo é praticado pelo indivíduo, surge um tipo de nobreza (pela falta de um termo melhor) e um sentimento proposital que o acompanha em sua alma.

    A pessoa se dá conta que não deve se submeter, prostrar nem reverenciar nada, nem ninguém que não seja Allah.

    Não pode oferecer suas orações a ninguém, exceto Allah, nem tampouco pode pedir perdão a ninguém afora Allah.

    Não recorre a pessoas mortas que, na realidade, não eram mais do que simples seres humanos.

    Não se senta ao pé de figuras metálicas ou de madeira que outros seres humanos criaram.

    Não teme a nenhuma forma de espírito que deve ser acalmado através de sacrifícios. Essa pessoa baseará sua vida na crença de que há apenas um Deus.

    Todas essas práticas estão proibidas segundo o conceito do monoteísmo.

    Mas, vai além de uma mera proibição. O indivíduo entende plenamente que todos esses atos não são próprios de um ser humano, quem Allah criou com um fim nobre e especial.

    Todos esses atos são inferiores ao ser humano e é inconcebível que uma pessoa, em seu juízo perfeito, possa participar deles.

    Por que uma pessoa haveria de se prostrar e rezar para outro ser humano como ele, que necessita comer e beber para sobreviver? Como pode alguém afirmar que outro ser humano compartilha, nem que seja uma pequena porção, da divindade de Allah e, portanto, merece que outros seres humanos se prostrem para ele?

    Ser resgatado de o castigo de Allah

    Allah disse no Qur’an:

    “Toda a alma provará o sabor da morte e, no Dia da Ressurreição, sereis recompensado integralmente pelos vossos atos; quem for afastado do fogo infernal e introduzido no Paraíso, triunfará. Que é a vida terrena, senão um prazer ilusório?” (3:185).

    Certamente, todo ser humano enfrentará a realidade da morte. Depois da morte, cada pessoa terá que se apresentar, frente a seu Senhor e deverá prestar contas de todos os seus atos. Para muitos, suas crenças, atitudes e ações os levarão a apenas a um destino: o castigo e a ira de Allah. Salvar-se desse destino é um dos maiores objetivos que uma pessoa pode alcançar.

    No Dia da Ressurreição a diferença entre os que creram e os que deixaram de crer será enorme. Veja como Allah descreve o que acontecerá neste dia. Allah disse:

    “Ó humanos, temei a vosso Senhor, porque a convulsão da Hora será logo terrível. No dia em que a presenciardes, casa nutriente esquecerá o filho que amamenta; toda a gestante abortará; tu verás os homens como ébrios, embora não o estejam, porque o castigo de Deus será severíssimo.” (22: 1-2).

    “Pois, quando for tocada a trombeta, Esse dia será um dia nefasto, Insuportável para os incrédulos.” (74: 8-10).

    Os incrédulos, devido às suas atitudes nesta vida e suas intenções de se comportarem sempre segundo a forma de vida que levam, privar-se-ão de tudo de bom que haverá nesse Dia. Allah não os beneficiará de forma alguma e nem sequer os olhará com complacência e aprovação. Como disse Allah, em mais de uma ocasião, sobre os incrédulos:

    “Aqueles que negociam o pacto com Deus, e sua palavra empenhada, a vil preço, não participarão da bem-aventurança da vida futura; Deus não lhes falará, nem olhará para eles, no Dia da Ressurreição, nem tampouco os purificará, e sofrerão um doloroso castigo.” (3:77).

    A complacência de Allah e o Paraíso na próxima vida

    A complacência de Allah e a felicidade da pessoa na próxima vida são o resultado mais importante que um verdadeiro muçulmano quer atingir.

    A próxima vida é a única vida real que devemos seguir. Mas, esta vida real só será desfrutada por aqueles que possam superar os baixos desejos desta vida mundana e, em seu lugar, busquem a complacência de Allah.

    Por isso o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Ninguém entrará no Paraíso, exceto que seja crente.” (Bukhari).

    Em outras palavras, essa vida tão magnífica e abençoada só será para aqueles que creram, praticaram o islam e purificaram suas almas, agradando, assim, a Allah, merecendo Sua bendita recompensa do Paraíso na próxima vida.

    Essa vida não será para aqueles que praticaram o mal e deram as costas à orientação de Allah. Allah recorda a todos os seres humanos quando diz:

    “Destinamos a morada, no outro mundo, àqueles que não se envaidecem nem fazem corrupção na terra; e a recompensa será dos tementes.” (28:83).

    De fato, Allah não apenas resgatará os crentes e as almas purificadas do castigo deste Dia, senão que também purificará todos os pecados que possam carregar, para que assim atinjam um estado apropriado para entrar no Paraíso. É uma bênção especial que só recebem aqueles que tiveram a intenção de se purificar com sua fé e boas ações nesta vida.

    Na realidade, o verdadeiro crente e muçulmano viverá a felicidade em todas as etapas desta vida. Como dissemos antes, vive a verdadeira felicidade nesta vida, enquanto os demais perseguem uma felicidade imaginária ou similar a uma miragem.

    Ao chegar sua morte, sua alma também fluirá livremente de seu corpo, envolta por um belo aroma à medida que saboreia os prazeres da próxima vida. Os anjos falarão com ele e lhe darão as boas novas do que virá.

    Allah descreveu com belas palavras o que ocorrerá:

    “Em verdade, quanto àqueles que dizem: Nosso Senhor é Deus, e se firmam, os anjos descerão sobre eles, os quais lhes dirão: Não temais, nem vos atribuleis; outrossim, regozijai-vos com o Paraíso que vos está prometido! Temos sido os vossos protetores na vida terrena e (o seremos) na outra vida, onde tereis tudo quanto anelam as vossas almas e onde tereis tudo quanto pretendeis. Tal é a hospedagem do Indulgente, Misericordioso!” (41:30-32). Ver também 10: 62-64.

    Afora isso, no túmulo haverá felicidade, pois o túmulo do crente se expandirá e ele poderá ver seu lugar no paraíso, enquanto que o túmulo do incrédulo se reduzirá e ele poderá ver seu lugar no inferno.

    Allah descreve aos crentes o Dia da Ressurreição com estas belas palavras:

    “Em verdade, aqueles a quem predestinamos o Nosso bem [aqueles que decretamos ser crentes], serão afastados disso [do inferno]. Não ouvirão a crepitação [da fogueira] e desfrutarão eternamente de tudo quanto à sua lama apetecer. E o grande terror não os atribulará, e os anjos os receberão, dizendo-lhes: Eis aqui o dia que vos fora prometido!” (21: 101-103).

    “E Deus salvará os tementes, por seu comportamento, não os açoitará o mal, nem se atribularão.” (39:61).

    Os crentes se salvarão de todas as penúrias do Dia da Ressurreição até que lhes seja outorgada a entrada no Paraíso:

    “E tu, ó alma em paz, retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e Ele satisfeito (contigo)! Entre no número dos Meus servos! E entra no Meu jardim!” (89: 27-30).

    “Em troca, os tementes serão conduzidos, em grupos, até ao Paraíso e, lá chegando, abrir-se-ão as suas portas e os seus guardiães lhes dirão: Que a paz esteja convosco! Quão excelente é o que fizestes! Adentrai, pois! Aqui permanecereis eternamente. Dirão: Louvado seja Deus, Que cumpriu a Sua promessa, e nos fez herdar a terra. Alojar-nos-emos no Paraíso onde quisermos. Quão excelente é a recompensa dos caritativos!” (39: 73-74).

    Na realidade, além de tudo isso, o importante é que receberão a complacência de Allah. Allah disse:

    “Deus prometeu aos fiéis e às fiéis jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente, bem como abrigos encantadores, nos jardins do Éden; e a complacência de Deus é ainda maior do que isso. Tal é o magnífico benefício.” (9: 72).

    Por último, conquista a maior das recompensas aqueles que se purificaram nesta vida através da verdadeira fé, boas ações e excelência no aperfeiçoamento da fé: a oportunidade de ver Allah. Allah disse:

    “Aqueles que praticam o bem obterão o bem e ainda algo mais; nem a poeira, nem a ignomínia anuviarão os seus rostos. Eles serão os diletos do Paraíso, em que morarão eternamente.” (10: 26).

    Em um hadith registrado por Muslim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou que “ainda algo mais” significa a bênção de poder contemplar a Allah.


    Converter-se em um Crente

    Antes de discutir os artigos sobre a fé, é necessário abordar certos temas introdutórios. O primeiro está relacionado com a definição de “fé” ou “crença” segundo a perspectiva islâmica. O segundo se refere à base da fé.

    Definição de crença

    Para a língua portuguesa, “crença” é simplesmente o reconhecimento de que algo é certo. Assim, é comum que nos perguntem: “Crês que Deus existe?” e a resposta pode ser um “Sim”. A mesma pessoa pode, então, perguntar-te: “Sua fé em Deus tem alguma influência ou ramificação em sua vida, suas ações e seus objetivos?” Ante essa pergunta, a mesma pessoa que disse crer em Deus poderá responder: “Não”.  Diante desta situação tão comum, dever-se-ia fazer a seguinte pergunta: esse tipo de fé é equivalente ao que o Islam quer dizer com, por exemplo, “fé em Allah”?

    A base de nosso Islam começa com o que está em nosso coração e nossa fé.

    Assim, o Islam ressalta o significado do verbo “crer”, como trataremos mais adiante, neste mesmo capítulo. Sem dúvida, ao mesmo tempo, o Islam também destaca o que deveria ser a “fé”.

    A fé, desde uma perspectiva islâmica, não pode ser algo que a pessoa tenha em seu coração, mas que não influencie em nada sua vida e conduta.

    Ao contrário, a fé no coração deveria ser a força que impulsiona tudo o que a pessoa faz. Uma fé verdadeira e eficaz nunca permanece num universo abstrato, senão que sua influência se manifesta a nível prático, no cotidiano.

    Tomemos um exemplo simples: a questão de enganar e roubar está diretamente relacionada com o sistema integral da fé. Se uma pessoa crê que estes atos são moralmente incorretos e que existe um Deus justo e todo-poderoso, ante Quem deverá prestar contas de seus atos, seguramente, abster-se-á de praticá-los. Mas, se uma pessoa não crê nas influências eternas de seus atos ou no Dia do Juízo, seu fator de decisão girará somente em torno das possibilidades que poderão justificar algum tipo de castigo, ou seja, ela poderá se prender em uma armadilha.

    De fato, a verdadeira fé é muito mais que fazer com que a pessoa se dê conta das influências negativas ou positivas de um ato.

    À medida que uma pessoa desenvolve sua fé fortalece suas crenças, sua fé se molda de acordo com a forma com que ela observa as coisas. Seu amor ou ódio por algo estão determinados pela sua crença naquilo.

    Por exemplo, quando reconhece que Allah ama algo, percebe que aquilo deve ser maravilhoso e merecedor de seu amor. Pelo contrário, se algo não agrada a Allah, a pessoa admite que essa coisa possui características que merecem sua repulsa.

    Um exemplo é o ato de fumar. Alguém pode crer que fumar é prejudicial e danoso aceitando como certos os fatos que provam que fumar é prejudicial. Entretanto continua fumando e não deixa que aquilo que reconhece como certo guie suas ações.

    Em outras palavras, não se submete à verdade, nem tampouco implementa o que esta dito. Seu conhecimento fatual sobre o ato de fumar não chegou a seu coração de tal maneira que desenvolva uma aversão pelo tabaco devido a seus males.

    Portanto, seu reconhecimento dos fatos não é o mesmo que ter “fé”, ou, dito em termos qu’rânicos, “imaan”.

    O imaan implica ter a vontade de se submeter e promulgar o que é reconhecido como certo. No caso da verdadeira fé, ou imaan, se é forte ou sã, nesse momento, conseguirá alcançar a recusa, em seu coração, desse ato que julga incorreto ou prejudicial. Isso fará com que a pessoa não deseje cometer esse ato prejudicial.

    Ao mesmo tempo, colocará em seu coração o amor por todas as boas ações. Allah disse:

    “... Porém, Deus vos inspirou o amor pela fé e adornou com ela vossos corações e vos fez repudiar a incredulidade, a impiedade e a rebeldia. Tais são os sensatos.” (49: 7).

    Portanto, essa fé irá reger sua vida e o guiará ao que deve ser feito. Sem dúvidas, se sua fé é débil e se encontra superada por outras forças presentes em seu coração, provavelmente não terá efeito.

    Então, a verdadeira fé significa que a pessoa atua de acordo com tal fé. Por exemplo, quando uma pessoa diz que crê nos anjos, significa que sabe que eles estão presentes e que realmente estão registrando todos os seus atos. Isso o afeta de tal maneira que não cometerá aqueles atos que não quer que os anjos vejam e registrem.

    Assim, um estudo profundo do Qur’an e da Sunnah mostra que o imaan tem certos componentes. Esses componentes foram resumidos pelos primeiros sábios com as palavras “o imaan é a palavra e a ação”. A palavra aqui se refere à palavra do coração (afirmação) e a palavra da boca (verbalização).

    A ação inclui tanto as ações do coração (vontade de se submeter, amor, etc.) e as ações do corpo (oração, jejum, etc.).

    Por razões de clareza, ao longo do tempo, estes componentes se dividiram nos seguintes três itens essenciais do imaan, que também foram mencionados por muitos sábios:

    (1) fé no coração;

    (2) verbalização;

    (3) realização de ações com as partes físicas do corpo.

    Definitivamente, a fé, num sentido de se crer verdadeira e definitivamente em algo, deveria dirigir a uma correspondente submissão àquilo em que se crê. Do contrário, não é mais que uma aceitação de um fato, porém não constitui o conceito islâmico de imaan. Nesta linha, Ibn Uthaimin escreveu o seguinte:

    “O imaan é a afirmação que requer aceitação e submissão. Se uma pessoa crê em algo sem aceitar nem se submeter, não é imaan. A evidência disso é que os árabes politeístas criam na existência de Allah como o Criador, Mantenedor, Quem dava a vida e a morte e Gestor de todos os assuntos do universo. Além disso, um deles aceitou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) como Mensageiro, mas não era um crente. Essa pessoa era Abu Talib, o tio do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele)... entretanto, isso [fé no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele)] de nada lhe servirá se não for aceito e não se submeter ao que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) trouxe.”

    “Um salto de fé”

    O segundo tema introdutório se refere à base de nossa fé. No idioma português, existe um conceito comum de que “fé” implica na crença em algo que não pode ser demonstrado. Em outras palavras, a “fé” requer o que é conhecido como um “salto de fé”, através do qual se vai além do que pode ser aceito racionalmente, chega-se a uma aceitação e crença cegas. Esse enfoque é contra o conceito islâmico.

    De uma perspectiva islâmica, a fé deve estar “baseada no conhecimento”, de tal maneira que tanto a razão quanto o coração encontrem consolo e se submetam a ela com uma resolução firme.

    O Islam não exige das pessoas que creiam em assuntos que sejam contra sua própria natureza e razão, da qual Allah as dotou. Pelo contrário, Allah convida os seres humanos a refletir – admirar a criação, a si mesmos e a tudo o que os rodeia.

    Allah assinala aspectos diversos da criação e os descreve como sinais para aqueles que refletem. Quando os seres humanos refletem sinceramente sobre a criação que os rodeia, chegam à conclusões muito claras:

    (1) esta existência não poderia ter surgido sem um Criador Sábio e Inteligente

    e

    (2) dito Criador Sábio e Inteligente não haveria criado nada sem que houvesse um objetivo maior. Por isso, Allah disse:

    “Na criação dos céus e da terra e na alternância do dia e da noite há sinais para os sensatos, Que mencionam Deus, estando em pé, sentados ou deitados, e meditam na criação dos céus e da terra, dizendo: Ó Senhor nosso, não criaste isto em vão. Glorificado sejas! Preserva-nos do tormento infernal!” (3: 190-191).

    “Porventura não refletem em si mesmos? Deus não criou os céus, a terra e o que existe entre ambos, senão com prudência e por um término prefixado. Porém, certamente muitos dos humanos negam o comparecimento ante o seu Senhor (quando da Ressurreição).“ (30: 8).

    “Pensais, porventura, que vos criamos por diversão e que jamais retornareis a Nós?” (23: 115).

    O argumento qu'rânico é que não é logicamente possível chegar a outra conclusão.

    De fato, se uma pessoa crê em Deus como o Criador, por definição é impróprio pensar que tal nobre e grande Criador tenha criado toda a ordem e beleza sem que houvesse um objetivo por trás dessa criação.

    Uma pessoa que crê em um criador, entretanto não crê que este criador tenha tido algum propósito em sua criação, esta descrevendo a um criador infantil e pouco inteligente.

    É difícil crer que um criador assim possa ser responsável por uma criação como a que observamos no cotidiano. Não, certamente a criação ressalta certos atributos do Criador e aponta um propósito importante e grandioso por trás de toda a criação.

    A totalidade da natureza da existência assinala que o Criador possui um caráter muito especial e que não criaria nada simplesmente por diversão ou embromação. Esse Criador só pode ser Allah com Seus perfeitos e sublimes atributos – quer dizer, a criação necessita de Allah e não pode ser justa e apropriada, a menos que esteja sob o controle de Allah, exatamente como é Allah. Sobre isso, Allah disse no Qur’an:

    “Se houvesse nos céus e na terra outras divindades além de Deus, (ambos) já se teriam desordenado. Glorificado seja Deus, Senhor do Trono, de tudo quanto Lhe atribuem!” (21: 22).

    Uma segunda conclusão muito importante a que se pode chegar, através da simples análise desta criação, é que quem criou tudo isso do nada pode recriá-lo facilmente. Se possui uma habilidade de recriar as coisas mesmo depois de seu desaparecimento, também significa que tem a habilidade de ressuscitá-las e pô-las diante de si.

    Obviamente, esta idéia tem repercussões para os seres humanos e seu comportamento neste mundo. Por isso Allah destaca este aspecto e recorda os seres humanos sobre seu significado no Qur’an.

    Por exemplo, Allah diz:

    “Não reparam em que Deus, Que criou os céus e a terra, é capaz de criar outros seres semelhantes a eles, e fixar-lhes um destino indubitável? Porém, os iníquos negam tudo.” (17: 99).

    “E Nos propõe comparações e esquece a sua própria criação, dizendo: Quem poderá recompor os ossos, quando já estiverem decompostos? Dize: Recompô-los-á, Quem os criou da primeira vez, porque é Conhecedor de todas as criações. Ele vos propiciou fazerdes fogo de árvores secas, que vós usais como lenha.

    Porventura, Quem criou os céus e a terra não será capaz de criar outros seres semelhantes a eles? Sim! Porque Ele é o Criador por excelência, o Onisciente! Sua ordem, quando quer algo, é tão-somente: Seja!, e é. Glorificado seja, pois, Aquele em Cujas Mãos está o domínio de todas as coisas, e a Quem retornareis.” (36: 78-83).

    Aquele que nega a ressurreição espera que Allah trate os malfeitores da mesma forma que trata os piedosos. Isso não é característica de Allah. Allah deixa claro que isso nunca acontecerá e ressalta que ditas idéias só podem vir daqueles que não crêem em Deus. Allah disse:

    “E não foi em vão que criamos os céus e a terra, e tudo quanto existe entre ambos! Esta é a conjectura dos incrédulos! Ai, pois, dos incrédulos, por causa do fogo (infernal)! Porventura, trataremos os fiéis, que praticam o bem, como os corruptores na terra? Ou então trataremos os tementes como os ignóbeis?” (38: 27-28).

    Apesar de estar além do alcance deste livro, a fé islâmica no Qur’an e a veracidade do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também se baseiam em evidências claras e diretas.

    A crença no Qur’an como uma revelação Divina não é uma fé cega, ao contrário está diretamente relacionada com a natureza milagrosa e a extrema beleza do próprio Livro. Da mesma forma, a crença no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também está apoiada por indícios que confirmam sua chegada em revelações anteriores, pelo caráter nobre do Profeta, pela vitória que Allah lhe outorgou, pela mudança que aconteceu durante e depois de uma geração sob sua orientação, etc.

    O ponto é que as crenças islâmicas em Deus como o Único Criador e Senhor, a crença em um propósito de vida, na ressurreição, no Qur’an e na veracidade do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se baseiam em um conhecimento e entendimento que são compatíveis com a natureza humana.

    De fato, devido ao embasamento no conhecimento, tudo que é incrementado em nosso conhecimento, relacionado com ditas crenças, gera um acréscimo na fé. Assim, o conhecimento e a fé nunca se enfrentam no Islam.

    Novamente, isso se deve a não haver mistérios nem absurdos nos quais devemos crer. Os mistérios e absurdos requerem “saltos de fé” e são totalmente alheios e ausentes às crenças islâmicas.

    Os artigos da fé

    Os “artigos da fé”, ou as categorias gerais que se supõem formar a crença dos muçulmanos, foram definidos pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) em um famoso hadith conhecido como o “hadith do Anjo Gabriel”. Nesse hadith, o Anjo perguntou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): “O que é o imaan?” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) respondeu: “É crer em Allah, Seus anjos, Seus livros, Seus mensageiros, no último Dia e crer no qadr (decreto Divino), sendo ou não agradável.” (Muslim).

    É importante que todos os muçulmanos, incluindo os convertidos, compreendam, ao menos basicamente, cada um dos artigos da fé. Para isso apresentarei cada um em separado.

    Crer em Allah

    A crença islâmica em Deus gira em torno de um monoteísmo puro e inalterado, comumente chamado tauhid. Para aclarar este tema, os sábios dividiram a discussão do tauhid em ramos distintos, onde, cada um deles, cobre ou explica um aspecto da crença completa e correta em Allah. Estas ramificações estão clara e diretamente indicadas no Qur’an e na Sunnah.

    Uma maneira habitual de discutir o tauhid é dividi-lo em três categorias.

    Essas três categorias são tauhid ar rububiyah, tauhid al uluhiyah e tauhid al asma wa as sifaat.

    Tauhid ar Rububiyah: Em essência, trata-se de crer no caráter único de Allah com respeito a Suas ações. É a crença na Unicidade de Allah no que concerne a Seu domínio. Ele é o Único sem companheiros em Seu domínio e Suas ações. Só Ele é o Senhor (ar Rabb). Ele é o Único Criador, Possuidor e Mantenedor desta criação. Toda a criação foi orquestrada por Ele e só por Ele.

    Segundo Ibn Uthaimin, toda a humanidade, exceto os mais arrogantes, reconhecem este aspecto do tauhid , quer dizer, que não existe Senhor e Criador exceto o Único Senhor e Criador. Isso é assim porque esta crença está arraigada na natureza humana.

    A humanidade reconhece e aceita que esta criação deve ter tido um Criador.

    A humanidade também aceita que este Criador é Único.

    Fica claro, graças a muitos versículos do Qur’an, que inclusive os árabes politeístas sabiam e reconheciam que o único e verdadeiro Criador estava acima de todos os ídolos que eles adoravam. Por exemplo, Allah disse no Qur’an:

    “Pergunta-lhes: A quem pertence a terra e tudo quanto nela existe? Dizei-o, se o sabeis! Responderão: A Deus! Dize-lhes: Não meditais, pois? Pergunta-lhes: Quem é o Senhor dos sete céus e o Senhor do Trono Supremo? Responderão: Deus! Pergunta-lhe mais: Não (O) temeis, pois? Pergunta-lhes, ainda: Quem tem em seu poder a soberania de todas as coisas? Que protege e de ninguém necessita proteção? (Respondei) se sabeis! Responderão: Deus! Dize-lhes: Como, então, vos deixais enganar?” (23: 84-89).

    Sem dúvidas, esta crença em relação a Allah também exige ou implica os seguintes aspectos:

    Tudo o que acontece nesta criação é pelo Decreto, Permissão e Vontade de Allah.

    O sustento e a provisão são de Allah e somente d’Ele.

    A vida e a morte estão unicamente nas mãos de Allah.

    Todas as bênçãos vêm de Allah.

    A orientação ou estabelecimento de uma forma de vida é direito exclusivo de Allah.

    Somente Allah tem conhecimento do desconhecido.

    Ninguém tem direitos sobre Allah a menos que Allah Mesmo os tenha estabelecido.

    Tauhid al Uluhiyah: É a unicidade de Allah no que diz respeito a ser o único ilaah (Divindade, objeto de culto e adoração). É a atuação do tauhid tal como se fala nas ações dos seres humanos ou servos de Allah.

    Esse é o significado do testemunho de fé “Não existe nada digno de ser adorado afora Allah”.

    É a razão pela qual foram enviados os mensageiros e revelados os livros.

    É a “prova” que a humanidade enfrenta neste mundo. Allah disse

    “Não criei os gênios e os humanos, senão para Me adorarem.” (51: 56); e também disse: “O decreto de teu Senhor é que não adoreis senão a Ele...” (17: 23).

    Esta ramificação do tauhid é a verdadeira meta ou essência dos ensinamentos dos profetas e mensageiros. O primeiro tipo de tauhid, tauhid ar rububiyah, é essencial e necessário. Na realidade, não há demasiada controvérsia ou desacordo sobre o primeiro tipo de tauhid.

    Muitas pessoas aceitariam o conceito básico de que o Senhor e Criador é um único Senhor e Criador. Certamente, esta crença deve levar à segunda forma de tauhid onde se dirigem todos os atos de adoração somente para Allah. É por isso que são citados muitos Mensageiros no Qur’an dizendo às pessoas:

    “Ó meu povo, adorai a Deus, porque não tereis outra divindade além d’Ele...” (7:59/65/85; 11:50/61/84; 23:23/32).

    Muitos autores dão definições para este tipo de tauhid. Al Qaisi, por exemplo, definiu-o da seguinte maneira:

    “Este é o conhecimento, crença e reconhecimento de que Allah tem a posição de Deus sobre toda Sua criação. Esta categoria de tauhid – chamada tauhid al uluhiyah ou tauhid al ‘ibadah – requer que Allah seja o único receptor de todos os atos de adoração.

    Essa é a especificação d’Ele como objeto de todos os atos de adoração, interiores e exteriores, palavras e ações.

    É a negação a adorar qualquer coisa ou pessoa que não seja Allah.

    É a negação de associar qualquer companheiro a Allah de qualquer forma e de dirigir qualquer ato de adoração a outro que não seja Ele. O conceito de adoração que deve ser dedicado somente a Allah cobre tudo o que é amado por Allah e que o agrada, sejam ações ou palavras, interiores ou exteriores, entre elas a pureza de intenção, o amor, o temor, a esperança, recorrer somente a Ele, depositar toda a confiança somente em Allah, buscar ajuda e assistência, buscar um meio de se aproximar...”

    Ele continua mencionando muitos atos de adoração, entre eles os mais óbvios, como a oração, prostração, jejum, sacrifício (de animal), peregrinação e outros.

    Todos devem ser realizados de maneira estabelecida por Allah e só assim O agrada. Ao realizar um desses atos por qualquer outro que não seja Allah, nega-se e destrói o cumprimento e a implementação do tauhid.

    A definição de As Saadi ilustra um pouco mais este conceito.

    Ele escreveu que tauhid al uluhiyah:

    “É saber e reconhecer com conhecimento e certeza que Allah é o único Deus e o único que verdadeiramente merece ser adorado.

    Também é afirmar que os atributos de Divindade não estão em nenhuma das criaturas. Portanto, ninguém merece ser adorado exceto Allah.

    Se a pessoa reconhece esse fato corretamente, reservará todos seus atos exteriores e interiores de servidão e adoração só para Allah. Cumprirá com os atos exteriores do Islam, como a oração, jihad, ordenar o bem e erradicar o mal, ser obediente aos pais, manter os laços de parentesco, cumprir com os direitos de Allah e de Suas criaturas.

    Não terá nenhum objetivo na vida que não seja o de agradar a seu Senhor e obter Suas recompensas.

    Em seus assuntos, seguirá o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Suas crenças serão aquelas demonstradas no Qur’an e na Sunnah. Suas ações serão o que Allah e Seu Mensageiro tenham legislado. Seu caráter e seus modos serão semelhantes ao Seu Profeta, em sua orientação, seu comportamento e todos os seus assuntos.”

    Esse aspecto do tauhid compreende tanto as ações do coração como as do corpo. Há dois aspectos em particular que devem ser combinados na adoração a Allah.

    As-Saadi disse:

    “O espírito e a praticidade da adoração se dão pela compreensão do amor e a submissão a Allah. O amor total e a submissão plena a Allah é a realidade da adoração.

    Se o ato de adoração carece de um ou ambos os componentes, não é um verdadeiro ato de adoração. Pois a realidade da adoração está na submissão e na priorização de Allah. E isso só ocorrerá se existir um amor total e pleno [por Allah] que domine todas as outras expressões de amor.”

    Jaafar Shaikh Idris descreve acertadamente o processo que deveria surgir através de uma correta crença em Allah e como deveria levar à realização de atos do coração que fossem aspectos essenciais do tauhid.

    Idris disse:

    “Quando a fé entra no coração de uma pessoa, provoca certos estados mentais que dão como resultado certas ações aparentes, as quais são prova de uma fé verdadeira. O principal desses estados mentais é o sentimento de gratidão para com Deus, que se pode dizer, a essência da ibaadah (adoração a Allah). Este sentimento de gratidão é tão importante que o incrédulo é chamado kaafir que significa “aquele que nega a verdade” e também “aquele que é ingrato”. Entende-se, ao ler o Qur’an, que o principal motivo de se negar a existência de Deus é o orgulho injustificado. Essa pessoa orgulhosa sente que não foi criada, nem há de ser governada por um ser a quem deve reconhecer como alguém maior e por quem deve estar agradecida”.

    “Aqueles que disputam acerca dos versículos de Deus, sem autoridade concedida, não abrigam em seus peitos senão a soberbia, com a qual jamais lograrão o que quer que seja: ampara-te, pois, em Deus, porque é o Oniouvinte, o Onividente.” (40: 56).

    Do sentimento de gratidão vem o amor:

    “Entre os humanos há aqueles que adotam, em vez de Deus, rivais (a Ele) aos quais professam igual amor que a Ele; mas os fiéis só amam fervorosamente a Deus...” (2: 165).

    Um crente ama e é agradecido a Deus por Seus favores, mas considerando que suas boas ações, sejam mentais ou físicas, estão muito distantes de sua equiparação aos favores Divinos; preocupa-se constantemente que Deus não o negue algum desses favores ou o castigue na próxima vida por causa de seus pecados. Portanto, tem o temor a Ele, rende-se ante Ele e O serve com grande humildade.”

    Não há, então, uma verdadeira adoração a menos que o coração esteja cheio de amor por Allah. Isto auxilia a incitar outros componentes necessários como ter esperança em Allah e temor de Allah no coração.

    O temor chega quando se glorifica e exalta verdadeiramente a Allah.

    A esperança em Allah surge de um amor pleno e total por Ele.

    Todos esses componentes devem estar presentes e em um equilíbrio adequado.

    Se não estão presentes ou não estão equilibrados adequadamente, a adoração se distorce e se torna incorreta.

    Allah diz acerca de alguns de Seus servos mais piedosos e verazes:

    “E o atendemos e o agraciamos com Yahia (João), e curamos sua mulher (de esterilidade); um procurava sobrepujar o outro nas boas ações, recorrendo a Nós com afeição e temor, e sendo humildes a Nós.” (21: 90).

    Em referência aos piedosos e devotos servos de Jesus, Uzair e os anjos, Allah disse:

    “Anelam Sua Misericórdia e temem Seu castigo.” (17: 57)

    Esta categoria de tauhid é a chave para uma “vida verdadeira”, uma vida sólida e apropriada.

    Ibn Taimiyah escreveu o seguinte:

    “Devem saber que a necessidade que um ser humano tem de Allah – de adorá-Lo e não associá-Lo nenhum companheiro – é uma necessidade com a qual não se pode fazer nenhuma analogia. Em alguns assuntos, compara-se à necessidade que o corpo tem de comer ou beber.

    Porém, com certeza, há diferenças entre elas. A realidade de um ser humano está em seu coração e sua alma. Estes não podem prosperar a menos que seja através de sua relação com Allah.

    Por exemplo, não há tranqüilidade neste mundo, exceto em Sua recordação.

    Certamente, o homem avança até o seu Senhor e, então, encontrá-Lo-á. Não existe uma verdadeira bondade, exceto ao se encontrar com Ele. Se o ser humano experimenta prazer ou felicidade em outro que não seja Allah, esse prazer e felicidade não serão duradouros. Irá de um lugar a outro ou de uma pessoa a outra.

    A pessoa desfrutará em alguma ocasião ou em parte do tempo.

    Entretanto, muitas vezes, nestas ocasiões, onde se desfruta de algum prazer, não há um verdadeiro gozo. Às vezes, pode, inclusive, haver lástima.

    Mas, Deus está sempre com ele, em toda circunstância e momento.

    Onde quer que esteja Allah estará com ele [com Seu conhecimento e ajuda]... Se alguém adora a outro que não Allah – ainda se o ama e obtém algo de amor e alguma forma de prazer neste mundo, graças a ele – [essa falsa adoração] destruirá a pessoa de uma maneira muito pior que alguém que ingere veneno... É imperativo saber que se alguém ama algo por alguma razão que não seja Allah, esse objeto amado definitivamente será causa de prejuízo e castigo...

    Se alguém ama algo por alguma razão que não seja Allah, esse objeto de amor o prejudicará, estando ou não com ele...”

    Para que qualquer ação seja aceita por Allah, deve ser realizada segundo este aspecto do tauhid. Em outras palavras, se uma pessoa cumpre e entende esta forma de tauhid, da maneira apropriada, necessariamente implica que aceita e aplica as outras formas de tauhid. Portanto, suas ações podem, então, ser aceitas por Allah.

    Allah disse:

    “Dize: Sou tão-somente um mortal como vós, a quem tem sido revelado que o

    vosso Deus é um Deus único. Por conseguinte, quem espera o comparecimento ante seu Senhor que pratique o bem e não associe ninguém ao culto d’Ele.“ (18: 110).

    Um dos atos que se deve realizar somente para Allah é a súplica. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “A súplica é a essência da adoração.”

    Quando uma pessoa reza ou suplica a um ser, está mostrando confiança e dependência para com ele. Está demonstrando sua necessidade para com o ser que recebe a súplica. Está demonstrando sua confiança nesse ser ou a capacidade que esse ser tem de conhecer, entender e satisfazer sua necessidade.

    Esse tipo de sentimento no coração, que é refletido na súplica, deve ser dirigido apenas a Deus. É por isso que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) afirmava que a súplica é a essência da adoração.

    Então, todo aquele que suplicar a qualquer um que não seja Allah está associando companheiros a Allah ou, em outras palavras, está cometendo shirk. O que é a antítese do imaan e do tauhid.

     Este tipo de tauhid é, na realidade, uma conseqüência ou resultado necessário da crença correta no tauhid ar rububiyah.

    Se a pessoa se dá conta que não existe rabb (Senhor), exceto Allah, então, saberá que ninguém é digno de louvor ou merecedor de adoração além de Allah.

    Se ninguém é digno de louvor, exceto Allah; então, por que alguém adoraria a outro que não seja Allah?

    Sobre este aspecto do tauhid, Ibn Abu al-Izz al-Hanafi escreveu o seguinte:

    “O Qur’an é abundante em frases e parábolas que dizem respeito a este tipo de tauhid”.

    Primeiramente, o tauhid ar rububiyah afirma que não existe Criador, exceto Allah.

    Esta convicção implica que ninguém (nada) deve ser adorado, exceto Allah.

    Toma-se a primeira proposição [que Allah é Senhor] como evidência para a segunda [que Allah é o único digno e merecedor de adoração].

    Os árabes criam na primeira proposição e disputavam sobre a segunda.

    Allah deixou claro: Sendo que sabem que não existe Criador, exceto Allah e que Ele é o Único que pode proporcionar à pessoa o que é benéfico e afastá-la do que é prejudicial, como, então, podem adorar a outros afora Allah e associar companheiros a Ele em Sua Divindade? Por exemplo, Allah disse no Qur’an:

    “Dize (ó Mohammad): Louvado seja Deus e que a paz esteja com os Seus diletos servos! E pergunta-lhes: O que é preferível Deus ou os ídolos que Lhe associam? Quem criou os céus e a terra, e quem envia a água do céu, mediante a qual fazemos brotar vicejantes vergéis[2], cujos similares jamais podereis produzir? Poderá haver outra divindade em parceria com Deus? Qual! Porém, [esses que assim afirmam] são seres que se desviam.” (27: 59-60).

    Ao final de outros versículos, Allah diz:

    “Acaso há outro deus junto com Allah?”

    O que é uma pergunta retórica com uma resposta implícita, claramente uma negativa.

    Eles aceitavam a idéia de que ninguém faz essas coisas, exceto Allah. Allah utilizou isso como prova contra eles.

    Não significa perguntar se existe outro deus afora Allah, como sustentam alguns.

    Esse significado é inconsistente com o contexto dos versículos e o fato de que as pessoas aceitavam outros deuses que não Allah.

    Como Allah disse:

    “...Ousareis admitir que existem outras divindades conjuntamente com Deus? Dize: Eu não as reconheço...” (6: 19).

    E costumavam dizer sobre o chamado do Profeta: “Pretende, acaso, fazer de todos os deuses um só Deus? Em verdade, isto é algo assombroso!” (38: 5).

    Mas, nunca diriam que outro deus “E fixou na terra sólidas montanhas, para que ela não estremeça convosco, bem como rios, e caminhos pelos quais vos guiais.” (16: 15).

    Portanto, Allah disse:

    “Dize-lhes: Que vos pareceria se Deus, repentinamente, vos privasse da audição, extinguisse-vos a visão e vos selasse os corações? Que outra divindade, além de Deus, poderia restaurá-los? Repara em como lhes expomos as evidências e, não obstante, as desdenham!” (6: 46) e “Ó humanos, adorai o vosso Senhor, Que vos criou, bem como aos vossos antepassados, quiçá assim tornar-vos-íeis virtuosos.” (2: 21), e outros versículos similares.”

    Tauhid al Asma wa as Sifaat: O terceiro aspecto do tauhid, segundo esta maneira de estudar o monoteísmo, é reconhecer e afirmar a Unicidade de Allah com respeito a Seus nomes e atributos.

    Deve-se afirmar que ditos atributos são perfeitos e completos apenas em Allah.

    Esses atributos são únicos de Allah. Ninguém mais pode ostentá-los.

    Ao longo da história do islam, algumas seitas se desviaram neste aspecto do tauhid.

    Shuaib al Arnaut descreve no seguinte fragmento as diferentes posturas que se desenvolveram:

    “Não há dúvida alguma que o tema dos atributos de Allah deve ser considerado como um dos mais importantes dos fundamentos da fé. As opiniões de alguns muçulmanos diferiam sobre este tema. Alguns deles seguiam o enfoque da negação total dos atributos. Outros aceitavam os nomes de Allah em geral, mas negavam os atributos. Alguns, por sua vez, aceitavam os nomes e atributos, mas em algumas situações recusavam ou davam interpretações afastando-se de seus significados aparentes dos textos do Qur’an e da Sunnah. Outros adotavam a postura de que é obrigatório crer em todos os nomes e atributos mencionados no Livro de Allah e da Sunnah autêntica. Criam neles segundo seu significado aparente e evidente. Negavam a possibilidade de compreender sua forma (kaifiyah), como também todo o tipo de similaridade dos atributos divinos com os atributos dos seres criados.

    Os que sustentam esta última opinião são chamados salaf (antecessores piedosos) e ahlus Sunnah (povo da Sunnah).”

    A crença correta sobre este tema, que remonta aos tempos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e seus companheiros, foi resumida por as-Saadi quando escreveu:

    “Quanto à crença em Allah é incluído: crer em todos os atributos que Allah descreveu em Seu Livro e todos os atributos que Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) Lhe atribuiu. [A crença em tais atributos] se dá sem distorções ou negações e sem que se especifique como ou de que maneira são aqueles atributos. De fato, a crença é que não existe nada similar a Allah e, ao mesmo tempo, Ele é Aquele que tudo ouve e tudo vê.

    Portanto, o que Ele atribuiu a Si mesmo não pode ser negado, nem tampouco distorcido o significado de tais descrições.

    Além disso, os nomes de Allah não se negam, não se descrevem e nem são demonstrados de uma maneira que se assemelhe aos atributos de qualquer outro ser criado. Isso se deve ao fato de que não existe nada ou ninguém similar ou comparável a Ele. Não tem parceiros ou companheiros. Não se pode fazer uma analogia entre Ele, louvado e glorificado seja, e Sua criação.

    Com relação à crença nos atributos e nomes que se atribuem a Allah, deve haver uma combinação de afirmação e negação.

    Ahlus Sunnah wal Jamaah não permite afastar-se do que exemplificavam os Mensageiros, pois esse é o Caminho Correto.

    São muito importantes todos os versículos do Qur’an que tratem dos nomes, atributos e ações de Allah, além daquilo que deve ser negado em relação a Ele. Entre os versículos está crer no estabelecimento de Allah sobre o Trono, Sua descida ao nível mais baixo do céu, onde os crentes O verão na próxima vida – tal como foi confirmado em diversos ahaadith.

    Também se fala, sob este princípio, a noção de que Allah está próximo de nós e responde nossas súplicas. O que se menciona no Qur’an e na Sunnah em respeito à Sua proximidade e “estar com” os crentes não contradiz o que se afirma com respeito à Sua transcendência e Sua posição acima da criação. Pois, Glorificado seja, não existe nada similar a Ele em absolutamente nenhuma de Suas características”.

    Em um versículo, Allah ressalta que nada é similar a Ele e, ao mesmo tempo, que Ele tem atributos de perfeição.

    Allah disse:

    “...Por esse meio vos multiplica. Nada se assemelha a Ele, e é o Oniouvinte, o Onividente.”(42: 11).

    Portanto, há uma negação total de qualquer antropomorfismo, por sua vez são confirmados todos os atributos de Onividência e Onipresença Divinas.

    Este aspecto do tauhid é muito importante e não deve ser subestimado.

    Como assinala Ahmad Salaam, as pessoas, antes da chegada do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), aceitavam a idéia de Allah como único Criador do universo.

    Sem dúvida, ao mesmo tempo, associavam companheiros a Allah nas mais distintas formas de adoração. Portanto, o Islam chegou para purificar este conceito de Allah como Senhor ou Rabb e deu entendimento apropriado.

    Ao fazê-lo, poderiam obter o conhecimento e entendimento corretos dos nomes e atributos de Allah.

    Se é conhecido e compreendido corretamente os nomes e atributos de Allah, nunca se recorreria a ninguém, sob nenhuma forma de adoração, que não a Allah.

    Então, uma compreensão correta e detalhada dos nomes e atributos de Allah é a verdadeira base para o cumprimento correto dos outros tipos de tauhid.

    Se o tauhid ar Rububiyah é como uma árvore, a raiz é o tauhid al asma was sifaat. Em outras palavras, o tauhid ar Rububiyah é construído sobre a base do tauhid al asma was sifaat. Se não há esta raiz ou base, a árvore se torna debilitada e morre.

    Certamente, segundo esta parábola, o verdadeiro fruto do tauhid al asma was sifaat, novamente, é o tauhid ar rububiyah. Quanto mais se sabe sobre Allah e Seus atributos, mais temor, amor e esperança serão alcançados.

    Portanto, um correto entendimento dos nomes e atributos de Allah é muito importante e benéfico.

    Os que não seguem este caminho, prejudicam-se e perdem um grandioso destino.

    A crença nos Anjos

    O segundo artigo da fé, mencionado pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), é a crença nos anjos. Os anjos são uma das criações de Allah que, em geral, os seres humanos não podem ver. Foram criados a partir de luz, mas não têm forma ou corpo. São servos de Allah e não possuem nenhum aspecto divino. Submetem-se totalmente a Seus mandamentos e nunca se apartam do cumprimento de Suas ordens.

    Salaam assinala que se uma pessoa não crê nos anjos, então não pode crer na chegada da revelação ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Portanto, a crença no Qur’an não pode ser confirmada até que a pessoa creia no anjos, em geral e no anjo Gabriel em particular, quem foi o veículo que trouxe a revelação ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Segundo Ibn Uthaimin, a crença correta nos anjos compreende quatro pontos:

    Primeiro, deve-se crer em sua existência.

    Segundo, deve-se crer neles em geral, mas também crer nos nomes que foram mencionados explicitamente no Qur’an ou na Sunnah autêntica. Por exemplo, um dos anjos se chama Jibril (Gabriel). Foi o anjo que trouxe a revelação ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Terceiro, deve-se crer em seus atributos tal como foi especificado no Qur’an e na Sunnah. Em um hadith consta que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) viu que o Anjo Gabriel cobria o horizonte e tinha seiscentas asas. Isso mostra que esta espécie da criação de Allah é grandiosa e maravilhosa. Também foi dito, como no hadith que estamos tratando, que um anjo pode aparecer em diversas formas, entre elas a forma humana. Isso prova o grande poder e capacidade que Allah tem para fazer o que deseja.

    Em quarto lugar, deve-se crer nas ações que realizam, tal como é mencionado no Qur’an ou num hadith autêntico.

    No Qur’an consta que adoram a Allah e O Glorificam.

    Também é indicado que alguns anjos têm funções específicas. Jibril está a cargo da “vida do coração”, o que refere à revelação que vem de Allah. Israafil está encarregado de tocar a trombeta que ressuscitará os corpos no Dia do Juízo. Mikaail é responsável pela chuva e a vegetação, as “fontes da vida sobre a terra. Ibn Uthaimin assinala que talvez a relação entre estes três anjos e suas responsabilidades de dar vida foi o que levou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) a começar suas orações noturnas com a seguinte súplica:

    “Ó Allah! Senhor de Jibril, Mikaail e Israafil, Criador dos céus e da terra, Conhecedor do desconhecido e do conhecido, Tu julgas Teus servos naquilo que diferem, guia-me à verdade naqueles assuntos em que divergimos, por Tua Vontade. Tu guias a quem desejas pela Senda Reta.”

    Um quinto assunto que deve ser mencionado sobre a crença nos anjos é ter um amor sólido por eles devido à sua obediência e adoração a Allah. Além disso, eles declaram a Unicidade de Allah e cumprem Seus mandamentos. Também têm um amor e lealdade incondicionais aos verdadeiros crentes em Allah. Elevam suas preces a Allah em nome dos crentes e pedem a Allah que os perdoe. Apóiam-nos nesta vida e também na próxima.

    Um aspecto importante relacionado à crença nos anjos é que todos devem crer que há dois anjos junto de si, em todo o momento e que registram todos os seus atos. Os seguintes versículos se referem a estes anjos:

    “Eis que dois (anjos da guarda), são apontados para anotarem (suas obras), um sentado à sua direita e o outro à esquerda. Não pronunciará palavra alguma, sem que junto a ele esteja presente uma sentinela pronta (para anotar).” (50: 17-18)

    São muitos os resultados benéficos que surgem com a crença correta nos anjos. Por exemplo, saber sobre os anjos permite à pessoa reconhecer a grandeza de Allah e Seu poder. Esta grandiosa criação, conhecida como anjos, é um indicador da grandeza de seu Criador. Além disso, deve-se agradecer a Allah por Seu extremo cuidado e preocupação para com os seres humanos. Ele criou estas criaturas para apoiar e proteger os crentes, registrar suas ações, etc.

    Sem dúvidas, um crente que creia nos anjos vai muito além disso. O crente sabe que os anjos são criaturas nobres que apóiam e ajudam tudo o que é verdadeiro e justo. Portanto, cada vez que o crente decide realizar uma boa ação, apoiar a verdade e sacrificar-se pelo que é correto, sabe que há criaturas neste mundo que o apóiam e ajudam em sua causa, tal como os anjos apoiaram e ajudaram os crentes no tempo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). De fato, assim promete Allah, segundo os seguintes versículos:

    “Sem dúvida que Deus vos socorreu, em Badr, quando estáveis em inferioridade de condições. Temei, pois, a Deus e agradecei-Lhe. E de quando disseste aos fiéis: Não vos basta que vosso Senhor vos socorra com o envio celestial de três mil anjos? Sim! Se fordes perseverantes, temerdes a Deus, e se vos atacarem imediatamente, vosso Senhor vos socorrerá, com cinco mil anjos bem treinados.” (3: 123-125)

    “Ele é Quem vos abençoa, assim como (fazem) Seus anjos, para tirar-vos das trevas e levar-vos para a luz; sabei que Ele é Misericordioso para com os fiéis.” (33: 43)

    A crença nos Livros de Allah

    Crer nos Livros de Allah é o terceiro pilar de fé mencionado neste hadith. Refere-se às revelações que Allah enviou a Seus Mensageiros, como misericórdia e orientação para dirigir a humanidade ao êxito nesta vida e a felicidade na próxima. O Qur’an é a revelação final. É a palavra de Allah.

    Ibn Uthaimin ressalta que a crença nos Livros de Allah compreende quatro aspectos:

    . Primeiro, deve-se crer que esses Livros foram realmente revelados por Allah.

    . Segundo, deve-se crer especificamente nos Livros mencionados no Qur’an e na

    Sunnah. Trata-se do Qur’an revelado ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), a Taurah revelada ao Profeta Moisés (que a paz esteja com ele), o Injil revelado ao Profeta Jesus (que a paz esteja com ele) e o Zabur revelado ao Profeta Davi (que a paz esteja com ele). Também no Qur’an há referência às “páginas” de Abraão e Moisés. Os Livros que possuem os judeus e cristãos, e que eles chamam Torá, Evangelho e Salmos, podem conter partes daquelas revelações originais, mas não há nenhuma dúvida que foram distorcidas e modificadas. Portanto, crer na Torá de Moisés, por exemplo, não significa que um muçulmano crê nos cinco primeiros livros do antigo testamento. São dois livros diferentes, embora o último possa conter partes do que havia sido revelado na Taurah original.

    . Em terceiro lugar, deve-se crer em tudo o que Allah revelou, tanto no conteúdo do Qur’an como nas revelações anteriores. Quer dizer que, por exemplo, se o Qur’an diz algo, então um muçulmano deve crer naquilo. Caso recuse algo que foi dito no Livro, então haverá negado sua crença nos Livros de Allah. Allah disse:

    “... Credes, acaso, em uma parte do Livro e negais a outra? Aqueles que, dentre vós, tal cometem, não receberão, em troca, senão aviltamento, na vida terrena e, no Dia da Ressurreição, serão submetidos ao mais severo dos castigo. E Deus não está desatento em relação a tudo quanto fazeis.” (2: 85)

    . Em quarto lugar, deve-se atuar segundo a revelação que não foi revogada ou substituída, quer dizer, o Qur’an. Deve-se estar satisfeito com ele e submeter-se plenamente. Ainda que a pessoa não compreenda totalmente a sabedoria por trás de um dito mandamento.

    Todas as revelações prévias de Allah foram revogadas pela revelação final, o Qur’an. Não há necessidade de que o muçulmano se remeta aos remanescentes de nenhuma das escrituras anteriores. Tudo o que necessita para sua orientação está contido no Qur’an e o que o clarifica, como a Sunnah do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Allah disse no Qur’an:

    “Em verdade, revelamos-te [Ó Muhammad] o Livro corroborante e preservador dos anteriores...” (5: 48)

    Sobre este versículo, Ibn Uthaimin comentou:

    “sobressai às escrituras prévias. Dessa maneira, não está permitido atuar segundo os ditames de nenhuma das escrituras anteriores, a menos que seja verificado e aceito pelo Qur’an”.

    O envio das revelações é uma das maiores bênçãos de Allah para a humanidade. Estas revelações guiam o homem à meta para a qual foi criado. É um dos muitos aspectos desta criação que ajudam o ser humano a ver e reconhecer a verdade. Sobre este ponto, Idris escreveu o seguinte:

    “Deus criou os homens para que fossem Seus servos. Ser servo de Deus constitui a essência do homem. Portanto, o homem não pode alcançar sua verdadeira humanidade e tranqüilidade a menos que esteja à altura deste objetivo para o qual foi criado. Mas, como se pode fazê-lo? Deus, que é Misericordioso e Justo, ajuda de muitas maneiras. Deu-lhe uma natureza de bondade com inclinação a conhecer e servir ao verdadeiro Senhor. Deu-lhe uma mente que possui um sentido moral e capacidade de raciocinar. Fez de todo o universo um livro natural, cheio de sinais que guiam a pessoa que pensa em Deus. Entretanto, para fazer coisas mais específicas e obter um conhecimento mais detalhado de seu Senhor e serví-Lo de uma forma mais exaustiva, Deus enviou mensagens através de Seus Profetas escolhidos entre os homens, desde a criação do ser humano. Por isso o Qur’an descreve mensagens anteriores como: orientação, luz, sinal, recordação, etc.”

    De fato, não somente enviou revelações à humanidade, como também enviou revelações específicas e diferentes segundo as necessidades e circunstâncias dos povos ao longo do tempo. Essa é outra expressão da grande misericórdia de Allah para com a humanidade.

    Este processo continuou até que foi revelado o Qur’an, que continha toda a orientação que a humanidade necessita desde os tempos do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) até o Dia do Juízo Final. Dado que deve cumprir a função de guia para todos os tempos até o Dia da Ressurreição, diferente das escrituras anteriores, Allah protegeu o Qur’an de toda e qualquer alteração, erro ou distorção. Allah disse:

    “Nós revelamos a Mensagem e somos o Seu Preservador.” (15: 9)

    A crença nos mensageiros

    O seguinte pilar da fé trata sobre a crença nos mensageiros de Allah.

    Um mensageiro é um ser humano que foi eleito por Allah para receber Sua revelação; aquele a quem foi encomendada a tarefa de transmitir essa revelação às outras pessoas. O primeiro dos mensageiros foi Noé (Nuh). Os mensageiros foram enviados a todas as pessoas e todos transmitiram o mesmo ensinamento fundamental:

    “Em verdade, enviamos para cada povo um mensageiro (com a ordem): Adorai a Deus e afastai-vos do sedutor!...” (16: 36)

    O último Mensageiro e Profeta foi Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Allah disse:

    “Em verdade, Mohammad não é o pai de nenhum de vossos homens, mas sim o Mensageiro de Deus e o prostremos dos profetas; sabei que Deus é Onisciente.” (33:40)

    Cabe ressaltar que todos estes mensageiros e profetas foram seres humanos normais. Não possuíam nenhum tipo de atributo divino. Não tinham o conhecimento acerca do desconhecido, salvo pelo que Allah os havia revelado.

    Seu atributo mais elevado foi o de servos de Allah. Assim Allah os descreve no Qur’an. Certamente, com respeito ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e fazendo referência a três dos mais importantes acontecimentos de sua vida, Allah se refere a ele como Seu servo.

    A crença correta nos mensageiros compreende quatro aspectos:

    - Primeiro, deve-se crer que a mensagem que todos transmitiram é a Verdade proveniente de Allah. Se uma pessoa refuta um mensageiro que esteja confirmado no Qur’an ou em um hadith autêntico, com certeza está refutando a todos os mensageiros. Allah se refere ao povo de Noé dizendo:

    “O povo de Noé desmentiu os Mensageiros” (26: 105).

    Sem dúvidas, Noé foi o primeiro mensageiro. Basicamente, isso significa que se uma pessoa rechaça um mensageiro, na realidade, está rechaçando a todos; uma vez que as mensagens são, em essência, a mesma, única e consistente. Com relação a isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Por aquele em cujas Mãos se encontra a alma de Muhammad, não existirá nenhum judeu ou cristão nesta nação que me escute e logo morra sem haver crido em minha mensagem, que não será um dos habitantes do Fogo do Inferno.” (Muslim).

    Este é um dos aspectos que distinguem os muçulmanos dos povos antigos.

    Os muçulmanos crêem em todos os profetas. Com certeza, outros povos recusavam alguns, fossem os judeus recusando Jesus (que a paz esteja com ele) ou os cristãos recusando Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Não possuíam nenhum tipo de fundamento para rechaçar o último profeta. Cada mensageiro se manifestou com provas e sinais muito claros. A recusa de seu povo só pode ter sido embasada na arrogância, ignorância ou hostilidade para com a verdade.

    - Segundo, deve-se crer em todos os mensageiros mencionados pelo nome no Qur’an e na Sunnah. Quanto aos que não são mencionados, deve-se crer neles a um nível geral, sabendo que Allah enviou muitos mensageiros – ainda que nem todos são mencionados no Qur’an ou em algum hadith. Allah declara no Qur’an:

    “Antes de ti, havíamos enviado mensageiros; as histórias de alguns deles te temos relatado, e há aqueles dos quais nada te relatamos...” (40:78)

    - Terceiro, deve-se crer em tudo que é relatado por estes mensageiros. Eles trazem a Mensagem de Allah de forma completa e adequada. Esforçam-se por transmitir esta Mensagem. Resistem em nome de Allah da forma mais incisiva. São os que mais conhecem a Allah e os melhores servos e adoradores do Senhor.

    Os mensageiros “foram protegidos de atribuir a Allah produtos de suas imaginações, de julgar de acordo com seus próprios desejos, de cometer pecados capitais e de agregar ou retirar coisas da religião.”

    - Quarto ponto, deve-se submeter, aceitar e atuar de acordo com as leis que foram ensinadas pelo Mensageiro. Allah disse no Qur’an:

    “Jamais enviaríamos um mensageiro que não devesse ser obedecido, com a anuência de Deus...” (4:64).

    Com relação ao Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), Allah disse:

    “Qual! Por teu Senhor, não crerão até que te tomem por juiz de suas dissensões e não objetem ao que tu tenhas sentenciado. Então, submeter-se-ão a ti espontaneamente.” (4: 65).

    O crente deve entender que lhe foram enviados mensageiros para benefício e orientação da humanidade, ou seja, isso é uma grande benção de Allah. O conhecimento que eles transmitiram é um tipo de conhecimento que vai além da compreensão do intelecto humano, já que trata de assuntos do oculto.

    De fato, a necessidade da humanidade pela orientação é maior que a necessidade por comida ou bebida. Porque, se carecerem da orientação da Allah, ensinada pelos mensageiros, perderão o melhor deste mundo e do outro.

    A crença no Último Dia e na Próxima Vida

    “O Último Dia” é nomeado como tal, pois não haverá um novo dia após ele; as pessoas do Paraíso habitarão em suas moradas, assim como as pessoas do Inferno.

    Entre seus diversos nomes, encontram-se:

    “O Dia da Ressurreição”,

    “A Realidade”,

    “O Acontecimento”,

    “O Dia do Juízo” e

    “O Escurecedor”.

    Este será o dia mais importante vivenciado pela humanidade. De fato, será o dia mais sério e mais temido por todos.

    A nova vida das pessoas será determinada nesse dia. Marcará um novo começo para cada uma das almas. Este novo caminho poderá levar tanto à graça eterna como à condenação eterna. 

    A crença no Último Dia implica em crer em tudo que o Qur’an ou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declararam acerca dos eventos que acontecerão neste Dia.

    Existem alguns aspectos gerais (a ressurreição, o juízo e as recompensas, o Paraíso e o Inferno) que os muçulmanos devem crer com convicção.

    Também existem aspectos mais particulares que o Qur’an ou o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mencionam. Quanto mais se sabe desse Dia e seus acontecimentos, maior será o efeito que esta crença terá sobre a pessoa.

    Por isso, é altamente recomendado que cada muçulmano estude e aprenda sobre os acontecimentos que ocorrerão antes e durante o Dia da Ressurreição.

    Como se encontra registrado no sahih Muslim, antes do Dia do Juízo e da destruição da terra, Allah enviará um vento mais suave que a seda, que levará as almas de todos os indivíduos que possuam ainda um mínimo de fé no coração.

    Portanto, os eventos do fim da terra serão presenciados somente pelas piores pessoas, as que careçam realmente de fé.

    Um dos primeiros acontecimentos será o sol nascendo no oeste. Neste momento todas as pessoas afirmarão ter fé, mas será tarde e isso não lhes adiantará em nada.

    Logo, a trombeta soará e tudo o que se encontra sobre a terra morrerá. Allah disse:

    “E a trombeta soará e aqueles que estão nos céus e na terra expirarão, com exceção daqueles que Deus queira (conservar). Logo, soará pela segunda vez e, hei-lhes ressuscitados, pasmados!” (39: 68)

    A terra e os céus serão destruídos. Logo após um período de quarenta – não se sabe se são horas, dias ou anos – a trombeta soará pela segunda vez e as pessoas serão ressuscitadas:

    “E a trombeta soará, e hei-lhes que sairão dos seus sepulcros e se apressarão para o seu Senhor. Dirão: Ai de nós! Quem nos despertou do nosso repouso? (Ser-lhes-á respondido): Isto foi o que prometeu o Clemente, e os mensageiros disseram a verdade.” (36: 51-51).

    De acordo com Ibn Uthaimin, a crença no Último Dia abrange três aspectos.

    O primeiro é a crença na ressurreição - logo após o segundo soar da Trombeta, as pessoas ressuscitarão ante Allah. Encontrar-se-ão nuas, descalças e sem a circuncisão. Allah disse:

    “... Do mesmo modo que originamos a criação, reproduzi-la-emos. É porque é uma promessa que fazemos, e certamente a cumpriremos.” (21: 104).

    A ressurreição será no mesmo corpo que a pessoa possuía em sua vida neste mundo. Ibn Uthaimin destacou a sabedoria e a importância deste fato:

    “Se houvesse uma nova criação significaria que o corpo que realizou os pecados neste mundo estaria a salvo de qualquer tipo de castigo. Retornar com um novo corpo e se aquele corpo for castigado contraria toda a noção de justiça. É por isso que os argumentos contextuais e racionais indicam que a pessoa ressuscitada não é uma nova criação, mas sim o retorno da mesma.”

    Também ressalta que Allah possui a habilidade de recriar os corpos, inclusive após estarem desintegrados.

    Os seres humanos podem não ser capazes de entender como isso é possível, assim como existem muitos outros aspectos que os seres humanos não compreendem.

    Sem dúvida, Allah o declarou e os crentes têm a certeza de que isso é a verdade e que Allah é completamente capaz de fazê-lo.

    O segundo aspecto é a crença na prestação de contas ou apreciação das ações e as recompensas ou castigos por estas. Este aspecto é mencionado e destacado em diversas partes do Qur’an. Aqui colocaremos alguns exemplos:

    “Em verdade, o seu retorno será para Nós; e o seu cômputo Nos concerne.” (88: 25-26)

    “E instalaremos as balanças da justiça para o Dia da Ressurreição. Nenhuma alma será defraudada no mínimo que seja; mesmo se for do peso de um grão de mostarda, tê-lo-emos em conta. Bastamos Nós por cômputo.” (21: 47).

    Allah deixa muito claro que todas as ações serão analisadas no Dia do Juízo. Allah disse:

    “E a ponderação, nesse dia, será a eqüidade; aqueles cujas boas ações forem mais pesadas serão os bem-aventurados. E aqueles, cujas boas ações forem leves serão desventurados por haverem menosprezado os Nossos versículos.” (7: 8-9).

    Devemos recordar a todo o momento que as recompensas de Allah para Seus servos são um ato de Sua misericórdia e, também, que Suas recompensas são sempre maiores que realmente merecemos por nossas boas ações. Certamente, o castigo de Allah é determinado mediante Sua justiça e Ele não castiga a ninguém além do que é merecido.

    O terceiro aspecto fundamental da crença no Último Dia é a crença no Paraíso e Inferno.

    O Paraíso é a morada eterna e a recompensa para os crentes.

    O Inferno é a morada eterna e o castigo para os incrédulos.

    A opinião mais sólida é que ambos existem na atualidade e que continuarão existindo para sempre. Não constituem meros estados de espírito como consideram alguns não muçulmanos e hereges muçulmanos. Allah e Seu Mensageiro os mencionaram e descreveram claramente e de forma inequívoca.  Não existe nenhum motivo para que um muçulmano negue sua existência ou suas descrições. Acerca do Paraíso, por exemplo, Allah disse:

    “Por outra, os fiéis, que praticam o bem, são as melhores criaturas, Cuja recompensa está em seu Senhor: Jardins do Éden, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Deus se comprazerá com eles e eles se comprazerão n’Ele. Isto acontecerá com quem teme o seu Senhor.” (98: 7-8)

    “Nenhuma alma caridosa sabe que deleite para os olhos lhe está reservado, em recompensa pelo que fez.” (32: 17)

    Quanto ao Inferno:

    “Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser. Preparamos para os iníquos o fogo, cuja labareda os envolverá. Quando implorarem por água, ser-lhes-á dada a beber água semelhante a metal em fusão, que lhes assará os rostos. Que péssima bebida! Que péssimo repouso!” (18: 29)

    “Em verdade, Deus amaldiçoou os incrédulos e lhes preparou o tártaro. Onde permanecerão eternamente; não encontrarão protetor ou quem os socorra. No dia em que seus rostos forem virados para o fogo, dirão: Oxalá tivéssemos obedecido a Deus e ao Mensageiro!” (33: 64-66)

    Ibn Taimiyah destaca que a crença no Último Dia também inclui a crença em tudo o que ocorra a uma pessoa logo após sua morte e antes do Dia da Ressurreição.

    Isso inclui o juízo no túmulo e o prazer ou castigo dentro do sepulcro.

    O castigo do túmulo é mencionado em um hadith autêntico, registrado por Tirmidhi. Ali foram mencionados os anjos Munkar e Nakir, eles se aproximam da pessoa e perguntam:

    “Que costumavas dizer a respeito deste homem [referindo-se a Muhammad]?” Outros escritos mencionam que os dois anjos virão e farão três perguntas: “Quem é teu Senhor? Qual é tua religião? Quem é teu Profeta?”.

    Existem minuciosos aspectos adicionais que se relacionam com a próxima vida e que todo crente deve conhecer e crer. Devido a limitações de espaço não se podem ser analisadas em detalhe, por aqui. Estas questões incluem:

    (1) A fonte ou poço do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele);

    (2) As diferentes intercessões;

    (3) A distribuição dos livros das ações;

    (4) Travessia da ponte (siraat) sobre o Inferno

    (5) A entrada no Paraíso ou no Inferno e todos os aspectos relacionados.

    A crença e o conhecimento dos grandes acontecimentos do Último Dia e da Próxima Vida deveriam ter uma influência profunda em cada indivíduo, sempre e quando esta pessoa se atenha às reflexões e análises deste Dia.

    Em primeira instância, deveria incitar os crentes a realizarem boas ações, por saberem das recompensas que os aguardam. Os benefícios do Paraíso são maiores que qualquer olho jamais tenha visto ou que qualquer pessoa jamais possa imaginar.

    Antes de qualquer coisa, esta incrível recompensa abrange a complacência de Allah e a oportunidade de vê-lo na Próxima Vida. Se as pessoas pudessem estar conscientes deste aspecto, a todo e qualquer momento em suas vidas, buscariam, ansiosamente, realizar tantas boas ações quanto fossem possíveis.

    Em segundo lugar, a advertência do castigo deveria persuadir as pessoas a não cometerem nenhum pecado, sem se importar quão leve seja. Nenhum pecado cometido neste mundo vale a pena se forem levados em conta o castigo que podemos receber na Próxima Vida.

    Além disso, ao cometer um pecado, o pecador também ganha o descontentamento de Allah, seu Senhor, o Criador e o Amado.

    Em terceiro lugar, de acordo com Ibn Uthaimin, a prestação de contas e a justiça no Dia do Juízo provocarão bem-estar e consolo aos crentes.

    É natural que os seres humanos odeiem a injustiça. Neste mundo, isso é algo que ocorre com freqüência. Os que enganam e carecem de ética, muitas vezes, vivem neste mundo sem sofrer as conseqüências por seus atos.

    Sem dúvida, isso acontece porque e somente porque, em grande escala, este mundo não é um lugar propício para o juízo, as recompensas e os castigos.

    Essas pessoas não se safarão das maldades que vêm praticando. As boas ações de uma pessoa também não são realizadas em vão, o que muitas vezes aparenta ser, neste mundo.

    Virá o momento em que estas questões serão resolvidas, e melhor, resolvidas de uma forma justa. Esse momento será o Dia do Juízo Final.

    A crença no Decreto Divino

    O seguinte e último pilar da fé mencionado pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é a crença no “Decreto Divino”, ou al-qadar.

    Idris analisa o significado disto e manifesta que:

    “O significado original da palavra qadar é medida ou cifra específica, seja em qualidade ou quantidade. Também há outras acepções que não se relacionam com o tema em questão. Desta maneira, yuqad-dir quer dizer, entre outras coisas, medir ou determinar a quantidade, qualidade, medida, etc. de algo antes de construí-lo. E esta última acepção da palavra é o que nos interessa.”

    É obrigatório que todos os muçulmanos creiam no conceito de qadar, ou Decreto divino, já que é mencionado claramente em muitos ahaadith autênticos.

    Ibn Qaiim nos mostra que existem quatro níveis, ou aspectos, na crença do qadar. Aquele que não crê nestes quatro aspectos, não tem uma crença em Allah correta e apropriada.

    O primeiro nível consiste em crer que Allah sabe tudo, particular ou universalmente, antes que as coisas existam.

    Isso se relaciona tanto às comumente chamadas ações de Allah, como, por exemplo: a produção da chuva, dar vida e outras, como também às ações dos seres humanos.

    Allah possui o conhecimento prévio de todas as ações da criação devido a Seu conhecimento eterno, que, segundo se diz, Ele há possuído desde sempre. Isto inclui Seu conhecimento acerca de todas as questões de obediência, desobediência, sustento e período de duração da vida.

    Este aspecto pode ser compreendido em numerosos versículos do Qur’an, como, por exemplo:

    “Ele possui as chaves do incognoscível, coisa que ninguém, além d’Ele, possui; Ele sabe o que há na terra e no mar; e não cai uma folha (da árvore) sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registrado no Livro lúcido.” (6: 59)

    O segundo nível na crença no qadar é crer no registro de Allah de todas as coisas, antes mesmo da criação dos céus e da terra. Por conseguinte, Allah não apenas teve e tem conhecimento do que passará, senão que registrou esta informação na Tabla Preservada (al-Lauhul Mahfudh).

    Isso não é algo difícil para Allah. Allah disse:

    “Ignoras, acaso, que Deus conhece o que há nos céus e na terra? Em verdade, isto está registrado num Livro, porque é fácil para Deus.” (22: 70)

    “Não assolará desgraça alguma, quer seja na terra, quer seja em vossas pessoas, que não esteja registrada no Livro [a Tabla Protegida], antes mesmo que a evidenciemos. Sabei que isso é fácil a Deus.” (57: 22)

    O terceiro nível consiste em crer que Allah dirige e governa sobre tudo o que existe e que se Ele não deseja algo, isso não encontrará maneira de existir.

    Novamente, isso se refere às ações de Allah, de dar vida, sustento, etc. e também às ações realizadas pelos seres humanos.

    Nada pode suceder a menos que Allah o decrete e permita que ocorra. Por exemplo, uma pessoa pode atentar contra a vida de outra, mas, sem dúvidas só matará a outra se Allah o permitir.

    Pode-se realizar todas as ações para atingir um fim, mas se Allah não quiser, não ocorrerá.

    No caso mencionado anteriormente, Allah pode fazer com que o tiro saia pela culatra ou que a mão que dispara trema, fazendo com que a finalidade não seja atingida.

    Este aspecto do qadar também pode ser compreendido com diversas provas. Por exemplo, Allah disse:

    “...Se Deus quisesse, aqueles que os sucederam não teriam combatido entre si, depois de lhes terem chegado as evidências. Mas discordaram entre si; uns acreditaram e outros negaram. Se Deus quisesse, não teriam digladiado; porém, Deus dispõe como quer.” (2: 253)

    “Certamente, não é mais do que uma mensagem, para o universo. Para quem de vós se quiser encaminhar. Porém, não vos encaminhareis, salvo se Deus, o Senhor do Universo, assim o permitir.” (81: 27-29)

    Ibn Uthaimin também nos oferece um argumento racional para este aspecto da crença no qadar. Diz-se que deve se aceitar que Allah é o Dono, Senhor e Controlador de Sua criação. Desta maneira, não há forma de que algo ocorra sob Seu domínio sem que Ele saiba o que se passa, pois tudo se encontra sob Seu controle e faz parte de Seu domínio.

    Então, tudo que ocorre em Sua criação está sujeito à Sua vontade. Nada pode ocorrer a menos que Ele o deseje. Do contrário, Seu controle e autoridade sobre Seu domínio seriam deficientes e insuficientes, já que haveria coisas que aconteceriam sob Seu domínio, sem que necessitasse de Seu consentimento ou conhecimento. Estas hipóteses são inaceitáveis.

    O quarto nível na crença no qadar é a crença em que Allah é o Criador de tudo, Ele quem provoca a existência e outorga essência a tudo. Este aspecto pode ser demonstrado por vários versículos do Qur’an, como os seguintes:

    “Bendito seja Aquele que revelou o Discernimento ao Seu servo – para que fosse um admoestador da humanidade, O Qual possui o reino dos céus e da terra. Não teve filho algum, nem tampouco teve parceiro algum no reinado. E criou todas as coisas, e deu-lhes a devida proporção.” (25: 1-2).

    “Deus é o Criador de tudo e é de tudo o Guardião.” (39: 62).

    “Em verdade, criamos todas as coisas predestinadamente.” (54: 49).

    Ibn Uthaimin explicou este assunto com as seguintes palavras:

    “tudo é criação de Allah. Inclusive as ações da humanidade são criações de Allah. Apesar de ser produto do livre arbítrio e vontade do homem, continua sendo criação de Allah. Isto se deve a que cada ação do homem é resultado de duas coisas: uma vontade clara e habilidade [para realizar tal ação]. Por exemplo, suponhamos que à sua frente haja uma rocha, cujo peso é nove quilos. E eu ordene: “levante esta rocha” e você responde: “não quero levantá-la”. Neste caso, sua falta de vontade o impediu de levantar a rocha. Pensemos que peço pela segunda vez: “Levante a rocha”, então você responde: “sim, farei o que me pedes”. Neste momento você quis levantar a pedra, entretanto não foi capaz, portanto não a levantou porque não foi capaz. Se digo pela terceira vez: “levante esta pedra” e você a levanta, então houve a capacidade e a vontade para fazê-lo.

    Todas as ações que realizamos são o resultado de nossa vontade e nossa plena capacidade. Quem criou essa habilidade e essa vontade foi Allah. Se Allah nos houvesse paralisado, não teríamos habilidade para realizar nenhuma ação. Se, podendo fazer uma ação, desviamos a atenção para outra coisa, não a realizaremos.

    Dessa forma, dissemos: Todas as ações do homem são criadas por Allah. Isso se deve ao resultado de nossa vontade e habilidade e esta vontade é de Allah. A razão pela qual Allah é o Criador dessa vontade e capacidade baseia-se no fato de que a vontade e a habilidade são duas características de quem quer algo e de quem tem habilidade para alcançá-lo. E por isso quem criou esta pessoa com esta habilidade foi Allah. Aquele que criou a pessoa que possui tais características específicas é Aquele que criou ditas características. Isso clarifica a situação e prova que as ações dos seres humanos são criação de Allah.”

    Na verdade há muitas perguntas e equívocos que surgem ao redor do conceito de qadar. Devido às limitações de espaço, não podemos analisá-las em detalhes aqui.

    Não obstante, em uma passagem, Jaafar Shaikh Idris trata adequadamente várias questões relacionadas com o tema. Ele escreveu:

    “Deus decidiu criar o homem como um indivíduo livre, sem dúvidas Ele sabe (e o que Ele não pode saber?), antes de criar cada homem, e que este usará seu livre arbítrio. Por exemplo, sabe qual será sua reação quando um Profeta lhe transmita a mensagem de Deus... ‘Mas, se somos livres para usar de nossa vontade’, um Qadari pode dizer, ‘podemos usá-la de forma tal que contradiga a vontade de Deus e, nesse caso, estaremos equivocados ao declarar que tudo é vontade ou está decretado por Deus’. O Qur’an responde a esta pergunta recordando-nos que é Deus quem determina as ações que podem ser arbitrárias e é Ele quem nos permite fazer uso de nossa vontade. ‘Em verdade, esta é uma admoestação: e, quem quiser, poderá encaminhar-se até a senda do seu Senhor. Porém, só o conseguireis se Deus o permitir, porque é Prudente, Sapientíssimo’ (76: 29-30).

    ‘Por ser assim,’ diz um qadari ‘Ele poderia evitar que cometêssemos maus atos.’ Obviamente, Ele poderia, ‘Porém, se teu Senhor tivesse querido, aqueles que estão na terra teriam acreditado unanimemente...’ (10:99).

    Sem dúvidas, Ele ditou que os homens fossem livres, especialmente nas questões da fé e incredulidade.

    ‘Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser...’ (18:29).

    ‘Se nossas ações são vontade de Deus,’ alguém pode dizer que ‘estas são, na realidade, Suas ações.’ Esta idéia é uma grande confusão. Deus deseja o que nós desejamos a partir do momento em que nos outorga a vontade de eleger e nos faz capazes de utilizar esta vontade; por exemplo, Ele cria tudo que possibilita nossa capacidade do exercício da vontade. Ele não exerce esta vontade mediante fatos, pelo contrário, não se poderia dizer que quando alguém bebe, come ou dorme é Deus quem realiza estas ações. Deus as criou, Ele não as realiza ou executa. Outro argumento baseado numa confusão consiste em que se Deus nos permite realizar más ações, então Ele as aprova e aquilo causa satisfação n’Ele. “Certamente, desejar algo, no sentido de permitir que uma pessoa faça algo, é uma coisa; aprovar sua ação e elogiá-la é outra...”

    No hadith do Anjo Gabriel, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declara, explicitamente, que deve-se crer no Decreto Divino, [tanto] em seus aspectos bons, como maus”.

    Ibn Qaiim destaca que por “mau” é feita uma referência aos seres humanos e não a Allah. A “maldade” é resultado das ações ignorantes, errôneas, opressivas e pecaminosas das pessoas. Não obstante, estas ações são permitidas e estabelecidas por Allah. Certamente, nenhum tipo de maldade pode ser atribuída a Allah, já que em relação a Allah, a ação é boa e cheia de sabedoria e deve ser considerada como um resultado do conhecimento e da sabedoria de Allah.

    Qualquer ação da natureza, em essência, é boa e não pode ter nenhuma maldade. Isso tem respaldo no hadith onde o Profeta diz:

    “A maldade não pode ser atribuída a Ti” (Muslim).

    Isso se deve a que cada ação que se realiza é o resultado de algum tipo de sabedoria e bondade e, portanto, não pode haver maldade. O próprio indivíduo pode pensar o contrário, mas, na realidade, tudo o que acontece na criação de Allah possui bondade e sabedoria.

    Ibn Uthaimin nos deixa um exemplo para ilustrar esta questão. Allah disse no Qur’an:

    “A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram. E (Deus) os fará provar algo de que cometeram. Quiçá assim se abstenham disso.” (30: 41).

    Neste versículo, Allah expõe o surgimento da maldade (fasaad), suas causas e conseqüências. A maldade e as causas que a provocam são igualmente maléficas (sharr).

    Não obstante, seu objetivo é bom: que Allah lhes faça experimentar algo do que têm feito, assim regressarão ao caminho correto através do arrependimento. E assim existe uma sabedoria e um objetivo determinado no fasaad. Este objetivo e esta sabedoria fazem com que toda ação seja algo bom e não puramente maldade.

    Por outro lado, a pura maldade consistirá em ações que não provoquem nenhum tipo de benefício ou resultado positivo.

    A sabedoria e o conhecimento de Allah impossibilitam a existência de ações desta natureza.

    Os frutos da crença correta no Decreto Divino

    ·         Quando uma pessoa se dá conta de que todas as coisas se encontram sob o controle e o decreto de Allah, liberta-se de qualquer tipo de shirk ou de entidades associadas à Allah em sua crença. Existe somente um Verdadeiro e Único Criador e Senhor desta criação. Nada ocorre senão por Sua vontade e Sua permissão. Quando este conceito está firme no coração das pessoas, também se dão conta que nada é digno e merecedor de suas orações, ninguém pode ajudá-los e em ninguém se pode amparar a não ser Ele, o Único Deus. Portanto, essas pessoas dirigirão todos seus atos de adoração ao Único, Aquele que decretou e determinou absolutamente tudo.

    É assim que o tauhid ar-rububiyah (monoteísmo ao Senhorio) e o tauhid al-uluhiyah (monoteísmo da adoração) são corretos e completamente cumpridos mediante uma apropriada crença no qadar.

    ·         A pessoa colocará toda sua confiança em Allah. Deve prestar atenção às “causas e efeitos” externos que observa neste mundo. Sem dúvida, também deve levar em consideração que essas “causas e efeitos” não terão um desenlace a menos que Allah assim o queira.

    Deste modo, um crente nunca deve colocar sua confiança e dependência em suas próprias mãos ou em aspectos mundanos, como colocar a confiança nas mais daqueles que tem algum tipo de controle ou poder. Ao invés disso, deve seguir alguma causa que possa levá-lo ao fim desejado e logo, depositar sua confiança em Allah, para que este fim seja alcançado.

    ·         Ibn Uthaimin propõe que com uma correta crença no qadar, não se permite que a arrogância e a vaidade sejam introduzidas nos nossos corações. Se alguém alcança um objetivo desejado, saberá que tal finalidade só pode ser alcançada com a ajuda de Allah que, em Sua misericórdia, decretou que assim fosse.

    Se Allah houvesse desejado, haveria colocado muitos obstáculos em seu caminho, evitando assim que cumprisse seu objetivo. Por conseguinte, em vez de se transformarem em pessoas egocêntricas e arrogantes, que buscam apenas alcançar seus objetivos pessoais, se realmente crêem no qadar, convertem-se em pessoas muito agradecidas a Allah por todas as bênçãos que recebem.

    ·         A crença correta no qadar causa tranqüilidade e paz mental. As pessoas entendem que tudo o que ocorre depende diretamente do Decreto Divino de Allah.

    Além disso, todas as ações de Allah estão repletas de sabedoria. Portanto, se uma pessoa perde um ente querido ou qualquer outra coisa deste mundo, não enlouquece, não desespera e nem perde a esperança. Ao invés disso, entende que foi a vontade de Allah e que deve aceitar o acontecido. Também deve entender que tudo ocorre por uma razão. Não é algo que aconteceu fortuitamente, nem acidentalmente sem nenhuma razão aparente. Allah disse:

    “Não assolará desgraça alguma, quer seja à terra, quer sejam às vossas pessoas, que não esteja registrada no Livro, antes mesmo que a evidenciemos. Sabei que isso é fácil a Deus, para que vos não desespereis, pelos (prazeres) que vos foram omitidos, nem nos exulteis por aquilo com que vos agraciou, porque Deus não aprecia arrogante e jactancioso algum” (57: 22-23)

    ·         A crença no qadar dá às pessoas força e coragem. Um muçulmano sabe que Allah já registrou sua vida e proverá o seu sustento. Isso provém somente de Allah e já está decretado.

    Portanto, não se deve sentir temor ao se esforçar pela causa de Allah, já que o momento de sua morte já está registrado.

    Com respeito ao sustento e provisão, não se deve temer, uma vez que tudo provém de Allah e já está determinado.

    Ninguém pode privar uma pessoa do alimento diário se Allah já decretou que esta seguirá recebendo provisões e seu sustento de algum tipo de fonte.

    Conclusões

    Este capítulo nos apresentou um breve resumo sobre as crenças básicas de todo muçulmano.

    Cada muçulmano tem que saber no que deve crer e deve conhecer, ao menos, o essencial.

    Sem dúvida, a medida que seu conhecimento sobre os pilares da fé vai aumentando, sua fé também se tornará mais forte e completa.

    Para saber mais sobre estes artigos da fé, recomendo a série de oito livros de Umar al-Ashqar, que analisa diversos aspectos da fé, como a crença em Allah, os anjos, etc. Estes livros são publicados pela International islamic Publishing House em Riayad, Arábia Saudita e podem ser adquiridos facilmente pela internet.

    Os livros de Bilal Philips e de Muhammad Jibaly acerca dos aspectos da crença também são de valiosa leitura para os novos muçulmanos.

    Os Ritos de Adoração

    O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “O Islam está construído sobre cinco [pilares]: o testemunho de que nada é digno de adoração, exceto Allah e que Muhammad é o Mensageiro de Allah; cumprir as orações; pagar o zakat; realizar a peregrinação à Casa e jejuar durante o mês de Ramadan.” (Bukhari e Muslim).

    Aqui, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) faz uma comparação do Islam a uma casa.

    As bases, ou pilares, da casa são cinco. Estas ações são conhecidas como os “cinco pilares do Islam”.

    O PRIMEIRO pilar, a declaração do testemunho de fé, foi analisado anteriormente. Portanto, este capítulo está destinado a analisar os outros quatro pilares restantes.

    Antes de analisar cada pilar separadamente, necessitamos fazer algumas considerações e explicações preliminares.

    Em primeiro lugar, todos estes rituais possuem um aspecto externo ou físico e um interno ou espiritual.

    Os sábios enfatizam que cada rito de adoração deve reunir duas condições para que seja aceito por Allah:

    (1) o rito deve ser correto e de acordo com a orientação revelada por Allah.

    (2) o rito deve ser realizado única e exclusivamente para agradar a Allah.

    Allah declara, por exemplo:

    “... quem espera o comparecimento ante seu Senhor que pratique o bem e não associe ninguém ao culto d’Ele.” (18: 110).

    Acerca deste versículo, o sábio Ibn Qaiim escreveu:

    “Isto faz referência a um tipo de ação que Allah aceitará. A ação deve estar em concordância com a Sunnah do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e deve ser realizada com o intuito de buscar a complacência de Allah. Aquele que a realiza não pode, de forma alguma, cumprir com estas condições se não possui conhecimento. Se não conhece os textos narrados pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não poderá colocá-los em prática. Se não conhece a quem está adorando, não poderá atuar somente para Ele. Se não fosse pelo conhecimento, sua ação não seria aceitável. O conhecimento leva à sinceridade e à pureza e este conhecimento indica quem é o verdadeiro seguidor dos passos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).”

    Allah requisita que Seus servos sejam puros de coração. Esta pureza que se reflete nas ações é a chave para que Allah fique satisfeito com uma ação em particular.

    Allah criou a vida e a morte para que os seres humanos realizem as melhores ações. Ele não criou a humanidade para realizar infindáveis ações, mas sim para escolher e realizar as melhores. Allah disse em Seu Livro:

    “Bendito seja Aquele em Cujas mãos está a Soberania, e que é Onipotente; que criou a vida e a morte, para testar quem de vós melhor se comporta – porque é o Poderoso, o Indulgente” (67: 1-2).

    Referindo-se a este versículo, al-Fudhail Ibn Aiaadh afirmou que “melhor se comporta” se refere às obras, que elas devem ser puras e completas. Disse:

    “Se uma ação é sincera e pura, mas não é correta, não será aceita. Se é correta, mas não é pura, também não será aceita. Não será aceita a menos que seja pura e correta. É pura apenas se é realizada buscando agradar a Allah e é correta se concorda com a Sunnah.”

    Em segundo lugar, estes ritos são atos de adoração, sem dúvidas, ao mesmo tempo, exercem uma influência duradoura nos indivíduos. Por exemplo, se um muçulmano não completa a oração, esta não terá nenhum tipo de influência sobre seu comportamento ou suas ações. No hadith mencionado anteriormente, o profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) afirma que o Islam está construído sobre estes pilares ritualísticos. Isso significa que eles formam uma base, base esta que sustenta toda a vida sob o conceito de submissão somente a Allah.

    O estabelecimento da Oração

    O significado do “estabelecimento das orações”

    Um aspecto muito importante que devemos levar em conta sobre este pilar é que não se refere somente ao mero “ato” de fazer a oração.

    No Qur’an, Allah não determina apenas a forma como se deve orar, senão que demanda dos crentes o iqaamat as-salaat (“o estabelecimento das orações”). Desta maneira, este pilar do Islam não consiste simplesmente em orar, senão que é algo mais especial que Allah e Seu Profeta denominaram “o estabelecimento das orações”.

    Apenas se a pessoa ora de maneira adequada e correta pode cumprir com este pilar. Isso revela que muitas pessoas simplesmente oram, há muito poucas que estabelecem a oração. Isso se assemelha à declaração de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, a respeito da peregrinação:

    “As pessoas que realizaram a peregrinação foram poucas, enquanto os presentes foram muitos.”

    Ad-Dausiri também destaca uma diferença entre as seguintes frases:

    “estabelecer a oração” e “simplesmente orar”. Ele disse: [Allah] não disse ‘os que simplesmente oram’, senão que disse ‘aqueles que estabelecem as orações’. Allah faz uma distinção entre as duas frases para diferenciar as orações verdadeiras e reais das que apenas seguem o formato de oração. A verdadeira oração é a que sai do coração e da alma, a oração com humildade, daqueles que se prostram em silêncio e temerosos frente à Allah.”

    A oração que só tem “aparência de oração” nunca foi requerida por Allah.

    Definitivamente, parte deste “estabelecimento” das orações é a implementação dos aspectos espirituais e internos da oração, como fez uma alusão ad-Dausiri.

    Sem dúvida, esta não é a única diferença entre as duas ações, como se pode constatar na definição ou declaração acerca do “estabelecimento das orações” dos grandes sábios do Islam.

    Por exemplo, o famoso Jarir at-Tabari, estudioso do tafsir (explicação do Qur’an), escreveu:

    “Estabelecer significa orar dentro dos horários, com seus aspectos obrigatórios e com o que tudo aquilo que foi determinado obrigatório por aquele quem ditou as questões obrigatórias.”

    Logo em seguida, cita o companheiro Ibn Abbas que disse:

    “estabelecer as orações implica realizá-las com suas reverências, prostrações e recitar de uma maneira completa, assim como temer a Allah, dedicando-O uma atenção plena”.

    Um dos primeiros estudiosos, Qatada, também disse:

    “O estabelecimento das orações é ater-se aos horários, ablução, reverências e prostrações.”

    Em geral, poder-se-ia dizer que o “estabelecimento das orações” implica que se deve realizar e executar as orações de uma forma apropriada como é indicado no Qu'ran e na Sunnah. Isso inclui os aspectos tanto externos quanto internos da oração.

    Nenhum dos dois, por si só, é suficiente para estabelecer a oração, verdadeiramente. Deve-se apresentar um estado puro para oferecer a oração.

    No caso dos homens, na medida do possível, deve-se realizar em congregação, em uma mesquita. As orações devem ser realizadas de acordo com suas normas e regulamentos; as ações físicas também devem ser acompanhadas de submissão, humildade, tranqüilidade, etc.

    Deve-se realizar todos estes atos integrantes da oração de maneira apropriada e seguindo as indicações transmitidas pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Todas estas indicações formam parte do estabelecimento das orações.

    São aspectos essenciais, ou seja, o cimento de toda a estrutura do Islam.

    Tudo que foi mencionado anteriormente, deixa claro que Allah se refere a algo que não é leve e nem pode ser adquirido de uma hora para outra. Trata-se do cumprimento das orações da melhor maneira possível, de acordo com a Sunnah do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), com a intenção devida e estando muito atento a cada passo da oração.

    Uma pessoa pode estabelecer parcialmente a oração. Pode, sob um prisma legal, haver realizado suas orações; mas, mesmo assim, as recompensas de Allah por estas orações podem não ser as esperadas. Como disse o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Uma pessoa pode finalizar [a oração] e tudo o que seja registrado para ele, a respeito de sua oração, atinja um décimo, um nono, um oitavo, um sétimo, um sexto, um quinto, um quarto, um terço ou meio.”

    O significado do “estabelecimento das orações” foi explicado por ser um dos pilares do Islam.

    Esse pilar não consiste apenas em orar. Não consiste apenas na realização dos movimentos físicos que são realizados durante uma oração. Muito menos consiste em simplesmente orar com o coração sem nenhum tipo de movimento físico que acompanhe tal ação. Não é simplesmente orar quando seja conveniente à pessoa.

    Deve-se realizar cuidadosamente este pilar do Islam a melhor e mais perfeita forma. Sobre isso Nadwi escreveu:

    “A Salah [oração] não consiste somente numa série de movimentos físicos. Não é um rito estático ou sem vida, ou algo parecido a uma disciplina militar – onde não há voz e não interessa a vontade. É uma ação na qual os três aspectos da existência humana - físico, mental e espiritual – encontram sua máxima expressão. O corpo, a mente e o coração participam da oração com equilíbrio. Permanecer de pé, ajoelhar-se ou prostrar-se são atos que pertencem ao corpo; a recitação pertence à língua; a reflexão e a contemplação pertencem à mente e o temor, arrependimento e lamento ao coração.”

    Não há exagero na importância da oração no Islam. É o primeiro pilar do Islam que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) mencionou, logo após mencionar o testemunho de fé, através do qual a pessoa se torna muçulmana.

    Ela foi determinada como obrigatória para todos os profetas e todos os povos.

    Uma vez, um homem perguntou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) qual era a ação que possuía mais virtude. O Profeta respondeu que é a oração. O homem continuou repetindo a pergunta. Nas três primeiras respostas Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “a oração”, mas, na quarta, ele disse “o esforço pela causa de Allah”.

    A importância da oração é embasada em muitos ditos do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Por exemplo, o Profeta disse:

    “O primeiro assunto pelo qual o servo será julgado no Dia do Juízo será a oração. Se estiver correta, também o resto de suas ações serão corretas. Mas, se estiver incorreta, o resto de suas ações também o serão.”

    A importância da oração se apóia no fato de que o mais importante é a relação do servo com Allah, sem levar em consideração as ações que este praticou durante sua vida. Ou seja, sua fé (imaan), o conhecimento de Allah (taqwah), a sinceridade (ikhlaas) e a adoração a Allah (‘ibaadah) é que importam. Sua relação com Allah é demonstrada, colocada em prática, cresce e fortalece através da oração.

    Então, se a oração é correta e adequada, o resto das ações também será; entretanto, se a oração não é correta e nem adequada, o resto das ações não será, como bem declarou o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Na realidade, se a oração é realizada corretamente, recordando sinceramente Allah e buscando n’Ele o perdão, deixará uma marca permanente na pessoa que a realiza.

    O crente, quando termina sua oração, sente seu coração cheio pela presença de Allah. Torna-se temeroso e coloca todas as suas esperanças em Allah. E através desta experiência, não irá desejar se afastar dessa sublime posição e nem desobedecer a Allah. Allah mencionou este aspecto da oração quando disse:

    “Recita o que te foi revelado do Livro e observa a oração, porque a oração preserva (o homem) da obscenidade e do ilícito...” (29: 45)

    Nadwi descreveu este efeito da oração devidamente oferecida de maneira eloqüente:

    “Seu objetivo consiste em gerar no foro interno do ser humano um poder espiritual, uma luz de fé e uma consciência de Deus, tão grande, que o capacitam a enfrentar qualquer tipo de maldade e tentação com êxito. Além de mantê-lo firme nos tempos de provações e adversidade e protegê-lo da debilidade da carne e dos desejos desmedidos.”

    Na próxima vida o perdão e a complacência de Allah correlacionam-se com a oração. o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Allah determinou cinco orações. Aqueles que realizam com perfeição a sua ablução, realizam suas orações nos períodos adequados, completem suas reverências e prostrações com khushu’ têm a promessa de que Allah os perdoará. E aquele que não cumprir com os requisitos não obterá a promessa de Allah. Pode ser perdoado ou castigado.”

    As orações são consideradas como uma forma de purificação para o ser humano, pois ele se volta e encontra com seu Senhor cinco vezes ao dia. Como foi mencionado anteriormente, esta repetida presença ante Allah deveria evitar com que as pessoas cometessem pecados durante o dia.

    Além disso, deveria ser um momento de arrependimento e remorso, quando a pessoa pede perdão a Allah pelos pecados cometidos. A oração, por si só, é uma boa ação que apaga algumas das más ações cometidas. Isso fica claro no seguinte hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Se uma pessoa tivesse um riacho perto de sua casa e se banhasse nele cinco vezes por dia, acreditarias que houvesse algum tipo de sujeira em seu corpo?” As pessoas responderam: “Não haveria nenhum tipo de sujeira”. O Profeta de Allah então disse: “Isto é similar às cinco orações diárias. Através delas, Allah apaga os pecados.” (Bukhari e Muslim).

    Em outro hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “As cinco orações diárias e a oração de sexta-feira – até a próxima oração de sexta-feira, são a expiação dos pecados cometidos entre elas.” (Muslim).

    A importância fundamental da oração para a fé de um muçulmano se evidencia na declaração do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Para um homem, o politeísmo (shirk) e a incredulidade (kufr) se encontram no abandono da oração.” (Muslim).

    Em seu hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) utiliza as palavras ash-shirk e al-kufr, que se referem a algo que resulta do conhecido ou compreendido. Entende-se que o kufr afasta as pessoas do Islam.

    Além disso, as palavras shirk e kufr são mencionadas juntamente, o que se considera como outro sinal de que esta ação pode nos tirar do Islam.

    As palavras de Siddiqi que denotam a importância da oração constituem um resumo de toda esta análise. Ele escreveu:

    “a oração é a alma da religião. Onde não há oração, não pode haver purificação da alma. A pessoa que não ora é uma pessoa sem alma. Caso tirassem as orações deste mundo, acabaria a religião, já que é através da oração que o homem chega a conhecer Deus, obtendo, assim, um amor desinteressado pela humanidade e um sentimento interno de devoção. Deste modo, a oração é o primeiro e mais elevado e solene fenômeno e manifestação da religião.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) confirmou a importância da oração no Islam quando disse:

    “O principal é o Islam. Seu pilar é a oração. E seu ápice é o esforço pela causa de Allah.”

    Alguns pontos importantes sobre as leis relativas à oração

    Este não é o lugar apropriado para entrar em detalhes sobre as leis que regem as orações. Entretanto, devemos mencionar certos pontos fundamentais.

    As cinco orações diárias são obrigatórias para todos os muçulmanos adultos ou não. Obviamente, as mulheres em período menstrual ou que apresentem sangramento pós-parto não deverão oferecer suas orações até que sua situação se normalize, pois se encontram em um estado de impureza para cumprir com o rito (o que será analisado mais adiante). Estas mulheres não deverão compensar as orações perdidas.

    Antes de iniciar o ritual da oração, deve-se apresentar um estado de pureza física. Allah disse:

    “Ó fiéis, sempre que vos dispuserdes a observar a oração, lavai o rosto, as mãos e os antebraços até aos cotovelos; esfregai a cabeça com as mãos molhadas e lavai os pés, até os tornozelos...” (5: 6).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “As orações não serão aceitas sem uma purificação prévia.” (Muslim).

    Desta maneira, por exemplo, se alguém praticar o ato sexual, seja através do coito ou em sonho erótico, ou se a mulher termina sua menstruação ou sangramento pós-parto, deve realizar uma ablução completa, denominada ghusl, antes de começar a oração.

    Outra forma de se obter o estado de purificação é o wudhu ou purificação menor, que consiste na limpeza do rosto, cabeça, braços e pés.

    A ablução deve se repetir antes de cada oração, se a pessoa fez alguma das necessidades fisiológicas, se teve flatulência, se dormiu profundamente ou se perdeu a consciência. Este requisito prévio da oração enfatiza o fato de que a adoração a Deus requer todo o nosso ser. Afora o ritual da oração, se, por exemplo, a pessoa quiser suplicar a Allah, não é necessário realizar as abluções.

    Além de estar num estado de purificação, nossa roupa e o lugar onde se realizará a oração devem estar livres de impurezas. Em outras palavras, a roupa e a área devem estar limpas de urina, excrementos, sangue e qualquer outra substância impura. Deste modo, toda a atmosfera e o sentimento dos indivíduos estarão purificados para começar a entrar neste nobre estado de oração e comunicação direta com seu Senhor.

    Cabe ressaltar que os horários das orações diárias são fixos. Allah disse:

    “... observai a devida oração, porque ela é uma obrigação, prescrita aos fiéis para ser cumprida em seu devido tempo.” (4:103).

    Estes horários são definidos nos seguinte hadith:

    “O anjo Gabriel se aproximou do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e disse: ‘Levanta-te e reza’. Ele realizou a oração da tarde no momento em que todos os objetos e suas respectivas sombras possuíam a mesma altura. Logo chegou a hora do crepúsculo e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’. Ele orou quando o sol havia desaparecido. Então, caiu a noite e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’. Ele rezou quando o crepúsculo já havia desaparecido. Logo veio o amanhecer e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’. Ele orou quando começava a amanhecer. Então, apareceu o dia seguinte e a oração do meio-dia e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’. Ele realizou a oração do meio-dia quando um objeto e sua sombra possuíam a mesma largura. Logo, chegou a oração da tarde e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’. Ele cumpriu com a oração da tarde quando a sombra de um objeto era o dobro da largura do mesmo. Então, veio para a oração do pôr-do-sol e este é um curto período que só ocorre uma vez ao dia. Logo veio a oração da noite, que era prestada quando já havia passado metade ou um terço da noite. Veio o amanhecer, quando havia alguma luminosidade e foi-lhe dito: ‘Levanta-te e reza’ e ele realizou a oração do amanhecer. Então foi-lhe dito: ‘Os horários [das orações] se encontram entre estas duas’ [ou seja, entre as duas ocasiões nas quais Gabriel apareceu para orar com ele].”

    Infelizmente, algumas vezes, os muçulmanos encontram-se muito ocupados durante o dia e, por isso, deixam todas as suas orações para a noite. Assim, elas são oferecidas todas ao mesmo tempo: a do meio-dia, da tarde, do crepúsculo e da noite.

    Aos revertidos é extremamente difícil combinar os horários das orações com seus horários de trabalho, além disso, às vezes, não têm a confiança suficiente para realizar suas orações na presença de outras pessoas ou solicitar um intervalo no trabalho para realizá-las.

    Essa prática de postergar as orações é incompatível com a Lei Islâmica. As orações devem ser realizadas no momento adequado e isso não é algo que deva ser cumprido apressadamente. Devem se esforçar na causa de Allah e descobrir uma forma de realizá-las nos horários pré-determinados.

    Em suma, se realmente têm que combinar duas orações, podem combinar a do meio-dia com a da tarde, durante o horário destinado à oração do meio-dia ou da tarde. Igualmente podem combinar as orações do crepúsculo e da noite e realizá-las durante o horário das orações do crepúsculo ou da noite. Nenhum outro tipo de combinação é permissível.

    Todos os muçulmanos devem evitar que a combinação das orações seja motivada por falta de interesse e devem se esforçar em realizá-las em seus horários adequados.

    Então, para que as orações sejam corretas e apropriadas devem cumprir com as seguintes condições:

    (1) O indivíduo deve saber o horário que o período de cada oração inicia;

    (2) deve apresentar um estado de purificação;

    (3) a vestimenta, o corpo e o lugar devem estar livres de impurezas;

    (4) o corpo deve estar coberto de uma maneira apropriada – o homem deve se cobrir da região que vai do umbigo aos joelhos com uma roupa que não revele o que deve estar coberto e as mulheres devem cobrir todo o seu corpo, exceto mãos e rosto;

    (5) o indivíduo deve estar direcionado para a qiblah, ou seja deve estar orientado na direção da Kaabah, em Makkah e

    (6) deve colocar a intenção apropriada no momento de realizar cada oração.

    É extremamente importante que o muçulmano realize as cinco orações diárias em congregação, numa mesquita. Muitas passagens do Qur’an e da Sunnah mostram a importância de se realizar as orações em congregação. Por exemplo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “A oração que é realizada em congregação é vinte e cinco vezes melhor que a oração realizada em seu lar ou no mercado.”

    Quando uma pessoa realiza a ablução de forma adequada e, então, dirige-se à mesquita apenas com o desejo de rezar, cada passo que dá o eleva espiritualmente e seus pecados são expiados. Enquanto reza os anjos oram por ele, todo o tempo em que permanece no local de oração, dizendo:

    “Ó Allah, tende piedade dele, ó Allah, perdoe-o, ó Allah, aceita seu arrependimento. E assim, considera-se esta pessoa em estado de oração até que entre o horário da próxima.”

    Na realidade, muitos sábios afirmam que realizar as cinco orações diárias em congregação é algo obrigatório para os homens. Além da óbvia importância que as orações em congregação possuem em geral, creio que, baseado na minha própria experiência, é de extrema importância que os recém convertidos congreguem o mais que possam com seus irmãos muçulmanos.

    Primeiramente, isso demonstra a seriedade do convertido com sua nova religião, o Islam, demonstra seu desejo por realizar os atos fundamentais de sua nova fé.

    Esta atitude conquistará os muçulmanos de sua comunidade e estes disporão parte do seu tempo a esse novo convertido.

    Segundo, é uma boa oportunidade do convertido estabelecer uma amizade com os outros muçulmanos e aprender com seus exemplos. É muito complicado mudar sua vida para uma vida realmente islâmica se esta pessoa permanece num círculo social composto por não muçulmanos. É por isso que freqüentar a mesquita abrirá as portas para que haja novos amigos muçulmanos.

    Terceiro, é uma excelente oportunidade para que o convertido aprenda sobre o Islam. Usualmente, nas mesquitas, encontramos pessoas que possuem uma grande sabedoria a respeito do din.

    O novo convertido não se sentirá só em sua busca, pois encontrará devotos muçulmanos que o ajudarão e guiarão. Está claro que estas vantagens se aplicam tanto aos homens quanto às mulheres. Portanto, a convertida também deve aproveitar esta oportunidade e tentar se integrar, participando de algumas orações em congregação na mesquita.

    O Qur’an é em árabe. O primeiro capítulo do Qur’an é nomeado surah al Fatiha (capítulo de abertura). Este capítulo constitui uma parte fundamental da oração e é lido em todas as orações diárias, várias vezes.

    É óbvio que leva algum tempo aprender, ler e memorizar este breve capítulo.

    Aquele que é capaz de memorizá-lo deve fazê-lo, e isso é extraído do seguinte hadith:

    “Um homem se aproximou do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e disse que era incapaz de aprender algo do Qur’an, e pediu ao Profeta que o ensinasse algumas frases que o ajudassem a orar. O Profeta o ensinou:

    ‘Subhaanallah wa-l-hamdulillaah wa laa ilaahah illa-llah wallahu akbar wa la haula wa la quwwata illa-billaah al-Ali al-Adhim’. O homem disse: ‘Essas são frases de adoração a Allah. O que posso dizer para mim mesmo?’ O Profeta o ensinou: ‘Allahumma, irhamni wa-rzuqni wa-‘afani wa-hdini’. Quando o homem se foi, o Profeta disse: ‘Ele se foi com as mãos cheias de bondade’.

    Gostaria de aconselhar ao convertido que aprenda as expressões em árabe e as passagens do Qur’an diretamente das pessoas que falam corretamente o árabe.

    O convertido não deve confiar em transliterações, já que estas não podem transmitir de uma forma exata a pronúncia das palavras caso o indivíduo não esteja familiarizado com o idioma árabe. Conheço, por experiência própria, que se o convertido aprende as frases da oração ou partes do Qur’an de forma incorreta, depois é muito mais difícil corrigir os vícios na pronúncia.

    Então, desde o começo, é recomendável que se aprenda a pronúncia do idioma árabe da melhor maneira possível e diretamente com pessoas que o falem com propriedade.

    Uma breve consideração sobre a oração

    Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se preparava para a oração, direcionava-se para a Kaabah, em Makkah, com a intenção de cumprir com a oração.

    Logo, começava sua oração com a expressão “Allahu akbar” (Allah é o maior) e levantava suas mãos até as orelhas, enquanto dizia esta expressão.

    Continuando, colocava sua mão direita sobre a esquerda, ambas sobre seu peito. Olhava para o chão. Começava a oração recitando diversas súplicas, louvores e glorificações a Allah. Logo, buscava refúgio em Allah contra o maldito Satanás. Depois, recitava “Bissmillahir Rahmanir Rahim” (Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso) em voz baixa. Recitava, então, a surat al-Faatiha, o primeiro capítulo do qur’an, recitando versículo por versículo.

    Ao final da surah dizia “Amin”, em voz alta e prolongando um pouco sua pronúncia.

    Depois de finalizar a leitura da surat al-Faatiha, recitava outra parte do Qur’an, intercalando leituras extensas e mais curtas.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) recitava o Qur’an em voz alta na oração da manhã e nas duas primeiras unidades (rakaatein) das orações do pôr-do-sol e da noite. A oração de sexta-feira, as orações do Eid, a oração para suplicar por chuva e a oração do eclipse são também recitadas em voz alta.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) realizava as duas últimas rakah na metade do tempo que as duas primeiras e sua duração seria de mais ou menos quinze versículos, inclusive, muitas vezes, só recitava a surat al-Fatiha.

    Ao terminar as rakaat, levantava suas mãos até as orelhas dizendo o takbir (Allah é o maior) e fazia uma reverência curvando o tronco. Punha suas mãos nos joelhos, com os dedos separados, como se estivesse agarrado a eles. Afastava seus braços do seu corpo e posicionava-se ereto, com as costas bem retas, de tal modo que se derramassem água nele, ela não derramaria.

    Permanecia calmo e seguia com sua reverência. Repetia três vezes “Subhanna Rabbi al Adhim” (Louvado seja meu Senhor, o Grandioso). Também, durante sua reverência costumava suplicar e relembrar Allah, repetindo ou não as palavras. Também proibiu a recitação do Qur’an durante esta etapa.

    Logo depois levantava suas costas, endireitando-se em pé e dizia, durante o movimento: “Sami Allahu liman hamidah” (Allah escuta àquele que O louva).

    Levantava suas mãos enquanto levantava seu tronco. Ao parar, em pé, dizia: “Rabbana wa lakal-hamd” (Nosso louvor é dirigido para nosso Senhor). Às vezes dizia algo mais simples que isso. Logo pronunciava novamente o takbir e se prostrava. Punhas suas mais no solo antes de apoiar seus joelhos. Apoiava-se sobre suas mãos. Juntava os dedos e os direcionava em direção da quiblah.

    Algumas vezes colocava-os paralelos aos seus ombros, outras, paralelos à suas orelhas. Firmemente, baixava a cabeça, tocando o nariz e a testa no chão.

    Ele dizia:

    “Foi-me ordenado prostrar-me sobre sete pontos: a testa – e indicou o nariz também, as duas mãos, os dois joelhos e as pontas [dos dedos] dos pés.”

    Também disse:

    “A oração das pessoas cujo nariz não toca no chão, mesmo a testa tocando, não tem validade.”

    O Mensageiro de Allah permanecia sereno e quieto durante a prostração, repetia três vezes “Subhanna Rabbial-‘Ala” (Exaltado é meu Senhor, o Altíssimo). Nesta posição, recitava várias frases evocando e suplicando a Allah, utilizando diferentes súplicas.

    Aquele que reza deve esforçar-se para suplicar bastante quando se encontra nesta posição. Então, ele levantava a cabeça, sentando-se, enquanto pronunciava o takbir. Depois, sentava-se sobre sua perna esquerda que se encontrava dobrada, descansando e permanecendo muito quieto. A perna direita permanecia levemente erguida por seu pé e os dedos de suas mãos apontavam para a quiblah, descansando em cima dos joelhos. Neste momento ele dizia:

    “Ó Allah, perdoa-me, tende piedade de mim, dá-me forças, eleva-me, guia-me, perdoa-me e provenha-me o sustento.”

    Então, pronunciava o takbir e prosseguia realizando uma segunda prostração, exatamente como a primeira. Continuando, levantava sua cabeça enquanto pronunciava o takbir e se sentava sobre a perna esquerda, com todos os ossos do seu corpo encaixados na posição sentada. Então, levantava-se apoiando no chão. Na segunda rakah fazia o mesmo que na primeira, entretanto sua duração era menor.

    Ao final da segunda rakah, sentava-se para recitar o tashahhud.

    Se aquela fosse uma oração de apenas duas rakah, ele se sentava sobre sua perna esquerda, como fez no intervalo de duas prostrações. Também, sentava-se da mesma forma no tashahhud da quarta rakah. Enquanto se sentava para o tashahhud, punha suas mãos sobre suas coxas, a mão esquerda permanecia com os dedos espalmados e a direita, ele fechava o punho e apontava o indicador para cima, olhando fixamente para o indicador estendido.

    Então, ele recitava o tahiyiat; o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também realizava algumas orações pedindo por ele no último tashahhud e oferecia outras súplicas pedindo por sua comunidade.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) costumava dizer diferentes súplicas durante esta parte da oração.

    Ao final, saudava à sua direita e à sua esquerda (voltando a cabeça para cada ombro) dizendo:

    “que a paz e a misericórdia de Allah estejam convosco”.

    Em algumas ocasiões acrescentava “e Suas bênçãos” ao final da frase.

    O pagamento do Zakat

    Linguisticamente, a origem da palavra zakat vem de purificação, bênção e crescimento. Allah esclarece no Qur’an:

                “Bem aventurado aquele que se purificar.” (87: 14)

    Outra palavra que se utiliza nos ahaadith e no Qur’an com referência ao zakat é sadaqah. Esta palavra deriva de sidq (a verdade). Siddiqi explica o significado desses termos e como são utilizados:

    “Ambas as palavra possuem um significado muito forte. O tributo das riquezas pela causa de Allah purifica o coração do homem do amor aos bens materiais. O homem que contribui, oferece-o como um presente humilde perante Allah e, por sua vez, afirma a verdade de que não existe nada mais preciso para sua vida que o amor por Allah, indicando que está completamente preparado para sacrificar tudo em Seu nome.”

    Na Lei Islâmica, seu significado técnico se refere a uma porção fixa das variadas riquezas de uma pessoa que deve ser entregue, anualmente, a um determinado grupo de beneficiários.

    Não há dúvidas que dentre os pilares do Islam o zakat se encontra em uma posição muito próxima à oração. Usualmente, são mencionados juntos no Qur’an, em oitenta e duas ocasiões, para ser exato. Pode-se observar no Qur’an que uma das chaves para obter a misericórdia de Allah na próxima vida é através do pagamento do zakat. Allah disse:

    “Os fiéis e as fiéis são protetores uns dos outros; recomendam o bem, proíbem o ilícito, praticam a oração, pagam o zakat, e obedecem a Deus e ao Seu Mensageiro. Deus Se compadecerá deles, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.” (9: 71)

    O pagamento do zakat purifica a alma e a riqueza das pessoas. Allah disse ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Recebe, de seus bens, uma caridade que os purifique e os santifique, e roga por eles, porque tua prece será seu consolo; em verdade, Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo.” (9: 103)

    Além disso, tem a capacidade de purificar a alma do crente, limpando-a das enfermidades da avareza e mesquinharia.

    Também purifica as riquezas, livrando seu proprietário de qualquer efeito negativo que ela possa exercer sobre ele. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse uma vez:

    “Aquele que paga o zakat de suas riquezas será afastado dos males que vêem com ela.”

    O zakat cumpre um rol muito importante na sociedade em sua totalidade.

    Existem alguns fatores muito óbvios que devem ser enunciados aqui. Por exemplo, o zakat ajuda os pobres da sociedade a receber o dinheiro que necessitam para viver. Também ajuda a fortalecer os laços de irmandade na comunidade muçulmana, já que os pobres sabem que os mais ricos os ajudarão através do zakat e outras formas de caridade. Inclusive as pessoas que são muito ricas entendem que podem doar em nome de Allah.

    Percebem que não sentirão fome ou morrerão se derem parte de sua riqueza em nome de Allah. Além disso, também serve para aqueles que possuem riquezas se darem conta de que essa riqueza provém da bênção de Allah.

    Portanto, todos devem utilizá-la de modo que satisfaça a Allah. Um dos aspectos mais satisfatórios consiste em cumprir com nossa responsabilidade de pagar o zakat referente a essas riquezas.

    Os muçulmanos que não pagam o zakat estão prejudicando a si mesmos e também a toda a comunidade islâmica.

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Ao povo que se nega pagar o zakat sobre suas riquezas será castigado pela falta de chuva. Se não fosse pelos animais, não choveria absolutamente.”

    Allah e Seu Profeta deixaram bem claro que o ato de não pagar o zakat é um ato que desagrada a Allah. Allah ameaçou castigar duramente esse tipo de comportamento. Por exemplo, o seguinte versículo do Qur’an faz referência àquelas pessoas que não pagam o zakat por suas riquezas:

    “Que os avarentos, que negam fazer caridade daquilo com que Deus os agraciou, não pensem que isso é um bem para eles; ao contrário, é prejudicial, porque no Dia da Ressurreição, irão, acorrentados, com aquilo com que foram mesquinhos. A Deus pertence a herança dos céus e da terra, porque Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.” (3: 180)

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu o castigo que assolará aqueles que não pagam o zakat correspondente às suas riquezas. Em um hadith, no Sahih Bukhari, Abu Huraira narra que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    [No Dia da ressurreição] Os camelos voltarão aos seus donos gozando do melhor estado de saúde que poderiam ter [neste mundo] e, por não haver pagado o zakat por eles, pisá-los-ão com suas patas; do mesmo modo, as ovelhas voltarão com o melhor estado de saúde que poderiam gozar neste mundo e, caso não tenham pagado o zakat sobre elas, pisá-los-ão com seus cascos e golpearão com seus chifres. Não quero que nenhum de vós se aproxime de mim, no Dia da ressurreição, carregando em vossos pescoços uma ovelha que esteja balindo e me digam: ‘Ó Muhammad [por favor, interceda por mim]’. Responderei: ‘Não posso ajudar-te já que transmiti a Mensagem de Allah’. Nem tampouco quero que nenhum de vós se aproxime de mim acompanhado de um camelo bramando e me digam: ‘Ó Muhammad [interceda por mim]’. Responderei: ‘Não posso ajudar-te já que transmiti a Mensagem de Allah’.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) advertiu acerca das conseqüências por não pagar o zakat. Vejamos o seguinte hadith mencionado no Sahih Bukhari:

    “Aquele que é abençoado com dinheiro e não paga o zakat por suas riquezas, no Dia da Ressurreição, sua riqueza se transformará em uma serpente venenosa com duas presas. Ela apertará seu pescoço e morderá suas bochechas e dirá: ‘Sou tua riqueza, sou o que entesourastes’.”

    Então, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) recitou o versículo da surah al Imran.

    Em outro versículo que também inclui aqueles que não pagam o zakat, Allah disse:

    “Ó fiéis, em verdade, muitos rabinos e monges fraudam os bens dos demais e os desencaminham da senda de Deus. Quanto àqueles que entesouram o ouro e a prata, e não os empregam na causa de Deus, anuncia-lhes (ó Muhammad) um doloroso castigo. No dia em que tudo for fundido no fogo infernal e com isso forem estigmatizadas as suas frontes, os seus flancos e as suas espáduas, ser-lhes-á dito: eis o que entesourastes! Experimentai-o, pois!” (9: 34-35).

    A quantidade de dinheiro que deve ser paga como Zakat

    O zakat é obrigatório sobre diferentes tipos de riquezas como, por exemplo, o dinheiro, cultivos, frutos, gado e os tesouros encontrados na terra.

    No mundo atual, a forma mais comum de riqueza é o dinheiro. O zakat deve ser pago se o montante de dinheiro atinge o mínimo requerido para seu pagamento e se a pessoa o detém por mais de um ano. A porcentagem paga por dita possessão é de 2,5%.

    A quantidade mínima requerida de riquezas para a contribuição do zakaat é chamada nisaab. Atualmente, existe um nisaab diferente do aplicável pela shari’a, que é baseado no ouro ou na prata. Hoje em dia as pessoas possuem dinheiro, muito raramente investem suas riquezas em ouro e prata. Isso há suscitado diferentes opiniões sobre o nisaab em dinheiro, se ele deve ser baseado no valor do ouro ou da prata. Toma-se então, o ouro como referência, o zakat é obrigatório se a quantidade possuída é superior a 85 gramas de ouro ou seu valor equivalente em moeda corrente.

    Se um muçulmano tem esta quantidade de dinheiro por mais de um ano, deve pagar o 2,5% como zakat, anualmente.

    O zakat é distribuído entre certos tipos de pessoas. Allah mencionou estas categorias no seguinte versículo:

    “As esmolas são tão-somente para os pobres, para os necessitados, para os funcionários empregados em sua administração, para aqueles cujos corações têm de ser conquistados, para a redenção dos escravos, para os endividados, para a causa de Deus e para o viajante; isso é um preceito emanado de Deus, porque é Sapiente, Prudentíssimo.” (9: 60).

    Em geral, a maioria das mesquitas possui comitês encarregados do zakat. Se um muçulmano paga o zakat, informando que é zakat, este deve ser distribuído entre os beneficiários apropriados e o muçulmano, então, haverá cumprido com sua responsabilidade com Allah.

    O jejum durante o mês de Ramadan

    O jejum de Ramadan consiste na abstenção de comida, bebida e relações sexuais durante os dias do mês de Ramadan.

    O jejum é uma fonte de autocontrole, devoção e consciência de Allah. Allah determinou o jejum para os profetas antes de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Nos versículos que narram sobre a obrigação de jejuar durante o mês de Ramadan, Allah ressalta seu objetivo ou propósito:

    “Ó fiéis, está-vos prescrito o jejum, tal como foi prescrito aos vossos antepassados, para que temais a Deus.” (2:183).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse que o jejum nos protege do Fogo do Inferno:

    “O jejum é um escudo para o Fogo do Inferno, como os escudos que são utilizados nas batalhas.”

    Ademais, intercederá pelo jejuador no Dia do Juízo. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “O jejuador e o Qur’an intercederão no Dia da Ressurreição.

    O jejum dirá:

    ‘Ó Senhor, evitei que comesse e bebesse durante o dia, portanto, permita-me interceder por ele.’

    O Qur’an dirá:

    ‘Eu o mantive desperto durante a noite, assim, permita-me interceder por ele.’ E sua intercessão será permitida.”

    O jejum constitui uma atitude que demonstra nossa sinceridade para com Allah.

    Apenas Allah sabe seguramente se uma pessoa está jejuando ou não.

    Ninguém pode saber se a pessoa interrompeu secretamente o seu jejum.

    Além disso, Allah tem uma recompensa especial para aqueles que jejuam. Isso é indicado no seguinte relato do Sahih al-Bukhari:

    “Ele abandona sua comida, sua bebida e seus desejos por Minha causa. E cada boa ação será multiplicada dez vezes.”

    Pela graça e misericórdia de Allah, se uma pessoa jejua durante o mês de Ramadan, com fé em Allah e esperando Sua recompensa, Allah perdoará todos os pecados menores que houver cometido anteriormente. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Quem jejuar durante o mês de Ramadan com fé e esperando ansiosamente por sua recompensa, obterá o perdão de Allah por todos os pecados menores que houver cometido anteriormente.” (Bukhari e Muslim)

    Ibn Qaiim ressaltou alguns dos aspectos mais benéficos e importantes na seguinte passagem:

    “O objetivo do jejum é que o espírito do homem se liberte das garras de seus desejos e que a moderação se apodere de seu ser. Que através do jejum ele conheça a finalidade da purificação e felicidade eterna. Seu objetivo é reduzir a intensidade do desejo e da luxúria através da fome e da sede, induzindo o homem a entender que existem muitas pessoas no mundo que subsistem com pequenas quantidades de comida, o que dificulta a tarefa de Satanás - enganar o homem; e também evita que seus sentidos se voltem para coisas que têm sido a perdição de ambos os mundos. E por isso o jejum é um freio daqueles que temem a Allah, o escudo dos defensores e a disciplina dos virtuosos.”

    Também há um hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que adverte quanto ao castigo daqueles que interrompem seu jejum inadvertidamente ou sem motivos. Neste hadith o Profeta disse:

    “Enquanto dormia dois homens vieram e me tomaram em seus braços. Levaram-me até uma montanha íngreme e disseram: ‘suba’. Respondi: ‘não posso subir’ e eles disseram: ‘nós te ajudaremos’. Então, subi até chegar ao topo onde escutei gritos horríveis. Perguntei: ‘de quem são estes gritos?’ Responderam: ‘são os gritos daqueles que habitam o Fogo’. Então, levaram-me a outro lugar onde avistei pessoas presas por seus tendões e suas mandíbulas estavam separadas e cheias de sangue. Perguntei: ‘quem são aquelas pessoas?’ Responderam-me: ‘aquelas são pessoas que interromperam seu jejum antes do momento adequado’.”

    Jejuar é obrigatório para todos os muçulmanos adolescentes, adultos e saudáveis e que não se encontrem em viagem.

    Além disso, as mulheres devem estar purificadas de seus ciclos menstruais ou sangramento pós-parto. Não é necessário que uma pessoa que se encontra viajando ou esteja doente jejue.

    Caso jejue, essa ação deve cumprir com os requisitos do jejum. Entretanto, se não jejua, deve compensar o jejum perdido posteriormente.

    Da mesma forma a mulher em seu ciclo menstrual ou sangramento pós-parto não deve jejuar, pagando os dias perdidos posteriormente.

    Os elementos fundamentais do jejum são dois.

    Primeiro, uma pessoa deve ter a intenção de jejuar para agradar a Allah. Se uma pessoa simplesmente deixa de comer ou beber só para perder peso, dita ação não será considerada como ato de adoração a Allah. E por isso o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Não existe jejum para a pessoa que não tenha a intenção de jejuar antes do fajr (amanhecer).”

    Segundo, o muçulmano deve evitar qualquer coisa que lhes faca interromper o jejum desde o começo do amanhecer até o pôr-do-sol. As seis coisas que invalidam o jejum são:

    (1 e 2) Comer ou beber intencionalmente. Porém, se uma pessoa, distraidamente, come ou bebe algo, não deve compensar o jejum, nem necessita nenhum ato de expiação para seu erro. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “A pessoa que se esquece que está jejuando e come ou bebe algo deve completar seu jejum, pois foi Allah que o alimentou ou deu de beber.” (Muslim).

    (3) Vomitar intencionalmente. Se uma pessoa tem náuseas e vomita não precisa compensar seu jejum e nem necessita de nenhum ato de arrependimento.

    (4 e 5) A menstruação e o sangramento pós-parto. Inclusive, de acordo com a opinião dos sábios, caso aconteça pouco antes do pôr-do-sol, deve-se interromper o jejum.

    (6) As relações sexuais. Quem pratica o ato sexual durante o jejum deverá se arrepender conforme o hadith narrado por Abu Hurairah:

    “Enquanto estávamos sentados com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) um homem se aproximou e disse:

    ‘Ó Mensageiro de Allah, estou perdido.’ Ele perguntou: ‘Por que?’ Respondeu: ‘Tive relações sexuais com minha esposa enquanto estava jejuando.’ O Mensageiro de Allah perguntou ao homem: ‘Por acaso tens um escravo que possa libertar?’ O homem respondeu: ‘Não’. Então, o Mensageiro de Allah perguntou: ‘És capaz de jejuar por dois meses seguidos?’ Respondeu: ‘Não’. O Mensageiro de Allah perguntou: ‘Podes alimentar sessenta pessoas pobres?’ e o homem respondeu: ‘Não’. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) permaneceu em silêncio durante um tempo, quando lhe trouxeram um pote cheio de tâmaras. Ele disse: ‘Onde está a pessoa que perguntava?’. O homem respondeu: ‘aqui’ e o Profeta disse: ‘Toma essas tâmaras e dê em caridade.’ O homem perguntou: ‘Há alguém mais pobre que eu, Ó Mensageiro de Allah? Por Allah que não há nenhuma família entre as montanhas de Madinah que seja mais pobre que a minha.’ O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) riu de tal forma que seus pré-molares apareceram, então disse: ‘Então, alimenta tua família’.”

    Perguntaram ao shaikh Muhammad Ibn Salih al-Uthaimin, certa vez, se uma pessoa que se converte ao Islam durante o Ramadan deve começar seu jejum de imediato. Sua resposta foi:

    “Se uma pessoa se converte ao Islam durante o mês de Ramadan deve começar seu jejum, cumprindo inclusive com o resto do dia em andamento, pois agora ele faz parte do povo ao qual o jejum é obrigatório. Entretanto, não precisa compensar por este dia no futuro [quer dizer, a parte do dia em que não jejuou]. Da mesma forma, não precisa compensar pelos dias de mês já transcorridos antes de sua conversão.”

    A peregrinação à casa de Allah, em Makkah

    O seguinte pilar do Islam é a peregrinação à Casa de Allah, ou seja, a Kaaba. Linguisticamente, hajj quer dizer “ele se dirigiu ou viajou até uma pessoa ou objeto de adoração, veneração, honra ou respeito”. Na Lei Islâmica significa uma viagem especial, em um momento determinado e até um lugar específico com o propósito de adorar a Allah. Em outras palavras, é a viagem à Makka durante os meses designados para a realização do hajj, como um ato de adoração a Allah.

    A realização do hajj é uma obrigação para todos os muçulmanos que possuam os meios para realizá-lo. Isso está claro no Qur’an e na Sunnah. Sem dúvida é muito mais que uma obrigação. É um dos pilares do Islam.

    A recompensa pela realização do hajj é grandiosa.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Quem realizar o hajj pela causa de Allah e não cometer nenhum ato obsceno ou pecaminoso, voltará ao mesmo estado em que se encontrava no dia em que sua mãe lhe deu a luz.” (Bukhari e Muslim).

    Ou seja, livre de pecados.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “Todos os pecados são expiados entre a realização de uma umrah e outra. O hajj que é realizado adequadamente e aceito por Allah não tem outra recompensa senão o Paraíso.” (Bukhari e Muslim).

    Em outro hadith lemos que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) foi perguntado:

    “Qual a melhor ação?” Ele respondeu: “Crer em Allah e Seu Mensageiro”. Perguntaram: “E depois?” Ele disse: “A jihad pela causa de Allah.” Perguntaram novamente: “E depois?” Respondeu: “O hajj que é realizado corretamente e aceito por Allah.” (Bukhari e Muslim).

    Além disso, o hajj é equivalente à jihad para as mulheres e pessoas que não têm possibilidade de ir para a jihad. Em um hadith, ao Profeta foi perguntado se as mulheres deviam ou não participar da jihad. Ele respondeu:

    “Sim, a elas recai a jihad que não necessita luta: hajj e umrah.”

    O hajj tem muitos benefícios. Além dos mencionados no hadith, é a oportunidade de se encontrar com muçulmanos de todo o mundo que vão à Makkah com o mesmo objetivo, adorar a Allah. É uma excelente oportunidade para que os muçulmanos se conheçam, se entendam e se unam. E mais, todas as diferenças entre eles são suplantadas, pois todos se vestem de um modo similar e realizam os mesmos rituais.

    Os pobres, ricos e todos os demais se apresentam da mesma maneira diante de Allah. Siddiqi descreve o significado do hajj da seguinte maneira:

    “É correto dizer que o hajj é a perfeição da fé, já que combina atributos distintos dos outros atos de adoração obrigatórios. Representa a modalidade da salah [a oração], posto que os peregrinos cumprem com suas orações na Kaabah, a Casa do Senhor. Promove o tributo à riqueza material pela causa do Senhor, uma das principais características do zakat. Quando um peregrino empreende o hajj, afasta-se do conforto de seu lar e do calor de seus entes queridos para satisfazer ao Senhor. Padece de privações e sofre com as adversidades da viagem – os ensinamentos que aprendemos com o jejum e o itikaf. Durante o hajj, prepara-se para se esquecer completamente das comodidades materiais e dos luxos e ostentações da vida mundana. Deve-se dormir sobre um piso de pedra, caminhar ao redor da Kaabah, correr entre Safa e Marwa e passar noite e dia vestindo apenas tecidos sem costuras. Pede-se que evite o uso de óleos ou essências ou qualquer perfume. Tampouco é permitido cortar o cabelo ou enfeitar-se. Em resumo, ordena-se o abandono de tudo pela causa de Allah e a submissão a seu Senhor, o objetivo mais importante na vida de um muçulmano. De fato a peregrinação física é um prelúdio para a peregrinação espiritual até Deus, quando o homem se despede de todas as coisas mundanas para se apresentar ante Ele como Seu humilde servo, dizendo: ‘Aqui me apresento ante Ti, meu Senhor, como Teu servo’.”

    O hajj é uma obrigação que deve ser realizada uma vez na vida, ao menos, para todos aqueles que possuam condições para tal. Allah diz no Qur’an:

    “Encerra sinais evidentes; lá está a Estância de Abraão, e quem quer que nela se refugie estará em segurança. A peregrinação à Casa é um dever para com Deus, por parte de todos os seres humanos, que estão em condições de empreendê-la; entretanto, quem se negar a isso saiba que Deus pode prescindir de toda a humanidade.” (3:97).

    Da mesma forma, ao responder a pergunta do Anjo Gabriel, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ressaltou que o hajj é uma ibadah (ato de adoração) obrigatória para todos aqueles que possuam meios para cumprí-lo.

    Os sábios têm diferentes opiniões sobre tais condições.

    Em geral, diz-se que o hajj não pode estar acompanhado de dificuldades. É um grande ato de adoração e as pessoas deveriam realizar da melhor forma possível e investindo toda sua energia, entretanto apenas se realmente puderem realizá-lo.

    Esta viabilidade inclui gozar de uma boa saúde física, ter uma condição financeira adequada e possuir as provisões necessárias para realizar o hajj.

    Alguns sábios acrescentam que a viagem não deve ser perigosa, nem colocar em risco a vida do peregrino. Afora isso, as mulheres devem ir acompanhadas por um mahram [algum homem de sua família ou seu esposo], já que não é permitido a elas viajarem sozinhas, ainda que alguns sábios permitam que mulheres viajem em grupos “confiáveis”, compostos por homens e mulheres.

    Caso a pessoa não tenha como cumprir estes requisitos, então, o hajj não é obrigatório.

    Deve-se esperar até que tenha as condições necessárias para fazê-lo. Quando a pessoa alcançar tais condições, existem duas opiniões, deve realizar imediatamente ou realizá-lo no ano seguinte. E este é o próximo tema de discussão.

    Existem diferentes opiniões acerca da realização do hajj poder ou não ser adiada. Suponhamos que uma pessoa não tenha cumprido sua obrigação do hajj tendo os meios e a capacidade para realizá-lo naquele ano. Caso tenha decidido adiar a viagem para o próximo ano, por acaso estaria cometendo um pecado? É permitido o adiamento ou deve-se realizá-lo imediatamente?

    Malik, Abu Hanifa, Ahmad e alguns sábios Shafi’is afirmam que a pessoa deve realizar o hajj assim que adquira meios para tal. Do contrário estaria cometendo um pecado. As provas que embasam estes pensamentos são as seguintes:

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Se alguém se quebra [um osso] ou fica manco deixa de possuir o estado sagrado e por isso deve realizar o hajj no ano seguinte.”

    Deste hadith conclui-se que se uma pessoa deve realizar o hajj assim que adquiri condições, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não haveria mencionado, especificamente para esta pessoa, o adiamento para o próximo ano.

    Outro hadith diz:

    “Apressem-se a realizar o hajj, ou seja, é obrigatório, já que nenhum de vós sabe o que virá a acontecer.”

    Também foi dito por Omar Ibn al-Khattab:

    “Pensei em enviar homens a essas terras com o objetivo de ver qual deles, tendo condições de realizar, não realizaram o hajj. A eles deve-se cobrar o jiziya já que não são muçulmanos, não são muçulmanos.”

    Por outro lado, uma das provas mais sólidas que respaldam o fato de que uma pessoa pode adiar o cumprimento do hajj, inclusive tendo a capacidade de fazê-lo, é que o hajj se transformou em obrigatório no sexto ano da hégira; entretanto o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não realizou o hajj até o décimo ano da hégira. Não obstante, ash-Shaukaani propõe a seguinte resposta como argumento:

    [Primeiro] Existem diferentes opiniões a respeito de quando o hajj se tornou uma obrigação. Uma das opiniões é que se tornou obrigatório no décimo ano. Então, não houve nenhum tipo de adiamento [por parte do Mensageiro de Allah]. Se aceitarmos que era obrigatório antes do décimo ano, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) adiou sua realização devido a seu desgosto em realizar o hajj na companhia dos politeístas, já que estes caminhavam pela Kaabah seminus. Quando Allah purificou a Casa Sagrada da presença dessas pessoas, então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) realizou o hajj. Ou seja, o adiamento de seu hajj teve uma desculpa. [Isso é aceitável] A discussão deve ser sobre a pessoa que adia o hajj e se ela possui uma desculpa válida.”

    A pessoa que nega a obrigação do hajj se torna incrédulo. Toda pessoa que, intencionalmente, adie a realização de seu hajj, ainda que possua meios para tal, será um pecador até que morra. Ganhará o castigo e descontentamento de Allah na próxima vida.

    Os rituais do hajj são muitos e variados. Os peregrinos vêm de todas as partes do mundo. É requisitado que usem uma vestimenta específica. Realizem ritos distintos em dias específicos. Por exemplo, no dia nove do mês islâmico de dhul-hijjah congregam-se no monte Arafah e louvam a Allah, implorando por Seu perdão e Sua misericórdia.

    Pela graça e misericórdia de Allah, existem muitas organizações, hoje em dia, que planejam a peregrinação dos muçulmanos de todo o mundo. Algumas destas organizações são especializadas em guiar os novos muçulmanos na peregrinação.

    Pessoalmente peço a Allah que cada novo convertido seja capaz de realizar esta viagem bendita na companhia de muçulmanos cultos que possam guiá-los e instruí-los durante a peregrinação.

    Conclusões

    Obviamente, existem muitos detalhes sobre os rituais de adoração que foram deixados de fora desta obra. Pela graça de Allah, há muitos livros disponíveis, em várias línguas, que provêm tais detalhes. Pessoalmente quero recomendar as seguintes obras:

    Los pilares del Islam y la fe de Muhammad Ibn Yamil Zinu (publicado por International Islamic Publishing House, Riyad), é uma boa obra e breve introdução a todos os aspectos da Lei Islâmica.

    Jurisprudencia Islámica de Muhammad ibn Ibrahim At-Tuwaijri (publicado em dois volumes por International Islamic Publishing House, Riyad) engloba a maioria dos aspectos da Lei em detalhes.

    Pode chegar a ser um pouco pesado e demasiadamente detalhado para o recém convertido. Mas, sem dúvida, com o tempo deve se transformar numa referência muito interessante para consulta.

    O Comportamento e a Interação Social do Crente

    Allah disse no Qur’an:

    “Ó fiéis, abraçai o Islam na sua totalidade e não sigais os passos de Satanás, porque é vosso inimigo declarado.” (2:208).

    Como mencionei anteriormente, o Islam é uma religião integral e completa.

    Seus ensinamentos envolvem todos os aspectos da vida. Isso se relaciona a cada faceta de vida, e o muçulmano deve adorar e seguir a Allah.

    Não existe nenhum aspecto da vida, minimamente que seja, que se encontre fora deste preceito geral.

    Assim, o Islam estabelece claramente uma série de artigos de fé e ritos de adoração.

    O comportamento, os modos, a ética e as ações de todo muçulmano devem refletir sua crença – na crença de que ninguém é digno de louvor, exceto Allah.

    É inconcebível que alguém que se diz servo de Allah trate mal, engane ou magoe seu próximo. Este tipo de comportamento demonstraria que sua declaração de fé é falsa ou débil.

    Para um novo convertido ao Islam, esta consciência pode indicar a existência de muitas coisas em si mesmo que deveriam mudar para que ele venha a ser um muçulmano completo e verdadeiro.

    Pode haver muitos defeitos pertencentes aos seus dias anteriores ao Islam que deverá analisar e corrigir. Não tem mais remédio senão tentar mudar seus costumes.

    Agora declara sua crença no Islam. Se sua crença é verdadeira, deve estar disposto a aceitar os ensinamentos de sua fé e fazer o máximo esforço para implementar toda esta fé em sua vida.

    À medida que seu conhecimento sobre o Islam vai crescendo e sua fé vai se fortalecendo muitos comportamentos começam a mudar automaticamente. Há uma nova perspectiva sobre a vida e um entendimento diferente da realidade.

    Pessoalmente testemunhei estas mudanças em alguns convertidos. Por exemplo, alguns não muçulmanos ficam muito alterados quando praticam algum esporte. No momento em que as coisas não saem como querem ou quando sentem que a equipe rival, injustamente, recebe uma vantagem, então, perdem o controle e estoura a fúria.

    Esta fúria reflete a importância e relevância que estas pessoas dão à atividade esportiva. Logo ao se converterem ao Islam, muitas pessoas mudam radicalmente. De repente, os esportes se tornam uma atividade para diversão e exercício.

    O novo muçulmano entende que os esportes não têm um valor permanente no mérito real da pessoa. Este novo entendimento de sua realidade, automaticamente, e às vezes como algo imperceptível, muda o comportamento e o caráter daquela pessoa.

    O objetivo é realizar esta transformação em todo tipo de interação social. Esta transformação se complementa com o conhecimento da forma em que a pessoa deve se comportar. É por isso que neste capítulo, logo após uma introdução sobre a importância do comportamento e caráter, analisaremos as seguintes interações:

    ·         A relação do muçulmano com seu interior.

    ·         A relação do muçulmano com seus pais.

    ·         A relação do muçulmano com seu cônjuge.

    ·         A relação do muçulmano com seus filhos.

    ·         A relação do muçulmano com seus vizinhos.

    ·         A relação do muçulmano com os outros muçulmanos.

    ·         A relação do muçulmano com pessoas não muçulmanas.

    ·         A relação do muçulmano com a sociedade.

    ·         A relação do muçulmano com suas propriedades e riquezas.

    ·         A ênfase do Islam em um comportamento apropriado, bons modos e bons costumes.

    Em um hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Fui enviado com o único propósito de aperfeiçoar a boa moral.”

    Neste hadith o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declarou abertamente que um dos aspectos mais importantes de sua tarefa como profeta foi a de ensinar como devem ser a boa moral, comportamento e os bons modos.

    Este é um sinal evidente que os ensinamentos do Qur’an abarcam claramente o comportamento e os bons modos. O muçulmano não pode escapar disso e por este motivo deve adaptar seu comportamento de acordo com tais ensinamentos.

    Existem inúmeras declarações do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) relacionadas à importância de possuir um bom caráter. Aqui apresentarei apenas algumas para destacar sua importância.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Eu garanto a casa mais elevada no Paraíso àqueles que tenham um bom comportamento.”

    Este hadith mostra claramente a recompensa por melhorar e aperfeiçoar o nosso comportamento. Algumas pessoas dizem que seu caráter é algo com o qual nasceram e que não há nada que possam fazer para modificá-lo. Isso não é verdade.

    Como mencionei anteriormente, a maior parte da força motriz que motiva nosso caráter provém do que cremos acerca de Allah, esta vida, a próxima vida, etc. por isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “A devoção e a retidão são indicativos de um bom caráter.” (Muslim).

    A devoção pode ser alcançada, mas requer esforço de nossa parte. De fato, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu os hipócritas, ou seja, aqueles que possuem uma fé débil e falsa, descreveu suas ações e comportamento: mentem quando falam, traem nossa confiança, não cumprem quando prometem (este hadith é encontrado no bukhari).

    Novamente, o exemplo por excelência de comportamento de um muçulmano se baseia no exemplo do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Pela graça e misericórdia de Allah, foi enviado o Seu Mensageiro, um ser humano que cumpriu o papel de esposo, pai, membro da comunidade e líder da sociedade, entre outras coisas, para dar o exemplo aos crentes de como deveriam comportar-se e qual o comportamento que agrada a Allah. Ele demonstrou como o Qur’an deve ser posto em prática na vida cotidiana.

    Sua esposa Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse acerca de seu marido:

    “Seu caráter é o Qur’an” (Muslim).

    Assim, descobre-se que o Profeta (a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) foi um homem sincero, honesto, agradecido e direto. Foi humilde, paciente, calmo e compassivo. Não mentia, não difamava, nem caluniava a ninguém. Possuía uma determinação alegre e tratava os membros de todas as comunidades com o devido respeito. Esta é uma parte essencial do significado do comportamento de um crente.

    Da perspectiva islâmica, o caráter e os bons modos podem ser modificados.

    Quer dizer, deve-se ter um comportamento e um modo de agir apropriado para com seu Criador, com sua alma, com as pessoas com as quais se relaciona, com os outros seres da terra e com todos os seres criados. Algumas destas categorias serão analisadas mais adiante neste capítulo.

    A categoria mais importante é o comportamento em relação ao Criador, já que isso influenciará todas as demais categorias. Isto implica ter uma relação adequada com Allah e submeter-se a Ele de uma forma sincera, correta e incondicional. Os detalhes desta relação foram analisados ao longo desta obra.

    Relembrando as últimas duas categorias mencionadas anteriormente: um bom comportamento com as demais criaturas viventes na terra, assim como com tudo o que Allah colocou neste universo. Nenhum muçulmano possui a liberdade de se comportar como lhe convenha ou agrade em relação aos animais ou objetos inanimados.

    Certamente, deverá prestar contas a Allah por seu comportamento neste âmbito.

    Nesta criação, tudo o que foi colocado à disposição da humanidade não é mais que aquilo que Allah nos confiou. Por exemplo, existem muitos ahaadith que analisam como os muçulmanos devem tratar os animais. Inclusive, sobre o sacrifício do animal para consumo dos seres humanos, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Certamente, Allah estabeleceu a excelência em todas as coisas. Então, caso matem, matem de uma boa maneira. Quando sacrificarem, façam-no de uma boa maneira. Devem afiar a faca e assim evitar o sofrimento do animal que está sendo sacrificado.” (Muslim).

    Este fato não era desconhecido dos antigos muçulmanos, como podemos observar na declaração de Fudhail Ibn Aiadh:

    “Por Allah, se não é permitido molestar a um cão ou a um porco sem uma razão válida, como podem molestar a um muçulmano?”

    A relação de um muçulmano consigo mesmo

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou que a pessoa tem uma responsabilidade para com ela mesma. Isso quer dizer que uma pessoa tem uma responsabilidade muito importante consigo mesma. Isto é, a pessoa tem uma responsabilidade com seu interior.

    Analisando logicamente, a pessoa tem o direito e a obrigação de fazer o melhor por ela mesma. É razoável que uma pessoa o faça para evitar que sua alma se corrompa.

    Além disso, cada ser humano deve aceitar e compreender que não criou a si mesmo. Ele não é seu próprio senhor. Nem sequer pode declarar para si mesmo o direito de utilizar seu próprio ser ou seu corpo da forma que mais lhe agrade, ainda que isso seja algo que se escute freqüentemente.

    O Islam ensina aos seres humanos que foram criados por um Deus Onisciente e Misericordioso. É por isso que, inclusive com respeito ao seu próprio ser, o homem deve obedecer a Seu Criador e Senhor. Na Sua sabedoria, o Criador ordena aos seres humanos que façam apenas o que seja benéfico para eles mesmos.

    Na realidade, o Criador indica o caminho para a salvação. Isso é alcançado através do esforço na aceitação voluntária ao que Allah revelou e na prática de tudo aquilo que agrade a Allah.

    Ao passar do tempo, observamos que toda a orientação proveniente de Allah, quer dizer, a religião do Islam, é única e exclusivamente para o benefício do ser humano.

    Allah não se beneficia se é adorado, nem se vê prejudicado se alguém o contradiz. Assim, em muitas partes do Qur’an, Allah deixa claro que toda Sua misericordiosa orientação foi ensinada aos homens para próprio benefício:

    “Em verdade, temos-te revelado o Livro, para (instruíres) os humanos. Assim, pois, quem se encaminhar, será em benefício próprio; por outra, quem se desviar, será em seu próprio prejuízo. E tu não és guardião deles.” (39:41; ver também, por exemplo, 6: 104 e 41: 46).

    “Quem se encaminha, o faz em seu benefício; quem se desvia, o faz em seu prejuízo, e nenhum pecador arcará com a culpa alheia. Jamais castigamos (um povo), sem antes termos enviado um mensageiro.” (17:15).

    “... E quem se purificar, será em seu próprio benefício, porque a Deus será o retorno.” (35: 18).

    Tudo o que é explicado neste livro está destinado a auxiliar o indivíduo a cumprir com suas próprias responsabilidades (para consigo mesmo) e ajudá-lo a estabelecer uma relação adequada com seu Criador, Deus e Senhor. Então, todo o material incluído neste livro pode ser considerado como uma explicação desta particularidade.

    Nesta seção quero abordar um aspecto particular que demonstra que o Islam determina a orientação do homem em todos os âmbitos de sua vida.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) declarou, enquanto falava com Abdullah Ibn Amr, que

    “Teu corpo tem direitos sobre ti. Teu olho tem direitos sobre ti...” (Bukhari).

    Assim, o Profeta explicou diversos aspectos da higiene e costumes para as pessoas e que estão em harmonia com a verdadeira natureza humana.

    Em outras palavras, a alma reconhece naturalmente que estas são práticas boas e harmoniosas. Logo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se referiu a elas como sunan al-fitra ou “ações que correspondem à natureza das pessoas”.

    Estas ações são mencionadas pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) no seguinte hadith:

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

     “Entre as práticas naturais, encontram-se estas cinco:

    . realizar a circuncisão,

    . raspar os pelos pubianos e os da axila,

    . cortar a unhas e aparar o bigode”. (Bukhari e Muslim).

    Em outras narrações, disse:

    “Entre as práticas naturais, encontram-se as dez que se seguem: aparar o bigode, deixar a barba crescer, utilizar um palito para limpar os dentes, higienizar o nariz com água, cortar as unhas, lavar as reentrâncias e união dos dedos, tirar os pelos da axila e pubianos, utilizar água para lavar as partes íntimas [após urinar].”

    Zakaria disse:

    “Musab me disse: esqueci-me da décima, a menos que seja enxaguar a boca.” (Muslim).

    Os sábios têm opiniões diferentes sobre estas ações, se são obrigatórias ou recomendáveis.

    Não há dúvida que uma pessoa necessita tratar seu corpo de forma adequada e para isso deverá seguir estas práticas que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu no hadith.

    Além das questões de higiene, o Islam também aconselha o indivíduo a respeito dos alimentos e bebidas que podem ser ingeridos. Por exemplo, Allah proíbe o consumo de álcool:

    “Satanás só ambiciona infundir-vos a inimizade e o rancor, mediante as bebidas inebriantes e os jogos de azar, bem como afastar-vos da recordação de Deus e da oração...” (5: 91)

    Da mesma forma, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Todo tipo de substância embriagante está proibida.” (Bukhari e Muslim).

    Allah deu instruções acerca dos alimentos que podem ser ingeridos:

    “Ele só vos vedou a carniça, o sangue, a carne de suíno e tudo o que for sacrificado sob invocação de outro nome que não seja de Deus. Porém, quem, sem intenção nem abuso, for impelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordioso.” (2: 173).

    “Estão-vos vedados: a carniça, o sangue, a carne de suíno e tudo o que tenha sido sacrificado com a invocação de outro nome que não seja o de Deus; os animais estrangulados, os vitimados a golpes, os mortos por causa de uma queda, ou chifrados, os abatidos por feras, salvo se conseguirdes sacrificá-los ritualmente; o (animal) que tenha sido sacrificado nos altares. Também vos está vedado fazer adivinhações com setas, porque isso é uma profanação. Hoje, os incrédulos desesperam por fazer-vos renunciar à vossa religião. Não os temais, pois, e temei a Mim! Hoje, completei a religião para vós; tenho-vos agraciado generosamente sem intenção de pecar, se vir compelido a (alimentar-se do vedado), saiba que Deus é Indulgente, Misericordioso.” (5:3).

    “Dize: De tudo o que me tem sido revelado nada acho proibido para quem necessita alimentar-se, nada além da carniça, do sangue fluente ou da carne de suíno, uma vez que tenham sido sacrificados com a invocação nem abuso, se vir compelido a isso, saiba que teu Senhor ó Indulgente, Misericordioso.” (6:145)

    Em geral, o muçulmano só pode ingerir carne abatida por um muçulmano, judeu ou cristão, de uma maneira específica. Por esta razão, sem entrar em debate a partir desta questão, sugiro aos muçulmanos que não comam carne que seja vendida em supermercados no ocidente. Devem se restringir ao que conhecemos como carne halaal ou zabihah (sacrificada por muçulmanos) ou carne kosher (sacrificada por judeus).

    A relação dos muçulmanos com seus pais

    Allah ordena que os muçulmanos tratem seus pais da melhor forma possível.

    Os muçulmanos devem ser pessoas agradecidas.

    Devem estar agradecidas com Allah e com todas as pessoas que sejam bondosas.

    Depois de Allah, não creio que existam pessoas que mereçam mais reconhecimento que os pais. Por isso, muitos versículos do Qur’an mencionam como se deve tratar os pais.

    De fato, em mais de uma ocasião, Allah uniu o bom comportamento e os laços familiares com os pais, com a ordem de adorar apenas a Ele. Por exemplo, como é indicado no seguinte versículo do Qur’an:

    “Adorai a Deus e não Lhe atribuais parceiros. Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e jactancioso algum.” (4: 36).

    Neste versículo Allah fala de Seus direitos sobre Seus servos e dos direitos dos servos entre si. Dentre os servos, a pessoa deve tratar especialmente bem as seguintes classes de pessoas:

    (1) seus parentes, especialmente os pais;

    (2) os necessitados e débeis;

    (3) aqueles com quem se relaciona diariamente, por exemplo, os vizinhos;

    (4) as pessoas com as quais se encontra de vez em quando, como por exemplo,

    o viajante e

    (5) a seus escravos. Nesta última categoria, alguns antigos sábios também

    incluem aos servos e animais que uma pessoa possua.

    Allah também disse:

    “Dize (ainda mais): Vinde, para que eu vos prescreva o que vosso Senhor vos vedou: Não Lhe atribuais parceiros; tratai com benevolência vossos pais...” (6: 151).

    “E de quando exigimos o compromisso dos israelitas, ordenando-lhes: Não adoreis senão a Deus; tratai com benevolência vossos pais e parentes...” (2: 83).

    “O decreto de teu Senhor é que não adoreis senão a Ele; que sejais indulgentes com vossos pais, mesmo que a velhice alcance um deles ou ambos, em vossa companhia; não os reproveis, nem os rejeiteis; outrossim, dirigi-lhes palavras honrosas. E estende sobre eles a asa da humildade, e dize: Ó Senhor meu, tem misericórdia de ambos, como eles tiveram misericórdia de mim, criando-me desde pequenino! Vosso Senhor é mais sabedor do que ninguém do que há em vossos corações. Se sois virtuosos, sabei que Ele é Indulgente para com os contritos.” (17: 23-25).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também ressaltou essa boa relação com os pais, mencionando-os imediatamente após a realização da oração no momento adequado. Perguntaram ao profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “Que ação é mais apreciada por Allah?” respondeu: “Realizar a oração no momento adequado”. Continuaram perguntando: “E depois?” Ele respondeu: ”Ser obediente com teus pais”. Novamente perguntaram: “E depois?”, ele respondeu: “A jihad pela causa de Allah.” (Bukhari e Muslim).

    Allah relembra aos crentes que seus pais, em especial a mãe, sofreram muito e realizaram um grande esforço para criar seus filhos e, por esta razão, merecem amor, respeito e gratidão. Allah disse:

    “Recorda-te de quando Lucman disse ao seu filho, exortando-o:

    Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniqüidade. E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Sua mãe o suporta, entre dores e dores, e sua desmama é aos dois anos. (E lhe dizemos): Agradece a Mim e aos teus pais, porque retorno será a Mim.” (31: 13-14).

    “E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Com dores, sua mãe o carrega durante a sua gestação e, posteriormente, sofre as dores do seu parto. E de sua concepção até à sua ablactação há um espaço de trinta meses, quando alcança a puberdade e, depois, ao atingir quarenta anos, diz: Ó Senhor meu, inspira-me, para praticar o bem que Te compraz, e faze com que minha prole seja virtuosa. Em verdade, converto-me a Ti, e me conto entre os muçulmanos.” (46: 15).

    Desta maneira, especialmente a mãe, merece a maior amizade e proximidade dos filhos. Uma vez perguntaram ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele):

    “De todas as pessoas quem é a mais merecedora da minha boa companhia?” O Mensageiro de Allah respondeu: “A tua mãe”. O homem perguntou: “E depois, quem?”, ele respondeu: “A tua mãe”. Mais uma vez o homem perguntou: “E depois, quem?”, ele respondeu novamente: “A tua mãe”. O homem perguntou pela quarta vez: “E depois, quem?”, desta vez o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) respondeu: “O teu pai”. (Muslim).

    Os convertidos e sua relação com os parentes não muçulmanos

    A relação entre um novo muçulmano convertido e sua família e parentes não muçulmanos pode chegar a ser bem complicada.

    Muitas vezes existe uma forte oposição por parte dos não muçulmanos. Esta é uma grande prova para o convertido.

    É obvio que há amor entre as pessoas, pois estas construíram um laço forte por longos anos. Como exemplo para aqueles que passam por estas dificuldades, menciono os antigos convertidos ao Islam que viviam em Makkah. Estes muçulmanos enfrentaram uma grande oposição e, inclusive, muitos deles foram torturados devido à nova fé.

    Eventualmente, a pequena comunidade muçulmana se viu obrigada a emigrar para outras terras para resguardar sua fé. Sem dúvida, eles foram pacientes e perseverantes, satisfazendo assim ao seu Senhor. Entenderam que a recém descoberta relação com Allah deve ter mais importância que qualquer outra relação neste mundo.

    Quando uma pessoa se encontrar com Allah na próxima vida, apresentar-se-á como um indivíduo responsável por suas próprias ações e decisões. O fato de que as pessoas próximas dele não concordam com a religião de Allah, não significa que isso seja uma desculpa aceitável para que a própria pessoa abandone o Islam, nem sequer abrir concessões com respeito à religião.

    Se isso fosse aceito por Allah, certamente, teria sido uma opção para os antigos muçulmanos que sofreram torturas e exílio de suas terras. Mas, eles não tiveram esta opção. Atualmente, esta opção não significa mais que a destruição da religião de Allah, já que sempre existiram muitas pessoas que se opõem à verdade e ao caminho d’Ele.

    Hoje em dia, para a maioria dos convertidos, pela graça de Allah, a situação não é tão extrema como foi para os primeiros muçulmanos. Geralmente, existem diversas reações à conversão de uma pessoa; pode haver respeito, entretanto os outros não se sentem satisfeitos com a opção do convertido.

    Sob estas circunstâncias particulares é muito importante que o convertido não perca a sua fé, mesmo que a oposição seja declarada.

    Os parentes consangüíneos, em particular, têm direitos sobre o novo muçulmano. Al Bukhari e Muslim registraram que Asmaa bint Abi Bakr se aproximou do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e disse:

    “Minha mãe está regressando (de Makkah) e deseja ver-me apesar dela ser politeísta. Devo manter meus laços familiares com ela?” Ele respondeu: “Sim, honra teus laços familiares com tua mãe.”

    Allah disse no Qur’an:

    “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e eqüidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.” (60: 8).

    Allah também se refere aos pais não muçulmanos dizendo:

    “Porém, se te constrangerem a associar-Me o que tu ignoras, não lhes obedeças; comporta-te com eles com benevolência neste mundo, e segue a senda de quem se voltou contrito a Mim. Logo o retorno de todos vós será a Mim, e então, inteirar-vos-ei de tudo quanto tiverdes feito.” (31: 15).

    Está claro que o indivíduo necessita resguardar e proteger sua fé e que se os pais exercem pressão sobre um filho, este deverá impor limites estritos em alguns assuntos. De qualquer forma, esta situação deverá ser manejada da melhor maneira possível.

    Por natureza o muçulmano deve ser agradecido. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Aquele que não é agradecido com as pessoas, não é agradecido com Allah.” (Tirmidhi e Ahmad).

    Desta maneira, o muçulmano sempre permanecerá agradecido e cheio de um “amor natural” por seus pais não muçulmanos graças à bondade e amor que demonstraram através dos anos. Certamente, não se pode gozar de um “amor religioso” por suas ações.

    De um ponto de vista religioso, não podem desculpar nem aprovar que eles elejam um caminho distinto do caminho do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Por isso, não se deve amá-los pela forma de vida que optaram levar.

    Quando há um conflito entre o amor espiritual e o religioso, o religioso tem prioridade. Como Allah disse:

    “Ó fiéis, não tomeis por confidentes vossos pais e irmãos, se preferirem a incredulidade à fé; aqueles, dentre vós, que os tomarem por confidentes, serão iníquos. Dize-lhes: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossa tribo, os bens que tenhais adquirido, o comércio, cuja estagnação temeis, e as casas nas quais residis, são-vos mais queridos do que Deus e Seu Mensageiro, bem como a luta por Sua causa, aguardai, até que Deus venha cumprir os Seus desígnios. Sabei que Ele não ilumina os depravados.” (9: 23-24).

    Não obstante, nenhum muçulmano pode aprovar, de maneira nenhuma, suas falsas formas de adoração. Allah conduziu o convertido à única e irrefutável verdade e desejo mais fervoroso desta pessoa deve ser que as pessoas que o cercam também enxerguem a verdade.

    Ao mesmo tempo em que mantém uma relação cordial com todos os que o rodeiam, o muçulmano convertido deve deixar claro que não pode aprovar, nem participar de nenhuma forma de adoração que reconheça como falsa. Por exemplo, o muçulmano não pode celebrar o natal. A crença representada por esta celebração, o nascimento do filho de Deus e o salvador, vai de encontro às bases fundamentais do monoteísmo islâmico.

    O muçulmano não deve, jamais, participar desta celebração. Tampouco deve desejar que outros desfrutem dessa comemoração ou trocar presentes nessa ocasião.

    Ao invés disso, deve deixar que os demais realizem seus atos de adoração e celebração esclarecendo que sua participação em tais práticas comprometeria e contradiria sua nova fé. Mediante uma explicação clama e clara, é esperado que as pessoas respeitem e aceitem a decisão do convertido em permanecer afastado destas práticas religiosas que não são compatíveis com sua nova fé.

    Manter os laços com os pais também engloba visitá-los. Especialmente se parte da intenção da visita consiste em permitir que seus parentes tenham contato com um muçulmano e obtenham informações verdadeiras acerca do Islam, não há dúvidas que esta visita é aprovada.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) visitou seu tio politeísta Abu Taalib quando este se encontrava doente, assim como também visitou o judeu adolescente que estava em seu leito de morte. Ele aceitava seus convites para refeições. De fato, está confirmado que o Profeta visitou Abdullah Ibn Ubai Ibn Salul em seu leito de morte, mesmo sabendo que ele era o chefe dos hipócritas e seu opositor.

    Obviamente existem limitações quanto ao tipo de visitas e atividades nas quais o muçulmano pode participar.

    Dentre as questões freqüentes que surgem para os novos muçulmanos, encontra-se a de ir aos funerais de seus parentes. Segundo os relatos dos antigos sábios muçulmanos, o muçulmano deve apresentar suas condolências à família e deve estar presente nesses momentos, mas mantendo-se distante dos atos específicos do processo funerário, especialmente de qualquer tipo de ato que tenha reflexos religiosos.

    O principal objetivo é se manter afastado desse ato que poderia, de alguma forma, contradizer a fé islâmica. Quando o pai de Ali, Abu Taalib, morreu – como não muçulmano, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a Ali fosse e enterrasse seu pai e Ali o fez. Também existe um relato que diz que consultaram Ibn Abbas, companheiro do Profeta, sobre um muçulmano cujo pai cristão havia morrido, e ele disse:

    “Ele deve ir enterrá-lo”.

    Quando é dado os pêsames aos não muçulmanos, deve-se desejar o melhor, esperando que sejam abençoados com boas coisas e alentando-os a serem pacientes.

    Não está permitido que se implore o perdão por aqueles que hajam falecido fora da fé islâmica. Isso foi proibido no Qur’an. Allah disse:

    “É inadmissível que o Profeta e os fiéis implorem perdão para os idólatras, ainda que estes sejam seus parentes carnais, ao descobrirem que são companheiros do fogo.” (9: 113).

    A relação do muçulmano com seu cônjuge

    O matrimonio é uma instituição muito importante no Islam. A família é o núcleo da sociedade como um todo. Se a família é constituída sobre uma base sólida, há maiores possibilidades de que a sociedade seja saudável. Assim, em geral, os mensageiros de Allah, os melhores exemplos para os seres humanos, aderiram à instituição do matrimônio. Allah disse:

    “Antes de ti havíamos enviado mensageiros; e lhes concedemos esposas e descendência...” (13: 38).

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também adotou o matrimônio como sua forma de vida ao dizer:

    “Por Allah, de todos eu sou o que mais teme a Allah e o mais devoto; entretanto, jejuo e quebro o jejum, oro [de noite], mas também durmo e me caso com mulheres. Todo aquele que der as costas à minha sunnah não é dos meus.” (Bukhari e Muslim).

    O Qur’an afirma que existe um forte laço entre os homens e as mulheres. Em diversas ocasiões no Qur’an, Allah recorda os homens que todos provêm do mesmo ser humano. Este vínculo os conecta e através destes laços é que alguns direitos, de um sobre os outros, são estabelecidos. Allah declara no começo da surah an-Nissa:

    “Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser, do qual criou a sua companheira e, de ambos, fez descender inumeráveis homens e mulheres. Temei a Deus, em nome do Qual exigis os vossos direitos mútuos e reverenciai os laços de parentesco, porque Deus é vosso Observador.” (4:1).

    Além da origem que os sexos têm em comum, Allah ressalta que o amor e o afeto que Ele instaurou nos corações dos cônjuges é um de Seus grandes sinais que atuam como presságios para todos aqueles que possuem entendimento. Quer dizer, estas pessoas analisam este aspecto da criação e recordam a grandeza da obra e do poder de Allah, a perfeição de Sua criação e a imensa misericórdia que Allah pôs neste mundo. Allah disse no Qur’an:

    “Entre os Seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para que com elas convivais; e colocou amor e piedade entre vós. Por certo que nisto há sinais para os sensatos.” (30:21).

    “Ele foi Quem vos criou de um só ser e, do mesmo, plasmou a sua companheira, para que ele convivesse com ela e, quando se uniu a ela (Eva), injetou-lhe uma leve carga que nela permaneceu; mas quando se sentiu pesada, ambos invocaram Deus, seu Senhor: Se nos agraciares com uma digna prole, contar-nos-emos entre os agradecidos.” (7:189).

    Assim, de acordo com o Qur’an, a relação entre um homem e uma mulher deve estar baseada no amor, misericórdia e entendimento mútuo. Allah também ordena os homens que tratem suas mulheres afetuosamente no seguinte versículo:

    “...E harmonizai-vos entre elas, pois se as menosprezardes, podereis estar depreciando seres que Deus dotou de muitas virtudes.” (4:19).

    Vou mencionar algumas palavras acerca do propósito do matrimônio no Islam.

    Estas palavras são necessárias já que muitas vezes as pessoas contraem matrimônio ou desejam fazê-lo sem compreender os requisitos que devem cumprir, nem o propósito do casamento. Pelo contrário, não se inteiram das diferentes responsabilidades que recaem sobre seus ombros quando contraem matrimônio.

    Sem dúvida, se este propósito é conhecido e as responsabilidades que o matrimônio traz são compreendidas desde o começo, a possibilidade de que o matrimônio tenha êxito será maior. A pessoa saberá o que esperar do casamento, tanto de suas responsabilidades, quanto de suas obrigações e direitos.

    Obviamente, o propósito do matrimônio não é simplesmente “divertir-se” ou satisfazer “as necessidades fisiológicas”. O matrimônio é muito mais que isso. Alguns objetivos são: procriar, experimentar o prazer físico lícito, amadurecer, assistir-se e apoiar-se mutuamente na realização desta vida, obter benefícios psicológicos e fisiológicos, reforçar os valores morais sociais, educar a próxima geração de tal modo que contribuam para o crescimento moral e espiritual e unir os povos e as famílias.

    Com quem se pode contrair matrimônio

    Nos versículos 22 e 24 da surah an-Nissa, Allah determinou com quais mulheres um muçulmano pode se casar. Estas categorias são muito claras. Certamente, existem algumas questões que são de extrema importância para os muçulmanos convertidos, em especial para os que habitam as terras não muçulmanas. Cabe destacar que o tema das esposas não muçulmanas já foi analisado anteriormente.

    Uma questão importante é acerca dos homens ou mulheres que estão para se casar e que não são castos. Existe uma diferença de opinião entre os sábios acerca da permissão ao casamento com uma mulher que já cometeu formicação. A maioria dos sábios (Malik, Shafii e Hanafi) consideram que não é recomendável, enquanto outro grupo de sábios opina que é proibido. A diferença de opinião gira em torno do entendimento do seguinte versículo:

    “O adúltero não poderá casar-se, senão com uma adúltera ou uma idólatra; a adúltera não poderá desposar senão um adúltero ou um idólatra. Tais uniões estão vedadas aos fiéis.” (24: 3).

    A maioria dos sábios declara que este versículo nos mostra que o ato do matrimônio com esta classe de mulheres é algo condenável, mas não proibido.

    Também se baseiam no seguinte hadith:

    “Um homem se aproximou do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e disse:

    ‘Tenho uma esposa que amo muito, mas que não permite que eu a toque’. Ele disse: ‘Divorcia-te dela’. E o homem disse: ‘Mas não posso viver sem ela’. Respondeu: ‘Então, desfruta dela apesar [de sua deficiência]’.”

    Sem dúvida, muitos sábios da antiguidade declararam abertamente que está proibido casar-se com uma mulher adúltera, a menos que ela tenha se arrependido de seu ato de formicação. Esta foi a opinião de Ahmad Ibn Hanbal e outros. Esta parece ser a opinião mais sólida e correta baseada no versículo anteriormente mencionado.

    Quanto ao hadith que foi citado, o Imam Ahmad o considerou fraco. Assumindo que fosse autêntico, já que muitos sábios dizem que o é, não especifica se a mulher realmente cometeu algum tipo de ato sexual ilícito. Pode-se pensar que ela tenha sido promíscua ou liberal com outros homens, mas não ao ponto de cometer ato sexual ilegal.

    Se um homem tiver uma mulher com estas características, deve se divorciar dela já que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) indicou isso claramente. De fato, esta é uma prova a mais que não se deve casar com uma adúltera.

    Pode-se analisar o fato de que, no caso do muçulmano convertido, ele deve ser muito cuidadoso com este assunto. Se uma pessoa converte ao Islam recentemente, então, deveria se casar com uma mulher que aumente sua fé e que fortaleça sua determinação na adoração correta a Allah. Obviamente, uma mulher de caráter imoral não será a opção correta para ninguém que deseje ser um verdadeiro crente, pelo contrário, pode ser perigoso, pois sua fé é nova e vulnerável.

    Outro assunto importante é se um muçulmano tem permissão para se casar com uma judia ou cristã. Este tem sido um tema freqüentemente debatido entre os sábios; a maioria deles permite (baseando-se no versículo 5:5), uma minoria proíbe e outra minoria aplica uma série de condições estritas a esta união. Sem entrar em detalhes acerca do debate, novamente, para o convertido, seria melhor que considerasse essa situação cuidadosamente.

    Sendo um novo convertido ao Islam, não deve abrir as portas à tentação e duvidar sobre sua fé. Não se espera que uma mulher não muçulmana o apóie em sua fé ou ajude a crescer espiritualmente, como faria uma muçulmana devota. Em conseqüência, sem dúvidas, os convertidos ao Islam deveriam evitar contrair matrimônio com uma não muçulmana.

    Quanto à muçulmana, convertida ou não, que se casa com um não muçulmano, al-Ghummaari escreveu:

    “o matrimônio entre uma mulher muçulmana e um homem não muçulmano está proibido, como se declara claramente no Qur’an, e é algo que deve ser de conhecimento geral. Se alguém crê que este tipo de matrimônio está permitido, então, essa pessoa se desviou e se tornou uma incrédula.”

    Em geral, o homem é a cabeça do lar, por isso, uma muçulmana contrair matrimônio com um homem não muçulmano representa um perigo muito maior para a mulher e, então, está proibido.

    Os direitos dos cônjuges

    Primeiramente, os casados devem saber que o cônjuge é, antes de tudo, um muçulmano. Ele ou ela é um irmão no Islam. Então, todos os direitos que recaem sobre um muçulmano, devido às condições de irmandade, recaem também sobre os cônjuges. Existem livros a respeito do comportamento de um muçulmano, irmandade, amor e lealdade entre os muçulmanos; e todos os princípios se aplicam a uma pessoa casada, já que seu cônjuge é parte da irmandade e comunidade islâmica. Além disso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também ressaltou isso dizendo:

    “Nenhum de vós é realmente um crente até que ame vosso irmão como a vós mesmos.” (Bukhari e Muslim).

    Sem dúvida, o cônjuge tem ainda mais direitos devido ao importante laço que foi adquirido entre eles.

    Portanto, quando analisamos os direitos que possuem os cônjuges, não devemos encarar este tema de uma forma fria ou meramente legal. A relação entre o marido e sua esposa deve ser muito mais que uma série de direitos estabelecidos pela lei que cada um deve obedecer. Deve ser uma relação de amor, apoio e entendimento mútuo. Cada cônjuge deve considerar as necessidades e habilidades do companheiro.

    Devem tentar fazer o outro feliz, mesmo que tenham que abrir concessões e não simplesmente esperar obter todos os seus direitos maritais. Na realidade, é normal que nenhum dos cônjuges satisfaça completamente os direitos do outro e que o faça completamente feliz. É assim que ambos devem identificar e aceitar seus defeitos.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), em particular, aconselhou aos esposos que tratassem suas esposas da melhor maneira possível, talvez por causa de sua autoridade ou força, em todos os âmbitos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “O melhor dentre vós é aquele que melhor se comporte com sua família [esposa] e eu sou o melhor de vós com minha família.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também deu outro conselho:

    “Aconselho-vos a tratarem bem vossas mulheres, já que estas foram criadas da parte superior de uma costela, a parte mais encurvada. Se tentarem endireitá-las, rompê-las-ão; se as deixarem permanecerão tortas. Assim, aconselho que tratem bem vossas mulheres.” (Bukhari).

    Na realidade, ambos os cônjuges, em geral, não cumprem completamente com suas obrigações para com o companheiro. Então, antes de criticar o outro ou enraivecer-se por alguma falta que o companheiro ou a companheira tenha cometido, a pessoa deve olhar para si mesma e analisar o que está fazendo de mal.

    Do mesmo modo, a Lei Islâmica assentou-se sobre alguns direitos e obrigações para que ambas as partes saibam exatamente o que devem esperar do outro e o que devem proporcionar para ser um bom esposo ou esposa. Por exemplo, Allah disse:

    “...porque elas tem direitos equivalentes aos seus deveres...” (2:228).

    Em resumo, os direitos da esposa ou as obrigações do esposo inclui, entre outras coisas, o seguinte:

    ·         Receber o dote apropriado: Allah disse: “Concedei os dotes que pertencem às mulheres e, se for da vontade delas conceder-vos algo, desfrutai-o com bom proveito.” (4:4).

    ·         Ser completa e plenamente mantida economicamente por seu marido. Allah disse: “Os homens são os protetores das mulheres, porque Deus dotou uns com mais (força) do que as outras, e pelo seu sustento do seu pecúlio...” (4: 34). Além disso, em um hadith registrado por Bukhari e Muslim, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a Hind Bint Utbah, quando ela se queixou que seu esposo (Abu Sufiyan) era mesquinho e que não a mantinha dignamente, e perguntou se poderia pegar seu dinheiro sem que ele soubesse: “Toma o suficiente para ti e para teu filho, de acordo com os costumes.”

    ·         Ser tratadas de uma maneira digna e amável. Allah disse: “...E harmonizai-vos entre elas, pois se as menosprezardes, podereis estar depreciando seres que Deus dotou de muitas virtudes.” (4: 19).

    ·         O direito de gozar de relações sexuais. Do Sahih de Ibn Hibban foi extraído a seguinte narração: “A esposa de Uthman Ibn Madh’um se queixou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que seu esposo não sentia a necessidade de estar com uma mulher. Durante o dia jejuava e durante a noite rezava. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) perguntou ao homem: ‘Acaso não sou o melhor exemplo a seguir?’ Respondeu: ‘Sem dúvidas, sacrificaria a minha mãe e meu pai por ti.’ O Mensageiro de Allah disse: ‘Quanto a ti, continuas rezando pelas noites e jejuando durante os dias. Sem dúvida, tua esposa tem direitos sobre ti. E teu corpo tem direitos sobre ti. Assim que, rezes, mas também durma, jejues, mas outros dias interrompa teu jejum’.”

    ·         O direito de gozar de “privacidade”. Analisemos o seguinte hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): “Algum de vós se dirige à sua esposa, fecha a porta, cobre-se e se oculta em Allah? Responderam: ‘Sim’ Logo, senta-se [com os demais] e diz: ‘Fiz isso e aquilo’? Eles, então, permaneceram em silêncio. O Profeta, então, se dirigiu às mulheres e perguntou: ‘Alguma de vocês fala destas coisas?’ Elas também permaneceram em silêncio. Então, uma jovem mulher entrou silenciosamente, e se dirigiu ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): ‘Ó Mensageiro de Allah, por certo que eles [os homens] falam disso e elas [as mulheres] também.’ Ele disse: ‘Sabe como são? São como um demônio feminino que se encontra com um demônio masculino na rua e satisfazem seus desejos enquanto as pessoas os vêem’.”

    ·         O direito de aprender ou ensinar a sua religião.

    Por outro lado, os direitos do esposo ou as responsabilidades das mulheres são:

    ·         Ser a cabeça do casal e da família. Allah disse: “Os homens são os protetores das mulheres, porque Deus dotou uns com mais (força) do que as outras, e pelo seu sustento do seu pecúlio...” (4:34). Normalmente, este é o direito do esposo e constitui uma carga muita pesada sobre seus ombros, já que implica na responsabilidade de guiar sua família e mantê-los no caminho correto.

    ·         O direito de ser obedecido. Este é parte do primeiro direito. Uma pessoa não pode ser a cabeça de algo se não possui autoridade.

    ·         Que sua esposa responda a seus chamados para satisfação de suas necessidades sexuais. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se um homem chama sua esposa à cama e ela se recusa ir [sem motivo válido], os anjos a maldirão até a manhã”. (Bukhari).

    ·         A esposa não permitirá que ninguém entre em sua casa sem a permissão de seu marido. Em um hadith registrado por Bukhari e Muslim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Não permitam que ninguém entre em sua casa sem a minha permissão.”

    Se os cônjuges contraem matrimônio com a intenção correta de satisfazer a Allah e ao seu companheiro(a), aceitando os requisitos e responsabilidades no matrimônio e tratando-se de acordo com o comportamento islâmico adequado, sua união será abençoada e se estenderá até a próxima vida.

    A dissolução do matrimônio

    Após repassar as bases fundamentais do matrimônio, devemos dizer que o Islam é também uma religião prática. Uma religião que considera todas as situações possíveis. É possível que um homem e uma mulher realizem uma união com boas intenções e que suas personalidades e gostos simplesmente não coincidam.

    Existem situações nas quais um bom matrimônio não pode se concretizar e nas que os cônjuges vivem em um estado miserável. Sob estas circunstancias a lei islâmica permite a dissolução do casamento e do sofrimento. O objetivo seria de continuar juntos amistosamente ou separar-se de uma forma tranqüila. Por isso, Allah disse:

    “Quando vos divorciardes das mulheres, ao terem elas cumprido o seu período prefixado, tomai-as de volta eqüitativamente, ou liberta-as eqüitativamente. Não as tomeis de volta com o intuito de injuriá-las injustamente, porque quem tal fizer condenar-se-á...” (2:231).

    “Todavia, quando tiverem cumprido o seu término prefixado, tomai-as em termos eqüitativos ou separai-vos delas, em termos eqüitativos...” (65:2).

    Existem três maneiras de dissolver o matrimônio segundo a lei islâmica.

    A primeira é o talaaq, comumente traduzido como divórcio. Este é o pedido de divórcio realizado pelo marido. Logo após este pedido a esposa entra em um período de “espera” de aproximadamente três meses, durante os quais podem se reconciliar novamente como marido e mulher. Entretanto, após o terceiro talaaq a reconciliação durante o período de espera já não é mais permitida e os dois devem separar-se completamente.

    O segundo tipo é conhecido como khula’. Este é quando a esposa não se encontra satisfeita com o matrimônio e solicita ao marido que a libere do casamento.

    Ela deve oferecer a devolução do dote em troca da finalização do casamento.

    A terceira forma é quando os direitos da esposa não estão sendo cumpridos pelo marido e ela recorre a um juiz para que este dissolva o compromisso do matrimônio.

    Obviamente, o divórcio não é um objetivo desejado, nem algo decidido às pressas. Em um mundo perfeito todos os matrimônios seriam abençoados. Porém, como não vivemos neste caso, muitas vezes, esta é a melhor opção para as partes envolvidas.

    A relação do muçulmano com seus filhos

    Ter um filho é uma grande bênção, assim como uma grande responsabilidade. Allah disse:

    “Em verdade os vossos bens e os vossos filhos são uma mera tentação. Mas sabei que Deus vos reserva uma magnífica recompensa.” (64:15).

    “Ó fiéis, precavei-vos, juntamente com as vossas famílias, do fogo, cujo alimento serão os homens e as pedras, o qual é guardado por anjos inflexíveis e severos, que jamais desobedecem às ordens que recebem de Deus, mas executam tudo quanto lhes é imposto.” (66:6).

    O significado deste versículo foi reiterado pelo Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) quando disse:

    “Todos vós são pastores e deverão prestar contas por aqueles que estão sob vossa responsabilidade... O homem é responsável por seu lar e deverá prestar contas por estas responsabilidades. A esposa deverá prestar contas pela casa do marido e por suas responsabilidades.” (Bukhari e Muslim).

    Os sábios muçulmanos consideram que os direitos das crianças começam muito antes que sejam sequer concebidos, ou seja, quando da eleição de um cônjuge honesto e devoto. Este é o primeiro passo para proporcionar um bom ambiente e um lar saudável para a criança.

    Além disso, os direitos mais importantes da criança incluem os seguintes:

    (1) serem mantidos e alimentados de uma maneira saudável;

    (2) serem educados quanto aos princípios religiosos;

    (3) serem tratados com compaixão e misericórdia;

    (4) que os irmãos sejam tratados imparcialmente;

    (5) que os pais sejam um bom exemplo a seguir.

    A relação do muçulmano com seus vizinhos

    Allah disse no Qur’an:

    “Adorai a Deus e não Lhe atribuais parceiros. Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e jactancioso algum.” (4:36).

    Afora isso, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Todo aquele que crê em Allah e no Último Dia, que fale o bem o mantenha-se em silêncio. Todo aquele que crê em Allah e no Último Dia, que seja amável e generoso com seus vizinhos.” (Bukhari e Muslim).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “Jibril continuou dando-me conselhos acerca do vizinho, ao ponto de me fazer pensar que deveria incluí-lo na herança.” (Bukhari e Muslim).

    Em outro hadith, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “’Por Allah, ele não é um crente. Por Allah, ele não é um crente. Por Allah, ele não é um crente.’ Perguntaram: ‘Quem é ele, ó Mensageiro de Allah?’ Respondeu: ‘Todo aquele cujo vizinho não esteja à salvo de sua maldade’.” (Bukhari e Muslim).

    Uma vez, foi perguntado ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) sobre uma senhora que oferecia muitas orações, jejuns e dava muito em caridade, mas prejudicava seus vizinhos com suas palavras. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse que ela estaria no Fogo do Inferno. Logo, perguntaram ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) a respeito de uma mulher que não realizava muitos jejuns, orações e nem dava muito em caridade [não mais do que era obrigatório], mas que não prejudicava seus vizinhos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse que ela estaria no Paraíso.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também ensinou algumas formas específicas, nas quais se pode ser generoso e amável com os vizinhos.

    O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse a Abu Dharr:

    “Ó Abu Dharr, quando estiveres preparando uma sopa, agregue um pouco mais de água e ofereças um pouco a teus vizinhos.” (Muslim).

    Ser amável e generoso com o vizinho inclui ajudá-lo quando necessário, visitá-lo quando estiver doente e proporcioná-lo bem estar, de um modo geral. O Shaikh Abu Bakr al-Jaza’iri escreveu:

    “Todos devemos ser bondosos com nossos vizinhos através das seguintes ações: ajudá-los quando busquem ajuda, assistí-los quando busquem assistência, visitá-los quando estiverem doentes, felicitá-los quando algo bom ocorrer para eles; consolá-los em suas aflições, auxiliá-los quando tenham uma necessidade, ser os primeiros a saudá-los, falar apenas boas palavras, tratar bem os seus filhos, guiá-los para que façam o melhor para vossa religião e vida mundana; relevar seus erros, tentar não se intrometer em assuntos privados, não prejudicá-los com nossas construções ou reformas nas nossas propriedades e não jogar o lixo na frente de sua casa ou em sua propriedade. Todas estas ações formam parte da bondade que Allah nos indica a realizar.”

    É muito importante que as pessoas que vivem em lugares não muçulmanos reconheçam que os sábios determinaram três tipos de vizinhos:

    (a) aquele que além de vizinho é parente e muçulmano. Esta classe de vizinho possui três tipos de direitos: o de ser vizinho, o de ser parente e o de ser irmão muçulmano.

    (b) O vizinho que não é parente, mas é muçulmano; e este possui dois daqueles direitos.

    (c) O vizinho que não é nem parente e nem muçulmano; e este possui apenas os direitos de vizinho. Quer dizer, mesmo que um vizinho não seja muçulmano possui o direito de ter uma relação especial só pelo fato de ser vizinho.

    Foi perguntado ao comitê permanente de pesquisa científica na Arábia Saudita sobre os vizinhos não muçulmanos (aceitar os presentes deles, etc.), a resposta foi:

    “Deve-se tratar bem a todas as pessoas que os tratem bem, inclusive se não são muçulmanas. Se lhes oferecem um presente aceitável, devem responder com amabilidade. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) aceitou um presente do líder dos romanos, que era cristão. Também aceitou o presente de um judeu. Allah diz no Qur’an:

    ‘Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e equidade, porque Deus aprecia os equitativos. Deus vos proíbe tão-somente entrar em privacidade com aqueles que vos combateram na religião, vos expulsaram de vossos lares ou que cooperaram na vossa expulsão. Em verdade, aqueles que os tomarem como aliados serão iníquos.’ (60:8-9).”

    O Shaikh Ibn Uthaimin também afirmou:

    “Não é algo mal satisfazer as necessidades de um não muçulmano se a ação não implica em nada que seja proibido, já que os vizinhos possuem direitos e esta boa ação pode até fazê-los aceitar o Islam.”

    O shaikh Ibn Baaz disse:

    “O muçulmano deve ser sociável com seu vizinho não muçulmano. Se seus vizinhos são bons, não os incomodem; e mais, se são pobres, sejam caridosos, se são ricos, presenteie-lhes. Também podem aconselhá-los sobre o que é melhor para eles. Tudo isso pode levá-los a se interessarem pelo Islam e, talvez, converterem-se muçulmanos; os vizinhos possuem direitos muito importantes.”

    O espírito da amizade entre os vizinhos é algo que foi perdido em muitas culturas, sobretudo na civilização contemporânea. Seria excelente se os muçulmanos, tanto os novos convertidos quanto os mais experientes, pudessem reviver este espírito e, assim, mostrar esta bondade do Islam.

    A relação do muçulmano com os outros muçulmanos

    Caso fosse perguntado, hoje em dia, qual o laço mais forte que pode haver entre as pessoas, a maioria responderia os laços familiares, étnicos, nacionalistas, etc. Mas, na realidade, o Qur’an mostra que estes laços não são tão fortes se suas raízes são fracas.

    No Qur’an, Allah nos dá o exemplo de Caim e Abel que, apesar de serem irmãos, um matou o outro e os irmãos de José do Egito que o jogaram em um poço. Eles eram irmãos de sangue e sem dúvida deram prioridade ao materialismo em detrimento dos laços familiares.

    Nos dias de hoje isso é algo muito comum. Os laços entre as pessoas estão enfraquecidos por suas paixões, objetivos e metas mundanas. Muitos indivíduos estão dispostos a vender seus parentes e amigos a fim de prosperar neste mundo para obter algo material que desejam.

    Tudo isso revela uma coisa: quando os laços entre as pessoas estão baseados na amizade, inclusive se forem originários de graus de parentesco, estes serão deixados de lado quando os interesses materiais predominarem. Então, estes não são os laços mais fortes que podem ser construídos entre as pessoas, mas os realmente fortes são os laços do Islam e da verdadeira fé. Estes são vínculos permanentes entre as pessoas, já que são resultado da crença em Allah e o amor por Ele. Isso foi claramente dito por Allah no Qur’an:

    “E foi Quem conciliou os seus corações. E ainda que tivesses despendido tudo quanto há na terra, não terias conseguido conciliar os seus corações; porém, Deus o conseguiu, porque é Poderoso, Prudentíssimo.” (8: 63).

    “E apegai-vos, todos, ao vínculo com Deus e não vos dividais; recorda-vos das mercês de Deus para convosco, porquanto éreis adversários mútuos e Ele conciliou os vossos corações e, mercê de Sua graça, vos convertestes em verdadeiros irmãos; e quando estivestes à beira do abismo infernal, (Deus) dele vos salvou. Assim, Deus vos elucida os Seus versículos, para que vos ilumineis.” (3: 103).

    O Qur’an e a Sunnah nos mostram que os vínculos da fé são os mais fortes.

    Representam a união entre seres humanos em todo o mundo que congregam sob um mesmo motivo: adorar unicamente a Allah. Para alcançar esta meta, os muçulmanos devem trabalhar juntos e ajudar-se mutuamente com compaixão, misericórdia e amor.

    De fato, existem muitos relatos do Qur’an e dos ahaadith que demonstram que os muçulmanos devem formar uma irmandade universal. Para ser breve apresentarei apenas alguns exemplos destes textos:

    “Os fiéis e as fiéis são protetores uns dos outros; recomendam o bem, proíbem o ilícito, praticam a oração, pagam o zakat, e obedecem a Deus e ao Seu Mensageiro. Deus Se compadecerá deles, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo.” (9: 71).

    “Certamente os crentes são irmãos entre si...” (49: 10).

    “Muhammad é o Mensageiro de Deus, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si...” (48: 29).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “A relação entre um crente e outro se assemelha a um edifício, cujas partes se sustentam” (Bukhari e Muslim).

    Outro hadith diz:

    “A parábola dos crentes sobre o amor, misericórdia e compaixão pelos demais é como a do corpo: se um de seus membros está doente, todo o corpo padece e se vê afetado pela insônia e febre.” (Muslim).

    Certamente esta irmandade islâmica não é algo apenas teórico. Possui certos componentes fundamentais, direitos e obrigações específicas que são explicados no Qur’an e na Sunnah. Estes direitos e obrigações são dever de todo muçulmano, em todo o lugar e a qualquer tempo.

    Um dos aspectos necessários desta irmandade é o amor. Quer dizer, todos os muçulmanos têm a obrigação de amar a seus irmãos muçulmanos. De fato devem amá-los da mesma maneira que amam a si mesmos. Como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ensinou:

    “Nenhum de vós crê verdadeiramente até que deseje para o seu irmão aquilo que deseja a si mesmo.” (Bukhari e Muslim).

    O segundo aspecto necessário desta irmandade é a ajuda, auxílio e assistência mútua. Quando seu irmão se encontra oprimido é iminente ajudá-lo e assistí-lo na medida do possível, com sua riqueza e sua alma. Isso está descrito no seguinte versículo:

    “E o que vos impede de combater pela causa de Deus e dos indefesos, homens, mulheres e crianças? que dizem: Ó Senhor nosso, tira-nos desta cidade (Makka), cujos habitantes são opressores. Designa-nos, de Tua parte, um protetor e um socorredor.” (4: 75).

    O terceiro aspecto fundamental da irmandade islâmica é a misericórdia e a ternura entre os crentes. Isso vai além da simples demonstração de afeto de um para o outro, pois implica que a pessoa sinta o que se passa com os demais irmãos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) descreveu os muçulmanos da seguinte maneira:

    “A similaridade dos crentes com relação ao amor mútuo, afeto e companheirismo é como o corpo: quando uma extremidade está dolorida, com febre ou insone, o resto também está.” (Muslim).

    O último componente fundamental de nossa irmandade são os simples atos de cortesia. A verdadeira irmandade deve ser posta em prática, não pode ser simplesmente uma declaração de palavras. Uma bela característica do Islam é que não ele não deixa nenhum assunto a nível hipotético, com os indivíduos tentando adivinhar como poderiam alcançar certos objetivos. Assim, por exemplo, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) detalhou os atos específicos que se deve esperar de seus irmãos e também aqueles que se deve realizar. Desta maneira, dentre esses simples e obrigatórios atos de cortesia, há seis que são mencionados pelo Profeta:

    “Os direitos de um muçulmano sobre o outro são seis... quando o encontres, cumprimente-o; quando fores convidado a comer, aceite; quando fores procurado para dar um conselho sincero, deves dá-lo; quando alguém espirrar e tu ouvires ‘louvado seja Allah’; deverás responder ‘Allah se apiede de ti’; quando um irmão adoecer, visite-o; quando um irmão morrer, atendas a seu funeral.” (Muslim).

    Além dessas seis práticas conhecidas, a Lei islâmica determina que os muçulmanos devem realizar outras ações que ajudem a gerar amor e unidade entre os crentes, um objetivo óbvio desta Lei. Por exemplo, se um muçulmano ama outro muçulmano por Allah deve informar esta pessoa do seu sentimento. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) explicou a razão pela qual os muçulmanos deveriam deixar este sentimento claro:

    “Se um de vós ama seu irmão pela causa de Allah deve dizê-lo, já que isso fortalece o vínculo entre vós e aumenta o amor.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “Pelo Único em cujas mãos se encontra a minha alma, não entrarão no Paraíso até que creiam. E não crerão se não amardes uns aos outros. Deixem-me informar-vos de algo que não sabem, se amardes uns aos outros: cumprimentem-se com a paz.” (Muslim).

    Este hadith pode significar a transmissão das saudações de paz ou a realização de ações que tragam paz e união.

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também destacou a importância de se presentear os irmãos. Disse:

    “Presenteiem-se e amarão uns aos outros.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também recomendou os muçulmanos a se visitarem. Disse:

    “Visitem-se ocasionalmente e o amor entre vós crescerá.”

    Além de todos os atos positivos, quando se evita os atos proibidos, então, os resultados das relações interpessoais também serão positivos. Quer dizer, quando uma pessoa evita a calúnia, difamação, mentira, fofoca, maledicência, etc. obterá apenas resultados positivos, pois está se esforçando a não praticar o que o Islam proibiu explicitamente.

    Concluindo, se o Islam for aplicado corretamente, então, o muçulmano será irmão de todos os outros muçulmanos do mundo e realizará somente boas ações, recebendo, em troca, boas recompensas.

    A relação do muçulmano com os não muçulmanos

    Obviamente, os muçulmanos e os não muçulmanos trilham caminhos muito diferentes. A atitude do muçulmano para com os demais será determinada segundo a atitude que a outra pessoa tem para com Deus. Um muçulmano não poderia sentir uma afinidade completa e profunda com aquele que refuta Deus ou que se recusa a se submeter a Ele ou, ainda, que ridiculariza a crença n’Ele. Simplesmente, não é natural que exista um amor completo entre esses dois tipos de pessoas. Sem dúvidas, inclusive tendo um possível sentimento negativo no coração, o muçulmano deve tratar os não muçulmanos baseando-se em princípios justos. Isso se aplica a todos os não muçulmanos – muitos deles são hostis ou demonstram desprezo e até ódio para com os muçulmanos.

    Um dos princípios de comportamento básico para com os não muçulmanos que não são hostis se encontra no seguinte versículo do Qur’an:

    “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e equidade, porque Deus aprecia os equitativos.” (60:8).

    Ademais, um muçulmano possui claras responsabilidades para com os não muçulmanos. Primeiro deve incitá-los a seguir o caminho de Allah. Constitui parte da intenção do crente transmitir o bem ao mundo inteiro e isso pode levar algumas pessoas a se interessarem pelo Islam.

    O desejo de ver as outras pessoas conhecendo e adorando a Allah enche o coração de um verdadeiro crente. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), com certeza, deu o melhor exemplo. Allah descreve em vários versículos do Qur’an como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) sofreu quando algumas pessoas recusaram se converter ao Islam. Por exemplo, Allah disse:

    “É possível que te mortifiques de pena por causa deles, se não crerem nesta Mensagem.” (18: 6).

    De fato, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) padeceu todo tipo de sofrimento provocado pelos incrédulos de Makkah e, quando o anjo se aproximou dele e deu a opção de derrubar as montanhas de Makkah sobre estas pessoas, o Profeta recusou a oferta e disse:

    “Espero que os descendentes deles sejam pessoas que louvem a Allah sem atribuí-Lo nenhum tipo de companheiro.” (Bukhari e Muslim).

    O chamado à religião de Allah foi o verdadeiro caminho do Profeta Muhammad e o caminho dos crentes. Allah disse:

    “Dize: Esta é a minha senda. Apregôo Deus com lucidez, tanto eu como aqueles que me seguem. Glorificado seja Deus! E não sou um dos politeístas.” (12: 108).

    Esta é a melhor e mais grandiosa boa ação que se pode realizar para com seus concidadãos.

    A segunda obrigação para com os não muçulmanos é tratá-los de uma forma digna e justa. O shaikh Ibn Baaz descreveu esta situação com as seguintes palavras:

    “O muçulmano não pode prejudicar outra pessoa, nem sua vida, suas riquezas ou honra, se o não muçulmano é cidadão de um estado islâmico ou se obteve algum tipo de proteção. Deve respeitar os direitos dos outros. Não deve roubar, enganar, prejudicar ou usurpar seus bens. Não pode agredí-lo fisicamente. A proteção do estado islâmico o garante que esteja à salvo deste tipo de coisa.”

    O muçulmano pode interagir com pessoas não muçulmanas, comprar, vender ou alugar uma propriedade. A nível social pode haver interação, como por exemplo, fazer as refeições juntos, etc.

    Sem dúvida, estas interações serão limitadas, naturalmente. As diferentes formas de ver a realidade de um muçulmano e um não muçulmano os levarão, facilmente, a desacordar em alguns pontos. No plano religioso, definitivamente haverá um sentimento de descontentamento ou desaprovação com as pessoas de outros credos. Certamente, as diferenças na perspectiva e nas ações de um muçulmano evitarão que este seja íntimo de um não muçulmano. Por exemplo, o muçulmano não bebe álcool e nem deseja estar na presença daqueles que bebem, não fala de drogas e esse tipo de coisas.

    O muçulmano deve ter seus limites muito bem delimitados e ser muito cauteloso em sua interação com as pessoas do sexo oposto, o que cria certa barreira em sua interação social. Inclusive entre membros do mesmo sexo, um muçulmano não deve se envolver em conversas inapropriadas sobre pessoas do sexo oposto, uma prática muito comum nos ambientes sociais nos dias de hoje.

    Talvez, pode-se dizer que o objetivo mais importante de um muçulmano em suas relações com pessoas não muçulmanas seria o de aproximá-los do Islam, abrindo as portas para uma relação de amor e irmandade entre eles. Se o não muçulmano é hostil ou desrespeitoso, o muçulmano deve supor que é necessário confrontar o mal e o bem. Allah disse no Qur’an:

    “Jamais poderão equiparar-se a bondade e a maldade! Retribui (ó Muhammad) o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-à em íntimo amigo!” (41:34).

    Em resumo, como escreveu o shaikh Ibn Baaz:

    “Os muçulmanos têm a obrigação de tratar os incrédulos segundo as leis islâmicas, ou seja, com um comportamento apropriado. Não se deve enganá-los, traí-los ou mentir para eles. Se houver uma discussão ou disputa para com eles, deve-se discutir com educação e honestidade. Isto é em obediência ao mandamento de Allah:

    “E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma...” (29: 46).

    Foi permitido aos muçulmanos convidá-los ao bem, aconselhá-los, ser pacientes com eles e amáveis e bons com os vizinhos. Isto concorda com as declarações de Allah: “Fale cordialmente...” (2: 83).

    E

    “Convoca à senda de teu Senhor com sabedoria e belas palavras. Argumenta da melhor maneira...” (16:125).”

    Para finalizar, o muçulmano pode fazer caridade aos não muçulmanos. O comitê permanente de pesquisa islâmica da Arábia Saudita declarou:

    “Ao muçulmano é permitido ajudar seu vizinho não muçulmano, oferecendo-lhe carne de seu animal sacrificado... Está permitido que alimentemos os não muçulmanos que vivam em estados islâmicos e também os viajantes, com a carne do animal sacrificado. Isso é permitido levando em consideração a pobreza, os graus de parentesco, ser um bom vizinho ou mesmo para abrandar-lhes o coração... Sem dúvida, não se deve alimentar um harbi (alguém que declaradamente participa na guerra contra um estado islâmico) já que, neste caso, temos a obrigação de enfraquecê-los e não ajudá-los ou fortalecê-los com nossa caridade. Estas normas sobre a caridade voluntária são baseadas no seguinte versículo do Qur’an:

    “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e equidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.” (60: 8).

    Afora isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ordenou a Assmaa Bint Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com os dois) que ajudasse a sua mãe financeiramente, apesar de que ela era uma politeísta.”

    A relação de um muçulmano com a sociedade

    Quando um muçulmano aceita viver em uma determinada sociedade, está, a princípio, fazendo um pacto com esse país; o que implica que será regido pelas leis deste estado. Não há direitos que amenizem as leis deste estado, não é levado em consideração o fato de o cidadão ser um muçulmano, simplesmente porque este não é um estado muçulmano. De qualquer maneira, todos os princípios do comportamento correto, que foram analisados neste capítulo, aplicam-se a todo muçulmano, onde quer que viva. Na atualidade, muitas coisas que são proibidas para os muçulmanos podem ser legais na maioria dos países. Portanto, deve-se fazer uso de seus direitos legais para assegurar-se que não venha a ser obrigado a fazer algo que seja islamicamente ilícito. Entretanto, deve-se fazer parte do grupo de cidadãos que cumprem e respeitam as leis.

    Além disso, todo muçulmano deve contribuir para a sociedade na qual esteja vivendo. Deve se comportar como um cidadão modelo em todos os âmbitos. Como descrevi anteriormente: deve ser um bom vizinho, tem a obrigação de facilitar o bem e coibir o mal, onde quer que habite. Ademais, deve evitar e opor-se aos crimes mais graves como: assassinatos, roubos, extorsões, etc. Deve-se manter afastado do consumo de álcool e outras drogas, deste modo não sobrecarrega a sociedade com o peso de suas fraquezas e vícios pessoais. Finalmente, deve ser honesto e justo em todas as suas relações com os demais membros da sociedade.

    Mesmo que um muçulmano cumpra com seu papel na sociedade, para muitos países ocidentais, a lealdade e o patriotismo deste cidadão seria posto em dúvida.

    Obviamente, nenhum muçulmano teria os mesmo sentimentos para com um governo laico ou um governo islâmico. Certamente, isso não significa que vá sempre se opor ao governo ou que tentará prejudicar o país em que vive. Muitos judeus sentem mais lealdade por Israel que por seu próprio país. Recentes debates nos Estados Unidos comprovam que grupos cristãos discordam de seus governos (e, em particular, da Suprema Corte). Por exemplo, muitos democratas nos Estados Unidos não são incondicionalmente leais aos governos republicanos e vice-versa. Entretanto, ninguém parece questionar-lhes a lealdade e patriotismo.

    Se o patriotismo significa seguir e apoiar cegamente as declarações de um governo, sentir-se entusiasmado e fiel sob quaisquer circunstancias, nenhuma pessoa inteligente seria patriota, pois é de conhecimento geral que todos os governos mentem e enganam em algum momento ou sob alguma circunstância em seus mandatos.

    Por outro lado, se o patriotismo significa desejar o melhor para nosso país, então, o problema se encontra no critério pessoal. Alguns sentem que possuem o direito de falar em nome de todos, mas este “direito” pode ser questionado.

    O Islam reconhece que é natural que um ser humano ame seu país e que sinta certa afinidade com a terra em que nasceu. Quando os muçulmanos foram obrigados a emigrar de Makkah, que se encontrava sob o jugo dos politeístas, muitos deles expressaram seu amor pela terra natal. Então, é natural que os muçulmanos sintam carinho pela terra na qual habitam, inclusive se esse país não é um estado islâmico.

    Também é natural que os muçulmanos desejem o que é melhor para seu país de origem. Mas, infelizmente, sua idéia do melhor pode não ser compartilhada ou apreciada pelos demais. Por exemplo, os muçulmanos podem desejar que não haja mais jogos, prostituição ou pornografia. Os muçulmanos crêem que isto é o melhor exemplo para as pessoas, tanto muçulmanas quanto não muçulmanas.

    Sem dúvida, muitos não muçulmanos não estariam de acordo com este sentimento. Aqui está a raiz da questão. Na teoria, nas sociedades livres contemporâneas isso não deveria figurar como problema.

    Os muçulmanos deveriam ser capazes de se ater aos valores e costumes que não prejudicam a religiosidade, enquanto os demais continuariam com a cultura dominante local. Se os países “livres” não estão dispostos a ceder aos muçulmanos, significa que não estão dispostos a viver segundo seus próprios ideais.

    Não se trata que os muçulmanos tentem prejudicá-los, senão que, simplesmente, tentem ser bons cidadãos que vivam num estilo de vida diverso ao estilo adotado pela maioria.

    A relação do muçulmano com a riqueza e propriedade privada

    Segundo o Islam, a riqueza não é considerada algo ruim por ela mesma. A riqueza é uma graça de Allah às pessoas. Definitivamente não é algo mau, nem sequer um “mal necessário”, como as outras religiões pregam.

    De fato, proteger e cuidar da riqueza são objetivos da Lei Islâmica. Desta maneira, aconselha-se às pessoas a se esforçarem para ganhar o sustento e aumentar suas riquezas.

    Igualmente a muitas coisas, deve-se impor limites em relação à riqueza. Nas mãos de uma pessoa honesta, a riqueza se converte em uma ferramenta que pode ser usada para agradar a Allah. Do contrário, também pode ser algo que leva à destruição das pessoas. Portanto, é, verdadeiramente, uma prova de Allah. Allah descreve da seguinte maneira:

    “Em verdade os vossos bens e os vossos filhos são uma mera tentação. Mas sabei que Deus vos reserva uma magnífica recompensa.” (64:15).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Os dois pés dos humanos se moverão, durante o Dia da Ressurreição, até que prestem contas por sua vida e pela forma em que viveu, por seu conhecimento e o que fez com ele, por suas riquezas, a forma que as adquiriu e como as utilizou.” (Tirmidhi e ad-Daarimi).

    Por exemplo, pode-se priorizar as riquezas sobre os ensinamentos da fé. A riqueza e o dinheiro não podem se tornar a coisa mais importante de nossas vidas.

    Além disso, a riqueza deve ser adquirida mediante meios permitidos e utilizada em coisas também permitidas. Deve-se cumprir com as normas éticas do Islam e, como resultado, a riqueza será abençoada por Allah, beneficiando o indivíduo, tanto nesta vida quanto na outra vida.

    A pessoa justa e crente entende que a riqueza que possui, na realidade, pertence a Allah e que a possessão de tal riqueza é uma responsabilidade semelhante à de um administrador.

    Em outras palavras, o ser humano deve utilizar sua riqueza de tal forma que seja aprovada pelo verdadeiro Dono dela, Allah. O muçulmano entende que ele não está livre para utilizar seu dinheiro da forma que lhe convém.

    Algumas coisas estão claramente proibidas. Por exemplo, não se pode utilizar seu dinheiro para subornar ou prejudicar outras pessoas, em resumo, não se pode utilizar em nada que vá contra a justiça. Allah disse:

    “Não consumais as vossas propriedades em vaidades, nem as useis para subornar os juízes, a fim de vos apropriardes ilegalmente, com conhecimento, de algo dos bens alheios.” (2:188).

    A ética e a forma de se realizar negócios segundo o Islam

    A forma de negociar segundo o Islam não é simplesmente uma forma de progredir neste mundo.

    Não é permitido aproveitar-se das situações para tirar vantagens. Pelo contrário, os negócios no Islam estão baseados em fortes princípios éticos. O muçulmano sabe que toda transação de negócios tem uma implicância moral e ética.

    As transações comerciais constituem um aspecto fundamental no desenvolvimento de uma sociedade. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) propôs uma série de sugestões a seguir nas transações comerciais.

    Os muçulmanos devem prestar atenção e seguir estas sugestões. Elas, e Allah sabe mais, são muito importantes para resolver muitos problemas e sentimentos ruins, resultado de negócios desonestos ou inadequados.

    Além disso, o sentimento de irmandade, o amor ao irmão muçulmano (tão importante quanto o amor a si próprio) deve estar presente nas negociações.

    Como é possível considerar o irmão como um verdadeiro irmão se há mentira ou enganação nas transações comerciais apenas por dinheiro? É por isso que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse neste hadith, que acentua a irmandade e a lealdade na prática comercial:

    “Não invejem o próximo, não subam os preços artificialmente, não odeiem uns aos outros, não dêem as costas ao próximo e não realizem práticas desonestas nos negócios. E sejam, ó servos de Allah, irmãos uns dos outros. O muçulmano é irmão do muçulmano. Não deve prejudicá-lo, não o abandone, não minta para ele e não sinta desprezo por ele. A devoção está aqui.” E apontou três vezes para seu peito. “O fato de desprezar o seu irmão muçulmano caracteriza maldade suficiente para uma pessoa. Tudo o que concerne a um muçulmano é inviolável para outro muçulmano: sua vida, sua riqueza, sua honra.” (Muslim).

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse:

    “Que Allah tenha misericórdia de todo aquele que seja dócil e generoso na hora de negociar, quando vende e quando reclama por seus direitos.” (Bukhari).

    Certamente, a chave para que uma transação comercial ou negócio seja abençoado, em que as partes agradem a Allah e recebam Suas bênçãos, é a honestidade e a sinceridade. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “O comprador e o vendedor têm o direito a voltarem atrás na transação desde que ambos estejam presentes. Se são honestos e claros, suas transações serão abençoadas. Mas, se ocultam fatos e mentem, as bênçãos de suas transações desaparecerão.”  (Bukhari e Muslim).

    Se uma pessoa é ética e moralmente consciente de suas negociações está demonstrando um bom sinal de que dá prioridade à próxima vida ao invés deste mundo. Não está disposto a se arriscar a receber o castigo e a raiva de Allah por uma ganância insignificante. Também está fortalecendo a confiança entre os irmãos muçulmanos. Allah sabe mais, sua recompensa será grandiosa.

    Um princípio geral, no que diz respeito às transações comerciais, é que devem ser o resultado do consentimento ou acordo das partes contratuais, já que Allah disse:

    “Ó fiéis! Não consumais reciprocamente os vossos bens, por vaidades, realizai comércio de mútuo consentimento...” (4: 29).

    Durante a peregrinação da despedida, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também anunciou que “a riqueza de uma pessoa não é aceitável, salvo por consentimento expresso.” (Bukhari e Muslim).

    Quer dizer, ninguém pode ser obrigado a dar parte de sua riqueza ou fazer parte de uma negociação. Esta imposição é ilegal e anularia o contrato. Da mesma maneira, todo muçulmano é livre para comprar ou vender como queira, desde que não viole a Lei Islâmica.

    Em geral, é um livre “ator” que não é obrigado – nem pelo Estado e nem por nenhuma outra força. Neste sentido, o sistema econômico islâmico possui algumas características similares ao livre mercado capitalista.

    Outro princípio geral acerca das negociações é que são permitidas, a menos que haja evidência que prove que são proibidas; apenas quando há algum aspecto proibido, serão declaradas proibidas. Assim, a Lei Islâmica fixou algumas regras principais que definem aspectos proibidos que devem ser evitados. As coisas que devem ser evitadas incluem os termos não definidos ou não determinados, as condições especulativas ou muito arriscadas, os juros, as apostas, a fraude e a enganação. Se algum desses pontos é encontrado em um contrato, então, este contrato pode ser considerado inválido, nulo ou inadmissível, dependendo do grau de interferência. É essencial que os muçulmanos estejam atentos a estas características proibidas para poder viver de fontes puras e lícitas. Alguns destes aspectos serão analisados no decorrer do capítulo.

    As características do Gharar

    Gharar se refere às transações especulativas ou muito arriscadas. O Imaam Muslim registrou em seu Sahih um relato do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), onde o Profeta proibiu “as vendas que possuam natureza especulativa” (bai al-gharar).

    Bukhari e Muslim registraram:

    “de Ibn Umar que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) proibiu a venda de frutas até que estivessem maduras e livres de pragas. Proibiu tanto a venda, quanto a compra.”

    Ao analisar um hadith com um significado similar, an-Nawawi explicou o por quê de a proibição ser na compra e na venda. Escreveu:

    “quanto à venda, porque o vendedor intenciona obter lucro de forma ilegal. E quanto ao comprador, porque realiza com o vendedor um ato proibido e porque ele está [possivelmente] investindo mal a sua riqueza, e esta ação é proibida.”

    A partir destes ahaadith e de outros, os juristas chegaram a um consenso geral de que a presença esmagadora de riscos indevidos ou de incertezas tornam sem efeito qualquer contrato de negócios. Nestas transações, a probabilidade de que uma das partes se veja prejudicada é muito grande. Sobre o significado do conceito de gharar, Rayner disse:

    “A shari’a determina que, para alcançar os interesses da justiça e ética nas negociações comunitárias, o enriquecimento ilícito deve estar proibido. Este princípio proíbe qualquer elemento incerto ou risco (gharar). Em um contexto geral, os juristas propõem , de forma unânime, que, em qualquer transação, se alguma das partes falha ou se esquece de definir qualquer um dos pilares básicos do contrato, estarão colocando a si mesmos em um risco que seria dispensável. Esta classe de risco foi definida como inaceitável e equivalente à especulação, pelo seu caráter incerto. As transações especulativas com estas características estão, definitivamente, proibidas...”

    Apesar de estes contratos estarem proibidos pela Lei Islâmica – por causa de sua natureza especulativa e arriscada e sua consequente possibilidade de obter lucros ilícitos nessas transações – podem ser muito atrativas para algumas pessoas. O jurista Ibn al-Azir, voltando ao significado léxico da palavra, diz:

    “Al-Gharar se refere a algo que contenha elementos visíveis que o tornam aceitáveis, mas também não perceptíveis que podem não ser do agrado de uma das partes envolvidas. Assim, os elementos visíveis atraem o comprador, ao passo que desconhece os elementos não perceptíveis.”

    De acordo com Ibn Khuzai, alguns exemplos das transações gharar incluem:

    ·         “O desconhecimento do preço e da incerteza sobre a existência real do

           objeto.”

    ·         “A incerteza sobre o preço do objeto e de suas características, como, por

          exemplo, a venda de um tecido em uma loja sem qualquer especificação de

          preço ou qualidade.”

    ·         “O desconhecimento das dificuldades na entrega.”

    ·         “O desconhecimento do estado do objeto, como no caso de um animal

           doente.”

    As características da Riba (juros)

    Um dos pecados mais conhecidos é a cobrança de juros ou o pagamento da riba. Qualquer muçulmano que tenha acesso a textos que censuram a riba, sem dúvidas fará o possível para evitar envolvimento com negociações que a incluam. Por exemplo, Allah disse no Qur’an:

    “Os que lucram com os juros só serão ressuscitados como aquele que foi perturbado por Satanás; isso, porque disseram que os juros são o mesmo que o comércio; no entanto, Deus consente o comércio e veda os juros. Mas, quem tiver recebido uma exortação do seu Senhor e se abstiver, será absolvido pelo passado, e seu julgamento só caberá a Deus. Por outro lado, aqueles que reincidirem, serão condenados ao inferno, onde permanecerão eternamente. Deus abomina os juros e multiplica a recompensa aos caritativos; Ele não aprecia nenhum incrédulo, pecador. Os fiéis que praticarem o bem, observarem a oração e pagarem o zakat, terão a sua recompensa no Senhor e não serão presas do temor, nem se atribularão. Ó fiéis, temei a Deus e abandonai o que ainda vos resta da prática lucrativa com os juros, se sois crentes! Mas, se tal acatardes, esperai a hostilidade de Deus e do Seu Mensageiro; porém, se vos arrependerdes, reavereis apenas o vosso capital. Não defraudeis e não sereis defraudados.” (2:275-279).

    Entre os diversos textos qu'rânicos e ahaadith que falam sobre os juros, encontramos o seguinte: Jaabir disse:

    “O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) amaldiçoou todo aquele que se relacione com os juros: aos que paguem, aos que lucrem e aos que sejam testemunhas. São todos iguais” (Muslim).

    Neste importante hadith do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) pode-se observar que quem paga, recebe ou testemunha a essa transação ilícita são igualmente pecadores e amaldiçoados pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Então, está proibido pagar juros ou cobrá-los, e isso inclui os juros que são obtidos como benefício das poupanças ou contas correntes. Em geral, se um indivíduo deseja emprestar dinheiro a alguém que necessite, deve fazê-lo como um ato de irmandade e caridade e não deveria nem pensar em obter benefício econômico dessa situação. Se alguém deseja realizar um “empréstimo para um negócio”, esperando obter lucro, deve estar disposto a se arriscar e não exigir uma garantia pelo dinheiro emprestado. Não é justo que aquele que pede dinheiro corra o risco em seu projeto empresarial, enquanto aquele que empresta não corra risco nenhum.

    Do mesmo modo, o Islam abre as portas a muitas possibilidades para evitar injustiças e, ainda assim, poder realizar investimentos. Portanto, os acordos de compartilhamento de lucros nos empréstimos comerciais são permitidos, mas o pagamento de juros, não.

    A fraude

    A fraude e a enganação são práticas proibidas no Islam. Isto inclui também ocultar, intencionalmente, os defeitos das mercadorias ou do trabalho. Uma vez, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) estava no mercado e, ao por sua mão em uma saca de grãos, descobriu que o fundo estava úmido. Informou o vendedor daquilo e este disse que havia molhado com a chuva. Então, o Profeta respondeu:

    “Por que não pusestes [um aviso] sobre os grãos para que as pessoas tomassem conhecimento? Quem engana não pertence à minha comunidade.” (Muslim).

    Ibn Maajah registrou que o Profeta (que a paz e as bênçãos de allah estejam com ele) disse, em outro hadith que ressalta as características da irmandade e sua relação com o comércio:

    “O muçulmano é irmão do outro muçulmano. Não é permitido que um muçulmano venda algo defeituoso a seu irmão sem antes advertí-lo sobre tal defeito.”

    Outras formas proibidas de obter lucros

    Existem outras formas claramente proibidas de obter lucros. Isso inclui roubar, subornar, apostar e realizar transações extremamente especulativas.

    Tampouco está permitido que um muçulmano venda ou intercambia artigos que sejam proibidos pelo Islam, mesmo que ele não os consuma.

    Ou seja, um muçulmano não deve vender álcool, pornografia, drogas e outras coisas similares.

    Conclusões

    Neste capítulo, analisamos as interações dos crentes. A verdadeira crença em Deus deveria filtrar-se em todos os aspectos da vida das pessoas, especialmente em sua relação com outros seres da criação de Deus. Começando com o trato para consigo mesmo, o indivíduo compreende que é uma das criaturas de Deus e, por isso, deve se tratar de uma maneira que agrade Allah. Para cumprir com este objetivo, Allah, em Sua misericórdia, enviou às pessoas uma orientação para ensiná-los como devem se comportar, inclusive consigo mesmos.

    Então, o individuo criado por Allah não pode exigir o direito de tratar os demais da forma que quer. Novamente, Allah também ofereceu uma orientação para isto. Em relação aos pais, filhos, vizinhos, outras pessoas da sociedade, inclusive animais e objetos inanimados (como, por exemplo, a riqueza) existe uma forma para se comportar que representa nossa crença em Allah. É necessário que o crente aprenda a forma apropriada de se comportar para que possa viver de acordo com estes ensinamentos e da melhor maneira possível.

    O fortalecimento e o crescimento da fé

    Este capítulo analisa meios para fortalecer e fazer crescer nossa fé. Como foi mencionado anteriormente, um muçulmano não deve nunca estar satisfeito com sua fé.

    A fé aumenta, mas também enfraquece. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Por Aquele que é o Único Deus e não há outro como Ele, que vós realizeis ações que vos aproximem do Paraíso até que estejam a um palmo dele. O Livro [preservado] é o que vos dá a orientação para não realizardes ações da gente que habita o inferno e seus domínios.” (Bukhari e Muslim).

    O muçulmano deve ter muito claro seu objetivo nesta vida. Quando tiver isso claro em sua mente deverá ser capaz de identificar meios e formas que o ajudarão a cumprir tal objetivo. Da mesma forma, deve estar consciente dos empecilhos e aspectos que danificam ou prejudicam seu objetivo. Finalmente, quando cometer um erro deve identificar a melhor maneira, e Allah sabe mais, de retomar o caminho correto.

    O conceito da purificação da alma

    Em outra obra, defini o conceito da purificação da alma da seguinte forma:

    “É o processo pelo qual os elementos saudáveis que se encontram na alma são fomentados, aproveitados e somados, enquanto qualquer tipo de contaminação invasiva é removida e controlada, para que a pessoa adore a Allah adequadamente e cumpra seu propósito na vida – o que pode culminar na verdadeira expressão do ihsaan.”

    A purificação da alma é um “processo”. Quer dizer, não é algo estático. De fato, é dinâmico e que pode até chegar a ser volátil. Uma pessoa pode ou não se aproximar de seu potencial absoluto em relação à purificação de sua alma.

    Novamente, o objetivo é se transformar no mais completo e sincero servo de Allah que um ser humano possa ser. Allah explica este objetivo de vida no seguinte versículo:

    “Não criei os gênios e os humanos, senão para Me adorarem.” (51: 56).

    O propósito da vida é adorar e agradar a Allah e, em troca, receber Sua complacência. O mais exaltado, nobre e honrado ser humano atinge este estado através de sua adoração a Allah.

    Na realidade, não existe nada mais grandioso ou nobre que isso. Há algo que deve ficar claro nas mentes de todos os muçulmanos: quanto mais se aproximem deste objetivo sentirão mais felicidade e serão mais honrados por submeterem-se ao único e verdadeiro Deus e Senhor.

    Al-Miqrizi destaca que esta forma correta de adoração demanda quatro aspectos:

    ·         Determinar o que Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah

          estejam com ele) amam e o que lhes agrada.

    ·         Materializar e executar os aspectos amados em nosso coração.

    ·         Exteriorizar estes aspectos com nossas palavras.

    ·         Implementar estes aspectos com nossas ações.

    Cada um desses pontos é necessário caso a pessoa deseje cumprir o objetivo real desta vida e ser um servo devoto de Allah.

    O indivíduo reconhece, principalmente, que a maneira à qual deve adorar a Allah não se baseia em suas inclinações individuais, sua lógica ou em seus caprichos.

    Melhor, deve estar baseada no que provém de Allah. Allah é o único que pode determinar como se deve adorá-Lo.

    Desta forma, o primeiro passo é identificar o que Allah quer das pessoas e o que O agrada. Isto se consegue através do conhecimento do Qur’an e da Sunnah. Este conhecimento deve se transformar em aceitação e desejo de tê-las em nossos corações.

    Deve-se reconhecer estas coisas como verdadeiramente boas e, por conseguinte, sentir um grande apreço por elas. Quando isto é alcançado, proclamaremos a aceitação e a crença e, como conseqüência, a aplicação desta aceitação através de nossas ações se dará automaticamente.

    Ibn Taimiyah aprofundou sobre o verdadeiro significado de ibaadah (adoração, ato de servir) quando escreveu:

    “O significado original da palavra ibaadah indica humildade e submissão. Diz-se: ‘um caminho é muabbad, quer dizer que é trabalhado. Sem dúvidas, a ibaadah imposta sobre nós abrange o significado da submissão junto com o significado do amor. Personifica o nível máximo de submissão a Allah através do nível máximo de amor por Ele... Quem se submete a uma pessoa e, por sua vez, sente ódio por ela não é um aabid  (servo) desta pessoa – como é o caso do homem que ama a seu filho ou um amigo. Em conseqüência, possuir uma das duas qualidades não é suficiente ao que se refere à ibaadah de Allah. Ao contrário, é necessário que Allah seja mais amado pelo servo que qualquer outra coisa ou pessoa e que Ele seja considerado o Supremo. Certamente, ninguém além de Allah é merecedor deste amor devocional e de uma completa submissão.”

    Outro importante ponto a se considerar é que a purificação da alma não se relaciona somente com os rituais de adoração ou com os atos que são considerados religiosos ou espirituais. Como mencionei antes, o objetivo da purificação é tornar-se um servo de Allah cada vez melhor e mais completo. O conceito real da servidão à Deus, ou a ibaadah, é muito vasto. A ibaadah é, como Ibn Taimiyah declarou em sua conhecida – e amplamente aceita – definição do termo:

    “É um conceito que abrange todas as palavras e ações, internas ou externas, que Allah ama e aprova.

    Isso inclui orar, pagar o zakat, jejuar, peregrinar, dizer a verdade, cumprir e manter as promessas, ser bom com os pais e parentes, espalhar o bem, proibir o mal, apoiar o esforço pela causa de Allah contra os incrédulos hostis e os hipócritas; ter um bom comportamento com os vizinhos, órfãos, pobres, viajantes, escravos e animais, orar e suplicar, recordar Deus e ler o Qur’an, etc.

    Também inclui amar a Allah e a Seu Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), temer e aproximar-se d’Ele arrependido. Ser paciente na adversidade e agradecido na prosperidade, resignar-se aos decretos de Allah, colocar a confiança na ajuda de Allah, esperar Sua misericórdia e temer Seu castigo. Tudo isso forma parte da ibaadah (a adoração e servidão) a Allah.”

    Assim, a purificação da alma invade e envolve a pessoa. Influencia tanto suas características internas como suas ações externas. Como advertiu Islahi:

    “Tazkiyah (purificação) envolve todos os aspectos visíveis e ocultos das pessoas... Nossos pensamentos, apreensões, inclinações, movimentos, nossa comida e bebida, nossos compromissos, passatempos e interesses, a rotina diária de nossa vida, ou seja, nenhum segmento, nem nada que englobe nossa vida está fora das normas da tazkiyah.”

    Murad destacou um tema muito importante que é realmente um dos benefícios do entendimento apropriado da purificação da alma, refletindo novamente sobre a importância de se ter um objetivo em nossa vida. Ele disse:

    “A menos que se considere a tazkiyah como um processo integral, perceber-se-á que a vida está dividida em seções e algumas partes impedem o desenvolvimento de outras. Isso só pode afetar nossa vida com a falta de harmonia e infelicidade. Sem dúvidas, se o processo é tomado integralmente, com tudo que o envolve, encontraremos as partes de nossa vida que complementam o resto. Isso, Allah sabe mais, fará com que nossa luta no caminho de Allah e o Jannah sejam mais fáceis de atingir.”

    O aumento e a diminuição da fé

    O Qur’an deixa muito claro que a fé de uma pessoa aumenta e diminui. Por exemplo, Allah disse:

    “Só são fiéis aqueles cujos corações, quando lhes é mencionado o nome de Deus estremecem e, quando lhes são recitados os Seus versículos, é-lhes acrescentada a fé, e se encomendam ao seu Senhor.” (8:2).

    “...para que os fiéis aumentem em sua fé...” (74:31).

    “Ele foi Quem infundiu o sossego nos corações dos fiéis para acrescentar fé à sua fé. A Deus pertencem os exércitos dos céus e da terra, porque Deus é Prudente, Sapientíssimo.” (48: 4).

    “São aqueles aos quais foi dito: Os inimigos concentraram-se contra vós; temei-os! Isso aumentou-lhes a fé e disseram: Deus nos é suficiente. Que excelente Guardião!” (3: 173).

    Não há dúvidas que existem diferenças nas obras que os seres humanos realizam. Este é um aspecto e um reflexo do aumento e da diminuição da fé. Não obstante, deve-se crer que esta é a única forma em que a fé varia.

    De fato, todos os aspectos da fé estão expostos a esta possibilidade, incluindo especialmente, as ações do coração. Inclusive o nível de “crença” no coração - ou a segurança – pode mudar uma pessoa e, certamente, isto varia de pessoa para pessoa.

    Por isso o amor a Allah, o temor a Allah, a confiança em Allah e outros aspectos do coração são mais propensos a mudar e variar.

    É provável que todos os indivíduos tenham experimentado este fato que é descrito nos versículos anteriores. Então, há momentos em que a pessoa está consciente de Allah e seu temor por Ele. Este forte sentimento no coração provê tranquilidade e aquece o ser, ajudando-o a não incorrer em pecado. Também leva o ser humano a se sacrificar e trabalhar arduamente pela causa de Allah.

    Por exemplo, levantar-se no último terço da noite para orar ou dar em caridade em nome de Allah. Certamente, em outros momentos, talvez quando as questões mundanas o absorvem, suas invocações e sua proximidade com Allah não são as melhores. Não há o grandioso sentimento da fé em seu coração. Seu comportamento e suas ações não têm a mesma qualidade que tiveram outras vezes. Quando se está atravessando períodos como este, ao pensar em acordar no meio da noite ou ser caridoso em nome de Allah, pode causar certa fadiga e pode ser que não se deseje fazer nenhum sacrifício. Estas não são mais que variações da fé no coração das pessoas.

    Existem momentos em que a pessoa se encontra em um nível muito alto da fé e recordação de Allah. Quando se envolve em acontecimentos mundanos ou com sua família e amigos, pode não se encontrar no mesmo nível. Inclusive, Abu Bakr padeceu com este tipo de situação. Um hadith do Sahih Muslim narra que Abu Bakr perguntou à Handhalah, outro companheiro do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), o que estava fazendo. Ele respondeu que se sentia um hipócrita. Explicou que quando estava na presença do Profeta e ao recordar o Paraíso e o Inferno, era como se estivesse verdadeiramente contemplando esses lugares. Logo, ao regressar à sua família, esquecia-se grande parte daquilo que havia sentido anteriormente. Abu Bakr lhe disse que ele também já havia se sentido daquela forma, uma ou outra vez. É algo muito natural. A pessoa deveria aprender a apreciar aqueles momentos nos quais se encontre em seu nível mais alto da fé e tentar prolongá-los o mais que possa.

    A intensidade de afirmação ou o conhecimento no coração varia de pessoa para pessoa e depende também do momento pelo qual ela está passando.

    Ibn Taimiyah disse que a afirmação no coração da pessoa que apenas conhece os aspectos gerais dos ensinamentos do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) não será a mesma que a de uma pessoa que conhece detalhadamente a vida e os ensinamentos do Mensageiro de Allah. Da mesma forma, quem tem mais conhecimento acerca dos nomes e atributos de Allah, da próxima vida, etc... possuirá um nível diferente de afirmação e conhecimento que a pessoa que é ignorante sobre esses temas. Ibn Taimiyah também afirmou que a fé de uma pessoa que conhece as provas de sua crença e reconhece a falsidade das outras crenças será mais forte e firme que a daquele que é alheio a isso.

    Ibn Taimiyah concluiu dizendo que não existe nada mais variável no coração do homem que a fé. Disse que as pessoas deveriam ser capazes de reconhecer este fato quando analisassem um dos componentes de sua fé, o amor.

    As pessoas reconhecem os diferentes níveis de amor. Algumas vezes, o amor simplesmente implica em um desejo de estar com ou aproximar do ser amado. Outras, pode-se alcançar um nível em que já não se pode mais viver sem a presença do ser amado. De maneira similar, a fé, que tem como componente o amor por Allah, pode chegar a ser extremamente variável.

    Este assunto (aumento e diminuição da fé) não é simplesmente um tema teórico sobre o qual os sábios do passado diferiram em suas opiniões. Se uma pessoa sente que a fé é um atributo fixo, não se esforçará em aumentá-la e nem notará caso esta diminua. Este enfoque pode representar um grande perigo para a fé, pois a pessoa, neste caso, não consegue reconhecer os sinais que indicam a variação da fé.

    Assim, todo crente deve levar em consideração o fato de que a fé aumenta e diminui. O crente deve estar sempre atento a qualquer sinal que indique que sua fé esteja diminuindo. Obviamente, deve tomar medidas positivas para aumentá-la.

    Podemos encontrar um exemplo nos companheiros do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Um companheiro tomou outro pela mão e disse:

    “Venha, vamos tentar aumentar nossa fé por um momento.” (Bukhari).

    Com isto ele fez referência a ler o Qur’an, relembrar de Allah, etc... ações que nos ajudam a reviver e aumentar nossa fé.

    O desenvolvimento e crescimento da nossa fé

    Quando uma pessoa realiza, pela primeira vez, seu testemunho de fé inicia a caminhada do verdadeiro muçulmano e autêntico crente.

    O primeiro passo consiste em se purificar da idolatria. Este é o primeiro passo, e o mais importante, já que nenhuma outra ação será benéfica se este ponto não for cumprido. Certamente, isso não significa que seja algo realizado de uma só vez, ou que não possua graus de profundidade.

    Murad mencionou o seguinte:

    “Agora tens uma missão: a de ser mu’min (verdadeiro crente) e mujahid (aquele que se esforça pela causa de Allah). Enquanto empreenderes esta missão, sentirás que teu conhecimento do Islam é muito limitado ou que não és capaz de alcançar os altos níveis de submissão e purificação que desejas – ou que outras pessoas esperem que alcances. Isso é algo natural.

    Sem dúvida, não deves permitir que estes sentimentos de imperfeição pessoal suplantem teus esforços na prática do Islam. Relembra-te que o Islam é um estado de conversão e não um estado do ser. Cada dia deverá esforçar-te para melhorar e aperfeiçoar, e melhorarás (e Allah sabe mais)... Uma vez que tenhas te comprometido com Allah, tudo o que possuis deverá ser utilizado segundo seus ensinamentos.

    Este é o ideal. Não obstante, os ideais são sempre difíceis de alcançar e isto é algo que deves entender e aceitar. Sempre deves buscar os ideais, se estes fossem de fácil acessibilidade, dificilmente permaneceriam como ideais.

    Manter tua parte do trato é um ideal que sempre se deve buscar e conservar.

    Esta busca e este esforço em dar tudo segundo os ensinamentos de Allah são conhecidos como Jihad e, por outro lado e nesta instância, como tazkiah (purificação).”

    Quando uma pessoa se converte ao Islam (ou quando um nascido muçulmano se compromete com o Islam pela primeira vez) seu coração se liberta da atribuição de parceiros a Allah e da incredulidade. Isso não significa que compreenda todos os conceitos do monoteísmo puro, e nem que não permaneçam ainda, em seu coração, restos de idolatria ou incredulidade.

    Sobre aqueles que recém abraçaram o Islam, Allah disse:

    “Os beduínos dizem: Cremos! Dize-lhes: Qual! Ainda não credes; deveis dizer: Tornamo-nos muçulmanos, pois que a fé ainda não penetrou vossos corações. Porém, se obedecerdes a Deus e ao Seu Mensageiro, em nada serão diminuídas as vossas obras, porque Deus é Indulgente, Misericordioso.” (49: 14).

    De fato alguns defeitos em relação ao conceito completo do monoteísmo puro apareceram entre os novos muçulmanos, na época do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele); ainda que falassem árabe com fluência e vivessem na época da revelação – o que lhes permitia compreender os significados básicos do Qur’an.

    Analisemos o seguinte relato: Abu Waaqid al-Laizi narrou que quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) se dirigia a Hunain [antes da batalha] passaram por uma árvore que os politeístas chamavam de dhaat anwaat, onde depunham suas armas. [Alguns companheiros] disseram:

    “Ó Mensageiro de Allah, dê-nos um dhaat anwaat igual ao dhaat anwaat (que os outros povos têm).” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: ”Exaltado seja Allah. Isso me faz recordar quando o povo de Mussa disse: ‘Dê-nos um ídolo como o seu’. Por Aquele em cujas mãos está a minha alma, está claro que continuarão com as práticas do povo que os antecedeu.”

    Certamente, à medida que nossa fé aumenta novos horizontes se abrem e se tornam mais claros. Estes novos conhecimentos relacionados com nossa fé nos purificam e nos permitem crescer espiritualmente, principalmente nas questões difíceis de descrever em palavras.

    A citação anterior de Ibn Qaiim destaca alguns aspectos da fé que não necessariamente estão no coração da pessoa no momento da conversão (ou quando começa a praticar a religião).

    Obviamente, à medida que sua fé aumenta, estes aspectos se tornarão mais fortes e começarão a provocar mais e mais o efeito desejado naquela pessoa. Por exemplo, talvez um novo muçulmano veja a chuva cair do céu e se recorde da previsão do tempo que viu no noticiário e pense, simplesmente, que houve a presença de todos os fatores para que a chuva caísse e assim choveu. Ao passo que, o crente, cujo conhecimento e consciência de Allah se encontram a um nível diferente, dá-se conta de que é Allah o responsável pela chuva e que não se trata de um fato fortuito, mas sim a natureza respondendo às ordens de Allah. Talvez seja um ato de misericórdia de Allah ou até o início de algum castigo.

    Ibn Qaiim escreveu:

    “quando os servos sabem que Allah é o único que realmente pode beneficiar ou prejudicar, dar ou tomar, criar ou prover, dar vida ou causar a morte, produz-se o ato de adoração que consiste em colocar em nosso coração uma confiança e segurança absolutas em Allah – e essa segurança necessita da confiança e das ações externas.

    O conhecimento do servo que Allah escuta, vê e conhece – nem sequer as mais ínfimas partículas físicas dos céus e da terra passam despercebidas ante Seus olhos – e que Ele conhece o segredo, o oculto, tudo aquilo que engana os olhos; e o que se encontra escondido no peito, tudo isso faz com que a pessoa cuide de sua língua, membros, pensamentos e coração, para que se mantenha afastado de tudo que desagrada Allah. Além disso, faz com que envolva as partes de seu corpo com as ações que são agradáveis a Allah. Por sua vez, isso produz uma humildade interna. Também produz uma humildade que faz com que a pessoa evite o proibido e os maus atos.

    O conhecimento do servo sobre a independência, generosidade, bondade, graça e misericórdia de Allah faz com que ela tenha plena esperança em Allah. Afora isso, produz na pessoa atos de adoração, tanto externas quanto internas, de acordo com seu nível de compreensão e conhecimento. Da mesma forma, a grandeza e a magnificência de Allah produz nessa pessoa humildade, submissão e amor. Também produz no interior dessa pessoa emoções e sentimentos de adoração, assim como ações externas que estejam de acordo. A certeza da perfeição, beleza e dos atributos de Allah se manifestam em uma classe de amor especial, presente nos diferentes níveis de adoração.”

    O caminho para aumentar a fé e purificar a alma

    O caminho indicado pelo Qur’an e a Sunnah para purificar a alma é incrivelmente claro e fácil de seguir para todas as pessoas que tenham intenção pura.

    De fato, é um caminho que está aberto para qualquer pessoa seguir.

    Basicamente, é composto por três elementos:

    A PURIFICAÇÃO DE NOSSAS CRENÇAS;

    A APROXIMAÇÃO A ALLAH – o que é alcançado através dos atos obrigatórios e

    a aproximação - ainda maior - a Allah que é obtida através dos atos voluntários.

    A forma correta de crer em allah.

    A crença correta em Allah é alcançada a partir da ausência de dúvidas a respeito do primeiro aspecto do caminho à auto purificação e a chave do verdadeiro êxito e a verdadeira felicidade nesta vida e na próxima. Allah disse:

    “Bem aventurado aquele que se purificar.” (87: 14).

    Os exegetas do Qur’an ressaltam que isso faz referência, em primeiro lugar, à purificação da pessoa em relação ao shirk (atribuição de parceiros a Allah) e ao kufr (incredulidade). Segundo foi narrado, Ibn Abbas explicou este versículo com as seguintes palavras:

    “Toda pessoa que se purifique do shirk.”

    Com efeito, foram os desvios na crença em Deus que levaram a humanidade ao mau caminho.

    Em outras palavras, para grande parte da humanidade de hoje, não é que não creiam em Deus, senão que a forma em que crêem, baseada em suas próprias paixões e caprichos, ou na opção de seguir cegamente outras pessoas, está distorcida e não está baseada em nenhuma fonte autêntica de conhecimento acerca de Deus. Por exemplo, nos dias atuais, muitas pessoas crêem que, enquanto alguém é bom e não prejudica os demais, Deus vai gostar dele e, portanto, poderá entrar no Paraíso ou receber algum tipo de bênção.

    Então, nem se preocupam em crer em Deus, desde que se comportem bem. Na realidade, uma pessoa pode ser adoradora do diabo ou crer em centenas de ídolos que isso não parece ser levado em consideração. É muito comum escutar este tipo de idéias, todos estes conceitos não são mais que as próprias suposições das pessoas acerca de Deus.  Estão equivocadas e não estão embasadas em nenhuma prova.

    A aceitação deste fato – que o único digno de adoração é Allah, é o primeiro enunciado do testemunho de fé – é o primeiro passo para se converter muçulmano e para trilhar o caminho da purificação da alma, das nossas crenças e nossos corações e a libertação de qualquer forma de shirk ou de atribuição de parceiros a Allah na adoração.

    A atribuição de companheiros a Allah é uma das principais formas de pecado.

    Em particular, quando alguém adora e se submete a seres que não merecem adoração de nenhum tipo, está incorrendo em um pecado (na alma e na dignidade).

    Allah expressou no Qur’an, ao citar Luqman:

    “Recorda-te de quando Luqman disse ao seu filho, exortando-o: Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniquidade.” (31:13).

    No outro extremo, encontra-se a perpetuação do shirk, que inclui todas as demais crenças que dominam o mundo atual. Isso inclui as outras crenças “monoteístas”, como o judaísmo e o cristianismo.

    Aqueles que cometem shirk chegam num extremo onde não há nenhuma desculpa que justifique. Suas próprias almas e seres sabem que o shirk é algo absolutamente desviado e que só caem nele para satisfazer seus mais baixos desejos.

    Por conseguinte, Allah perdoará qualquer tipo de pecado, exceto este. Allah disse no Qur’an:

    “Deus jamais perdoará a quem Lhe atribuir parceiros; porém, fora disso, perdoa a quem Lhe apraz. Quem atribuir parceiros a Deus cometerá um pecado ignominioso.” (4:48, ver também 4: 116).

    Aqueles que cometem shirk são merecedores de uma condenação eterna, posto que sua intenção foi a de permanecer no caminho das falsas crenças. Desta forma, Allah negou Sua complacência e a entrada ao Paraíso àqueles que cometem este pecado e, assim foi expresso com as seguintes palavras:

    “...A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e sua morada será o fogo infernal! Os iníquos jamais terão quem os socorra.” (5:72).

    Portanto, sem o primeiro passo da purificação – a purificação das crenças, ao menos naquilo que diz respeito à purificação de todas as formas de shirk – todo o resto não terá valor.

    Primeiro, deve se purificar o coração com o tauhid antes que se possa seguir adiante. Se isto não é feito, todos os demais passos serão em vão.

    Qualquer ação que não se realize pura e exclusivamente pela causa de Allah será em vão e será rechaçada por Allah. Há um hadith qudsi onde se menciona que Allah disse:

    “Sou o auto suficiente e não necessito de companheiros. Quando alguém realiza uma ação em Minha causa, mas nela Me associa a outro, esta ação será recusada por Mim.” (Muslim).

    A atitude correta para com o Mensageiro de Allah

    Nossa atitude para com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) está diretamente relacionada com a crença no tauhid e com a purificação da alma. Não é possível se tornar um muçulmano e começar a trilhar o caminho da purificação até que se concretize o compromisso com a fé. Este compromisso está composto por dois componentes muito diferentes, mas igualmente essenciais:

    “Atesto que nada é digno de adoração afora Allah (1) e atesto que Muhammad é Mensageiro de Allah (2).”

    Ao declarar este compromisso, a pessoa afirma que sua intenção é adorar a Allah, e ninguém mais que Allah. Além disso, adorar a Allah da maneira ensinada pelo Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Com relação a estes dois quesitos, a pessoa se consagra a Allah através dos ensinamentos que recebeu do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Portanto, todos devem conhecer quem foi o Profeta e qual é sua recomendação para que purifiquemos nossas almas. E estas recomendações são simples: é o exemplo humano no qual todos os muçulmanos devem seguir, já que toda sua vida foi inspirada nos ensinamentos de Allah.

    Sua vida e seu comportamento mostram a todos os muçulmanos o caminho a seguir para purificar suas almas. Isto se aplica também à maneira na qual oramos, jejuamos, lutamos, estabelecemos o bem, somos pacientes, buscamos merecer o amor de Allah, adoramos devotamente a Allah, nos relacionamos com nossos amigos, sócios, familiares, com os órfãos, etc.

    A título de comentário, sobre o fenômeno de não reconhecer o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ou de não recorrer a ele em sua qualidade de mestre da purificação da alma, Ibn al-Qaiim escreveu:

    “o conceito da purificação da alma deve ser condicionada ao exemplo de vida dos mensageiros. Allah enviou-lhes apenas com o propósito desta purificação e, fez deles responsáveis por isso. Pôs em suas mãos o chamado, os ensinamentos e o esclarecimento. Foram enviados para curar as almas da humanidade, Allah disse: “Ele foi Quem escolheu, entre os iletrados, um Mensageiro da sua estirpe, para ditar-lhes os Seus versículos, consagrá-los e ensinar-lhes o Livro e a sabedoria, porque antes estavam em evidente erro.” (62:2). A purificação da alma é mais difícil e complicada que a cura física. Aquele que tenta purificar sua alma através dos exercícios espirituais, esforços e isolamento (a respeito do qual os mensageiros nunca pregaram), é como um doente que tenta se curar seguindo sua própria opinião. Quanto vale nossa opinião em relação aos conhecimentos de um médico? Os mensageiros são médicos do coração. A única maneira de purificar ou fortalecer os corações é seguindo seus caminhos e entregando-se em suas mãos, com absoluta submissão e obediência a eles.”

    Além disso, Allah deixa claro que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) foi enviado para ser o exemplo por excelência para todo aquele que quer se aproximar de Allah e ser bem sucedido na próxima vida. Allah disse:

    “Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para aqueles que esperam contemplar Deus, deparar-se com o Dia do Juízo Final, e invocam Deus frequentemente.” (33: 21).

    Portanto, o verdadeiro crente fará todo o possível para imitar o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) em todos os aspectos de sua vida, conforme o que foi disposto na shari’a.

    Sobre este desejo de imitar, Islahi denomina “cumprimento” e explica da seguinte maneira:

    “O alcance do cumprimento é muito maior que a obediência. No âmbito da obediência pertencem unicamente as coisas que correspondem à categoria dos Mandamentos, obrigações de maior importância e aquilo que se deve ou não fazer. Sem dúvida, no âmbito do cumprimento pertencem também aqueles atos que são voluntários e recomendados... O homem pode obedecer a algo sem o menor resquício de sinceridade ou amor. Ao contrário, no cumprimento os sentimentos de reverência e consideração para com aquele que é a razão do cumprimento é uma condição fundamental... A razão do entusiasmo dos companheiros no cumprimento das ordens do Profeta era o amor a Allah. E, para se tornar um de Seus seres amados, não era suficiente ser obediente ao Profeta, senão que deviam seguí-lo com sinceridade por todos os caminhos da vida. É por isso que aqueles que amam a Allah, também amam cada pedaço da vida do Profeta. Na vida do Profeta, seguem os conhecimentos que são adquiridos através do conhecimento de Allah e respeitam os hábitos que agradam a Allah... E, como o fazem por amor a Allah, Ele os recompensa e os transforma em Seus seres amados. É sobre isso que o seguinte versículo diz:

    ‘Dize: Se verdadeiramente amais a Deus, segui-me; Deus vos amará e perdoará as vossas faltas, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.’ (3:31).”

    Há outro fato importante, que definitivamente merece ser destacado, acerca da crença no Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Não é apenas um exemplo, é o exemplo.

    Nenhuma outra forma de vida e nem sistema de crenças é superior à ensinada pelo Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Além disso, nenhuma outra pessoa esteve mais próxima de Allah ou foi mais amada por Allah que o Profeta Muhammad.

    Uma pessoa não poderá absorver completamente este conceito, nem atuar conforme os ensinamentos, até que consolide seu amor e consideração para com o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Certamente, este amor pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é um requisito para a própria fé. Em outras palavras, a fé não estará completa sem o tal amor e a pessoa não poderá purificar-se sem ele. O próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Nenhum de vós será um verdadeiro crente até que amem a mim mais que amam seus pais, filhos e o resto da humanidade.” (Bukhari e Muslim).

    A este respeito, Islahi também fez um excelente comentário no qual ressalta que o amor pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) é um amor:

     “baseado no intelecto e nos princípios que uma pessoa embasa sua ideologia e, em virtude dos quais, mantém a preponderância dessa ideologia particular em todos os âmbitos de sua vida. Sacrifica qualquer outro valor, modo de vida ou desejo pelo princípio pelo qual é regido, mas nunca o oposto. Na promoção e na elevação deste ideal, a pessoa pode permitir a degradação de qualquer outra coisa, porém nunca tolerará a degradação da ideologia pela qual se rege. Se a própria pessoa se boicota e se interpõe no caminho desta ideologia, ela deve lutar contra. E se outros se colocam neste caminho, com intuito de impedí-la de prosseguir, ela também deve lutar contra; a tal ponto que se as exigências de seu cônjuge, filhos ou parentes contraponham às exigências de sua ideologia, então, deve-se permanecer firme na certeza da ideologia e passar por cima das exigências alheias – de sua família, tribo ou nação.”

    Quando um amor desta natureza se internaliza verdadeiramente, torna-se natural imitar o objeto de admiração. Percebem-se estes fenômenos em todos os âmbitos de sua vida. Isto se explica porque os fanáticos, por exemplo, querem saber de todos os detalhes acerca dos atores, atletas ou “estrelas” que idolatram.

    Uma parte do objetivo é saber sobre eles e a outra é tentar imitá-los, tanto quanto for possível. Este sentimento de devoção e de desejo de imitar deve ser ainda maior para a pessoa que entende que, através da imitação do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), pode-se conquistar o verdadeiro caminho da purificação espiritual.

    Em resumo, para podermos purificar nossa alma verdadeiramente, asseguramos que nossa atitude para com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) seja correta. Deve-se crer no Mensageiro de Allah e essa crença deve ser a certa.  Deve-se obedecer ao profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), imitar e amar a ele e à vida dele. Quando se cumprem todos estes requisitos, o muçulmano conseguirá se firmar no caminho da purificação da alma, que, em si mesmo, foi um dos propósitos principais do envio do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    Murad escreveu um importante enfoque acerca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e dos requisitos para a purificação da alma. Depois de analisar o materialismo das sociedades ocidentais, a forma em que estas sociedades estão se infiltrando no mundo muçulmano, como o ocidente dá mais ênfase naquilo que pode ser mensurado materialmente e porque a negação do oculto é a antítese do Islam, ele disse:

    “Se foi escolhido viver em uma sociedade estilo ocidental, então a única fonte de luz é o Mensageiro de Allah. Ele também teve que enfrentar uma situação muito similar. Enquanto descia da caverna de Hira, após ter recebido a orientação Divina, ele se inseriu na cultura e não sociedade que eram completamente alheias à sua Mensagem. Sua Mensagem começou por unir todos os aspectos da vida em nome de Allah. Esse foi o começo. Todos os conhecimentos, as culturas, as civilizações e todas as ações humanas devem centrar-se em um ponto central e este centro é Allah. Esta Mensagem foi muito estranha para a sociedade na qual vivia. Então, devemos analisar a Sunnah do Profeta dentro daquele contexto, totalmente alheia à sociedade e, a partir daí, ver como podemos praticar uma verdadeira cultura islâmica... Em segundo lugar, caso vivam em uma sociedade “diferente” devem preservar a identidade islâmica, não somente através dos símbolos emocionais, culturais e da civilização. Somente a Sunnah pode prover esta classe de símbolos emocionais e da civilização, com os quais não só preservarão sua identidade, como também fortalecerão e prosperarão.”

    A realização das boas ações

    Em muitas partes do Qur’an, Allah deixa claro que a chave para a salvação não consiste na mera declaração da fé ou em uma falsa fé que não é demonstrada em ações justas que sejam fruto desta. Pelo contrário, a chave para a salvação consiste em ter uma verdadeira fé que venha acompanhada por ações justas e uma força que nos impulsiona a realizá-las.

    De fato, os sábios ressaltam que a fé, na verdade, compreende a crença no coração, a declaração em palavras e as ações físicas. Desta maneira, a fé de uma pessoa não pode estar completa sem realizar as ações apropriadas.

    Claramente, Allah relaciona a realização das boas ações com a fé. Por exemplo, Ele disse:

    “Mas quem praticar o bem e for, ademais, fiel, saberá que seus esforços não serão baldados, porque os anotamos todos.” (21:94).

    Certamente, a única forma de se salvar da perdição é através da fé e das boas ações, Allah disse:

    “Pela era, que o homem está na perdição, salvo os fiéis, que praticam o bem, aconselham-se na verdade e recomendam-se, uns aos outros, a paciência e a perseverança!” (103:1-3) .

    Em outro versículo Allah mostra claramente que a fé e as nossas ações nos conduzirão ao Paraíso ou ao Inferno:

    “Qual! Aqueles que lucram por meio de um mal e estão envolvidos por suas faltas serão os condenados ao inferno, no qual permanecerão eternamente. Os fiéis, que praticam o bem, serão os diletos do Paraíso, onde morarão eternamente.” (2:81-82).

    Portanto, o segundo passo obrigatório para purificar a alma e se tornar um ser amado por Allah é a realização de ações que Allah declarou obrigatórias para todos os crentes. (Isso está junto com o aumento do imaan e também está embasado no tauhid e há uma relação dinâmica e muito importante entre esses dois que, às vezes, é de difícil compreensão. Entretanto, com a prática, torna-se claro para aqueles que experimentam). Novamente, no hadith que citamos anteriormente, este ponto fica bem claro. Nesse hadith, Allah disse:

    “Meus servos não se aproximam de Mim com nada mais apreciado por Mim que aquelas obrigações religiosas que Eu lhes impus.”

    Observa-se aqui a ênfase nessas ações obrigatórias. Isso se deve a sua extrema importância. Certamente, todos deveriam comprometer-se a realizar estas ações, primeiramente. Em outras palavras, deve-se preocupar com as ações obrigatórias antes de se preocupar com as voluntárias. Como disse at-Tufi:

    “O mandamento de se realizar as tarefas obrigatórias é rigoroso. Quem não as realizar será castigado. A respeito das ações voluntárias é diferente. Estas são similares às ações obrigatórias, já que ambas recebem recompensas. Entretanto, sem dúvidas, as tarefas obrigatórias são mais completas. Por esta razão, são mais apreciadas por Allah e nos aproximam mais d’Ele. As ações obrigatórias são como o cimento, enquanto as ações voluntárias são partes da construção. Se uma pessoa cumpre com suas ações obrigatórias do modo em que devem ser cumpridas, com o devido respeito e consideração, submetendo-se a Ele, evidenciando a grandeza de Seu senhorio e submissão à Sua adoração, então, aproxima-se d’Ele da melhor maneira.”

    As ações obrigatórias são como o cimento ou as raízes, enquanto as voluntárias são como as construções ou ramificações. Se uma pessoa constrói utilizando deste cimento, mostra, através dessa base, sua disposição à submissão a Allah.

    Esta é a melhor maneira de se ganhar a aprovação de Seu Senhor. Sem dúvida, se não são cumpridas estas tarefas que Allah declarou obrigatórias, não se mostra disposição à submissão e obediência ao que Allah ordenou.

    Em outras palavras, fracassa-se no sentido de cumprir com um dos grandes passos no processo da purificação. Então, o primeiro passo deve ser cumprir com as tarefas obrigatórias.

    As ações obrigatórias podem se dividir na seguintes quatro categorias:

    ·         As ações obrigatórias (sentimentos e emoções) do coração.

    ·         Os rituais fundamentais do Islam.

    ·         Os demais atos obrigatórios.

    ·         Abstenção dos atos proibidos.

    Se a pessoa cumpre apenas com os atos obrigatórios da forma apropriada, deveria ser capaz de alcançar certo nível de purificação espiritual.

    É muito provável que o processo de purificação não esteja completo apenas com as ações obrigatórias. Os sentimentos e o amor pela realização cada vez maior de atos purificadores fluirão e o crente buscará realizar outros atos justos que o aproximarão de Allah.

    Portanto, o terceiro passo na purificação da alma é a realização de ações voluntárias depois do cumprimento das ações obrigatórias.

    Nas ações voluntárias estão incluídas todas aquelas que não são puramente obrigatórias e que contêm algum tipo de indício que prove que são atos de adoração.

    Estas ações também têm diferentes níveis de virtude. Algumas ações virtuosas foram ressaltadas pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), enquanto outras nem tanto. Quer dizer, algumas ações voluntárias são muito mais virtuosas que outras.

    Quanto mais virtuosa seja a ação voluntária, mais aproxima a pessoa de Allah.

    Como referência utilizamos o importante hadith qudsi, citado aqui em algumas ocasiões, no qual Allah disse:

    “Meu servo não se aproximará de Mim com nada mais precioso para Mim que as obrigações religiosas que ordenei e, Meu servo continuará se aproximando de Mim através das ações não obrigatórias, às quais tanto amo.” (Bukhari).

    Finalmente, cabe destacar que – e é uma grande bênção de Allah – este caminho não é um caminho que requer, necessariamente, muito tempo ou muitas etapas para trilhá-lo. O indivíduo pode se purificar e ser um servo devoto com muita rapidez, mediante a sinceridade e devoção a Allah.

    Esta verdadeira sinceridade e devoção provêm da realização deste par de ações.

    Então, pode realizar as ações obrigatórias e se tornar uma pessoa amada por Allah, logo, mantendo-se neste caminho, Allah o guiará sempre ao bem e ao certo. E este é um sinal que esta pessoa está dentre os awliya (servos devotos) de Allah.

    Novamente, este “caminho fácil” é parte da grande misericórdia e inúmeras bênçãos de Allah.

    Uma conclusão que surge neste hadith é que alguns crentes se aproximam de Allah não apenas cumprindo suas tarefas obrigatórias, mas também através da realização de ações voluntárias (e estas são muitas). Quando uma pessoa realiza suas ações obrigatórias, demonstra que está disposta a se submeter a Allah.

    Além disso, faz tudo que for necessário para se proteger do castigo de Allah. Se, além destas ações, realiza atos voluntários, deixa muita claro a sua sinceridade para com Allah e sua verdadeira intenção de agradá-Lo.

    Não se trata de cumprir com o disposto por Allah ou tentar evitar o castigo, agora, o crente realiza estes atos para se aproximar de Allah e ser amado por Ele.

    Desta maneira, não nos surpreende que muitas pessoas que realizam ações voluntárias (que inclui manter-se afastado do que é proibido) recebem um amor especial de Allah, tanto nesta quanto na próxima vida. Acerca destes servos, no hadith anteriormente citado, Allah disse:

    “Meu servo continuará se aproximando de Mim através das ações não obrigatórias, as quais tanto amo. E quando o amo, sou a audição com a qual escuta, sou a visão com a qual enxerga, sou as mãos com as quais golpeia e sou as pernas com as quais caminha. Se ele me pedir, certamente concederei e, se me pedir refúgio, certamente o concederei” (Bukhari).

    Neste hadith Allah descreve aquelas pessoas que receberam o Seu amor. Isso torna este hadith muito importante.

    Este é o objetivo dos verdadeiros crentes: purificar-se através da adoração correta em Allah e, em conseqüência, ganha-se o amor, misericórdia, complacência e perdão d’Ele.

    Em outras palavras, o objetivo é se tornar um wali (servo verdadeiro e devoto) de Allah.como analisamos no capitulo anterior, esta é a conquista mais importante.

    De fato, esta é uma conquista a qual ninguém poderá nos tirar. Qualquer um, com a vontade de Allah, pode destruir tudo o que o próximo possui ou valoriza neste mundo, mas, ninguém pode tocar sua religião (que é o que vem primeiro e a coisa mais importante em seu coração) e sua relação com o Criador.

    Allah, o Criador dos humanos, determinou a realização de certas ações. Estas ações são necessárias para a purificação da alma de todos os seres humanos.

    Além destas ações, Allah deixou a porta aberta para que as pessoas se concentrem nas ações às quais estão mais propensas a realizar. Por exemplo, algumas pessoas se dedicam às orações voluntárias. A partir destas ações, aumentam muito a sua fé e se beneficiam com elas. Sentem remorso cada vez que não podem realizar estas orações. Desta maneira, realizam-nas da melhor forma possível.

    Estas orações voluntárias, acrescidas das orações obrigatórias em geral, podem ser o caminho que os aproxima de Allah. Podem ser a chave para entrar no Paraíso. Outras pessoas podem se sentir atraídos pelo jejum, pela caridade ou pela peregrinação.

    Existem outras pessoas que podem se sentir mais propensas a fazer o bem aos demais. Estas pessoas realizam as ações obrigatórias e, logo depois, dedicam seu tempo a satisfazer as necessidades alheias. Estas boas ações voluntárias os aproximam de Allah e os fazem mais amados por Ele. Outras pessoas podem se sentir mais atraídas a ensinar a religião, transmitir a outras pessoas o chamado do Islam, etc. Outros podem realizar um pouco de tudo, praticando diversos tipos de ações voluntárias e, com certeza, isso os faz mais amados por Allah.

    Esta realidade é possível só pela misericórdia de Allah. Afora as ações obrigatórias, as pessoas são livres para realizar aquelas boas ações voluntárias que sintam mais propensão.

    Existem muitas opções de ações voluntárias, então, parece inconcebível que a pessoa não encontre nenhuma ação que queira praticar para se aproximar de Allah.

    O caminho de Allah ao Paraíso é suficientemente amplo para abranger todo tipo de inclinação. Certamente, tudo isso depende, primeiro, que o indivíduo cumpra com as ações obrigatórias. Se não faz, pode ser que não encontre o caminho correto.

    Os meios que nos ajudam ao longo do caminho

    Está claro que é muito mais fácil identificar o processo que realmente percorrer o caminho. Então, deve-se mencionar (ainda que de forma breve) as formas e meios específicos que nos ajudarão a seguir pelo caminho da purificação.

    Essencialmente, estes “meios” simplesmente se incluem em um dos passos que descrevemos no processo da purificação, quer dizer, entram na categoria dos atos obrigatórios ou recomendados. Certamente, dentre esses passos, há alguns que se destacam para obtenção de benefícios adicionais para esta purificação da alma.

    Estas ações incluem:

    ·         Dirigir-se e orar para Allah, pedindo Sua ajuda e Sua orientação. Normalmente, este passo ocorre antes de adquirir o conhecimento. Deve-se buscar a orientação de Allah em todos os âmbitos, mas, especialmente, para conhecer o caminho que conduz à complacência de Allah.

    ·         Realizar os passos para alcançar um conhecimento sólido e benéfico. Se Allah permitir, o conhecimento será outorgado à pessoa, por Allah, como resultado de suas súplicas sinceras e da realização dos passos para alcançar tal conhecimento. Em particular, o conhecimento relevante acerca da purificação espiritual não pode ser alcançado profundamente, a menos que se estude o Qur’an e a Sunnah do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele).

    ·         O dhikr apropriado (a evocação, lembrança de Allah). Após o conhecimento há o dhikr que, basicamente, significa manter esta percepção e esse conhecimento vivo e a um nível de consciência elevado. Sem esta percepção, não é possível que ninguém realmente aplique ou se beneficie do que aprendeu.

    ·         Contemplação e reflexão. A contemplação conduz as pessoas a um nível de fé maior e mais forte. Constrói e fortalece o dhikr. Também ajuda a pessoa a desenvolver um entendimento mais maduro do conhecimento com tudo o que acontece ao seu redor e desta maneira aumenta sua intensidade no dhikr.

    ·         Dar-se conta da verdadeira natureza da existência neste mundo. Realmente isso pode ser considerado como o resultado da contemplação ou do desenvolvimento da progressão espiritual de uma pessoa. Refere-se a um entendimento mais profundo de que a próxima vida é a única e verdadeira vida e que a vida neste mundo não é aquela para a qual fomos criados, muito menos a que devemos almejar através de nossos meios e habilidades. Dar-se conta da verdadeira importância da vida neste mundo (ou da falta dela) nos ajuda a refutar as fortes tentações que habitam este mundo.

    ·         Esforçar-se para evitar qualquer tipo de inclinação para aquilo que seja maléfico para a alma (ego). Lutar contra a alma (Jihad al-nafs) é algo que se torna muito mais fácil quando se segue os passos anteriores. A alma sempre apresentará algum tipo de tentação, doença ou debilidade. Deve-se lutar contra ela, mas é possível que, com as ferramentas adequadas, a pessoa supere qualquer tipo de fraqueza que a alma possa apresentar.

    ·         Ter companheiros, amigos e cônjuge devotos. Isto nos serve para obter força e apoio extras. O objetivo de estar rodeado de companheiros devotos é manter vivo o dhikr. Estes companheiros também se aconselharão, darão força uns aos outros quando se encontrarem fracos e se apoiarão para realizar as ações corretas. Além disso, podem compartilhar seus conhecimentos e sua orientação, especialmente em momentos de problemas ou confusão.

    ·         Freqüentar as mesquitas. Freqüentar as mesquitas reforça o vínculo com os demais muçulmanos devotos, ajuda a melhorar nossas orações (que são a chave para a purificação espiritual), permitem que tenhamos acesso ao conhecimento, provê uma abertura para que recordemos o propósito da vida e o testemunho de exemplos de pessoas devotas que nos auxiliem na busca da purificação espiritual.

    ·         Tomar consciência de nossas ações, nosso comportamento e nosso caráter. Este é o processo de aperfeiçoamento que não deve faltar para o êxito de qualquer programa. Constantemente, deve-se analisar os diferentes passos que foram dados e as diversas ações realizadas com o intuito de identificar as falhas e o que deve ser melhorado. Não devemos nunca descuidar desta prática, já que este descuido pode levar a um abismo, sem mesmo nos darmos conta do risco.

    Assuntos prejudiciais à alma

    Todo muçulmano deve conhecer os maiores impedimentos e perigos para a purificação espiritual. É preciso se conscientizar sobre estes perigos para poder se proteger contra eles. Podemos resumir alguns:

    ·         Os desejos, a injúria e as paixões. Estes são os impulsos que surgem da alma e que levam a pessoa a cometer atos que Allah abomina. A menos que se trabalhe para controlar e superar estes desejos, é possível que haja um desastre no esforço para a purificação espiritual. De fato, podem sobrepor a tudo e passar a significar algo divino, ou seja, tornar-se um “deus” na vida da pessoa.

    ·         A ignorância, as dúvidas e os mal-entendidos. Através da ignorância perde-se o caminho correto. Quando uma pessoa não tem consciência de sua própria ignorância, pensa que está fazendo o certo, enquanto, na realidade, prejudica-se. Afora isso, a ignorância pode nos conduzir às dúvidas e à incerteza. Por sua vez, as dúvidas e a incerteza afetam a determinação e a vontade das pessoas em se sacrificar para se manter no caminho da purificação.

    ·         As inovações e as heresias constituem um perigo extremo para a purificação da alma. Em essência, podem conduzir a pessoa por um caminho que leva à perdição, ao passo que ela crê estar seguindo o caminho da verdade. Apenas através de um sólido conhecimento e mantendo-se no caminho que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) indicou é que se pode evitar cair nesta terrível armadilha.

    ·         Os pecados. A pessoa se aproxima de Allah através dos atos de obediência e se distancia d’Ele por meio dos pecados e dos atos de desobediência. Sem se importar se é grande ou pequeno, o pecado implica, em certa medida, em um retrocesso em nossa viagem à purificação.

    ·         Ser conquistado por este mundo e seu brilho. Um dos maiores perigos, especialmente nos dias de hoje, é se ver preso pelos “prazeres e estímulos” que este mundo oferece. Esta vida mundana pode fazer com que a pessoa perca o foco. Em vez de se concentrar na próxima vida, começa a trabalhar para acumular bens neste mundo. A situação pode chegar a ser tão má que o indivíduo sacrifica a próxima vida por esta. Isto é uma grande derrota no processo da purificação.

    ·         Maus companheiros ou ambientes (aos quais freqüenta) podem ter uma péssima influência na pessoa. No mínimo, as más companhias podem sugerir ações e idéias que não são agradáveis aos olhos de Allah e prejudiciais à alma. Afora isso, podem induzir e, talvez, ajudar a realizar esses atos. Estas amizades e o entorno podem chegar a ser um claro obstáculo no caminho da purificação.

    ·         Satanás e seus soldados. Quando Allah criou o homem, já havia criado um inimigo que colocaria à prova sua devoção e submissão a Allah. Quando a humanidade se rende a Satanás, certamente este a conduzirá ao Fogo do Inferno. Para se proteger no caminho da purificação, o crente deve sempre estar atento a Satanás e seu modo de fazer as coisas.

    ·         Os inimigos de Allah (aqueles que mereceram a Sua ira e os que se desviaram). Ou seja, as pessoas que, consciente ou inconscientemente, saíram do caminho da purificação. Sempre se deve estar atento a eles, já que podem, de forma intencional, afastar as pessoas da senda reta, ou podem, inadvertidamente, aconselhar um muçulmano de forma equivocada, fazendo com que este saia do caminho certo.

    O arrependimento

    Mesmo que a pessoa tente fazer o melhor para seguir todos estes passos – que o ajudarão a purificar sua alma – pode ser que fraqueje, pois a natureza do ser humano é propensa às fraquezas esporádicas. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse:

    “Toda a humanidade comete pecados, de forma contínua. As melhores pessoas dentre aquelas que cometem pecado regularmente são as que se arrependem com freqüência.”

    Sem dúvida, a questão não termina quando uma pessoa fraqueja e peca. Desde que esta pessoa não chegue às portas de sua morte, o arrependimento será sempre possível e acessível a ela. Não deve se desesperar, pois sempre haverá a possibilidade do arrependimento e do pedido de perdão, ante Allah, dos pecados e transgressões que houver cometido. Allah disse claramente:

    “Dize: Ó servos meus, que se excederam contra si próprios, não desespereis da misericórdia de Deus; certamente, Ele perdoa todos os pecados, porque Ele é o Indulgente, o Misericordioso.” (39: 53).

    O verdadeiro arrependimento inclui:

    (1) deixar de cometer o pecado antes cometido,

    (2) sentir remorso e

    (3) ter a intenção sincera de não cometer tal pecado novamente. Sem estes componentes, o indivíduo não demonstra a Allah que está completa e sinceramente arrependido. O arrependimento é o verdadeiro retorno ao serviço e adoração a Allah – o que é o propósito dos seres humanos neste mundo.

    Ibn Taimiyah ressaltou, de forma clara, que é muito mais importante se arrepender de crenças equivocadas que se arrepender de maus pensamentos ou sentimentos. Ele explica a razão deste argumento:

    “Se alguém não realizar uma ação obrigatória ou cometer um pecado, crendo na sua obrigatoriedade [em relação ao primeiro] ou na sua maldade [em relação ao segundo], então a sua crença o poderá levá-lo a realizar o ato obrigatório e o afastar do pecado. Não haverá nada que esteja, constantemente, impulsionando ou prevenindo-o a realizar tais ações. Certamente, as forças que o impulsionam ou apartam estarão em choque. Isso significa que, às vezes, uma superará a outra e vice-versa, e sua alma estará cuidando desta dita pessoa. Algumas vezes realizará as ações obrigatórias e outras, não. E, às vezes, cometerá pecados, enquanto outras, não. Este é o caso de muitos muçulmanos pecadores que, por vezes cumprem com suas obrigações e outras, não. E que, algumas vezes, pecam, outras, não; ou que, devido a seus desejos, contradizem com o que há em seus corações [quer dizer, tanto o desejo de fazer o bem, como o desejo de fazer o mal se encontram presentes em seu coração e competem entre si]; já que em seu coração residem as bases da fé que o obriga a fazer o bem e afastar do mal. Sem dúvidas, ele também sente paixão e luxúria, o que o impele a seguir na direção oposta.  Mas, se a pessoa realiza ações que [equivocadamente] crê obrigatórias ou deixa de realizar alguma ação porque crê ser proibida, as forças que o impulsionam a deixar ou a realizar a ação serão uma constante em seu coração e isso é muito mais importante que o primeiro caso [mencionado no parágrafo anterior]. Também pode ser muito mais difícil que o primeiro caso, se não existe nada que o leve a se afastar destas crenças falsas, já que a pessoa no primeiro caso possui uma força que o impulsiona a se afastar do pecado...”

    Na realidade, cada vez que uma pessoa comete um pecado, está se distanciando de Allah, como é mostrado claramente no hadith citado antes e que diz que uma pessoa se aproxima de Allah pelo cumprimento de suas obrigações e, também, dos atos voluntários. Se este fosse o caso, o crente deveria, de forma imediata, tentar se purificar do efeito negativo que qualquer pecado tenha deixado. Isso pode ser alcançado deixando de cometer pecado e voltando a Allah, arrependendo-se ante Ele e buscando Seu perdão. É verdadeiramente comovente ver como, no mesmo conjunto de versículos, Allah fala sobre os crentes que cometem faahishah (atos vergonhosos) e prejudicam sua alma e, ainda assim, descreve-os como habitantes do Paraíso. O ponto crucial é que deixem de pecar e que busquem, com vontade, o perdão de Allah. Allah disse:

    “Que, quando cometem uma obscenidade ou se condenam, mencionam a Deus e imploram o perdão por seus pecados – mas quem, senão Deus perdoa os pecados? – e não reincidem, com conhecimento, no que cometeram. Para estes a recompensa será uma indulgência do seu Senhor, terão jardins, abaixo dos quais correm os rios, onde morarão eternamente. Quão excelente é a recompensa dos diligentes!” (3:135-136).

    Efetivamente, Allah se compraz quando o servo se arrepende. Através do arrependimento o servo prova a sua crença em Allah, o Compassivo, Benevolente e Misericordioso. Também mostra a sua vontade, no fundo de sua alma, de não contrariar Allah ou afastar-se do que O agrada. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) afirmou que

    “Allah se regozija mais pelo arrependimento de Seu servo crente que se regozija uma pessoa que se encontra no deserto, deixa seu alimento e bebida sobre seu camelo, dorme e, ao despertar descobre que o camelo escapou. Busca-o até se encontrar tomado pela sede. Então pensa: ‘Devo regressar ao lugar onde me encontrava e dormir até morrer’. Coloca sua cabeça sobre sua almofada, pronto para morrer, então desperta e encontra seu camelo com suas provisões, inclusive sua bebida e sua comida. Allah se regozija muito mais pelo arrependimento do servo crente que esta pessoa por haver recuperado suas provisões.” (Muslim).

    O maior prazer de Allah é a recompensa especial pelo arrependimento. De fato, quando o crente toma consciência deste fato e o absorve, o impulso pelo arrependimento de todos os seus pecados e deslizes se torna algo muito forte em seu coração.

    Não é possível exagerar na importância do arrependimento para a purificação da alma, porque esta é a última etapa do ser humano para com seu Senhor. É aqui que Ele remove as manchas e impurezas de sua alma, para que, assim, sua alma esteja preparada para entrar no Seu Paraíso.

    Sem importar o quão devota seja a alma, indubitavelmente, existirão deficiências em relação aos direitos de seu Senhor. Estas deficiências, muitas das quais já foram analisadas ao tocar no tema da contemplação – já que há uma forte relação entre a contemplação e o arrependimento, incluem as seguintes:

    ·         Muitas vezes (se não sempre) os atos de adoração e obediência, de uma pessoa para com Allah, não alcançam seu potencial máximo. Certamente, estar muito satisfeito com os próprios atos de adoração é algo extremamente perigoso para a alma. Os que são realmente conscientes de sua relação com Allah ficam muito ansiosos para buscar o perdão de Allah, depois de realizar um ato de adoração. Entendem que tiveram alguns defeitos em seus atos de adoração, como, por exemplo, não estar completamente em harmonia com suas orações. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ensinou os crentes a pedir o perdão de Allah, por três vezes, assim que finalizassem as orações obrigatórias. Esta prática reflete o fato que todos podem cometer erros, inclusive em seus atos de adoração.

    ·         O crente nunca será capaz de agradecer a Allah por todas as bênçãos que Ele o concedeu, sem levar em consideração o quão obedientes são. Por exemplo, como uma pessoa pode agradecer completamente a Allah por Suas bênçãos, como a de ter-lhe dado a vida? Por isso a pessoa deve se arrepender diante de Allah por sua falta de capacidade de agradecê-Lo completamente ou de forma suficiente.

    ·         Pode acontecer do muçulmano “fazer para se mostrar” (rijaa) em algumas de suas ações. Se este for o caso, ele deve, definitivamente, arrepender-se frente a Allah.

    Até os mais devotos devem buscar sempre o arrependimento e o perdão de Allah. Ibn Taimiyah escreveu:

    “O servo se encontra sempre entre uma bênção de Allah que requer seu agradecimento e um pecado que requer a busca do perdão. Por necessidade, ambas as circunstancias estão dentro do mesmo servo. Constantemente ele recebe bênçãos e gratificações de Allah e sempre está cometendo faltas na necessidade de se arrepender e buscar o perdão. Por esta razão, o chefe de todos os seres humanos e o líder dos devotos, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) buscava o perdão em todas as situações.”

    O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) costumava arrepender-se ante Allah e buscar Seu perdão mais de cem vezes por dia (registrado por Muslim).

    Além de purificar os pecados de uma pessoa, o arrependimento sincero é um importante ponto na purificação da alma.

    Por exemplo, ajuda a pessoa a se prostrar verdadeiramente ante seu Senhor.

    Quando reconhece suas fraquezas e pecados o crente se dá conta de que não há outra saída além de recorrer a Allah humildemente, buscando o perdão por seus erros. Isto o aproxima de Allah, mesmo que o que o tenha levado a esta situação tenha sido um pecado cometido (dessa forma, grande é a misericórdia e graça de Allah).

    Enquanto aceita seus pecados (através da obrigação de prestar contas deles) e se arrepende sinceramente, percebe o quanto se afastou do caminho certo e seu coração, sincera e humildemente, tenta se submeter completamente a Allah, da forma adequada e de acordo com suas possibilidades.

    O arrependimento é uma porta que sempre se encontrará aberta para que a pessoa retifique sua forma de fazer as coisas.

    Sem considerar quão maldosa a pessoa se tornou ou quantos pecados tenha cometido, não existem desculpas para que não encaminhe sua vida e tente purificar sua alma.

    As palavras de Allah funcionam como uma poderosa lembrança (por exemplo, mencionando aqueles que queimaram vivos os crentes no incidente analisado na surah al Buruj. Allah disse sobre eles:

    “Sabei que aqueles que perseguem os fiéis e as fiéis e não se arrependem, sofrerão a pena do inferno, assim como o castigo do fogo.” (85:10).

    Obviamente, a porta do arrependimento está sempre aberta para qualquer pecador e, antes disso, não se deve desesperar.

    Desta maneira, uma vez que a pessoa se encaminhe, com a permissão de Allah, não permitirá que suas ações passadas dificultem sua aproximação de Allah, através da realização de ações religiosas.

    Alguns sábios discutem que o estado que sucede o arrependimento deve ser melhor que o anterior, já que, ao haver experimentado o pecado, a pessoa deve se dar conta daquele mal e, assim, aproximar-se de Allah, com o coração aberto e comprometendo-se a mudar sua vida. Desde que uma pessoa modifique sua vida, não há necessidade de recordar seus pecados como um “mal necessário” para sua futura purificação espiritual.

    A pessoa aprende uma importante lição e estas circunstâncias ajudam-na a se recompor – e isso jamais seria possível sem a experiência do arrependimento, arrependimento este que eleva sua alma através do prazer de retornar ao seu Senhor.

    Conclusões

    Pela graça e misericórdia de Allah, o caminho da purificação e o aumento da nossa fé não é algo complicado, mas sim muito claro para todos os que o busquem verdadeiramente.

    Trata-se da correção de nossas crenças e conhecimentos, à medida que implementamos com a prática.

    Trata-se de um caminho consistente, relacionado às inclinações naturais da pessoa.

    Certamente, deve-se recorrer a ele de uma forma muito séria. Quando se percorre esse caminho não se deve estar completamente satisfeito, pensando que nada é capaz de desviá-lo. Deve-se sempre estar consciente de sua fé e do seu estado de saúde.

    Deve-se buscar, constantemente, os meios e formas que ajudem a manter e aumentar a fé. Além disso, deve-se estar consciente e evitar os fatores que danificam a saúde espiritual e que não o permitem continuar trilhando o caminho correto.

    Deve-se buscar, em todo momento, a orientação de Allah. Quando se apartar deste caminho e cometer algum erro, deve-se tentar, imediatamente, aproximar-se de Allah, buscar o Seu perdão e pedir que Ele o ponha de volta em seu maravilhoso caminho de purificação e fé.

    Palavras finais para o novo muçulmano

    O novo muçulmano ingressa, definitivamente, em uma nova e bela etapa de sua vida. Ao se converter ao Islam, será capaz de receber as bênçãos nesta e na próxima vida.

    Na realidade, para muitos convertidos existem distrações que deverão ser confrontadas. Há muitas forças que tentarão arrastar o convertido à sua forma de vida antiga.

    A própria família e os amigos podem não gostar da forma de vida que ele adotou.

    O convertido sente que encontrou o caminho da verdade e a orientação correta mas, mesmo consciente disso, as pessoas vão querer levá-lo em direções diferentes – e isso pode exercer uma grande influência sobre ele.

    Certamente, terá que vivenciar muitas situações complicadas e terá que fazer difíceis opções, emocionalmente, seu caminho será penoso.

    Ao confrontar todas estas distrações, o indivíduo deve levar em conta seu principal objetivo ao se converter ao Islam: a complacência de seu Senhor e Criador.

    Deve recordar que, ainda que existam muitos prazeres neste mundo, na realidade, não existe nada mais gratificante para a alma que adorar a Deus.

    Deve estar acima dos desejos mais baixos e aceitar a verdadeira nobreza que acompanha o verdadeiro servo de Deus. O objetivo principal é relembrar Deus, oferecendo as orações, lendo Qur’an e aumentando seu conhecimento do Islam.

    Isto nos leva a outro importante assunto. O muçulmano convertido não deve pensar que será capaz de vencer, por si só, as muitas tentações que terá ao seu redor.

    Ele é novo em sua fé e seu nível de entendimento e adesão provavelmente necessitará de muito apoio. Desta forma, deve-se apegar à sua comunidade muçulmana e à mesquita local. Esta comunidade e esta mesquita devem oferecer ao muçulmano um local para refúgio em tempos difíceis. Com os demais muçulmanos será capaz de fortalecer sua fé, aprender mais acerca do Islam e ver como devem ser aplicados os ensinamentos islâmicos adequadamente.

    Sem dúvida, o muçulmano convertido não deve esperar a perfeição por parte da comunidade islâmica ou mesquita local. Não existe uma “igreja” oficial no Islam e muitas mesquitas, especialmente no ocidente, são dirigidas por voluntários que têm muitas outras preocupações.

    Seria maravilhoso se a mesquita designasse um muçulmano culto para que cuidasse de cada convertido, mas, infelizmente, isso é algo praticamente impossível.

    Obviamente, a comunidade islâmica se sente feliz por acrescer mais um membro em sua congregação e se dispõe a ajudá-lo, seja um convertido ou um muçulmano que se mudou para a região. Com a permissão de Allah e paciência, o convertido será capaz de estabelecer vínculos de amizade com os muçulmanos que o ajudarão ao longo do caminho que este deverá trilhar.

    O muçulmano convertido não deve esperar um comportamento excelente por parte de todos os muçulmanos. Existem muitos muçulmanos devotos, alguns menos devotos, alguns com conhecimento e outro ignorantes.

    Todos os muçulmanos, incluindo os convertidos, relacionam-se com vários tipos de muçulmanos. Por exemplo, às vezes, um novo muçulmano é muito eufórico com sua nova forma de vida – o Islam – e quer expressar seu sentimento de irmandade com os outros muçulmanos. Entra na mesquita saudando e desejando a paz para as demais pessoas. Alguns muçulmanos não estão acostumados a este tipo de comportamento, pensam que o convertido é um pouco exagerado e não respondem às suas saudações, mesmo sendo obrigatório que, ao menos, uma pessoa responda.

    Pode ser frustrante entrar com tanta alegria e entusiasmo e ser desvalorizado pelos próprios irmãos muçulmanos. Sem dúvida o resultado desta situação pode ser desastroso.

    Em resumo, muitos muçulmanos que o convertido haverá de conhecer podem não corresponder às suas expectativas. Da mesma forma, o convertido se dará conta que ele mesmo tem suas deficiências que prejudicam a interação com os demais muçulmanos. Entretanto ele tem um longo caminho a percorrer. Provavelmente ele possui algumas doenças em seu coração, devido à sua vida pregressa.

    O novo muçulmano pode, sem querer, fazer coisas que sejam ofensivas aos outros muçulmanos. Por exemplo, o convertido pode falar de um modo lascivo ou frívolo quando se refere ao sexo oposto ou pode se comportar de uma forma inadequada para os muçulmanos. Desta maneira, tanto para o convertido quanto para os outros muçulmanos podem existir momentos incômodos.

    A paciência e a perseverança são, definitivamente, necessárias.

    O convertido deve lembrar que é um novo muçulmano e que existem muitos aspectos da fé que não compreende ou que não consegue aplicar da forma adequada.

    Deve recordar que os demais muçulmanos são simples seres humanos e que, como todas as pessoas, possuem defeitos. Certamente, antes de qualquer coisa, deve recordar que o propósito principal é agradar ao seu Senhor.

    Os problemas e circunstâncias menores deste mundo não devem nunca enfraquecer o indivíduo, já que ele sabe que superar esses obstáculos é algo que compensa.

    Cada muçulmano deve saber que deverá enfrentar provas e dificuldades neste mundo. O objetivo almejado – a complacência de Allah e Sua infinita recompensa no Paraíso – é algo maravilhoso. Não se deve esperar a recompensa ou mesmo pedir ao Criador sem que se faça qualquer esforço ou sacrifício ou sem que se tenha paciência.

    Por isso Allah disse:

    “Porventura, pensam os humanos que serão deixados em paz, só porque dizem: Cremos!, sem serem postos à prova? Havíamos provado seus antecessores, a fim de que Deus distinguisse os leais dos impostores.” (29:2-3).

    “Pretendeis, acaso, entrar no Paraíso, sem antes terdes de passar pelo que passaram os vossos antecessores? Açoitaram-nos a miséria e a adversidade, que os abalaram profundamente, até que, mesmo o Mensageiro e os fiéis, que com ele estavam, disseram: Quando chegará o socorro de Deus? Acaso o socorro de Deus não está próximo?” (2:214).

    Todo muçulmanos, incluindo os novos convertidos, devem se preparar mental e emocionalmente para superarem qualquer tipo de prova imposta por Allah.

    O muçulmano deve usar todo tipo de meio à sua disposição para melhorar e se fortalecer. Isso inclui, como foi mencionado anteriormente, frequentar a mesquita local e se aproximar de pessoas boas e que vivam suas vidas de acordo com os ensinamentos do Qur’an e da Sunnah.

    Isso também inclui se esforçar para aumentar o nosso conhecimento do Islam.

    E isso pode ser alcançado assistindo aos sermões na mesquita, lendo livros e pesquisando em diferentes fontes de conhecimento.

    Na atualidade, existe uma grande quantidade de informação disponível (em várias línguas) para o novo convertido. Infelizmente, nem tudo que é dito sobre o islam possui a mesma qualidade ou confiabilidade. É extremamente difícil classificar a enorme quantidade de material disponível hoje em dia.

    Algumas livrarias selecionam o que vendem. Algumas das melhores são: www.darussalam.com e www.iiphonline.com .

    Alguns websites também possuem um material muito confiável, como, por exemplo: www.islamreligion.com , www.islamhouse.com , www.viveislam.org .

    Finalmente, todo muçulmano deve recorrer, continuamente, a Allah, pedindo orientação para que siga sempre no caminho correto.

    Todo muçulmano deve recitar a surah al-Fatiha pelo menos dezessete vezes por dia, em suas orações. Nesta surah, pedimos a Allah que nos “guie pela senda reta”.

    Esta súplica abarca tanto o pedido de que nos mostre o caminho certo, quanto o pedido que nos ajude a permanecer nele.

    Além disso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) ensinou à nação islâmica uma súplica muito importante. O companheiro Anas narrou que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) suplicava com frequência:

    “Ó Allah, Tu que tens o poder de mudar os corações,

    firma meu coração em Tua religião.”



    [1] Pessoa que mata o próprio filho. Dicionário google.

    [2] Vergel; vergéis: horto, pomar. Dicionário google.